A várzea e a terra firme são dois ecossistemas que possuem como característica ambiental fatores favoráveis e limitantes à ocupação humana, contudo a ocupação de cada um dos ecossistemas obedeceu a um padrão especifico. Na várzea, por conta do tipo de solo fértil em nutrientes minerais, ocorreu uma produção agrícola intensiva e consequente densidade demográfica (GOMES, 2002; NEVES, 2006, 2004; ROOSEVELT, 1991b; SCHAN, 2008, 2006, 2004). Já na terra firme, todavia conforme Neves (2006, 2004), onde há um solo pobre em nutrientes minerais, a produção agrícola só foi possível a partir de inovações tecnológicas e, por consequência, teve uma baixa densidade demográfica.
definido a partir de critérios econômicos – padrão de uso de recursos naturais – e cronológicos – mudanças nas temperaturas médias do planeta.
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A exemplo de tesos, canais, estradas, poços funerários, urnas funerárias refinadas, mumificação, manejo florestal, dentre outros.
Fontes etnohistóricas indicam que, na época da conquista européia, as várzeas dos principais rios estavam repletas de assentamentos humanos. Os relatos sugerem que tais assentamentos estavam integrados a amplos territórios, controlados por chefias políticas hierarquizadas (ACUÑA, 1891; BETENDORF, 1910; CARVAJAL, 1892; DANIEL, 1840; HERIARTE, 1940; PORRO, 1995). De fato, o registro arqueológico dessas áreas apresenta estilos cerâmicos elaborados, construções coletivas, além de inúmeras evidências que confirmam a existência de grandes densidades populacionais.
Sem dúvida, as condições ambientais foram preponderantes em influenciar o destino dos primeiros seres humanos que chegaram à Amazônia. Os que se estabeleceram na várzea desfrutaram de condições favoráveis de assentamento. Enquanto os da terra firme lograram condições adversas de instalação. Conforme Clement e Junqueira (2008), a trajetória milenar do ser humano pela Amazônia está profundamente ligada ao processo de domesticação de plantas e ao desenvolvimento de sistemas de produção de alimentos, fundamentais para o crescimento demográfico e para o surgimento de sociedades complexas na região. Deste modo, os primeiros grupos humanos que se estabeleceram nos ecossistemas amazônicos encontraram, num dado ambiente, problemas ambientais específicos.
Não obstante, o modo como se superou os problemas ambientais da terra firme ainda constitui-se em uma grande incógnita, pois tem-se poucos trabalhos de pesquisas sobre o assunto (CRUZ, 2008; GOMES, 2003; HECKENBERGER, 2006; MAGALHÃES, 2006a-b; NUNES FILHO, 2008). A situação é bem diversa quanto à produção sobre a várzea, que são inúmeros (GOMES, 2002; MEGGERS, 1977; NEVES, 2006, 2004; ROSSEVELT, 1992a-b, 1991a-b; SCHAN, 2008, 2006, 2004). Contudo, a partir dessa tese pretende-se trazer um pouco mais de conhecimento sobre a relação dos grupos de ameríndios do vale do rio Amapari com o ecossistema de terra firme.
Como posto em capítulo anterior, a várzea é o ponto fraco dos defensores da existência de uma limitação ambiental rigorosa na Amazônia. Os primeiros críticos do modelo determinista ecológico de Meggers (1977), como Carneiro (1995) e Lathrap (1977), logo apontaram a região como um desmentido da generalidade do modelo. Na área não haveria nem limitação à produção agrícola e a fixação territorial, nem escassez de proteína animal, sendo este ponto um dos fatores considerados limitantes ao crescimento e adensamento demográfico na terra firme.
