Ainda que não tenha se detido em uma análise exaustiva do jornalismo, o ferramental teórico de Pierre Bourdieu pode ser especialmente útil para o jornalismo alternativo. Cabe uma consideração preliminar. Ao contrário dos marxistas Genro Filho, trabalhado na seção precedente, e Antonio Gramsci, que será discutido em seguida, o sociólogo francês propõe uma série de deslocamentos conceituais, de fundo, à tradição sucessora de Marx e Engels: “[...] de estrutura de classe a espaço social, de consciência de classe a habitus, de ideologia a violência simbólica, de classe dominante a campo de poder”, como aponta Löic Wacquant (2013, p.92). O trabalho de Bourdieu, segundo Wacquant (2013), busca uma síntese entre os desenvolvimentos de Marx, Durkheim, Weber, diferenciando-se do primeiro principalmente pela ênfase nas dimensões e mecanismos simbólicos que estruturam as relações sociais.
Isso não significa que haja incompatibilidade entre Genro Filho e Gramsci com Bourdieu para seguir nesta pesquisa sobre jornalismo, especialmente sesuas ideias forem assumidas como ferramentas conceituais para compreensão dos objetos e do problema.
Em primeiro lugar, Bourdieu (2005) reconhece o papel do jornalismo de incidir nas lutas simbólicas sobre a percepção da realidade. Ele explica que, assim como a política e a ciência social, o campo jornalístico reivindica o poder de produzir e impor uma visão de mundo legítima. É nesta capacidade que estão interessadas as organizações políticas: influenciar sobre o que existe visivelmente e como é percebido.
As lutas simbólicas a propósito da percepção do mundo social podem adquirir duas formas diferentes. Do lado objetivo, pode-se agir através de ações de representação, individuais ou coletivas destinadas a mostrar e a fazer valer determinadas realidades: penso, por exemplo, nas manifestações que têm como objetivo tornar manifesto um grupo, seu número, sua força, sua coesão, fazê- lo existir visivelmente. [...] Do lado subjetivo, pode-se agir tentando mudar as categorias de percepção e apreciação do mundo social, as estruturas cognitivas e avaliatórias: as categorias de percepção, os sistemas de classificação, isto é, em essência, as palavras, os nomes que constroem a realidade social tanto quanto a exprimem, constituem o alvo por excelência da luta política, luta pela imposição do princípio de visão e divisão legítimo, ou seja, pelo exercício legítimo do efeito de teoria (BOURDIEU, 2004, p. 162).
Estes sistemas de classificação são assentados no princípio de visão e divisão do mundo social. “As classificações sociais, como acontece nas sociedades arcaicas, que operam sobretudo através de oposições dualistas – masculino/feminino, alto/baixo,
forte/fraco, etc. –, organizam a percepção do mundo social e, em determinadas condições, podem realmente organizar o próprio mundo” (BOURDIEU, 2004, p. 165). Dessa forma, o poder simbólico é essencialmente o de estabelecer grupos (criando ou sacralizando o existente).
A luta das classificações é uma dimensão fundamental da luta de classes. O poder de impor uma visão das divisões, isto é, o poder de tornar visíveis, explícitas, as divisões sociais implícitas, é o poder político por excelência: é o poder de fazer grupos, de manipular a estrutura objetiva da sociedade (BOURDIEU, 2004, p. 167).
O exercício do poder simbólico está baseado em duas condições: o grau de correspondência do discurso à realidade e a posse de um capital simbólico, autoridade social conquistada em lutas anteriores. “O capital simbólico é um crédito, é o poder atribuído àqueles que obtiveram reconhecimento suficiente para ter condição de impor o reconhecimento [...] e só pode ser obtido ao término de um longo processo de institucionalização” (BOURDIEU, 2004, p. 166).
Ainda que as concepções de classe social e luta simbólica guardem diferenças com a tradição marxista, não invalidam o que é o interesse principal das contribuições de Bourdieu para esta pesquisa específica, o processo de legitimação, a partir de conceitos como capital simbólico e reconhecimento. Assim, voltando-se aos objetos desta investigação, a pergunta inevitável é: como os canais de jornalismo alternativo conquistam capital para contribuir na luta simbólica de percepção do mundo social?
Cabe outra consideração central de toda sociologia de Bourdieu (2004, p. 163): “as relações objetivas de poder tendem a se reproduzir nas relações de poder simbólico”. Isso significa que o jornalismo alternativo, por ser desenvolvido fora dos grandes conglomerados econômicos, e por ter em geral posições críticas às ideias dominantes, tende a ser impelido à marginalidade. Para sair desta posição é preciso ‘nadar contra a corrente’.
O jornalismo deve ser entendido como um campo social – com relações de força e monopólios, lutas e estratégias, interesses e lucros – que carrega lógicas propriamente jornalísticas, com autonomias relativas a outros campos. Um campo social é um sistema de relações objetivas que, de acordo com Miguel (2002), estabelece normas legítimas impostas “naturalmente” aos agentes que dele façam parte. Esses agentes, por sua vez, interiorizam as regras do campo também de maneira “natural” em suas práticas. Assim, os agentes são condicionados pela estrutura e pelas posições que ocupam, dependendo do volume e do tipo de seu capital acumulado. Os agentes “alternativos”, uma vez dentro do
campo, tentam lutar contra a homogeneização e a naturalização das práticas dominantes que os afeta.
