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ADDITIONAL TASKAfiRIBUTES

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1 .4.2 lnterrupt Handlers

3.6 ADDITIONAL TASKAfiRIBUTES

As mudanças suscitadas pela consolidação da sociedade em rede possibilitaram um aumento sem precedentes no fluxo de informações e dados disponíveis. De acordo com o levantamento realizado em 2018 pela empresa de comunicação estadunidense Cumulus Media, mais de 25 milhões de terabytes de dados são gerados diariamente no mundo todo. A pesquisa também indica o que acontece na internet em apenas sessenta segundos, alcançando mais de 3.7 bilhões de buscas no Google, 4.3 milhões de vídeos assistidos no Youtube, 38 milhões de mensagens enviadas no Whatsapp e mais de 862 mil dólares gastos em plataformas online.

Figura 12 – O que acontece na internet em um minuto

Fonte: Cumulus Media, 2018.

Essa quantidade aparentemente massiva de dados é produzida em um minuto de 2018, porém, o futurólogo Alvin Toffler popularizou o conceito de sobrecarga informativa (do original, information overload) ainda em 1970. No livro O Choque do Futuro, o autor estadunidense retrata a angústia e dificuldade criadas devido à incapacidade dos indivíduos de lidarem com a velocidade das mudanças tecnológicas e sociais. Para Toffler, uma das principais causas do dito "choque do futuro" seria a sobrecarga de informações, origem da maioria dos problemas sociais da atualidade.

Antes mesmo da consolidação da sociedade em rede, expressões derivadas, como excesso informativo, ansiedade de informação e abundância informativa (Turkle, 2011, p.242; Pariser, 2011; Johnson, 2012), passaram a ser utilizadas para fazer referência ao aumento exponencial de dados disponíveis, impulsionado, mais recentemente, pela liberação do polo emissor. Entretanto, Umberto Eco faz uma ressalva, apontando a internet apenas como um repositório de dados, que, não necessariamente, serão

transformados em informação e, depois, em conhecimento. Proporcionalmente, inclusive, o processo de "absorção, entendimento e formação crítica dos materiais consumidos torna-se mais difícil frente à profusão com a qual o usuário se depara" (CORRÊA e BERTOCCHI, 2012b, p. 2).

Já David Weinberger (2012) relembra sobre as informações analógicas, fisicamente localizadas e organizadas, de forma a permitir uma construção linear do conhecimento. Agora, instaura-se uma "crise do conhecimento", pois as informações, apesar de rapidamente acessíveis, estão dispostas de modo desordenado e podem ser produzidas por amadores, plagiadores e consumidas por usuários sem senso crítico para avaliar o conteúdo (2012, loc. 126-132).

Corroborando com esse pensamento, para Neal Gabler (2011), na era digital, a sociedade sucumbiu à era da "ignorância bem informada". Os indivíduos passaram a ser acumuladores de informações sem, entretanto, ter pensamento crítico para absorvê-las ou refutá-las, o que configuraria uma era da pós-ideia. Há autores (SABER, 2006) que utilizam o termo analfabetismo informacional em referência ao fenômeno, considerando que uma pessoa alfabetizada informacionalmente seria capaz de identificar a informação buscada e verificar sua veracidade para, então, aplicá-la na construção de conhecimento. Tal abordagem, no entanto, pode ser questionada devido a seu caráter elitista e tecnocrata, uma vez que ignora conjunturas sociais, econômicas e culturais para a inserção completa e assertiva dos indivíduos na sociedade em rede. De acordo com Regina Marteleto (1995), os bens culturais, considerados matéria prima informacional, são apenas distribuídos e não compartilhados socialmente. Para ela, as concessionárias dos bens produzidos, comerciais ou não, devem ser responsáveis pelo fomento da cultura baseada na informação.

