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RESOURCE REOUIREMENTS

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1 3.3 SYSTEM CHARACTERISTICS

8.3 RESOURCE REOUIREMENTS

O terrorismo marcou o ano de 2015 na França e levou o país a ser amplamente pautado na mídia internacional com o ataque ao jornal satírico Charlie Hebdo, ocorrido em sete de janeiro daquele ano, vitimando 23 pessoas, 12 mortos e 11 feridos. Logo após, dois outros atentados perpetrados por Amedy Coulibaly, ligado aos terroristas que atacaram o jornal francês, resultaram na morte de um policial na periferia de Paris e de quatro reféns em um supermercado. A sequência de eventos foi foco de grande comoção nacional e internacional, culminando com a realização de manifestações de repúdio realizadas de forma simultânea em toda a França, com a presença de aproximadamente três milhões de pessoas. A hashtag #jesuischarlie viralizou nas redes sociais, a primeira em solidariedade a vítimas do terrorismo.

Cerca de dez meses depois, a França vivenciaria novamente atos terroristas, dessa vez, os mais letais de sua história desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A sequência de ataques em 13 de novembro ganhou ampla repercussão internacional e as mobilizações digitais emergiram com a adaptação da antiga hashtag de Charlie Hebdo para #jesuisparis. Para se ter uma ideia, somente nos cinco veículos analisados – Al Jazeera, BBC, El País Folha de S.Paulo e The New York Times –, a cobertura do evento e seus desdobramentos foi responsável pela produção de 1286 matérias em 30 dias. Com um volume de matérias muito superior ao dos demais, o The New York Times foi o jornal

que mais publicou conteúdos relacionados ao tema, totalizando expressivas 849 matérias, enquanto a Al Jazeera ficou no outro extremo com o menor número de publicações (52), como demonstrado no gráfico a seguir.

Gráfico 7 – Número total de matérias (Paris)

Fonte: Elaborado pela autora.

O notável número de matérias geradas nos veículos Ocidentais ilustra a dimensão da atenção despendida ao tema pela mídia. A discrepância quantitativa de conteúdo produzido pelo The New York Times revela a força da temática terrorista no imaginário e na sociedade estadunidense como consequência dos desdobramentos políticos, ideológicos e sociais do 11 de Setembro, conforme já apontado em capítulos anteriores.

Com exceção da Al Jazeera, que publicou a primeira matéria no dia seguinte, a cobertura foi iniciada poucos minutos após os ataques, com acompanhamento em tempo real nos portais dos demais quatro veículos, de modo a evidenciar o imediatismo que permeou os acontecimentos. Com o recurso de informações compartilhadas pelas agências de notícia, a BBC e o El País cobriram ao vivo os eventos na noite do dia 13. No site da Folha de S.Paulo, a primeira matéria foi ao ar às 19h29; a partir do título "Polícia francesa registra tiroteio e explosão em Paris", é possível constatar que, na hora

52 156 64 165 849 0 100 200 300 400 500 600 700 800 900

Al Jazeera BBC El País Folha de S.Paulo The New York Times

Paris – Matérias publicadas entre 13/11/2015 e 13/12/2015

da produção do conteúdo, ainda não se tinha a dimensão exata dos fatos. Com a chegada de novas informações, a página foi atualizada constantemente, inclusive, com mudança de título, até as 17h25, do dia 14 de novembro. A matéria ainda funcionou posteriormente como capa da página dedicada à cobertura do ataque, reunindo diversos hiperlinks, com indicações para matérias complementares e de contextualização, como ilustra a imagem abaixo:

Figura 43 – Matéria “Ataques coordenados aterrorizam Paris e deixam 129 mortos”

Fonte: Folha de S.Paulo. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/11/1706236-policia- francesa-registra-tiroteio-e-explosao-em-paris.shtml. Acesso em 23. set. 2019.