Para Clement (1999) e Balée (2008), a primeira ação dos grupos pré-coloniais com os ecossistemas amazônicos foi a criação de floresta antropogênica ou paisagem cultural, a qual mudou a perspectiva de obtenção de nutrientes de origem vegetal e animal. Este processo,
ocasiona a transformação de um ambiente limitante para um ambiente de favorecimento nutricional. Contudo, o inicio deste ambiente favorável segundo Clement e Junqueira (2008, p. 44),ocorreu de modo lento e gradual a partir do momento em que:
[...] as populações indígenas se deram conta de que estavam cercadas por espécies úteis, mas de características muito variáveis, começaram a selecionar as melhores plantas para propagar, iniciando o processo de domesticação. No princípio, a domesticação seria não-intencional, pois não havia a preocupação em identificar os vegetais mais saborosos ou úteis (seleção). A propagação também seria inconsciente, ocorrendo com o descarte de sementes e outros propágulos nas lixeiras. O processo de domesticação exige apenas esses dois componentes: seleção e propagação. O tempo garante o resto – as mudanças morfológicas e genéticas que diferenciam as populações silvestres das populações domesticadas [...].
O surgimento de lixeiras teve papel vital no processo de superação das limitações imposta pelo ambiente pobre da Amazônia. As lixeiras foram expandidas de modo gradual e se transformaram em sistemas de produção de plantas anuais.
Como ficavam mais perto do centro do acampamento, esses loci recebiam mais luz. Hoje essas são lixeiras pela presença de terra preta de índio, um tipo de solo antropogênico muito rico em fósforo, cálcio, carvão e cacos de cerâmica. A TPI mais antiga que se conhece e, segundo Beckerman (1991), Clement (1999) e Neves (2006, 2004), era datada de 5.000 AP, está localizada em Rondônia, na periferia sul da Amazônia, perto das origens de algumas plantas cultivadas.
Nos pomares, onde predominavam espécies arbóreas, havia terras mulatas, adubadas com cinzas e carvão provenientes de queimadas. A terra mulata é menos rica em nutrientes. Com o tempo, os pomares se expandiram, dominados às vezes por uma espécie. É o caso dos castanhais da amazônia, tucumanzais (CLEMENT; JUNQUEIRA, 2008) e açaizais existentes hoje. Conforme a concentração de recursos aumentou nos ecossistemas antropogênicos, as populações humanas ficaram mais sedentárias e cresceram. Com isto foi preciso expandir a produção de alimentos de modo intencional. Uma vez que a intencionalidade tornou-se dominante conforme Clement e Junqueira (2008), os sistemas de produção começaram a assumir posições de destaque, e os povos que os conheciam expandiram suas populações e seus territórios.
Não obstante, para Clement (1999), a mandioca, a pupunha (Bactris gasipaes), o urucum (Bixa orellana L.) e, possivelmente, a pimenta malagueta (Capsicum frutescens) são originárias do sudoeste da Amazônia, onde também tiveram origem os Tupi e, talvez ainda mais cedo, os Arawak. A batata doce (Ipomoes batatas), o abacaxi (Ananás sativus) e,
possivelmente, a pimenta murupi (Capsicum chinense) são originários do noroeste da Amazônia, onde parte dos Arawak é muito importante hoje. Ainda, o autor agrega os Karib a cultivos específicos, para o qual a localização periférica desses povos no norte da Amazônia e da foi importante para a propagação do cará (Discorea sp.), do jenipapo (Genipa americana) e de outros cultivos.
No oeste da Amazônia, tem-se a origem muitas árvores frutíferas. Dentre estas, tem-se o abiu (Pouteira torta), biribá (Rollinia mucosa), mapati (Porouma cecropiifolia), sapota (Achras zapota) e cubiu (Solanum sessiliflorum), bem como, taioba (Xanthosoma sagittifolium) e ária (Calathea allouia), mas ainda não se identificou com precisão os povos mais associados a estes cultivos. Clemente (1999) chama a atenção para o fato de que as primeiras domesticações ocorreram antes do aparecimento dos três grupos linguísticos identificados na região. Nessa perspectiva, a associação entre plantas e línguas ainda carece de comprovação.