Junto com as obras de engenharia, desenvolveu-se na várzea e na terra firme a produção de cerâmica69. Essa, segundo Magalhães (2006), não pode ser caracterizada como resultado da atividade de cultivo ou indicadora de grupos agrícolas, pois a descoberta de cerâmica datada de 8.900 anos AP na toca do sítio do Meio na Serra da Capivara, no estado do Piauí, pode recuar em muito a presença dela na América do Sul, como pode vislumbrar uma possível maior antiguidade para a cerâmica na Amazônia. Não, obstante a datação mais
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O termo (do grego keramos, "argila") refere-se à manufatura de objetos em barro, posteriormente cozidos. As principais matérias-primas cerâmicas são o Feldspato (particularmente, os potássicos), a sílica e a argila. Além destes três componentes principais, as cerâmicas podem apresentar aditivos para o incremento de seu processamento ou de suas propriedades finais. Por fim, a cerâmica é um artefato de barro queimado (SOUZA, 1997).
antiga da cerâmica na Amazônia é, segundo Gomes (2002), a de Taperinha70 e a do sítio da Caverna da Pedra Pintada, cujas datações remetem a 8.000 anos AP.
No período que antecedeu a descoberta do Brasil, em 1500, muitas povos ceramistas habitavam a região amazônica e possuíam o domínio sofisticado de técnicas de produção e decoração da cerâmica. Esses povos estavam espalhados na várzea e na terra firme. Os mesmos produziram peças de inigualável criatividade e beleza. Os estudos existentes mostram como a cerâmica das fases marajoara, tapajônica, maracá, aristé e outras são representativas de complexidade social e expressividade cultural do período pré-colonial (GOMES, 2002; GUAPINDAIA, 1997; NEVES, 2006; PROUS, 2006; ROOSEVELT, 2002, 1991a; SCHAAN, 2008, 2006, 2004, 2001). Assim, as referidas cerâmicas arqueológicas serão apresentadas de modo a entender a complexidade cultural dos grupos ceramistas que existiram nos ecossistemas regionais.
A cerâmica marajoara é um tipo de cerâmica fruto do trabalho das tribos indígenas da ilha de Marajó (PA), na foz do rio Amazonas, durante o período de 400 a 1400 d.C. É a quarta fase arqueológica dessa ilha. Segundo Roosevelt (2002), a cerâmica marajoara é original da região, e não oriunda de uma produção colombiana dos Andes, conforme Meggers (1985) sustentou durante muito tempo.
Também, é considerada como a fase de maior desenvolvimento, onde encontramos as cerâmicas mais belas e decoradas. Faz parte da tradição cerâmica policroma. Foi uma fase exuberante com variedades de decoração. Utilizavam sempre as cores pretas e vermelhas sobre o branco. Os mounds ou cemitérios arqueológicos da cerâmica marajoara estão localizados, nos campos da metade oriental do Marajó, tendo o lago Ariri como centro. Existe uma variedade muito grande de peças, citaremos algumas urnas: zoomorfas, antropomorfas e antropozoomorfas, para sepultamentos secundários; igaçabas para guardar alimentos e água; tangas,71 peças ritualísticas, estatuetas etc.
A cerâmica marajoara caracteriza-se pela ampla e sofisticada quantidade de objetos rituais, utilitários e decorativos produzida por antigos ocupantes da ilha do Marajó, na época em que surgiram os grandes cacicados. Confeccionou-se vasilhas, potes, urnas funerárias, tangas, chocalhos, estatuetas, bancos etc., que podiam ser acromáticos ou cromáticos e zoomorfizados ou antropomorfizados. De modo geral, tais bens culturais apresentam padrões
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Sítio arqueológico Sambaqui localizado na fazenda Taperinha, município de Santarém, estado do Pará (ROOSEVELT, 2002)
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decorativos com desenhos labirínticos e repetitivos, traços gráficos simétricos, em relevo baixo ou alto, além de entalhes e aplicações.
