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3. Synthèse des hydrogels

3.2.3. Réticulation chimique par polymérisation radicalaire

Se «Comer» é o acto de maior influência na sobrevivência do homem, embora não o distinguindo das necessidades básicas de todos os seres vivos, «Saber» e «Querer» revestem-se de importância fulcral na definição da alteridade do ser humano em relação aos restantes animais da Criação. Neste caso, também o acto de «Fallar» é exclusivo do homem e fundamental na dinâmica da coesão social, na expressão do «eu», dos seus saberes, desejos, vontades, na aproximação ou afastamento do Outro («Quem Fallasse, e naõ brigasse.» poderá ser um desabafo sem tempo nem idade...). Falar é, indubitavelmente, uma capacidade extraordinária, susceptível de dimensionar a construção ou a destruição do mundo, susceptível de religar o homem ao divino («Quem naõ Falla, Deos naõ o ouve.»).

Em termos gerais, os adágios aconselham a contenção verbal como virtude, portanto, sinónimo de profunda humildade, temperança e mesmo sagacidade, em contraponto com a expressão oral irreflectida, incontinente, ignorante, acreditando-se que «Quem muito Falla, e pouco entende, por roim se vende.», «Fallar sem cuidar, he tirar sem apontar.», «Naõ Falles sem ser perguntado, e serás estimado.», «Entende primeiro, e Falla derradeiro.».

Nestes e noutros exemplos, a antítese falar/ calar reitera a necessidade de refrear as palavras, sendo esta a atitude mais difícil para o homem, normalmente falador em excesso e de uma forma pouco inteligente («Muito Fallar, pouco saber.», «Fallar, Fallar naõ enche barriga.»). À antítese acrescem as metáforas, que evidenciam o carácter meritório da contenção verbal, identificada com os metais preciosos ouro e prata: «O

pouco Fallar he ouro, e o muito he lodo.», «Prata he o bom Fallar, ouro he o bom callar.». Por outro lado, quando utilizadas com argúcia e precisão, as palavras transformam-se em poderosa arte de persuasão, visto que «Do traidor farás leal com bom Fallar.» e «Quem por rodeios Falla, com arte anda.», reconhecendo-se também que «Bem Fallar pouco custa, e muito val.».

Nas frases proverbiais encontramos grande variedade de qualificadores do verbo Falar, em alguns casos substantivado: «muito Falla», «bem fallar», «falla pouco, e bem», «derradeiro», «sem cuidar», «mal», «máo Fallar», «bom Fallar», «o pouco Fallar», «Naõ Falles»; e ainda a referência a dois idiomas, em «Donde veio a Pedro Fallar gallego.», «Isto he Fallar Portuguez.».

Actualmente, a imagem alusiva às dificuldades de comunicação, pela ausência de descodificação do referente da mensagem, continua a integrar a expressão de frustração ou de impaciência, por parte de um qualquer emissor: «Fallo-lhe em alhos, responde-me em bugalhos.».

Menos numerosos que os adágios referentes a «Fallar», encontram-se os 11 de «Calar». Alguns repetem os anteriores, outros possuem valor meramente iterativo, como «Ao bom Calar, chamaõ santo.», «Quem Cala, vence.», «A Mulher de bondade, outrem falle, e ella cale.».

No que diz respeito a «Ouvir» (7 adágios), valoriza-se outra qualidade imprescindível ao processo de comunicação, mas também entendida como traço de carácter meritório: «Quem bem Ouve, bem responde.», «Quem escuta de si ouve.», «Se queres ser bom Juiz, ouve o que cada hum diz.», «De grande coraçaõ he soffrer, de grande Senhor he Ouvir.». Contrariamente, os mais palradores sujeitam-se, porque «Quem diz o que quer, Ouve o que naõ quer.».

O universo normativo do comportamento humano revela a sua complexidade nas muitas formas verbais que constituem lemas desta recompilação. Fazer o bem ao próximo, manter a civilidade, ser previdente, orientar a vida quotidiana pela virtude, serão alguns dos fins a atingir pelo texto proverbial. Por conseguinte, as formas mais valorizadas dão prioridade à comunicação com os outros («Fallar», em 41 adágios já analisados), aos gestos caritativos («Dar», 38), à poupança e prevenção («Guardar», 37) e ao seu directo contrário («Perder», 34); dão prioridade ao valor do matrimónio, enquanto instituição

fundamental na organização social («Casar», 36). Relacionado com o quotidiano, o verbo «Andar» encontra-se em 36 parémias.

