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Initiation et rite de passage

3.3. La lecture comme ultime initiation

...só uma ação decididamente revolucionária [poderia] livrar -nos dos males que vimos arrastando desde os dias da conquista .

(CARPENTIER, 1969)

Na época pré-hispânica, grupos indígenas possuíam rivalidades entre si, o que gerava conflitos e, consequentemente, algumas guerras entre eles eram travadas, mas foi a partir do começo da conquista espanhola que as mortes se multiplicaram e converteram-se em verdadeiras chacinas por meio de combates baseados em forças totalmente desiguais. De um lado as doenças e as armas de fogo, de outro arco e flecha.

Os grandes problemas indígenas começaram com a conquista e se acentuaram no momento em que estes passaram a perder suas terras para os conquistadores. Os romances em estudo aludem à secular resistência indígena: “La resistencia de los campesinos indios no es de hoy; comenzó al día siguiente de la muerte del Inca Atahualpa” (TR, p.232).

Paralelamente à opressão sofrida desde a época colonial até a atualidade, multiplicam-se as tentativas de resistência que constantemente têm como resultado um final trágico para os indígenas, pois as consequências dessas ações geralmente são as mesmas: “Hacía ciento de años que perdían todas las guerras, hacía siglos que retrocedían” (RR, p.141-2).

Esses fatos não impedem o surgimento de novas mobilizações, como retrata La

tumba del relámpago, quando Ledesma assistia ao renascimento da força da organização

das comunidades indígenas depois de séculos de opressão:

…al despertar de un pueblo inmovilizado desde hacía más de cuatrocientos años (TR,

p.131).

¡Llegaban desde el fondo de la historia peruana! Esa marcha no duraba cuatro días

sino cuatrocientos años (…). En las fosas del horror, a oscuras aun bajo la luz, habían

permanecido todo ese larguísimo tiempo (TR, p.145).

…pronto resucitaría, aplastaría, incendiaría (…) la más grande rebelión campesina

(TR, p.231).

As narrativas em estudo retratam os processos reiterativos no tocante à dinâmica das cotidianas lutas dos camponeses para tentarem garantir o acesso à terra, com a consciência de que os problemas são sempre os mesmos, há muitas gerações:

...los mismos reclamos, los mismos quebrantos, los mismos abusos, los mismos engaños, los mismos desalientos (...). El río Pucush, ahora extinto, cambió muchas veces de curso. ¡Lo único que no cambia de curso son nuestras penas! (JI, p.158-9)

A preparação da luta e seus desdobramentos seguem um ciclo conformado de maneira muito similar. Primeiro os líderes camponeses se mostram desiludidos com a via

judicial e, por isso, investem na conscientização do povo a partir da convicção de que a resistência é o único caminho possível para conquistar a verdadeira justiça. Depois participam de assembleias para debater as estratégias de atuação, em seguida partem para o combate, por último são acusados de ameaça à ordem estabelecida e são massacrados pelas forças militares. Nos romances esses massacres são retratados como ações frequentes: “No hay año en que no se produzcan masacres” (TR, p.223). E chegam a compor uma nova estação do ano: “En los Andes las masacres se suceden como el ritmo de las estaciones. En el mundo hay cuatro; en los Andes cinco: primavera, verano, otoño, invierno y masacre” (CAR, p.22).

A resistência e a rebelião representam um reflexo dos abusos e desmandos dos

detentores do poder: “o campo não é somente um viveiro de pobreza: é, também, um viveiro de rebeliões” (GALEANO, 2005, p.166), mas é, além disso, uma maneira de

combater a invisibilidade em relação aos problemas indígenas e a arbitrariedade da justiça:

El gobierno cree que masacrándonos nos asusta. Ignora que nosotros quisiéramos otra matanza para acabar definitivamente con la ceguera de los que creen que en Perú se puede alcanzar justicia de las buenas (TR, p.77).

É ainda uma forma de os camponeses tentarem retribuir à comunidade e à terra tudo que lhes é oferecido por elas:

–La comunidad nos dio la vida. Hemos crecido comiendo su comida. Somos deudores.

El sol que nos refresca son prestados. ¿Se puede o no se puede derramar sangre por nuestra tierra? (GI, p.166).

Assim manifesta-se um dos elementos importantes na cultura indígena, a gratidão à comunidade e à terra.

Em Redoble por Rancas, a “cerca” provocou uma imediata reação dos camponeses.

responsáveis por fazer a ronda no local. Nesse primeiro confronto, estes ficaram surpresos com a ação daqueles e fugiram. O passo seguinte foi tentar destruir essa “cerca”, que se converteu no símbolo do abuso e arbitrariedade da empresa:

–¡Rompan el Cerco! – ordenó el Personero Rivera escupiendo un diente. (…)

–¡Rompan el Cerco y meten el ganado! – insistió el Personero sacándose la sangre de la

nariz con un pañuelo mugroso (RR, p.110-1).

