12.5,1 The MULTIBUS@ ll Transport Protocol
12.5.3 Nucleus Communication Obiects
Com base nos fins propostos, foram duas as categorias escolhidas para compor a análise da prática jornalística, âmbito que influi diretamente na construção da cobertura dos veículos acerca do ataque terrorista de Mogadíscio e, consequentemente, na representação midiática desse tipo de acontecimento. Primeiramente, serão apresentados os dados obtidos acerca do uso de fontes jornalísticas, tema explorado com profundidade ao longo do capítulo anterior, dedicado a apontar a relação entre o fenômeno do enquadramento midiático e a atuação dos jornalistas enquanto comunidades interpretativas.
Já a utilização de gêneros jornalísticos, segundo critério a ser investigado, abarca os gêneros informativo, opinativo e interpretativo, de acordo com os aspectos metodológicos já explanados nesta dissertação. Diversos autores consideram os gêneros jornalísticos como modelos a partir dos quais os profissionais de comunicação se apropriam e interpretam a realidade. A análise da prática proposta nesta seção, então, procura se debruçar sob a dinâmica produtiva pela qual as notícias passam, o que determinará os recortes da realidade apresentados ao público por meio da seleção ou descarte de abordagens, hierarquização das informações e a escolha de fontes, imagens e palavras. Justamente, esse processo tem papel ativo tanto na construção da realidade como também, portanto, na formação da opinião pública. A mera reprodução das práticas jornalísticas cristalizadas no ensino e cotidiano da profissão abarca e também podem retransmitir mensagens enquadradas previamente, como as divulgadas por autoridades, figuras públicas, e propagadas por políticas editoriais e vieses ideológicos.
Ao longo das 32 matérias que compõem o corpus da cobertura do ataque na capital somali, foram identificadas 121 fontes diretas, das quais 79 podem ser classificadas como fontes oficiais, 25 como testemunhais e 17 como especialistas, representando 66%, 20% e 14% do total, respectivamente.
Com o menor número de matérias publicadas sobre o tema (2), a Folha de S.Paulo registra índice absoluto (100%) de fontes oficiais, com cinco citações diretas. Na outra ponta, a menor incidência percentual de fontes oficiais foi encontrada no The New York Times, com 52%, seguida por 24% para ambos os tipos de fontes: especialistas e
testemunhais. Em números absolutos, das 21 fontes citadas pelo jornal estadunidense, 11 são oficiais e as dez restantes são divididas igualitariamente entre testemunhais (5) e especialistas (5).
Gráfico 3 – Fontes jornalísticas por tipo x Número de matérias (Mogadíscio)
Fonte: Elaborado pela autora.
Das 26 fontes diretas citadas pela BBC, 15 podem ser classificadas como oficiais, representando 58% do total, enquanto as nove testemunhais e duas especializadas equivalem a 35% e 7% de todas as fontes.
Notadamente, a média de utilização das fontes oficiais foi superior a 50% em todos os veículos analisados. O El País foi o segundo jornal em porcentagem, precedido apenas pela Folha de S.Paulo (100%), com 88% de prevalência de fontes oficiais. No caso do jornal espanhol, chamam atenção os números absolutos, conforme gráfico acima, em que, das 16 fontes citadas em quatro matérias, 14 são oficiais e apenas uma testemunhal e outra especialista, ambas categorias com representatividade de 6%.
Mesmo englobando o maior número absoluto de fontes utilizadas (53), a Al Jazeera se mantém na média da prevalência de fontes oficiais com 65%, representando 34 citações,
9 2 1 5 10 9 1 5 34 15 14 5 11 Al Jazeera; 15 BBC; 5 El País; 4 Folha de S.Paulo; 2
The New York Times; 6 0 5 10 15 20 25 30 35 40
Al Jazeera BBC El País Folha de S.Paulo The New York Times
Mogadíscio – Fontes jornalísticas por tipo X Número de matérias
seguidas por 10 fontes testemunhais e nove especialistas, equivalentes a 19% e 17%, respectivamente.
Tabela 5 – Fontes jornalísticas (Mogadíscio)
Al Jazeera BBC El País Folha NYT Total corpus Total de matérias 15 5 4 2 6 32 Total de fontes 53 26 16 5 21 121 Especialista 9 17% 2 9% 1 6% - 5 24% 17 14% Média de fontes especialistas por matéria 0,6 0,4 0,25 - 0,8 0,5 Testemunhal 10 19% 9 35% 1 6% - 5 24% 25 21% Média de fontes testemunhais por matéria 1,5 1,8 0,25 - 0,8 0,78 Oficial 34 63% 15 58% 1 4 88% 5 100% 11 52% 79 65% Média de fontes oficiais por matéria 2,3 3 3,5 2,5 1,8 2,4
Fonte: Elaborado pela autora.
