A obra “O Segredo da Pirâmide: para uma teoria marxista do jornalismo”, de Adelmo Genro Filho (2012), é fundamental para a pesquisa em jornalismo alternativo por dois motivos. Primeiro, pela própria caracterização do que é jornalismo; segundo, por ter sido também uma intervenção direcionada à militância política, propondo uma reconsideração do fazer jornalístico. Isso porque Genro Filho (2012, p. 10) entende o jornalismo como “[...] uma forma social de conhecimento, historicamente condicionada pelo desenvolvimento do capitalismo, mas dotada de potencialidades que ultrapassam a mera funcionalidade a esse modo de produção”. Segundo o autor,
[...] é preciso, em primeiro lugar, reconhecer que existe a possibilidade e a necessidade de um jornalismo informativo moderno, que não seja meramente propagandístico ou formalmente opinativo. Isto é, reconhecer a possibilidade e a necessidade de um jornalismo informativo com outro caráter de classe, elaborado a partir de outros pressupostos ideológicos e teóricos, mas cuja missão principal não seja apenas a de propagandear tais pressupostos. Em segundo lugar, é preciso saber fazê-lo, sendo que, para tanto, antes de mais nada, é imprescindível compreendê-lo do ponto de vista teórico (GENRO FILHO, 2012, p. 150).
De acordo com Felipe Pontes (2015a), a ideia da necessidade social da informação jornalística é fundante da teoria de Adelmo Genro Filho. Essa necessidade social surge de mudanças estruturais da sociedade burguesa. O jornalismo informativo moderno é o produto mais típico da conjunção entre um “[...] novo tecido universal das relações sociais produzido pelo advento do capitalismo” e os emergentes “meios industriais de difundir informações” (GENRO FILHO, 2012, p.32). Conforme Pontes (2015b, p. 155), este processo se desenvolve com maior força a partir de 1920 no Brasil e na Argentina, enquanto nos países centrais se desenrolava desde a segunda metade do século XIX. Ou seja, os indivíduos passam a viver em condições de cada vez maior integração social – relações sociais em crescente universalização, mediadas e constrangidas por interesses e visões particulares do mundo. O jornalismo informativo se insere nessa trama, pois tem o potencial de suprir as necessidades do momento histórico e aparece como uma modalidade de conhecimento que justamente “[...] torna possível a conexão do indivíduo e do cotidiano – das relações singulares –, às condições de cidadania a partir da constituição de uma visão particular do mundo” (PONTES, 2015b, p. 155).
Daí seguem consequências importantes. Primeiro, está descartada a tese de que o jornalismo é criação arbitrária dos poderosos, ou puro reflexo ideológico das estruturas sociais, uma necessidade social falsa. Segundo, esta necessidade real tem uma gênese histórica assentada na particularidade burguesa, mas passa a se inserir na totalidade histórica da humanidade, tornando-se a necessidade de um “volume de informações que corresponda a essa integração universal dos indivíduos e dos grupos sociais” propiciada pelo desenvolvimento capitalista (GENRO FILHO, 2012, p. 142). O jornalismo, bem como as ciências modernas, tem seu surgimento no capitalismo, mas isso não quer dizer que deva desaparecer em uma sociedade de outro modo de produção.
O próximo passo é explicar qual a natureza desse conhecimento que tenta suprir a “[...] carência ontológica da complexidade e integração universal que se constitui a partir do capitalismo” (PONTES, 2015a, p. 156). Para isso, influenciado pelos trabalhos sobre estética de Lukács, Genro Filho (2012) alicerça sua teoria na tríade de categorias “singular”, “particular” e “universal”, de larga tradição filosófica, que ganharam centralidade no sistema teórico de Hegel. Uma boa síntese é oferecida por Pontes (2015b). Essas modalidades lógicas apontam que o modo de apreender o real pelos homens ocorre a partir de formas específicas de conhecer. A singularidade remete a uma imediaticidade de reconhecimento do real e, ao mesmo tempo, de uma unicidade capaz de sintetizar elementos urgentes de determinado contexto – o que leva a um senso de contingência ligada a essa forma de conhecimento. A particularidade pressupõe um nível de abstração maior, no
qual elementos estruturais e de conjuntura são apresentados, como aspectos ideológicos, o pertencimento a um grupo ou classe ou mesmo o contexto dos acontecimentos. A universalidade, por conseguinte, seria um processo de abstração que explica - por meio de leis, normas ou aspectos filosóficos - a totalidade, a verdade, o conceito (PONTES, 2015b, p. 148-149).
