Instabilité narrative
2.2. Retours à l’origine : une composition cyclique
Não canto a minha dor...
dor de um só homem não é dor que se proclame. Canto a dor dos homens sem face
canto aos que tombaram crivados os homens escondidos
os que conheceram a nostalgia do exílio para os encarcerados.
Canto aos párias da vida...
(ANDRADE, 2009)
Consideramos como antecedentes dos romances em estudo a primeira parte da produção literária de Manuel Scorza, suas obras poéticas. Em seus poemas, percebemos delineados alguns dos temas que o autor tratará mais adiante em suas narrativas, como o
Canto a los mineros de Bolivia, onde o poeta aborda os problemas gerados pela mineração:
Hay que vivir ausente de uno mismo, hay que envejecer en plena infancia,
hay que llorar de rodillas delante de un cadáver para comprender qué noche
poblaba el corazón de los mineros… (SCORZA, 1990, p.15).
Esses versos representam de forma muito significativa o tormento vivido pelos trabalhadores das minas. Por falta de terra para produzir, os indígenas precisam renunciar a toda uma concepção de vida baseada na integração com a natureza, e atuar de forma oposta a seus valores para conseguirem sustentar a si próprios e a suas famílias. Em decorrência das insalubres condições de trabalho, a expectativa de vida desses homens gira em torno dos 40 anos, como veremos no sub-capítulo 4.5.
Scorza também tece em alguns de seus poemas uma interessante reflexão sobre o papel do escritor, como em Epístola a los poetas que vendrán. Nessa composição o autor deixa evidente a incompatibilidade entre o horror da miséria e a beleza da arte:
Mientras alguien padezca, / la rosa no podrá ser bella; / mientras alguien mire el pan con envidia, / el trigo no podrá dormir; / mientras llueva sobre el pecho de los mendigos, / mi corazón no sonreirá… (SCORZA, 1990, p.21).
Para o poeta, muito mais importante do que cantar a dor da desilusão amorosa seria louvar a reação de um povo injustiçado:
Hay cosas más altas / que llorar amores perdidos: / el rumor de un pueblo que despierta / ¡es más bello que el rocío! / El metal resplandeciente de su cólera / ¡es más bello que la espuma! (SCORZA, 1990, p.21)
Embora desde as suas primeiras produções literárias Scorza tenha produzido poesias líricas, a leitura de sua obra deixa evidente sua opção por retratar os oprimidos em sua luta por dignidade. Nos poemas Patria diamantina e Ustedes tienen las tardes, por exemplo, já é possível identificar a intenção de emprestar sua voz aos oprimidos:
¡Pobrezas, sartenes, cucharas humilladas, / aullad por mi boca! / Yo soy la boca de quien no tiene boca. / Alguien tiene que morderse la calavera / para que sepan que esta tierra sufre! (Patria diamantina - SCORZA, 1990, p.35)
Yo soy la voz de los que nunca se quejaron, / el toro que hace siglos embiste en nuestra sangre. / Vengo a conmover las piedras más roncas, / ¡alguien tiene que emocionarse con mi voz! (Ustedes tienen las tardes - SCORZA, 1990, p.40)
Scorza além de lutar com as “armas” que tem, a palavra, em Voy a las batallas, evidencia o desejo de combater lado a lado com os injustiçados:
Me voy a las batallas. / Luchar es más hermoso que cantar. (…) / Yo no escribí estos cantos / para dar espuma a las muchachas. / Yo canté porque los dolores / ya no cabían
en mi boca (…) / que amargas cocineras pelaban. / Amigos: en mi corazón jamás reinó
silenció, / yo oí todas las voces… (SCORZA, 1990, p.52-4)
O mesmo acontece em La tumba del relámpago, romance cujo autor converte-se em um personagem, segue para serra e ali se envolve plenamente na organização da luta
das comunidades indígenas contra o latifúndio. O “silêncio” está presente nos dois últimos versos deste fragmento e é outro elemento que antecipa a abordagem das narrativas. Nesses
versos aparece, ainda, um contraste entre “silenciou” versus“ouvir”.
Neste fragmento do Cantar de Túpac Amaru, o poema conclama o povo para que se una e lute juntos.
¡Reuníos, reuníos! / ¡Hombres del Perú, hombres perseguidos como / piojos, hombres pisoteados, hombres tallados a / sablazos, hombres que tienen una sola camisa!
¡Escuchad el cantar de la Guerra de los Pobres, oíd el / cantar de Túpac Amaru! (SCORZA, 1990, p.109)
Esse poema foi elaborado com o uso de “vosotros”, pronome sujeito próprio do
espanhol peninsular e alheio à língua utilizada na América Hispânica. Além desses versos convocarem a todos os peruanos vitimados pela pobreza para se unirem, também evocam a figura de um importante herói indígena peruano, Túpac Amaru35, um símbolo da resistência e das atrocidades cometidas pelos conquistadores no período colonial.
A partir dessa pequena mostra da obra poética de Scorza, podemos perceber indícios tanto dos temas quanto da abordagem literária que o autor utilizará no seu ciclo narrativo, tais como expressar solidariedade aos oprimidos e emprestar a sua voz aos silenciados, lutar lado a lado com os explorados e cantar a sublevação contra as injustiças.
Encontramos todos esses aspectos nos romances da pentalogía e como ressaltamos, o autor é ficcionalizado. Scorza se converte em personagem de seu próprio livro, configurando uma simbiose entre autor-personagem, na qual ambos se materializam em um só corpo e se irmanam para lutar ao lado dos indígenas das serras centrais peruanas.
35
Último governante do império inca. Liderou várias rebeliões indígenas contra os abusos cometidos pelos conquistadores espanhóis e por esse motivo foi capturado e julgado junto com os seus colaboradores em 1572. Recebeu a sentença de morte por traição, e, assim foi decapitado publicamente em Cuzco.
Da mesma maneira, encontramos nos referidos romances, relação entre poesia e prosa na forma pela qual o autor constrói significantes imagens poéticas e explora intensamente o jogo de linguagem. Nesse sentido, poderíamos afirmar que a produção poética de Scorza se amplia e se faz presente nas suas narrativas, possuidoras de uma intensa carga poética, já que se trata de uma linguagem impregnada de poesia.