Diante deste cenário, surge o fenômeno e a terminologia fake news; notícias falsas difundidas majoritariamente nas redes sociais digitais que ganham força e geram impacto devido à presença de receptores propícios a absorverem e, frequentemente, repassarem mensagens sem questionar ou checar a veracidade do conteúdo. Fato este que se relaciona de modo intrínseco com a credibilidade dos canais difusores de informações, afetando diretamente os meios de comunicação jornalísticos, que, nos últimos anos, enfrentam uma crise de confiabilidade, acometendo, notadamente, os

veículos da imprensa tradicional, historicamente amparada por grandes conglomerados. Para a professora e jornalista espanhola Myriam Redondo (2017), “a credibilidade dos meios de comunicação está menor do que nunca e chegou-se a escrever seu obituário diante da pujança das redes sociais”.

Em 2016, o portal Buzzfeed realizou um estudo englobando as fake news e a eleição do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Os resultados mostraram que 83% dos 3015 entrevistados consideraram fake news apresentadas durante a pesquisa como notícias verdadeiras. Além disso, 23% revelaram usar o Facebook como fonte principal de informação.

Em um comunicado divulgado em 2017, a ONU afirmou que as fake news, a desinformação e a propaganda representam uma preocupação global, devido ao fato de serem propagadas por governos, empresas e indivíduos com o objetivo de “enganar a população e interferir no direito do público em ter conhecimento sobre o assunto” abordado. Além disso, incitam a violência, discriminação e hostilidade contra determinados grupos sociais, subsidiando o discurso de ódio.

Por meio do documento, a entidade alerta ainda para a possibilidade de autoridades públicas denegrirem, intimidarem e ameaçarem os meios de comunicação, apontando a mídia como sendo “a oposição” ou propagando falsas acusações de que veículos estão “mentindo” ao publicar reportagens com as quais não concordam. Tais práticas aumentam o risco de atos de violência contra jornalistas, bem como contribuem para abalar a confiança pública no papel social do jornalismo. A declaração indica que os países têm a obrigação de promover um ambiente seguro para a liberdade de expressão, protegendo e apoiando diversos meios de comunicação e o debate de ideias divergentes. Em contrapartida, o relator especial da ONU sobre o direito à liberdade de opinião e expressão David Kaye alerta para o fato de que os esforços para o combate das fake news podem culminar em censura e reconhece que há risco de supressão do pensamento crítico e de outras abordagens contrárias à lei de direitos humanos durante o processo. Em um claro engajamento e continuidade do trabalho realizado sobre o tema, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) lançou, em 2018, uma cartilha na qual refuta e não recomenda o uso do termo fake

news. A posição é defendida pelo argumento de que a expressão passou por uma recente politização e direcionamento nocivo à imprensa como forma de minar trabalhos jornalísticos os quais "as pessoas no poder não gostam". Em substituição, a entidade indica a utilização das expressões desinformação e informação errônea, mais complexas, que englobam sátiras, paródias, manchetes sensacionalistas, conteúdo impostor, legendas, imagens e estatísticas enganosas ou manipuladas, bem como conteúdos verdadeiros, porém descontextualizados e divulgados intencionalmente. "Considerando tudo isso, é perceptível que essa crise é muito mais complexa do que o termo fake news sugere", afirma o documento, intitulado Journalism, Fake News & Disinformation.

No material, a Unesco também defende que a intenção do emissor ou, de quem divulga a informação, é crucial para a diferenciação dos conceitos sugeridos. As informações errôneas seriam caracterizadas quando um indivíduo compartilha dados falsos acreditando serem verdadeiros. Já a desinformação, se refere ao ato de divulgar, deliberadamente, inverdades com o intuito de, ativamente, causar confusão acerca de um determinado assunto. Ainda outra categoria reconhecida pela Unesco é a má informação, que seria baseada da realidade, mas utilizada para prejudicar alguém, uma organização ou país. "É importante distinguir as mensagens verdadeiras das falsas, mas também as verdades (ou verdades parciais) criadas, produzidas ou distribuídas por certos 'agentes' com a intenção de prejudicar em vez de atender ao interesse público". A cartilha ressalta ainda que todos os fenômenos elencados podem ocasionar sérias consequências ao ambiente informacional e para a sociedade como um todo, incluindo, por exemplo, a ruptura da integridade do processo democrático e a redução dos índices de vacinação.