Desse conjunto – bancos, miniaturas, estátuas, adornos labiais, auriculares etc. – destacam-se peças mortuárias e urnas funerárias, em geral encontradas com ossos e objetos pessoais. Altamente decoradas, essas peças rituais retratam imagens estilizadas de humanos e animais – muitas vezes, corujas e aves noturnas – como expressão de mitos e crenças. A representação de órgãos sexuais revela se as urnas são feitas para mulheres ou para homens. Símbolos geométricos e padrões simétricos são os motivos decorativos mais usuais.
Representações femininas são recorrentes não apenas nos potes funerários, mas também nas estatuetas, podendo aparecer figuras ancestrais ou míticas, simultaneamente com traços animais e humanos (ROOSEVELT, 1992a, 1991a-b; SCHAAN, 2008, 2006, 2004). A saber, as estatuetas eram muito utilizadas nos ritos e danças, fazendo às vezes de chocalho ou de amuleto. Esses muiraquitãs72 alternam a forma de mulher acocorada, em posição de parto, ou de animais (ROOSEVELT, 2002; SCHAAN, 2008, 2006, 2004, 2001). As estatuetas que combinam traços masculinos e femininos, sem a cabeça, são frequentes.
No que diz respeito ao formato escolhido, a decoração é sempre abundante, com motivos geométricos variados, e empregados de modo regular e padronizado. As tangas, objetos triangulares de cerâmica utilizadas por meninos e meninas em situações cerimoniais, geralmente trazem campos decorativos demarcados, o que indica, uma vez mais, as regras definidas que presidem a composição da cerâmica marajoara. O povo marajoara desapareceu em torno de 1.350 d. C., quando a ilha foi ocupada pelos Aruã, ainda presentes na ilha quando da chegada dos europeus (SCHAAN, 2008).
Foi no primeiro quartel do século passado que o Nimuendaju (1923) encontrou a cerâmica tapajônica ou santarém sendo produzida pelo grupo indígena Tapajó, o qual localizava-se na foz e ao longo do afluente da margem direita do Amazonas, o rio Tapajós. Para Gomes (2003) considera a cerâmica Tapajônica como exemplo de uma das invenções pré-coloniais mais elaboradas da Amazônia. Essa belíssima cerâmica se inclui na tradição inciso ponteada (1.000 a 1.500 A. D.). Para a autora a iconografia da cerâmica Tapajônica é caracterizada por um repertório básico de animais de floresta tropical, estruturados de maneira coerente e recursiva, a fim de comunicar princípios de significado mitológico.
Por outro lado, representações grandes de homens, algumas delas bastante naturalistas, exibem indivíduos sentados em bancos, segurando chocalhos, que demonstram a importância
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Artefato entalhado em pedra (especialmente jade, de cor esverdeada) ou madeira, representando pessoas ou animais (rã, peixe, tartaruga etc.), ao qual são atribuídas as qualidades sobrenaturais de amuleto .
dos xamãs, como líderes de rituais e guardiões do conhecimento cosmológico dessa sociedade. Existem inúmeros tipos de vasos de cerâmica tapajônica. A seguir-se Gomes (2002), cita-se alguns mais representativos: vaso de gargalo, vaso de cariátides, pratos, estatuetas, cachimbo etc.
Para Gomes (2002), o estudo da iconografia da cerâmica tapajônica junto com dados etnohistóricos torna possível extrair informações sobre as práticas religiosas dos tapajós, além de indícios da organização social desse grupo. Assim, a autora mostra que o significado do mundo simbólico dos tapajós é possível reconhecer através das diversas imagens presentes nas peças cerâmicas, como: jacarés, onças, pássaros e figuras humanas. Desse modo, a autora enfatiza que a cerâmica dos Tapajó não é um mero reflexo casual da existência diária desses elementos na vida social. Portanto, a repetição desses elementos parece refletir a maneira pela qual esses indígenas ordenavam seu universo.