A atualização de informações também pode ser observada ao longo da primeira fase de toda a cobertura, o que aponta uma dinâmica intensa de produção noticiosa bem como o envolvimento da imprensa no processo de cobertura, realizada em tempo real e de forma contínua por um período de tempo extenso para os padrões da mídia na sociedade em rede. Com o maior montante de conteúdo produzido, o The New York Times conta com matérias publicadas ao longo de todos os dias do mês de análise, enquanto os conteúdos da Al Jazeera e El País se concentram em 19 dias diluídos durante o período levantado. Já a BBC e a Folha de S.Paulo registram a publicação de matérias em 22 e 25 dias,

respectivamente. O pico de geração de notícias sobre o tema ocorreu no dia do ataque e nos dois seguintes, atingindo 277 publicações, equivalente a 22% do total.

Gráfico 8 – Número de matérias por dia (Paris)

Fonte: Elaborado pela autora.

Não somente o aspecto quantitativo evidencia a força da representação midiática dos ataques de Paris. Os critérios de análise propostos por esta dissertação buscam examinar como a dinâmica de produção noticiosa adotada pela imprensa internacional como comunidade interpretativa procedeu frente ao evento terrorista que deu, pela primeira vez, visibilidade global ao Daesh. Como abordado nos capítulos anteriores, os terroristas visam a cobertura midiática de seus próprios atos para propagar a sensação de insegurança e ampliar a percepção em relação ao seu poder destrutivo; ambos objetivos atingidos por meio da repercussão jornalística dos eventos na capital francesa. Governos ao redor do mundo declararam estado de alerta e, embaladas pela reprodução do discurso oficial, matérias que conjecturaram sobre a possibilidade de novos ataques podem ser encontradas por toda a duração da cobertura dos quatro veículos, novamente, com exceção da Al Jazeera. Na ocasião, os jornais citados também se esforçaram para contextualizar a atuação e explicar as motivações do grupo terrorista, até então ignoradas pela mídia Ocidental, apesar de o grupo terrorista operar ativamente no

Oriente Médio nos anos anteriores, notadamente em regiões do Iraque e Síria, agravando ainda mais a conjuntura dos dois países afetados pelas guerras e conflitos.

Figura 44 – Matérias “Paris attacks: UK on high alert” e “Paris attacks: Could they happen in the UK?”

Fonte: BBC. Disponível em https://www.bbc.com/news/av/world-europe-34824187/paris-attacks-uk-on- high-alert; https://www.bbc.com/news/uk-34834029 Acesso em 23. set. 2019.

Figura 45 – Matéria “Obama diz que ação em Paris é ultrajante; NY adota precauções”

Fonte: Folha de S.Paulo. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/11/1706383-obama- diz-que-acao-em-paris-e-ultrajante-ny-adota-medidas-de-seguranca.shtml Acesso em 23. set. 2019.

Em todos os veículos, as matérias usufruem de diversos recursos digitais, como a rede de rede de contextualização estruturada por meio da hipertextualidade e componentes interativos incorporados à notícia com o intuito de facilitar a compreensão do receptor, além de não sofrer restrições espaciais. É possível observar ainda que esses benefícios foram alcançados em decorrência dos critérios de noticiabilidade que um ataque terrorista no Ocidente preenche na estrutura social vigente, conferindo status privilegiado à cobertura. Essa e outras questões que concernem aos elementos formadores da cobertura jornalística do ataque de Paris serão exploradas por meio das categorias de análise de conteúdo, procedimento metodológico central desta pesquisa, e explanadas com o detalhamento necessário a seguir, objetivando evidenciar a sistemática que acompanha o processo de construção da representação midiática na sociedade em rede.

