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«Não ha mal, taõ lastimeiro, como não ter Dinheiro.» (p. 91) «Aquelles saõ Ricos, que tem amigos.» (p. 247)

No cômputo das formas mais valorizadas, de acordo com o Quadro III, avulta o substantivo «Dinheiro» (40 parémias), elemento-chave no quotidiano das interacções sócio-económicas. A leitura deste vasto conjunto indicia uma relação perspicaz e sistemática com o precioso metal, que o adagiário não desmerece. Vejamos, então, o que a sabedoria proverbial afirma: o dinheiro é moeda de troca na obtenção de favores e influência («Mais abranda o Dinheiro, que palavras de Cavalleiro.», «Tudo póde o Dinheiro.», «Quem Dinheiro tiver, fará o que quizer.») e na manutenção ou aquisição de estatuto social («Bons costumes, e muito Dinheiro, faráõ a meu filho Cavalleiro.»); sendo um bem a preservar, torna aquele que o possui numa pessoa desconfiada («De quem do seu foi máo dispenseiro, naõ fies o teu Dinheiro.») que rapidamente compreende a difícil resolução de casos de dívidas («Quem Dinheiro quer cobrar, muitas voltas ha de dar.», «Dinheiro emprestaste, inimigo ganhaste.»). Através do dinheiro, denunciam-se as relações oportunistas («Mais val a velha com Dinheiro, que moça com cabello.», «Em quanto ha Dinheiro, ha amigos.», «Sobre o Dinheiro naõ ha companheiro.»); é ainda importante nas transacções comerciais, salientando-se, no que diz respeito a ofícios que envolvem pagamentos, o vendeiro, o carvoeiro, albardeiro, onzeneiro, carniceiro, ferreiro, rameira e estalajadeiro.

Afigura-se do conhecimento geral que o dinheiro, representando a posse de bens materiais, excede os bens espirituais ou morais – e o adagiário regista-o sem ressentimentos nem pudor. Longe dos princípios da mensagem cristã, a realidade tem contornos distintos: o dinheiro é útil, faz demasiada falta e permite uma vida folgada. Entre outros, confirmam-no «Amor faz muito, o Dinheiro tudo.», «Naõ ha mal, taõ lastimeiro, como naõ ter Dinheiro.», «Dinheiro he a medida de todas as cousas.», «Do Dinheiro, e da verdade, a metade da metade.», «Quem naõ tem Dinheiro, naõ tem graça.», «Traz trabalho

vem Dinheiro com descanso.». Somente dois valores o excedem, por serem desejados incondicionalmente por tantos homens: «Paz, e saude, Dinheiro a quem o quizer.».

Haverá uma ancestral incompatibilidade entre ser rico e ser bafejado pelo amor ou pela amizade, o que justifica o apelo «Querei-me pelo que vos quero, naõ me falleis em Dinheiro.».

A quantidade de dinheiro ou de bens que se possui determina os níveis de riqueza e de pobreza. De acordo com o adagiário, sobressai a condição daqueles que são sócio-economicamente desfavorecidos, em constante desvantagem face aos revezes da fortuna. Na verdade, os adágios reunidos em «Pobre» (substantivo e adjectivo) exibem sobretudo as circunstâncias marcadas pela falta de alimentos («Na casa do Homem Pobre, todos peleijaõ, e naõ sabem de que; e he porque naõ tem que comer.», «O Homem Pobre a dobrado custo come.», ou «Na boda dos Pobres tudo saõ vozes.»), pela ausência de meios de subsistência ou de bens («Assaz he Pobre, e delgado, quem conta seu gado.», «O testamento do Pobre na unha se escreve.»), que condicionam uma vida marcada pela tristeza e prostração. Por tudo isso, a sabedoria popular impôs-lhes os defeitos do oportunismo e da vileza, da preguiça e da criminalidade, consequência directa da sua pobreza, tal como enunciam «A vergonha no Pobre, fa-lo mais podre.», «De traz da porta do Pobre, toda a vileza se esconde.», «O preguiçoso sempre he Pobre.», «A Quaresma, e a cadeia para Pobres he feita.».

Estes conceitos são reiterados pelos nove provérbios com o substantivo «Pobreza»: «Quem diz que Pobreza naõ he vileza, naõ tem siso na cabeça.», «Á casta a pobreza lhe faz fazer vileza.», «A Pobreza obriga a vilezas.», entre outros. Como única redenção para esta visão determinista, talvez sirva a mensagem cristã que relembra a inevitabilidade da morte, que a todos nivela, «Na morte ninguem finge, nem he Pobre.», «Naõ ha casamento Pobre, nem mortalha rica.». Na sequência directa de tanta carestia, encontram-se os adágios compulsados em «Fóme» (15), «Faminto» (4), «Esmola» (2) e «Esmolou» (2), bem como «Divida» (3).

As desigualdades ao nível financeiro acentuam-se pela confrontação entre estas 67 parémias, alusivas aos mais desfavorecidos, e as 48 referentes aos que vivem em abundância: «Rica, e Rico» (22), «Riqueza» (1), «Fartar» (19), «Avarento» (6). Conquanto a existência do homem rico esteja facilitada no comer, no vestir e no casamento, imediatamente garantidos («Quem casa com Mulher Rica, e feia, tem ruim cama, e boa

meza.», «Se queres ser Rico, calça de vacca, e veste de fino.», «O Homem Rico, a fama casa seu filho.»), este «corre mais perigo», pelo que tem de se isolar para afastar os oportunistas. Por conseguinte, também são generalizados os defeitos da soberba, da avareza e mesmo da cobiça, apanágio dos ricos.

O verbo «Fartar», o substantivo e o adjectivo da mesma família aludem ao acto de comer ou de armazenar mantimentos, isto é, enunciam necessidades primárias de subsistência, bem garantidas aos que têm dinheiro.

Outros vocábulos contribuem para a formação de um quadro elucidativo de práticas alusivas ao equilíbrio ou às transacções financeiras:

Perder 34 Emprestar 11 Penhor 5 Preço 2

Ganhar 7 Pedir 11 Proveito 4 Fiador 2

Pagar Pagador 19 4 Gastar Gastador 11 2 Contas 4 Moeda 2

Comprar 14 Bolsa 10 Divida 3 Real 2

Elemento importante nesta estrutura, o «Ouro» (21) e a «Prata» (5) são indicadores de diversos tipos de fortuna.

Por oposição ao acto de guardar ou de ganhar, nos provérbios recordam-se as circunstâncias que levam o homem a «Perder». As perdas tanto podem ocorrer em termos materiais como morais, sendo estas as mais penosas socialmente, se considerarmos que «Mais val Perder-se o Homem, que o nome, se elle he bom.», «Perca-se tudo, e fique a boa fama.». Perdem-se o «siso», a «capa», a «venda», os «barrís», as «graças», o «bem», «lã», «tempo», «carne», «raçaõ de Paço», «sopa», o «mês», «cavalo», «honor», «paõ», «sabor», «amigo». Testemunham, assim, as dificuldades do quotidiano, que condenam o homem a perder, a pedir, a gastar, a contrair dívidas, a abrir os cordões à bolsa para saldar contas, com as poucas moedas que conseguiria arrecadar.