O acto de «Dar» é indicador do homem com bom carácter, que não esgota o que possui em proveito próprio, mas que compassivamente partilha, sem disso se vangloriar. Nas dádivas deverá observar-se alguma contenção, visto que nem todos as merecem, havendo sempre abusadores e interesseiros («Nem a todos Dar, nem a todos porfiar.», «Naõ Dês o dedo ao villaõ, porque te tomará a maõ.»). Por oposição a dar, o acto de pedir não é bem encarado, «Melhor he Dar a ruins, que pedir a bons.», «Dar he honra, e pedir deshonra.».

«Guardar» adquire os significados de manter e de afastar-se de algo nefasto, querendo os adágios evidenciar como o homem deve estar prevenido e manter-se sempre alerta para o que possa prejudicá-lo. Deve ter em conta a necessidade de poupar, para que nada venha a faltar-lhe, e neste caso «Para a parte de Fevereiro Guarda lenha.», «O enxame de Maio, quem to pedir, da-lho; e o de Abril, Guarda para ti.», «Guarda moço, acharás velho.» e «Guarda na mocidade para a velhice.», «Guarda paõ para Maio, e lenha para Abril.». Deve ter o cuidado de proteger-se e afastar-se de companhias prejudiciais, por exemplo, «A quem descobriste a cilada, desse te Guarda.», «Come com elle, e Guarda-te delle.», «Do Soldado, que naõ tem capa, Guarda a tua na arca.», «Guardar daquelles, que a natureza assinalou.», «Guarte de máo visinho, e de Homem mesquinho.». Em determinadas circunstâncias, a desconfiança deverá estender-se a outros, por exemplo, «Guarte de caõ prezo, e de moço gallego.», «Guarte de moço grunhidor, e de gato meador.», «Guarte de alvoroço do Povo, e de travar com doudo.», «As ave de bico encurvado, Guarte della como do Diabo.», «Guarte de máo visinho, e de Homem mesquinho.».

Com este conjunto de fórmulas imperativas, os adágios contribuem para sancionar um conceito de vida mais tranquilo, que afaste cuidados, facilmente antecipados pela sabedoria popular.

O casamento obriga ao convívio entre duas pessoas, frequentemente impreparadas para uma vida a dois (ou mais, pois estende-se a cunhadas, sogros, genros,...). Na avisada palavra do provérbio encontrar-se-ão úteis ensinamentos, quando o saber, sustentado pela observação das práticas quotidianas, define uma união bem sucedida a partir da conjugação de uma série de factores económico-sociais, que dispensam o factor

passional, na medida em que deprecia os sentimentos pessoais como essência do casamento feliz (claramente, a prudência alerta «Por affeiçaõ te Casastes, a trabalho te entregaste.», «Quem Casa por amores, máos dias, e peores noites.»). Consequentemente, os provérbios exortam à prudência e à ponderação («Antes que Cases, vê o que fazes, porque naõ he nó, que desates.»), mas também não convirá esperar muito tempo, se «Quem tarde Casa, mal Casa.». De qualquer modo, numa perspectiva decerto emancipada, convém não esquecer que «Para mal Casar, mais val nunca Casar.». Eventualmente, tudo estaria nas mãos do acaso, e assim «Cada hum canta, como tem graça, e Casa como tem ventura.».

Os primeiros adágios do lema «Casar» referem-se ao casamento, em termos gerais, como sinónimo de muitos trabalhos e canseiras, anunciando-o como experiência difícil e atribulada (em alguns casos possibilitadora de melhoria de vida: «Casar-me quero, terei o olho da panella, e assentar-me-hei primeiro.»). Seguidamente, encontramos alusões mais específicas, conselhos relativos aos cônjuges/ noivos de quem se esquivar (por exemplo, «Com cousa velha, nem te Cases, nem te alfaies.», «Naõ compres mula manca, cuidando que ha de sarar, nem cases com má Mulher, cuidando que se ha de emendar.», «Nem de Menina te ajuda, nem Cases com Viuva.», «Por casa, nem por vinha naõ Cases com Mulher parida.»), relativos a encargos que tornam o casamento dispendioso («Quem Casa sua filha, depennado fica.», «A quem faz Casa, ou se casa, a bolsa lhe fica rasa.»), à preferência por um noivo ou noiva conhecidos, do mesmo estatuto social, portanto, em quem se possa confiar («Com teu visinho Casarás teu filho, e beberás teu vinho.», «Quem longe vai Casar, ou vai enganado, ou vai enganar.», «Se queres bem Casar, Casa com teu igual.», «O filho de tua visinha, tira-lhe o ranho, e casa-o com tua filha.»). Alerta-se ainda para as consequências de um casamento com um velho ou com uma mulher rica e pouco atraente («Ao velho recem Casado resar-lhe por finado.», «Quem Casa com mulher rica, e fea, tem ruim cama, e boa meza.»), mas também para as más relações entre a esposa e as demais mulheres da família.