Com base nos achados quantitativos compilados na tabela acima, fica evidente a predominância das fontes oficiais em todos os veículos analisados, mas, não somente, é possível observar ainda um padrão na dinâmica de uso das demais fontes. Nos cinco jornais, a presença numérica das fontes se dispõe entre oficiais, testemunhais e especialistas, do maior para o menor número de citações.
No entanto, apesar de as fontes testemunhais serem utilizadas de forma mais volumosa quantitativamente, se comparadas com as especialistas, o status e disposição entre elas é
desproporcional. Como nas quatro matérias expostas abaixo, a prática jornalística permite a inserção de apenas uma fonte especialista para sustentar um argumento ou ponto de vista, ao passo que as fontes testemunhais regularmente são agrupadas em blocos textuais a fim de conferir credibilidade ao fato narrado.
Figura 26 – Matéria “Double standards”
Fonte: Al Jazeera. Disponível em https://www.aljazeera.com/news/2017/10/double-standards-aren- somalia-171016105300793.html. Acesso em 23. set. 2019.
Nesta matéria do gênero interpretativo da Al Jazeera, o comentário do professor de Direito Khaled Beydoun, embora sucinto, não apenas se sustenta de forma independente, sem precisar da corroboração de outras fontes, como também ganhou notório destaque ao longo da estrutura e diagramação da página publicada. O mesmo acontece na matéria da BBC exposta a seguir, que, justamente, repercute o comentário de Beydoun, enfatizando sua movimentação nas redes sociais. Apesar de ter recebido status de fonte especialista, a fala do professor, utilizada por ambos os veículos, não
apresenta dados analíticos no campo esperado ou contribui para a contextualização do acontecimento.
Figura 27 – Matéria “'Pray for Mogadishu' is not trending, but Somalis are mobilizing”
Fonte: BBC. Disponível em https://www.bbc.com/news/blogs-trending-41651176. Acesso em 23. set. 2019.
A força da distinção de especialista se faz perceber também na primeira matéria divulgada pelo El País sobre o ataque na capital Mogadíscio. O parecer de especialistas acerca das circunstâncias do atentado não só está presente logo na linha fina da matéria, como sustenta o lide com uma das principais informações referentes ao evento: a autoria do atentado pelo grupo Al Shabab, que na data da publicação da matéria ainda não havia sido reivindicada.
Figura 28 – Matéria “Ataque com caminhão-bomba deixa quase 300 mortos na capital da Somália”
Fonte: El País. Disponível em
https://brasil.elpais.com/brasil/2017/10/15/internacional/1508077129_570589.html. Acesso em 23. set. 2019.
Essa questão se repete na segunda matéria publicada pelo estadunidense The New York Times, que se baseia na fala de especialistas para o desenvolvimento de um dos pontos centrais do texto, também relacionado à ação do Al Shabab na região e sua então possível relação com o ataque perpetrado na capital somali. Informação essa presente no título, conforme a figura abaixo:
Figura 29 – Matéria “Somalia blasts expose security failings and possible Shabab infiltration”
Fonte: The New York Times. Disponível em https://www.nytimes.com/2017/10/16/world/africa/somalia- shabab-bombings.html?searchResultPosition=5. Acesso em 23. set. 2019.
No entanto, a primeira metade da matéria é permeada apenas por fontes oficiais, que guiam a abordagem do texto e para as quais as informações consideradas mais relevantes são creditadas. Os especialistas ganham destaque na porção final, quando o Al Shabab e suas possibilidades ofensivas voltam a ser objeto de discussão.
Figura 30 – Matéria “Somalia blasts expose security failings and possible Shabab infiltration”
Fonte: The New York Times. Disponível em https://www.nytimes.com/2017/10/16/world/africa/somalia- shabab-bombings.html?searchResultPosition=5. Acesso em 23. set. 2019.
Além do caráter quantitativo preponderante, as fontes oficiais ocupam também posição de destaque na disposição estrutural e hierárquica das informações, apresentadas a partir da lógica da pirâmide invertida, predominante também no contexto das plataformas digitais. Conforme exemplificado a partir das matérias acima, mesmo utilizadas com menos frequência se comparadas com as oficiais, as fontes especialistas ainda usufruem de status privilegiado frente às fontes testemunhais, reforçando a associação – voluntária ou não – feita pelos jornalistas entre a credibilidade e os símbolos de autoridade e hierarquia presentes na estrutura social vigente.
