O caminho percorrido para o conhecimento dos egressos do Ifes-Ib, apresentou elementos de sua faixa etária, gênero, raça ou cor. Estes são estudantes que viram no Ifes uma oportunidade de um sonhado estudo de qualidade, que, em sua percepção poderia lhes dar acesso a uma vida melhor.
Se, por alguns aspectos, o maior número de meninas, concludentes dos cursos ofertados pela instituição é um aspecto de emancipação e conquista de gênero, ainda se percebe, que dialeticamente, tal resultado é fruto ainda do peso que a reprodução das relações sociais de produção exercem sobre os jovens rapazes, que assumem a missão muito cedo de auxiliar os pais na manutenção da casa e da família. Superestruturalmente, tais elementos transvestem-se também na cultura do masculino que, mesmo subempregado e sub-remunerado precisa ter o seu dinheiro.
No que se refere às questões raciais. A maioria dos egressos é branca, tendo os pardos ou pretos um percentual menor de acesso e de permanência na instituição. Dados que ainda revelam o quanto o racismo estrutural ainda está presente nos interiores do país.
A questão racial coloca-se em paralelo com a realidade econômica dos egressos. Como demonstrado, grande parte dos formandos são de famílias com baixa renda, dependentes ou do Programa Bolsa Família ou dos auxílios estudantis, que para os mesmos representaram condição necessária para conclusão de seus estudos no Ifes-Ib e para que continuassem seus estudos em cursos superiores.
Diante da realidade socioeconômica dos egressos e da região em que o campus está inserido, surge o questionamento quanto a algo que está presente na criação dos IFs, a contribuição dos campi dos institutos para o arranjo produtivo local, ou seja, para a melhoria das condições econômicas e sociais dos locais em que estes estiverem inseridos. Ao se considerar que a implantação do campus é de menos de dez anos, com a primeira turma concludente em 2014, constata-se que os dados oficiais ainda são inexistentes ou incompletos para qualquer conclusão a respeito. A crise econômica dos últimos anos, que assolou o mundo e o país, também é um elemento que dificulta uma análise sobre o desenvolvimento econômico, ainda em uma realidade micro, como a de uma cidade de interior. No entanto, a percepção dos egressos aponta para alguns elementos de crescimento do comércio e da construção civil e desenvolvimento de técnicas para a agricultura. Os egressos apontam também para um futuro, com possibilidade de confirmação ou não desta projeção, em que os alunos, formados no Ifes-Ib, retornarão e com seu trabalho poderão melhorar a qualidade de vida das pessoas em diversos aspectos.
A questão central desta pesquisa permeou toda esta discussão. Será o ensino no Ifes-Ib um ensino para a terminalidade – considerando-se como um curso de formação técnico-profissional, que cumpriria a função de contenção de acesso a Universidade pela classe trabalhadora –, ou seria um ensino para a continuidade – para o acesso aos cursos superiores, nas mais diferentes áreas do conhecimento? As respostas dos egressos ao questionário e as entrevistas realizadas demonstraram que a perspectiva da continuidade se faz presente em todo itinerário formativo no Ifes-Ib. Desde a intencionalidade dos estudantes ao se inscrever no processo seletivo e ingressar no campus, até mesmo a dedicação aos estudos, à sua percepção sobre os elementos que, segundo eles são característicos da qualidade de ensino, são elementos que indicam a continuidade como seu objetivo. Os números revelados pela pesquisa também são concludentes quanto a essa questão. Apenas três egressos deste período encontram-se empregados em sua área
de formação. Em contraposição, a grande maioria dos estudantes que responderam ao questionário – 94,9%, ingressaram no ensino superior. A diversificação das áreas do saber, bem como as múltiplas carreiras profissionais escolhidas pelos egressos constitui- se como elemento de ruptura com a reprodução das relações sociais de produção vigentes no município.
Tais elementos poderiam levar a uma fácil e equivocada conclusão desta pesquisa, como favorável à uma mudança de perspectiva, pela rejeição do ensino técnico e manutenção somente do ensino médio. Os postulados da educação marxista politécnica vão em direção absolutamente contrária a essa visão. A formação para o trabalho junto com as outras ciências do núcleo comum e a educação física, são, desde o início, pilares dessa formação. Tal perspectiva opõe-se a formação burguesa com acento nas humanidades, mas sem a perspectiva do trabalho. Certamente, uma questão que deve ser levada em consideração é se os cursos ofertados respondem de forma concreta às reais necessidades do mundo do trabalho de onde o campus está inserido? Possivelmente um curso voltado mais à agroecologia ou à agricultura familiar, responderia mais concretamente às necessidades das famílias e dos egressos. Isso favoreceria um fortalecimento da agricultura familiar, dando-lhe elementos de resistência diante dos interesses do agronegócio de tirar das mãos dos pequenos produtores seu bem mais precioso, a terra. Mas este é objeto de trabalhos futuros.
A conclusão emocionada da entrevista com a egressa Hellena serve de síntese para concluímos esta parte do trabalho:
Eu só tenho a gradecer, de verdade por tudo, por toda a experiência que eu tive estudando no Instituto. Confesso que meu coração ainda queima de vontade de voltar, para trabalhar, para poder aplicar aquilo que eu conheci. Eu sempre que passo por Ibatiba eu sempre tiro uma foto, mesmo que de fora do Instituto, e eu até me emociono de falar porque a minha família mudou graças ao Instituto. Hoje eu tenho uma condição de vida melhor, eu posso ajudar minha mãe, moro na cidade, mudei para a cidade agora e tenho as condições que eu tenho graças ao Ifes. Eu não seria a Hellena que eu sou hoje. Eu não teria o que eu tenho hoje se não fosse o Instituto Federal na minha vida. Parece até um discurso programado, mas não é. Toda vez que eu falo, em qualquer lugar que eu falo eu me emociono, porque ele realmente foi uma alavancada na minha vida. [Emocionada]. Ele mudou minha história, e eu espero que ele continue mudando a história de vários alunos que passam por lá. Então eu só tenho a agradecer por tudo que eu vivi, tudo que eu passei lá dentro, ao apoio de todos os professores que ainda são meus amigos até hoje. E eu fico triste em saber que o nosso Estado político tem castigado tanto a educação do nosso país. Muito mais do que cotas para poder sanar a falta que tem na educação seria investir em educação de qualidade e jamais tirar da educação. Então eu sou muito grata, muito grata
mesmo por ter conseguido e por ter tido a oportunidade de estar no Instituto Federal. Ele marcou a minha vida e isso não tem como apagar (HELLENA, 2019, informação verbal).
Este depoimento longe de ser uma idealização da instituição, que apresenta muitos desafios a enfrentar, demonstra uma experiência de vida de uma jovem, humilde, da zona rural do município de Ibatiba, com poucas perspectivas de acessar o ensino superior, que viu na educação uma possibilidade de emancipação. A conquista do emprego e do estudo para ela significou uma profunda transformação em sua vida. Seu desejo de “trabalhar” na instituição em seu ver é possibilidade de proporcionar isso a outros jovens reflete o caráter libertário, na solidariedade proletária do já, mas ainda não, dentro dos limites da sociedade capitalista, ter uma educação contra-hegemônica e transformadora. Para os estudantes do Ifes-Ib, essa oportunidade se abre diante da oportunidade, outrora negada, de acesso à educação técnica integrada ao ensino médio e à continuidade nos mais variados cursos superiores.