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La régulation post-transcriptionnelle (PTGS) et les différents types de petits ARN associés à la PTGS

D’apr s Bolog a et al.

C. Les heterochro atic siARNs

4.3. Les petits ARN non codant chez les plantes

4.3.1. La régulation post-transcriptionnelle (PTGS) et les différents types de petits ARN associés à la PTGS

Como já havia anunciado anteriormente, existe uma série outra de objetos que compõem as casas xukuru, especialmente as salas, que são chamados, assim como os santos, as velas, pimentas e crucifíxos, de enfeites. Dentre os enfeites, o que é comum a

todos são lembranças trazidas do Juazeiro do Norte, Ceará. Devotos de Padre Cícero, anualmente os moradores organizam ao menos duas excursões ao Juazeiro, que ocorrem em dezembro e reúnem cerca de 300 pessoas. São pessoas que vão pagar promessas, cumprir penitências, fazer pedidos e visitar a cidade, reconhecida como um dos lugares mais belos pela profusão de santos ali encontrados. Mas a ida ao Juazeiro não é aleatória: apenas pessoas que são chamadas por Padre Cícero, através de um sinal que se manifesta para os Xukuru a partir de uma ideia fixa na viagem, vão. A partida dos romeiros é algo marcante: a população se reúne na rua, em frente a uma estátua do Padre, e se despede dos amigos e familiares com uma mescla de pesar e alegria, marcando a dor da separação. Todos rezam e pedem que a viagem seja tranquila e para que os viajantes retornem para as suas casas em segurança. No momento da partida, os que ficam pedem que sejam lembrados. E isso não deixa de acontecer, seja através de pedidos que são feitos em nome de terceiros pelos romeiros, seja através das imagens que são trazidas benzidas e dadas de presente.

Relatos sobre parentes e amigos que trouxeram lembranças do Juazeiro se multiplicam. Em todas as casas existe ao menos uma recordação trazida de lá. O que gostaria de enfatizar aqui é aquilo que se revela através de enfeites como aqueles trazidos do Juazeiro: eles são capazes de conectar pessoas a lugares em que, eventualmente, jamais estiveram. Além disso, trazem consigo a força desse lugar. E, por fim, apontam para relações que compõem as casas xukuru, mas que nelas não estão presentificadas através de pessoas, mas sim por meio dos enfeites que a elas se referem. As associações entre enfeites – pessoas – lugares são mais comuns quando se trata de enfeites trazidos de fora da aldeia, sobretudo por parentes que estão vivendo em lugares fora da Terra Indígena – fato muito comum na Vila de Cimbres: todas as famílias têm ao menos um parente trabalhando fora, em municípios próximos ou distantes, especialmente em São Paulo. Não se trata apenas de relações que estão ativas, por assim dizer (e aqui não me refiro aos mortos, mas às relações que acabaram suspensas pela falta de contato, essencial para a constituição daquilo que os Xukuru chamam de parentes): mesmo pessoas com as quais os moradores das casas há muito não falam estão presentes nos enfeites ganhos e são rememorados na medida em que se fala sobre eles.

No entanto, no mais das vezes se trata de relações ativas, através de telefonemas, cartas e destes mesmos enfeites, continuamente levados nas visitas que os ausentes fazem a Vila de Cimbres. Em casos de coisas passíveis de serem quebradas, as caixas

também são guardadas, como ocorre na maior parte das vezes com presentes que são dados às crianças. Entra aqui também, como já colocado, a relação com parentes mortos, que se perpetua através de seus objetos que se transformam em enfeites ou aqueles que ficam guardados como lembrança.

Estes são apenas alguns exemplos de como, para além de apontar para um tipo específico de pessoa ou de serem protetores das casas, como se dá através dos santos, relações estão implicadas em enfeites. Não obstante, não é apenas disso de que se trata. Em algumas situações, como de ausências prolongadas e a morte, os enfeites são a própria condição de que tais relações se mantenham, a sua condição de continuidade. As fotos de parentes que não residem na aldeia parecem falar sobre um movimento semelhante. Dona Renata, uma senhora cuja maior parte dos filhos mora em São Paulo, certo dia me disse que as fotos de seus filhos que povoam as paredes de sua casa eram uma maneira de senti-los mais perto. Não apenas isso: disse que todos os dias, ao assistir à missa que passa em um canal da televisão, quando o padre pedia a paz, ela pedia a paz de todos os filhos que estão nas fotos e abençoava-os. Algo parecido ocorria na casa em que fico hospedada: a dona da casa tem um neto recém-nascido que mora em São Paulo. Todos os dias a escutava conversando com a foto do neto com a voz e a entonação típica com que os Xukuru se dirigem a crianças de colo.

Além de enfeites presenteados por pessoas que moram em lugares distantes, existem aqueles que são dados por pessoas que moram na aldeia. Nesse caso, tais enfeites e, junto deles, porta-retratos destas mesmas pessoas, apontam para alianças que atravessam as casas, como que as expandindo às pessoas que nelas não residem. A questão está diretamente ligada à forma através da qual o parentesco é pensado e atualizado entre os Xukuru: na medida em que se trata de um sistema bilateral, todo casamento e os futuros filhos por ele gerado colocam duas famílias, ou seja, como será visto, “dois sobrenomes” em relação e, simultaneamente, cria aquilo que os Xukuru chamam de família em um sentido mais forte – que coincide com a organização de quem mora nas casas xukuru: pais e seus filhos. A força da noção de família enquanto sobrenome está diretamente ligada, aqui, a sua capacidade de fazer com que as casas que se formam estejam a ela associadas, que atualizem o sobrenome. Reciprocamente, ser considerado de uma família de sobrenome forte é uma forma de prestígio pessoal.