Distintas formas verbais enunciam gestos do quotidiano, que explicitam o trabalho como actividade permanente e as interacções sociais que adquirem mais relevo110: por um lado,

110

Em anexo, arrolamos as formas verbais menos valorizadas (Anexo 3).

Dormir 28 Fiar 24 Trabalhar 15 Tirar 13

e ainda

Os espaços que favorecem o convívio com os outros são a «Praça» (9), a «Feira» (5), a «Taverna» (3) e a «Boda» (12), a cerimónia com maior impacto social, promovendo os contactos interpessoais.

A experiência de vida e os saberes que o texto proverbial cristaliza derivam da atenta observação do mundo dos homens e do mundo natural, pelo que uma vasta gama de palavras-lema aponta para elementos definidores do carácter e dos estados de alma e sentimentos do ser humano. Comecemos por enunciar os mais abundantes, e, talvez por isso, aqueles que patenteiam raízes mais ancestrais:

- «Roim» (36 parémias), também grafado «Ruim» (com 7 adágios distintos dos anteriores), prefazendo 43;

- «Amor» (24), «Amar» (5) e «Amador» (1), num total de 30 parémias alusivas a este sentimento;

- «Ventura» (23);

- «Chorar» (22) e «Pranto» (1); - «Soffrer» (18).

À intenção morigeradora do texto proverbial não serão alheios os defeitos do homem, distinguindo-se a ruindade como o mais comum ou que mais interfere nas relações sociais. Se «O Roim cuida que he industria a maldade.», se «Em ruim villa briga cada dia.», então a reacção imediata das pessoas será manter a distância que evite o convívio com os maus, que se revelam igualmente abusadores e impertinentes. Outro provérbio veicula uma perspicaz imagem depreciativa, «Gente Roim não ha mister chocalho.». Como adjectivo, o vocábulo qualifica a terra, o pagador, o gado, o senhor e o servidor, o moço e a moça, a ovelha, a festa; o «Ruim ninho» é metáfora do lar.

Fazer 26 Fartar 17 Cuidar 13 Vencer 10

Tomar 26 Servir 15 Sahir 13

Enganar 17 Mentir

Mentira 15

13 Parecer 13 Prometer 11

Nestes enunciados, o uso dos advérbios «não» e «nunca» torna-se frequente (por exemplo, «A dous Roins, e dous tições, nunca bem lhe compões.», «Por cobiça de florim naõ te cases com Roim.», «Nunca Roim por compadre.»), bem como do pronome «nada» («Do bom tudo, e do Ruim, nada.»). Contudo, como os gestos caritativos pecam pela escassez, o ditado antigo já caucionou que «Melhor he dar a Roins, que pedir a bons.». O sentimento amoroso ocupa lugar crucial na definição do ser humano. Porém, a vivência do amor não é encarada pacificamente, conquanto a imagem do «Velho Amador, Inverno com flor.» exprima, com toda a economia lexical, a beleza delicada e o encanto da capacidade de regeneração que a experiência de amar concede ao homem, em todas as idades.

O amor enreda nas suas teias («Guerra, caça, e Amores por hum prazer, cem dores.», «Quem em caça, guerra, e Amores se mette, naõ sahirá quando quizer.»), não sendo a vontade própria suficiente para conseguir a libertação nem para a manutenção do segredo da paixão, cuja vivência de imediato se torna perceptível («Amor, fogo, e tosse a seu dono descobre.»). O seu poder incontrolável, por vezes irracional, consubstancia-se neste «Amor não tem lei.», justificando, portanto, redobradas cautelas. Por isso mesmo, o adagiário enumera os aspectos nefastos deste sentimento, que acarreta sofrimento, desperta ódios e vinganças («Amor, Amor, principio máo, e fim peor.», «O Amor a ninguem dá honra, e a muitos dá dor.», «Amor com amor se paga.»), embora não deixe de reconhecer as facetas construtivas do irreprimível amor («Amor de Pai, que todo o outro he ar.», «As sopas, e os Amores, os primeiros saõ os melhores.», «Hum cravo tira outro, hum Amor faz esquecer outro.», «Pelos Amores novos, esquecem os velhos.»).