5.2.1 Análise da forma

Conforme estipulação metodológica, o destaque em capa é o primeiro critério a ser abordado a fim de investigar as características que compõem a forma utilizada para o desenvolvimento da cobertura acerca dos eventos terroristas na capital francesa. Nos cinco veículos, foi possível observar a exposição do tema em destaque na página principal da versão online, em layout adaptado especificamente para esse fim, com o intuito de distinguir visualmente da diagramação habitual. Também se nota a presença de retranca criada para categorizar as matérias em uma página destino, igualmente criada de forma exclusiva para abrigar o conteúdo produzido em larga escala e ambas referenciadas por meio de recursos da hipertextualidade. As imagens abaixo ilustram o formato adotado por três dos cinco veículos para a disposição da retranca hiperlinkada no destaque da capa, bem como a estruturação da página destino que abriga as matérias classificadas como referentes aos eventos de Paris.

Figura 46 – Página destino da Al Jazeera sobre ataques em Paris

Fonte: Al Jazeera. Disponível em https://www.aljazeera.com/topics/events/paris-attacks.html Acesso em 23. set. 2019.

Figura 47 – Página destino da BBC sobre ataque em Paris

Fonte: BBC. Disponível em https://www.bbc.com/news/world-europe-34916445. Acesso em 23. set. 2019.

Figura 48 – Página destino do The New York Times sobre ataque em Paris

Fonte: The New York Times. Disponível em https://www.nytimes.com/news-event/attacks-in-paris. Acesso em 23. set. 2019.

A utilização desses recursos, associada à necessidade de organização do volume de conteúdo produzido, evidencia a importância jornalística conferida ao assunto, que se estabelece de modo subjetivo e é estabelecida a partir de dinâmicas profissionais também sistematizadas de forma abstrata.

Já no quesito editoria, a Internacional novamente predomina em quatro dos cinco veículos analisados, apresentando breves variações, especialmente no que concerne às informações trabalhadas no formato do gênero opinativo. Em caráter de exceção ao corpus desta pesquisa, a Al Jazeera trabalha o conteúdo informativo e interpretativo, equivalente a 43 matérias, sob a editoria "News", utilizando retrancas hiperlinkadas de acordo com o assunto, enquanto o conteúdo opinativo (nove) é organizado por autor.

No El País (64) e Folha de S.Paulo (165) todo o conteúdo informativo e interpretativo, 61 e 146 matérias, respectivamente, está sob a editoria de internacional ao passo que as demais (3; 19) se agrupam na editoria de opinião. Com 128 matérias, Internacional também predomina na BBC, também apresentando retrancas hiperlinkadas em conformidade com o assunto tratado, enquanto 22 conteúdos estão na editoria “UK”, referente ao noticiário regional. O The New York Times também registra o maior número de matérias (744) da editoria de internacional com o uso de retrancas com hipertextos, notadamente em mais quantidade “Europe”. Mantendo o padrão utilizado nos demais veículos, as matérias opinativas (105) se concentram em editoria própria.

Além do uso recorrente da hipertextualidade, é possível observar que os recursos

multimídia, outra idiossincrasia do jornalismo digital praticado na sociedade em rede,

são explorados na totalidade das matérias, sendo que as imagens estão presentes de forma praticamente mandatória no ambiente digital. Todas as 1.286 matérias dos cinco veículos possuem imagens em formato foto ou vídeo e nota-se ainda o uso de elementos não textuais mais elaborados, como infográficos e mapas.

Figura 49 – Matéria "Manhunt for Paris attackers"

Fonte: The New York Times.Disponível em

https://www.nytimes.com/interactive/2015/11/15/world/europe/manhunt-for-paris-attackers.html. Acesso em 23. set. 2019.

Pela ligação com a emissora de televisão, a Al Jazeera utilizou vídeos de forma complementar à produção de textos, reproduzindo na versão digital do jornal matérias na íntegra ou editadas a partir do que já foi veiculado nos jornais televisivos. O mesmo

acontece com a BBC que tende a reproduzir as imagens produzidas para televisão em suas diversas plataformas jornalísticas. Em ambos os veículos, os vídeos receberam posição de destaque, logo abaixo do título da matéria, de forma a evidenciar o conteúdo nesse formato em detrimento do texto escrito, disposto na porção inferior da página. Nas páginas, com função de destino das retrancas hiperlinkadas, também há foco para os vídeos, agrupados em posição privilegiada.