A cerâmica aristé tem sua predominância na Guiana Francesa e no estado do Amapá, relacionada e relaciona-se à tradição cerâmica policroma. A sua origem data do século IV ou V d. C (NEVES, 2006). O grupo Aristé caracterizava-se pela produção de urnas funerárias cerâmicas para serem utilizadas em sepultamento secundário. De acordo com Nunes Filho (2003), tais peças cerâmicas eram especialmente produzidas para o ritual funerário e, por conseguinte, elas eram colocadas em locais diferentes, como subsolo, cavernas e poços funerários.
Pesquisas dos anos de 1950 demonstram a existência de uma relação clara entre os índios Palikur, habitantes atuais da região litorânea do norte do Amapá e da Guiana Francesa, e os grupos indígenas que produziram as cerâmicas aristé e viveram na mesma região. Dentre os autores que se posicionam assim estão Evans (1955) e Hilbert (1957). Neste caso, as decorações e formas dos vasilhames cerâmicos – que r sejam funerários ou domésticos – dos Palikur apresentam semelhanças na decoração e morfologia com a cerâmica dos Aristé.
O sepultamento funerário praticado pelo grupo cultural Aristé utilizava-se do uso de vasos cerâmicos com representação antropomorfa e zoomorfa. O ato sepulcral caracteriza-se pela disposição de urnas funerárias expostas em abrigos ou cavernas. Quando não dispunham desses abrigos naturais, abriam poços artificiais ou, depositavam-nas na terra (HILBERT, 1957). Essa prática foi adotada por muitas sociedades pré-coloniais em quase toda a Amazônia, como as que produziram as culturas Marajoara (Brasil), Tapajônica (Brasil), Miracangüera (Brasil), Manavi (Equador), Niquitao (Venezuela), Vale de Cauca (Colômbia), Ocaña (Colômbia) e Porto de Serviez (Colômbia).
A cerâmica aristé apresenta diferenciações temporais que podem ser diagnosticadas por meio de modificações observadas tanto na pasta dos vasilhames como na decoração. De acordo com Evans (1955), primeiramente usava-se somente areia como tempero da pasta, sendo a decoração predominantemente incisa e raspada. Nesse momento, de acordo com Hilbert (1957), era comum a prática de enterramento secundário em cavernas.
No segundo período da produção cerâmica aristé, as peças apresentam na pasta, como tempero, fragmentos de cerâmica moída. Ocorre, ainda, a incorporação da cremação dos mortos e a substituição gradativa da decoração incisa e raspada pela pintura a qual, inicialmente, é feita em grandes faixas e seções, tornando-se depois mais complexa e com motivos curvilíneos (HILBERT, 1957). Como nas demais fases registradas no estado do Amapá, nesta igualmente, ocorrem contas de vidro de procedência europeia demonstrativa de contatos com europeus depois de 1500.
A cerâmica Maracá tem sua datação aproximada em 1445-1645 d. C. tem como lugar de origem o estado do Amapá (GUAPINDAIA, 2001b, 2000). As urnas funerárias encontradas no vale do rio Maracá são de três tipos: tubulares, zoomorfas e antropomorfas. Ferreira Penna (1973) foi quem encontrou essa cerâmica nas lapas de um afluente do rio Maracá, na região da serra do Laranjal, no Amapá, em 1872. Quase todas foram encontradas com ossos ou fragmentos de ossos, eram fechadas por cordões finos enfiados em orifícios, unindo o corpo da urna com a tampa.
Essas urnas eram lacradas por uma espécie de cimento. As mesmas não estavam enterradas e sim dispostas em certa ordem sobre o solo das grutas. Muitas foram destruídas pelos animais ou pelas raízes das árvores. Algumas peças apresentavam pinturas e decoração. A cerâmica maracá não faz parte das tradições ceramistas existentes. De acordo com Simões (1972), ela é classificada como fase não filiada.
Nos termos de Guapindaia (2000), a análise do material cerâmico permitiu estabelecer algumas características básicas. Precisamente, o vasilhame cerâmico produzido pelos grupos maracá era composto de vasilhas de tamanho pequeno a médio, de certo para uso doméstico, como cozer, servir ou armazenar; os assadores de beiju com de 40 a 25 cm de diâmetro. A manufatura era realizada com argila acrescida de fragmentos de rochas trituradas, algumas vezes associada à casca de árvores, carvão ou restos de cerâmica.