No caso do campo jornalístico, Patrick Champagne (2005), baseado no trabalho de Bourdieu, afirma que há dois princípios de legitimação: o intelectual e o da economia política, que se enfrentam na definição da profissão ideal e expõe uma dualidade fundante da profissão. O primeiro está relacionado ao rigor propriamente jornalístico e à autonomia frente às forças econômicas e político-partidárias. Ainda que em outros termos, o princípio intelectual está ligado à discussão do jornalismo como forma de conhecimento, tratada anteriormente com Genro Filho (2012), ou seja, é um princípio assentado no compromisso com o singular e na adesão aos códigos deontológicos mais ou menos institucionalizados.
Champagne (2005) defende que concorre a este o princípio de legitimação da economia política, relacionado à capacidade de influência da opinião pública e de retorno financeiro à empresa, devido às grandes audiências diárias. Ao contrário do princípio intelectual, o alcance é determinante para a legitimidade. “O poder específico deles reside na influência que podem ter em um público que é praticamente coextensivo a toda população, ou seja, na contribuição decisiva que eles dão para criar opinião pública” (CHAMPAGNE, 2005, p. 29, tradução nossa)9. Esses princípios concorrentes fazem do
campo jornalístico um campo de tensões. “[...] A maior contradição dentro da operação do campo jornalístico reside no fato de que as práticas jornalísticas que melhor se conformam aos códigos de ética do jornalista são muitas vezes simplesmente não rentáveis” (CHAMPAGNE, 2005, p. 53, tradução nossa)10.
A partir das reflexões acima, seguem-se os seguintes desdobramentos. Primeiro, parece que, carentes de capital econômico, os jornais alternativos têm de apostar na legitimação via princípio intelectual, ou seja, têm de investir seus parcos recursos na busca de capital jornalístico e cultural (o que implica as mais diversas e difíceis alternativas econômicas, como dedicação militante, por exemplo). Segundo, esse acúmulo de capital pressupõe aceitar (conscientemente ou não) certas regras do jogo institucionalizadas no campo. A contradição é que parece impossível o alternativo
9 “Their specific power resides in the influence they can have on a public that is practically coextensive
with the entire population, that is, in the decisive contribution they make to creating public opinion” (CHAMPAGNE, 2005, p. 59).
10“The major contradiction within the operation of the joumalistic field lies in the fact that the joumalistic
practices that best conform to journalists’ ethical codes are very often simply not profitable” (CHAMPAGNE, 2005, p. 51).
alcançar as posições dominantes sem que se alterem as regras do jogo, a estrutura do campo – a não ser que deixe de sê-lo. Conclusão: o alternativo tem de buscar reconhecimento para aumentar sua eficácia simbólica em relação ao público, na mesma medida em que deve lutar, dentro de certas margens, para a própria alteração do campo, buscando melhores condições para se posicionar. Em outros termos, não basta fazer bom jornalismo, é preciso disputar o sentido e exigir condições para o exercício do bom jornalismo. Isso implica tanto o ataque às estruturas que concentram capitais (democratização da comunicação, por exemplo) quanto a disputa das posições epistemológicas e éticas para o jornalismo.
Também a partir da noção sociológica de campo social, o trabalho de Miguel (2002) oferece ferramentas para uma análise de menor grau de abstração sobre a relação entre mídia e política. O autor trabalha questões como conversão de capital midiático em capital político, devido à visibilidade promovida pela mídia a determinados agentes; estratégias de definição da agenda pública; sacralização e delimitação do campo político; interação entre repórter e fontes; e configurações discursivas que são modeladas pela mídia.
Por fim, não é possível discutir a relação entre campos sem tratar da questão da autonomia. Para o jornalismo alternativo impõe-se outra questão: se o princípio de legitimação intelectual do campo jornalístico pressupõe o maior grau possível de autonomia em relação às forças da economia e da política, como um veículo dirigido ou apoiado por uma organização política pode obter reconhecimento e capital?
Conceitualmente, parece se tratar de uma falsa polêmica. Autonomia significa a capacidade de reger-se segundo leis próprias. Neste caso, as “leis” jornalísticas. Por exemplo, se a Fundação Ford11 não compromete a autonomia da Agência Pública, por que necessariamente o MST e a Consulta Popular colocariam em cheque a do Brasil de Fato? Quer dizer, é preciso analisar como a relação se materializa na prática para avaliar quanto da autonomia jornalística é perdida, ou não. Por outro lado, é preciso reconhecer que as fronteiras que definem o que é ‘política’ (e o que está fora) são objeto de constante disputa. Como afirma Miguel (2002, p. 174), “se a luta política é uma luta de ‘classificações’, em que os agentes buscam impor os princípios de ‘visão e divisão’ do mundo social, como diz Bourdieu, então a primeira divisão é aquela que separa um espaço
11 “A Fundação é financiadora institucional da Pública, dentro do seu programa de Direito e Acesso à Mídia.
É também uma das financiadoras da Casa Pública”, conforme consta no site da Agência: http://apublica.org/quem-somos/#parcerias
para a própria política”. No caso dos movimentos populares, “[...] quando extrapolam suas preocupações específicas, admitidas como legítimas, sempre surgem vozes para denunciar sua ‘politização’ espúria. É o que acontece cada vez que os sindicatos ultrapassam os limites da reivindicação salarial” (MIGUEL, 2002, p. 174). Não corre o mesmo risco o jornalismo alternativo? É uma linha tênue que, novamente, só pode ser alterada nas lutas por mudanças da estrutura dos campos e dos esquemas de percepção sobre eles. Fato é que essa situação muitas vezes obriga os veículos a ocultarem (ou manterem discretas) suas relações políticas, na tentativa de não perderem reconhecimento.