Segundo Genro Filho (2012, p. 58), o conhecimento jornalístico é caracterizado pela “apropriação do real pela via da singularidade, ou seja, pela reconstituição da integridade de sua dimensão fenomênica”. O singular é o fenômeno único, irrepetitível, a forma do novo. O jornalismo, assim, se diferencia da ciência e da arte, que têm como momentos dominantes as categorias da universalidade e particularidade, respectivamente.
O jornalismo não produz um tipo de conhecimento, tal como a ciência, que dissolve a feição singular do mundo em categorias lógicas universais, mas precisamente reconstitui a singularidade, simbolicamente, tendo consciência que ela mesma se dissolve no tempo. O singular é, por natureza, efêmero. O jornalismo tampouco elabora uma espécie de representação cujo aspecto singular é arbitrário, projetado soberanamente pela subjetividade do autor, tal como acontece na arte, onde o típico é o eixo fundamental de contato com a realidade (GENRO FILHO, 2012, p. 65).
Ao produzir notícias, o jornalismo dota de sentido determinados fatos sociais. Genro Filho (2012, p. 61) explica que o processo de significação é determinado por duas variáveis: “l) as relações objetivas do evento, o grau de amplitude e radicalidade do acontecimento em relação a uma totalidade social considerada; 2) as relações e significações que são constituídas no ato de sua produção e comunicação”. Trata-se da dialética entre o objetivo fenomênico e o trabalho subjetivo que está na essência da informação jornalística. Ainda que a notícia seja mediada por um sujeito, ela tende a se cristalizar na face objetiva do evento, a singularidade. Ao entrar em contato com o público, essa dimensão objetiva, o singular, dota a notícia de uma inerente “abertura de sentido”.
Como consequência da estrutura da notícia,
[...] O jornalista não pode fazer do processo de ressignificação que realiza o fechamento do sentido, o que não permitiria aos leitores e leitoras, ao terem com determinando “fenômeno como se estivesse acontecendo”, realizarem os seus processos de mediação – o que atende à necessidade do público pela informação jornalística (PONTES, 2015a, p. 295).
Tal afirmação pode ser percebida no fato de que, tanto militantes socialistas quanto liberais, tanto operários quanto banqueiros, servem-se do jornalismo informativo para se situarem socialmente, conhecendo os fatos do dia, ainda que certamente cheguem a interpretações e valorações bastante destoantes.
Por outro lado, da parte do profissional e/ou do militante, a abertura de sentido coloca desafios à prática que só podem ser enfrentados com esforço intelectual. Uma
notícia escrita de maneira não reflexiva tende a ter seu sentido preenchido pelas ideologias do senso comum presentes no público. Isso requer, como desenvolve Sylvia Moretszohn (2007, p. 180), “pensar contra os fatos”, o que “[...] implica a capacidade de distanciamento – isto é, alguma ‘suspensão’ – para se produzir uma informação capaz de ir além do caráter imediato dos fatos a serem noticiados”. Assim, cada material de um jornal alternativo deve ser compreendido como uma intervenção tática, mediada pelos fins estratégicos do veículo – sejam eles a promoção dos direitos humanos ou a construção de um projeto geral de país. A chave está nas particularidades que serão conectadas ao singular, que podem ser pensadas como antídotos do real contra os possíveis sentidos dominantes que emanam do acontecimento no senso comum. Por outro lado, tal possibilidade estará sempre tensionada pelas condições de trabalho e pelas pressões das rotinas produtivas.
Seguindo Pontes (2015a, p. 295), outra expressão da abertura de sentido como estruturante da notícia diz respeito aos próprios editoriais e artigos de opinião dos jornais. É que: “[...] o sentido que o relato não fecha em dado discurso (mesmo trazendo conexões com uma dada particularidade) gera a necessidade de a empresa jornalística e grupos políticos que se expressam por meio dela posicionarem-se em outros gêneros textuais jornalísticos”. Em outros termos, o jornalismo informativo é “apenas” uma das estratégias de comunicação dos atores sociais e políticos. O que o torna mais decisivo é estar legitimado por uma necessidade social e ser uma forma de conhecimento da realidade, especialmente do cotidiano.