Os adágios referentes a «Ventura» dão a conhecer a estreita ligação entre o efectivo desejo de felicidade e a dificuldade em assegurá-la, o que justifica a descrença que se pressente em «A Deus, e á Ventura, botar a nadar.» ou em «Vento, e Ventura, pouco dura.», porque «Quanto maior he a Ventura, tanto menos he segura.», «Mais corre a Ventura, que cavallo, ou mula.» e «Onde Ventura falta, diligencia he escusada.». Só que, como é usual, o saber popular parece encontrar mecanismos de auto-regulação para superar o abatimento provocado por tanto desalento, contrapondo aos adágios anteriores os optimistas «Vem a Ventura a quem a procura.», «Vem Ventura, e dura.», «A boa Ventura de huns ajuda aos outros.», «Bom coração quebranta má Ventura.».

De qualquer forma, é um processo indicador da necessidade de manutenção da ordem social, pela neutralização da mentalidade contestatária.

No que respeita a «Chorar», quando o acto é personalizado, os olhos que vertem lágrimas são os femininos, como havíamos constatado em momento anterior deste trabalho: «Mãi, que cousa he cazar? Filha fiar, parir, e Chorar.», «A Mulher, que se fia de Homem jurar, o que ganha, he Chorar.», «Aquella ha que Chorar, que teve bem, e veio a mal.». Sinónimo de tristeza e de desgraça, ao choro contrapõem-se o riso e o canto, para o bem e para o mal: «Folguemos em quanto podemos, outra hora Choraremos.», «Aprende Chorando, e rirás ganhando.». O texto proverbial aconselha a redução ou anulação da vivência dos sentimentos que provocam o choro e os lamentos, pela concentração no trabalho produtivo («Mais quero estar trabalhando, que Chorando.», «Naõ de olhos, que Choraõ, senaõ de mãos, que trabalham.») e pela aceitação da sua condição, fazendo acreditar que «Quem he bom de contentar menos tem, que Chorar.» e, acima de tudo, «Donos daõ, e servos Choraõ.».

Relativamente ao sofrimento, designado pelo verbo «Soffrer», é entendido como uma provação, cujo triunfo permite ao homem conhecer o seu real valor (tal como surge enunciado nas formas verbais reger, malhar, vencer, valer ou saber). Assim, «Quem Soffreo, venceo.», «No Soffrer, e abster, está todo o vencer.», «O bom Soffre, que o máo naõ póde.», «Morrer por ter, e Soffrer por valer.».

Outras formas menos abundantes reconduzem a distintos sentimentos e particularidades do carácter do homem:

Honra 11 Medo 7 Saudades 4 Villeza 3

Mesquinho 9 Rir 6 Temor 4 Zombaria 3

Vergonha 9 Riso 2 Temer 4 Affeiçaõ 2

Vergonhoso 1 Prazer 5 Zelo 4 Vingar 2

Alegria 8 Traidor 5 Malícia 3 Partilha 1

Dôr 7 Perdoar Perdaõ 4 1 Mentirosos Mentira Mentir 3 13 15 Perseverança 1

Pela análise da frequência dos lemas, encontramos uma profusa quantidade de adjectivos, que possibilitam a individualização de traços físicos e morais caracterizadores

do ser humano, de animais domésticos e de outras realidades que povoam o seu mundo. Comecemos pelos qualificadores físicos: «Fermosa, ou Formosa» (12), «Pequeno» (9), «Gorda» (10), «Duro» (10), «Feio, e Feia» (8), «Surdo» (6), «Magra» (5), «Louçã» (4), «Ruivo» (4), «Pardo» (4), «Toucada» (2), «Ranhoso» (1), «Quebrada» (1), «Requentado» (1), «Salobre» (1).

Nas parémias alusivas a «Fermosa, ou Formosa», verifica-se que o compilador não reuniu exaustivamente todos os exemplos que, mais uma vez, se encontram disseminados pela colectânea, os quais elevariam o total dos adágios apresentados. É o caso dos vocábulos grafados com -o: «Nem taõ formosa que mate; nem taõ Feia que espante.», «Soffrerei filha formosa, e muito Fea, mas naõ janelleira.», «Hospeda formosa damno faz á bolsa.», «A Mulher, que se casa por formosa, espera na velhice ter má vida.», «Menino, e moço, antes manso, que formoso.», entre outros.

Outros adjectivos qualificadores da figura feminina estão presentes em «Feio, e Feia», «Louçã» e «Toucada», pelo que parece ser ao aspecto físico das mulheres que mais atenção se presta. Unicamente no masculino, registam-se «Surdo», «Ruivo» e «Ranhoso», enquanto que «Pequeno» e «Duro» qualificam sobretudo objectos. Os restantes adjectivos caracterizam animais e objectos do universo material, que se inscrevem na vida quotidiana. Como qualificadores morais e psicológicos, distinguem-se 15 formas, também pouco valorizadas na colectânea111.