Na cobertura do ataque de Paris, o El País privilegiou o uso de fotos, embora apenas uma matéria tenha sido estruturada com formato de galeria. Vídeos são exibidos em apenas três das 64 matérias do jornal de origem espanhola. A Folha de S.Paulo também focou no uso de imagens ao longo da cobertura, muitas vezes trabalhando com galerias, que são reproduzidas em mais de uma matéria. Uma delas possui 36 fotos sequenciais com legendas simples, todas provenientes de agências de notícia.

Figura 50 – Matéria “Ataques com tiros e explosões em Paris”

Fonte: Folha de S.Paulo. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/11/1706320-com- estilo-jihadista-ataque-sugere-escalada.shtml.Acesso em 23. set. 2019.

Com 604 matérias ilustradas com imagens, das 849 do total, o The New York Times realizou uma cobertura bastante abrangente em termos de recursos multimídia. Além das imagens dispostas nas matérias, foram produzidas 16 galerias com fotolegendas informativas, que apresentam dados referenciais a fim de facilitar o entendimento do leitor acerca das temáticas. Nessa toada, o jornal estadunidense ainda publicou 18 infográficos interativos e 211 vídeos.

Conforme pontuado anteriormente e explanado com mais detalhes nesta seção da análise, a cobertura do ataque de Paris usufruiu de forma irrestrita de ferramentas e elementos disponíveis nas plataformas digitais para o desenvolvimento das matérias, especialmente no que diz respeito ao uso da hipertextualidade, bem como de recursos multimídia mais elaborados e interativos.

5.2.2 Análise da prática

Conforme apresentado anteriormente, a análise da prática jornalística contempla dados sobre o uso de fontes e o emprego dos três gêneros jornalísticos durante toda a cobertura, visando traçar um panorama acerca do enquadramento midiático e a reprodução de discursos nas matérias referentes ao ataque de Paris.

Nas 1286 publicadas pelos cinco veículos de interesse sobre os acontecimentos na capital francesa, pode-se identificar 1320 fontes diretas, sendo que 936 podem ser categorizadas como oficiais, 347 como testemunhais e 37 como especialistas, o equivalente a representatividade percentual de 71%, 26% e 3% do total.

Gráfico 9 – Fontes jornalísticas por tipo x Número de matérias (Paris)

Fonte: Elaborado pela autora.

Com o maior número de matérias publicadas sobre o tema, o The New York Times também registra o maior índice (74%) de fontes oficiais, com 582 citações diretas, bem como a menor porcentagem (23%) de testemunhais, representadas por 183 menções. As 19 fontes especialistas utilizadas pelo jornal estadunidense equivalem a 3% da totalidade, percentual igualmente também encontrado para esse tipo de fonte em dois outros veículos: BBC (7) e Folha de S.Paulo (6).

Curiosamente, apesar de contarem com números absolutos distintos, Al Jazeera (16) e Folha de S.Paulo (48) bem como BBC (73) e El País (27) também compartilham as mesmas porcentagens, dessa vez, para fontes testemunhais: 26% para os dois primeiros veículos citados e 35% para os dois últimos. Ademais, o percentual de 26% se repete ainda no total de fontes testemunhais presentes no corpus da cobertura dos ataques de Paris, no qual foram identificadas 347 menções dessa classe.

As similaridades encontradas no uso de fontes jornalísticas demonstram a homogeneidade existente na cobertura do ataque de Paris, na qual os veículos nitidamente se valem de um padrão gerado, de modo inteiramente consciente ou não,

4 7 1 6 19 16 73 27 48 183 41 129 50 134 582 Al Jazeera; 52 BBC; 156 El País; 64 Folha de S.Paulo; 165

The New York Times; 849 0 100 200 300 400 500 600 700 800 900

Al Jazeera BBC El País Folha de S.Paulo The New York Times

Paris – Fontes jornalísticas

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