Sendo assim, o jornalismo também difunde ideias, que podem ser incorporadas na prática para resolução de conflitos, ou seja, ideologias. É a possibilidade de junção entre o conhecer e o querer fazer. Estando na posição de artífice dos conflitos sociais e de suas possíveis soluções, o jornalismo assume papel de “mediador social das ideologias” e, por isso, é terreno de disputa entre classes (PONTES, 2016, p. 160).
Nesse sentido, Adelmo Genro Filho defende abertamente a atuação militante tanto dentro dos canais jornalísticos comerciais quanto dos alternativos e populares:
Essa batalha pode e deve ser travada dentro dos jornais e veículos sob controle da burguesia a partir do escasso, mas significativo espaço individual dos repórteres e redatores em relação às editorias, e do espaço igualmente importante das redações no seu conjunto frente a diretores e proprietários”. Como pode e deve também ser travada, especialmente em momentos de transição revolucionária, mas não apenas nesses casos, em veículos de comunicação massiva sob o controle das forças operárias e populares (GENRO FILHO, 2012, p. 150).
Fica pendente a avaliação da evolução desses “espaços” nos últimos 30 anos após a publicação de O Segredo da Pirâmide, ainda mais nos tempos atuais de crise da forma- empresa e emergência de canais alternativos.
Genro Filho (2012) também entra em polêmica com teóricos e militantes da comunicação popular e comunitária da época, que defendiam o projeto de “devolver a palavra ao povo” com o fomento de práticas artesanais de comunicação. Seria uma proposta ingênua, pois desprezaria as mediações tecnológicas e especificamente jornalísticas capilarizadas pela sociedade. A questão fundamental, segundo Genro Filho (2012, p. 131), “[...] é a definição e o controle, pelas massas revolucionárias organizadas, da política cultural que vai se expressar pelos meios de comunicação avançados”. Mais importante que a comunicação popular artesanal, limitada tanto na produção quanto na circulação de conteúdo, “é a luta pelos espaços no sistema de comunicação de massa e a conquista de veículos tecnicamente avançados”, diz o autor. Neste caso, fica pendente outra questão, a saber, a função que pode cumprir a comunicação popular comunitária para uma organização política revolucionária ou um movimento popular. O MST e a Consulta Popular, tratados nesta pesquisa, apostam tanto no jornalismo informativo profissional (Brasil de Fato) quanto, por exemplo, em rádios comunitárias em acampamentos e assentamentos rurais, com produção artesanal e alcance muito reduzido. O Patria Grande, na Argentina, também tem militância atuando em rádio comunitária, a despeito do projeto jornalístico do Notas.
Genro Filho também busca diferenciar o jornalismo informativo moderno daqueles jornais partidários do tipo “organizador coletivo”, como formulado por Lenin. Genro Filho (2012, p. 42) considera que tais publicações são de outra natureza, tendo como funções “análise crítica, luta ideológica, propaganda e agitação”. Para tais fins, o autor as considera “insuperada em seus fundamentos”. Sua ênfase, no entanto, está na ideia de que “há uma tarefa mais ampla do jornalismo tipificado nos diários, que deve ser pensada em sua especificidade”.
Considerando o exposto sobre a teoria do jornalismo como forma social de conhecimento, a contribuição de Adelmo Genro Filho (2012), acrescida dos desenvolvimentos recentes de Felipe Pontes (2015a), parece basilar para a relação do jornalismo com disputa de hegemonia na sociedade. É esta compreensão teórica que o autor julgava necessária para os jornalistas de esquerda da época, que poderiam utilizá-la tanto no trabalho dentro das redações burguesas quanto alternativas, assumindo que “[...] o jornalismo, através da produção de notícias, guarda o potencial de ressignificar os fatos
sociais e de apresentar a complexidade das mediações envolvidas em cada um deles”, o que o coloca no centro das disputas sociais, como define Pontes (2016, p. 161).