À medida que, como visto, as fontes oficiais e especialistas sustentam seus argumentos de modo independente no texto jornalístico, o mesmo não acontece com as testemunhas. Está convencionado na prática jornalística que a fala de uma testemunha deve, sempre que possível, ser corroborada por outra ou por uma informação verificável. Esse procedimento é utilizado como um artifício para driblar o fato de que o depoimento de uma pessoa sem título ou cargo representativo na sociedade tem sido considerado
dubitável, apesar de as testemunhais terem presenciado ou sido afetadas diretamente pelo acontecimento em questão para serem classificadas como tal.
Figura 31– Matéria “Somalia blasts expose security failings and possible Shabab infiltration”
Fonte: The New York Times. Disponível em https://www.nytimes.com/2017/10/16/world/africa/somalia- shabab-bombings.html?searchResultPosition=5. Acesso em 23. set. 2019.
Figura 32 – Matéria “Somalia struggles to cope with aftermath of blast”
Fonte: Al Jazeera. Disponível em https://www.aljazeera.com/news/2017/10/somalia-struggles-cope-blast- aftermath-171016062457128.html. Acesso em 23. set. 2019.
Nessa matéria da Al Jazeera, intitulada "Somalia struggles to cope with aftermath of blast" (Somália tem dificuldade de lidar com consequências da explosão, em tradução livre), as duas fontes testemunhais citadas estão interligadas em um único bloco temático, apoiando o discurso de cada uma mutuamente. No caso em questão, trata-se de pessoas cujos familiares haviam desaparecido após o ataque terrorista.
Além disso, elas aparecem apenas no último trecho da matéria, disposição recorrente para as fontes testemunhais, o que também se relaciona de modo intrínseco com o status conferido às fontes. De todas as 32 matérias analisadas e 25 fontes testemunhais detectadas, nenhuma está disposta nos primeiros três parágrafos do texto, sendo localizadas, na grande maioria, da metade para o final.
O mesmo acontece com a matéria do The New York Times exposta abaixo, "Somalia Blasts Expose Security Failings and Possible Shabab Infiltration" (Explosões na Somália expõem falhas de segurança e possível infiltração do Shabab, em tradução
livre), na qual as únicas duas fontes testemunhais aparecem de forma sequencial, unidas pelo mesmo tema e discurso, no oitavo e nono parágrafos do texto.
A forma de organização das fontes ao longo das matérias bem como a recorrência da reprodução do discurso oficial tem relação direta com a escolha dos gêneros jornalísticos a serem utilizados. Isso se dá devido aos padrões estabelecidos para cada uma das três categorias, conforme já abordado no início do capítulo. O gênero informativo, mais recorrente, favorece e induz o uso das fontes oficiais por ter como objetivo principal apresentar informações factuais, cuja credibilidade, como já visto, é associada com frequência aos discursos oficiais. Nesse estudo de caso sobre o ataque em Mogadíscio, 78% das matérias do corpus (32) podem ser classificadas como informativas, sendo 25 o número absoluto, reforçando o predomínio do gênero. Na sequência, as matérias opinativas têm representatividade de 16%, com cinco exemplares, seguidas pelo interpretativo, que conta com apenas duas matérias, equivalente a 6% do total.
Gráfico 4 – Matérias por gênero jornalístico (Mogadíscio)
Al Jazeera BBC El País Folha NYT Total corpus
Total de matérias 15 5 4 2 6 32
Informativo 12 80% 4 80% 4 100% 1 50% 4 67% 25 78%
Opinativo 2 13% 1 20% - - 2 33% 5 16%
Interpretativo 1 7% - - 1 50% - 2 6%
Fonte: Elaborado pela autora.
O único veículo que trabalhou os três gêneros durante a cobertura foi a Al Jazeera, ao mesmo tempo em que também se concentrou na produção de matérias informativas (12) em detrimento das opinativas (2) e interpretativas (1), embora sua cobertura tenha o maior número de matérias e período de abrangência. As quatro matérias publicadas pelo El País são classificadas como informativas, enquanto BBC e The New York Times utilizaram os gêneros informativo e opinativo nas proporções 80/20% e 67/33%, respectivamente, de acordo com os achados expostos no gráfico acima. As duas publicações da Folha de S.Paulo dividem-se nos gêneros informativo e interpretativo.
12 4 4 1 4 1 1 2 1 2 0 2 4 6 8 10 12 14
Al Jazeera BBC El País Folha de S.Paulo The New York Times