Assim, após a ação inicial, os camponeses sabiam que tinham de seguir lutando:

“Ya no podrían retroceder. Había que pelear” (RR, p.201). A mesma reação ocorre quando

os camponeses se comprometem de corpo e alma com a luta contra as grandes propriedades rurais. Embora tenham consciência do grande risco de morte gerado pela causa defendida, eles não temem por suas vidas, pois suas reivindicações são muito mais importantes do que a existência individual de cada um:

–Estas injusticias las debemos afrontar con sangre (…). Esto debe ser como una

revolución (RR, p.191).

–Yo estoy dispuesto a resistir hasta mi muerte (RR, p.129).

–¡No puedo abandonar esta lucha (…). Hay que luchar de frente, con bala de sangre. (…)

–Yo nunca voy a estar bien con los ricos. Ellos son abusivos. ¿Voy a morir en la cárcel?

Mejor moriré luchando (RR, p.224).

–Nuestra vida es pura desesperación. ¿Qué perdemos muriendo? Aquí todos estamos

listos a dar pecho a las balas (TR, p.247-8).

Outro elemento importante na pentalogía é a consciência de enfrentamento entre duas formas diferentes de se relacionar com a terra, uma individual e outra coletiva. Para que os camponeses possam viver dignamente precisam ter compromisso com a luta pela preservação das terras comunitárias e se engajarem nessa mobilização: “La comunidad seguirá luchando por sus tierras” (GI, p.59).

A resistência é o caminho encontrado para combater o individualismo representado pelo latifúndio:

…germinaba una tormenta que pronto arrasaría con todos los alambrados de la tierra

(GI, p.92).

–¡Se acabó el tiempo en que los prepotentes gritaban “el mundo es mío”! ¡Todos los

cercos caerán! ¡Nadie nos detendrán! (GI, p.168)

–Hay que acabar con los abusos de canto a canto, y para eso sólo hay una medicina: rebelión general (…). ¡Que venga una nueva masacre! Cuanto antes mejor. ¡Porque

entonces se arma la de a verdad! (GI, p.269)

Os três fragmentos anteriores são muito significativos. O primeiro retrata a rebelião como uma planta, pois ambas germinam, crescem e dão frutos. O segundo contrasta o uso privado com o uso coletivo da terra por meio das seguintes expressões: “o mundo é meu” e

“todas as cercas cairão”. O terceiro compara a rebelião a um remédio contra os males

causados pelos abusos cometidos contra os indígenas.

Apesar de os indígenas não se sentirem de fato incluídos socialmente na nação peruana, eles possuem um profundo respeito pelos símbolos pátrios do seu país. Nos momentos mais tensos das rebeliões, naqueles quando chegam as tropas militares, os camponeses apelam aos símbolos nacionais, acreditando que os soldados os respeitariam e, dessa forma, poderiam evitar um massacre.

Assim, nesses confrontos, os indígenas tentam utilizar a bandeira e o hino nacionais como recursos de proteção:

–“Cantemos el himno”. No me salía la voz. Finalmente comenzamos (…). Yo pensaba “van a cuadrarse y saludar.” Pero el alférez se calentó: “¿Por qué cantan el himno,

imbéciles?” “¡Suelta eso!”, me ordenó. Pero no solté la bandera. La bandera no se suelta (RR, p.230-1).

–Se me ocurrió traer la bandera. Al Pabellón Nacional lo respetan todos. Esto pensé

No entanto, nem o hino e tampouco a bandeira funcionam como escudo nesses conflitos, pelo contrário, fazem aumentar a disposição dos militares para eliminar os camponeses, por recorrerem a símbolos que supostamente os indígenas não eram dignos de usar, por não serem considerados plenamente como cidadãos peruanos, no sentido de gozar de todos os direitos e deveres garantidos pelas leis – inclusive o direito de ter acesso ou proteção inerente aos símbolos pátrios. Uma contradição se forma aqui, pois o hino nacional peruano proclama: “Somos libres, seámoslo siempre” (RR, p.226).

Privar os camponeses de poderem usufruir do respeito outorgado pelos símbolos da pátria é somente mais um exemplo da falta de consideração que uma parcela significativa da sociedade peruana tem em relação aos povos indígenas do país, incluindo os poderes econômico, político e judicial, entre outros, como também simboliza o descompromisso total de parte da elite peruana com a ética e a alteridade no tocante aos povos originários.

Como pudemos verificar ao longo deste trabalho, através da literatura atingimos um universo diferente do mundo referencial no qual estamos inseridos e, com isso, penetramos em outras realidades. Conforme acentua o capítulo 6, última seção desta tese, podemos desenvolver uma sensibilidade ecológica que vai além daquela restrita à ambiental, mas que engloba também a esfera social e a mental. Tal fato se dá porque a literatura, por meio das transgressões que realiza na linguagem, atua na subjetividade, a exemplo do que faz com a língua, relativiza valores e maneiras de ver o mundo antes dados como absolutos.

6 MOTIVAÇÕES DA ECOLOGIA MENTAL NAS TRANSGRESSÕES