Embora as polêmicas geradas sobre casos específicos de fake news e desinformações sejam muitas, como na eleição presidencial estadunidense de 2016, não há controvérsias no que concerne aos malefícios causados pelo processo como um todo à credibilidade informativa nas redes. Nesta conjuntura, batizada por Wolton (2006) de efeito colateral da dimensão funcional da comunicação, a sociedade olha para o jornalismo ao mesmo tempo em que ele tenta recuperar a relevância de seu papel social. Para o autor, o processo comunicacional é composto por duas dimensões indissociáveis, sendo que a

funcional engloba a técnica e a economia necessárias para a troca de mensagens, enquanto a dimensão normativa abarca o espaço simbólico e tem caráter essencialmente humanista.

No mundo todo, nota-se o recente e crescente movimento de jornais e portais de veículos de comunicação para atuarem contra a proliferação de fake news. As três maiores organizações jornalísticas do Brasil, Folha de S.Paulo, O Estado de São Paulo e o Grupo Globo, já contam com seções específicas para a checagem de notícias, criadas em 2018, durante o período eleitoral.

Figura 13 – Seção “Fato ou Fake” do portal G1

Fonte: Portal G1. Disponível em: https://g1.globo.com/fato-ou-fake. Acesso em 27 dez. 2018.

O intermédio jornalístico como mecanismo de defesa para barrar as fake news tem sido tratado como mais um serviço social prestado por veículos profissionais, chamado popular e tecnicamente de fact-checking ou checagem de fatos, em tradução para o português. Criada em 2015, a Agência Lupa foi a primeira agência de notícias do Brasil a se especializar na modalidade. O veículo integra a International Fact-Checking Network (IFCN), rede mundial de checadores de informação, chancelados pelo Poynter Institute, nos Estados Unidos, que conta com código de conduta e princípios éticos próprios a fim de regulamentar a prática no nível global.

Otimista, Armando Medeiros (2017) olha para o fact-checking como uma oportunidade de o jornalismo recuperar sua credibilidade e seu posto como principal produtor de informações confiáveis. No entanto, reconhece que existem desafios para estar à frente dos difusores de fake news, como investimento em profissionais e tecnologia adequada. O obstáculo "determinante é a capacidade do jornalismo de enfraquecer os construtores interessados em meias-verdades ou falsidades inteiras” (MEDEIROS, 2017. p. 25). Em sua clássica obra É preciso salvar a comunicação (2006), Wolton argumenta que a overdose da comunicação funcional é a responsável pela banalização do valor social da informação, gerando uma ressaca proporcional à intensidade e volume de conteúdo disponível. Se antes o acesso à informação e a liberdade de expressão eram uma unanimidade democrática, construídas na base dos ideais iluministas, agora ambos sucumbem à superficialidade da sociedade do espetáculo, uma clara menção ao clássico de Guy Debord (1967). O sociólogo alerta que as consequências desse “processo sem maestro é uma forma de despotismo midiático (...) Do simples ao simplista, basta um passo, que frequentemente é dado muito depressa, por boas razões no início, mas, depois de um dado momento, por simples efeito mecânico” (p. 61).

Com ampla propagação de fake news e a banalização do conteúdo nos últimos anos, o discurso do jornalista como curador se fortaleceu e popularizou. Emprestado dos campos do direito e da arte, o conceito de curadoria foi ressignificado pelo jornalismo para se referir à dinâmica imposta pela abundância informativa à atuação profissional. Um dos primeiros acadêmicos a relacionar o processo curatorial à prática jornalística, Jeff Jarvis passou a notar uma mudança em suas próprias práticas na redação, sobretudo quando as novas plataformas digitais se consolidavam na sociedade em rede. O professor de jornalismo da Universidade de Nova York e autor do blog Buzzmachine teorizou, posteriormente, que a função do jornalista estava progredindo para a dinâmica de "selecionar, recomendar e contextualizar notícias", que, de outro modo, seriam apresentadas aos usuários desordenadamente. Jarvis, então, identificou que as novas funções jornalísticas se assemelhavam, de muitas formas, às de um curador de arte. A partir da elaboração de uma série de critérios técnicos, a também professora Mindy McAdams (2008) revisitou e corroborou a expressão, ressaltando aspectos da curadoria que coincidem tanto na produção artística quanto no jornalismo praticado no ambiente

digitalizado. De acordo com a autora, o curador, em ambas áreas, precisa desenvolver habilidades que permitam selecionar fontes de informação a fim de garantir a credibilidade do resultado final, além de ter o conhecimento necessário para contextualizar o material escolhido e apresentá-lo de modo coerente.