No que respeita ao acabamento de superfície, a maioria dos objetos não apresentava decoração, apenas eram alisados. Nos objetos que apresentam decoração, essas eram realizadas com as técnicas plásticas ou pintadas. Entre as plásticas, foram utilizadas as incisões, os entalhes, as digitações, os raspados, os ponteados, isolados ou associados entre si.
Há o predomínio das incisões, geralmente localizadas nas bordas ou próximas a elas, apresentando linhas paralelas ou motivos triangulares. As técnicas pintadas ocorrem nas cores branca e vermelha.
Existem dois tipos de urnas: as antropomorfas, que representam uma figura humana sentada em um banco; e as zoomorfas, que representam um animal quadrúpede em pé (GUAPINDAIA, 2001a, 2000, 1999). As antropomorfas ocorrem em maior número e o seu tamanho pode variar de 20 a 85 cm de altura. São compostas de três partes distintas: a cabeça ou tampa; o corpo onde se deposita os ossos e o banco que é a base da peça. O rosto é bem definido apresentando sobrancelhas, olhos, boca e nariz. O corpo é um recipiente cilíndrico que está fixado na parte superior do banco. Possui representação de mamilos, umbigo e sexo. Os braços estão dobrados com os cotovelos para frente e as mãos apoiadas uma em cada joelho. As pernas também estão fletidas e os pés se apóiam no chão.
O banco é composto de duas partes: o assento de forma retangular; e as pernas compostas por duas placas cerâmicas retangulares, fixadas perpendicularmente a base do assento. A maioria deles, à semelhança dos bancos indígenas atuais, é zoomorfa, apresentando cabeça e cauda de animais, sendo que alguns rostos têm aparência humana (GUAPINDAIA, 2001a, 2000, 1999). As urnas zoomorfas variam de 19 a 34 cm de altura e representam um animal quadrúpede de pé. O rosto é bem definido,73 o que lhes confere aparência humana. O corpo tem a forma oval e na parte superior, onde seria o dorso do animal, está a abertura por onde são colocados os ossos. Essa abertura possui tampa removível. As patas são cilíndricas e ocas.
As urnas têm motivos pintados nas cores branca, preta, amarela e vermelha que estão distribuídos de maneira ordenada na cabeça, corpo, braços e pernas das antropomorfas e no corpo das zoomorfas. São faixas, linhas horizontais, verticais ou sinuosas e losangos. Existem adornos confeccionados com roletes contornando os antebraços, os pulsos, a cintura, abaixo do joelho e no peito.
A pasta de cerâmica, da qual eram feitas urnas, é uma mistura de argila com fragmentos triturados de rochas e cacos cerâmicos (GUAPINDAIA, 2000). A confecção era realizada com as técnicas de acordelamento, modelagem e moldagem. A técnica do acordelamento permite a produção manual dos objetos com roletes sobrepostos, o que se usou para fazer o corpo, as pernas, os braços e ainda alguns elementos do rosto e adornos do corpo. A modelagem, técnica de moldar a pasta diretamente com as mãos, foi usada para executar
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alguns adornos. A moldagem que consiste em prensar a pasta para formar placas, foi usada na confecção do assento e pernas dos bancos.
Portanto, os quatro estilos de cerâmicas pré-coloniais apresentadas mostram uma parte da complexidade e sofisticação das técnicas, estilos, decorações e criatividade dos grupos ceramistas que existiram na Amazônia. Por sua vez, a cerâmica atesta a complexidade cultural e social das populações que viveram na região, pois, o cotidiano, as relações sociais e políticas foram representadas nos artefatos cerâmicos. Assim, é possível considerar que a cerâmica maracá, ao lado de outras como a marajoara, a aristé e a tapajônica, que representam um exemplo da importância dessa produção para culturas amazônicas desde a era pré- colonial.