Já o estadunidense Steven Rosenbaum (2011) classificou o fenômeno considerando o valor qualitativo agregado por um indivíduo a uma determinada informação. A escritora búlgara Maria Popova (2011) coloca a abundância informativa no centro da curadoria no ambiente digital. Considerando que o curador seleciona conteúdos culturalmente relevantes, o processo consistiria em uma nova forma autoral por demandar criatividade e trabalho intelectual.

O professor da Universidade Northwestern Pablo Boczkowski alerta ao fato de o processo de curadoria também possuir efeitos colaterais preocupantes, que não devem ser ignorados. Na medida em que ocorre uma redução de profissionais e veículos independentes atuando de forma autoral, a proporção de conteúdos genéricos compartilhados pelos próprios meios de comunicação tem crescido exponencialmente. Como resultado, surgem malefícios à qualidade informativa e impactos, novamente, ao papel social desempenhado pelo jornalismo, principalmente no que concerne `a promoção do debate de ideias divergentes e pluralidade de vozes no discurso midiático. Para além da intervenção humana, no momento atual, não é possível abordar a curadoria da informação sem considerar ainda a influência da participação mecânica e tecnológica presente na seleção algorítmica. Nas mídias sociais, robôs e algoritmos controlados pelos conglomerados privados são os principais responsáveis pela seleção e distribuição de notícias e demais conteúdos de entretenimento apresentados aos usuários. O consumo personalizado de conteúdo contribui para a formação do que Eli Pariser (2011) chamou de bolhas informacionais, que contribuem para a proliferação das fake news. Para ele, os algoritmos de personalização são capazes de “gerar ciclos de identidade nos quais o que o código sabe sobre nós constrói nosso ambiente midiático, e esse ambiente, por sua vez, ajuda a formar as nossas preferências futuras” (PARISER, 2012, p. 205). Esse efeito acaba por se relacionar de forma paradoxal com a abundância de informação atual. Enquanto há uma quantidade elevada de conteúdos polifônicos, os indivíduos se fecham para as possibilidades informativas, consumindo apenas notícias que

contemplam sua visão de mundo e já fazem parte do cardápio usual e confortável de assuntos de interesse. Ao preferir o conteúdo recorrente selecionado pelo algoritmo, o usuário suprime a oportunidade de encontrar materiais que expandam o "horizonte cognitivo, ou seja, a bolha dos filtros distorce a nossa percepção do que é importante, verdadeiro e real…” (PARISER, 2012, p. 23).

O jornalista André Azevedo (2004) recorre ao filósofo Gilles Deleuze para se referir à moral volúvel e ao relativismo absoluto causados pela atual e complexa conjuntura informativa, que abarca o excesso de informação, fake news e bolhas informacionais. A sociedade estaria incapaz de hierarquizar e valorar os conteúdos, impossibilitada de distinguir o fundamental do supérfluo. "Futilidades circulam ao lado de grandes questões da humanidade com idênticos formatos, espaços editoriais e repercussão. A notícia importante desaparece encolhida sob a multiplicação infinita de fofocas, notinhas sobre celebridades e declarações oficiais" (AZEVEDO, 2004. p.1).

Diante dessas questões, é importante recobrar o desígnio primordial da prática jornalística que engloba a promoção, defesa e fiscalização da democracia. Independentemente da plataforma, o ethos social deve estar sempre presente a fim de preservar os contratos históricos construídos pelo jornalismo. A participação do público no ambiente midiático requer cuidados para que a produção noticiosa não se torne entretenimento. A velha máxima que questiona a linha tênue entre os conceitos de “interesse público e interesse do público” precisa ser considerada frente aos protocolos e códigos de conduta implícitos na sociedade em rede que ainda não foram compreendidos completamente e estão em um processo constante de mudança.

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