Aqui encontramos novamente os enfeites. Pois se estamos diante de um sistema em que a manutenção dos sentidos da noção de família depende de como relações serão operadas e se, necessariamente, isso está arraigado em um sistema que prevê a

separação e reagrupamento dessas pessoas através dos casamentos, as pessoas se fazem presentes através dos enfeites que dão aos seus parentes, e as famílias enquanto sobrenome através de fotografias espalhadas na casa. Lembrar de alguém é uma das atitudes esperadas por um bom parente e, ao mesmo tempo, uma forma de manter essa relação. Ter presentes de parentes em casa é um sinal de ser membro de uma família extensa, de uma família importante.

Existem, também, enfeites que são comprados. Como já havia indicado anteriormente, as casas dos trabalhadores assalariados são repletas de utensílios domésticos que não são regularmente utilizados e, enquanto tais, são chamados de enfeites. Essas pessoas, em sua maioria, coincidem com aquelas que fazem parte de famílias importantes na aldeia. Sendo assim, uma série de relações, cuja natureza é mais complexa do que uma simples causalidade, se conectam através dos enfeites e por eles são evidenciadas: não se trata, apenas, de pessoas que possuem a capacidade de acumular por ter emprego; tampouco de ter emprego por ser de uma família importante. Ser ou não de uma família importante não é algo estático ou automático: é preciso a mobilização dos laços de parentesco em favor disso, ser aceito por essa família enquanto tal e, simultaneamente, ser assim reconhecido pelos demais moradores da aldeia. Algo que deve ser continuamente produzido.

Ao lado dos enfeites comprados, é comum encontrar troféus e diplomas escolares. A disposição destes enfeites, nas salas das casas, compõe o cenário até agora exposto: eles também são parte e produzem seus moradores, além de corroborarem na produção de uma imagem objetivada que deles é feita por aqueles que os visitam (nunca estática, como já anotado).

Nas salas das casas também é comum encontrar enfeites que se relacionam ao processo de retomadas das terras narrado no capítulo anterior. São fotografias, especialmente do cacique Xicão, quadros e matérias de jornais e revistas, que ficam dispostas nas casas daqueles que se envolveram mais ativamente no processo. Através desses enfeites, as pessoas me narravam o seu envolvimento com a luta, especialmente em relação à situação que viviam nos dias atuais: no caso daqueles que melhoraram de vida, por assim dizer, isso aparece como um reconhecimento e uma contrapartida de seus feitos na luta, não apenas mundano, por parte das lideranças, mas, sobretudo, espiritual; entre aqueles que se sentem atualmente prejudicados, não pelo lado espiritual, mas pela dinâmica interna às lideranças que, supostamente, privilegiam só algumas pessoas (ver a discussão do próximo capítulo), esses enfeites aparecem

simultaneamente como adesão e cobrança por aquilo que fora prometido e que não está sendo cumprido. Em ambos os casos, a figura de Xicão passa por outros caminhos. Ele não foi apenas uma grande liderança, que deu início ao processo de retomadas das terras, favorecendo aos que se relacionam com a sua imagem um eventual papel dentro desse processo – o que não deixa de acontecer. No entanto, ele também é tido por muitos como alguém que, por conta de seus feitos em vida, se tornou um encanto de luz quando foi assassinado. Enquanto encanto, sua imagem é colocada ao lado das imagens de santos, que são capazes de cuidar da vida dos moradores da Vila de Cimbres e por eles intervir em momentos de aflição, atraindo coisas boas para as suas casas e, assim como já anotado para os demais enfeites que se relacionam aos santos, produzindo pessoas boas.

Nesses termos, os enfeites são um sinal de um tipo específico de pessoa, e também a condição da sua manutenção enquanto tal – assim como ocorre com as demais relações que os atravessam. No entanto, trata-se de um cenário que está sempre aberto a se transformar e, nesse sentido, antes de usar o verbo ser para caracterizar os enfeites, seria mais prudente o uso do verbo estar: já havia feito menção a essa questão ao falar dos santos, que podem ser protetores ou perigosos, a depender das conexões que estão sendo mobilizadas. O mesmo pode ser dito para o acúmulo de enfeites, que falam sobre uma conexão familiar e política de prestígio, mas que podem também ser a atualização da sovinice e, sobretudo, do controle excessivo de poder.

Mas nem santos, nem enfeites, podem ser simultaneamente duas coisas: o que existe são composições entre pessoas, enfeites, política, parentesco e religiosidade que criam perspectivas (no sentido proposto por Viveiros de Castro, 2002a), sempre abertas a novas conexões, mas irredutíveis a outras perspectivas, produzidas por outras composições: um enfeite, um objeto, uma pessoa, nenhum deles é, mas são pensados a partir das relações que engendram e do efeito destas relações em outras composições, em outras perspectivas que são elas mesmas compostas por outras relações – por isso que irredutíveis a uma perspectiva englobante ou totalizadora.

Os demais autores, ou donos, do mundo xukuru ajudam a pensar sobre a questão. Eles aparecem de forma mais dispersa na fala das pessoas e, eventualmente, também são chamados pelos Xukuru de santos, mas são comumente referidos como entidades ou espíritos. Essas imagens aparecem, na maior parte das vezes, em casas de pessoas que possuem algum tipo de relação com a mediunidade, palavra que designa aqueles que são capazes de se relacionar de uma forma particular com o mundo dos

mortos – seja para pessoas que possuem o “dom de baixar espíritos” em seus corpos, seja para pessoas que são genericamente consideradas possuidoras de ciência41, o que indica aqueles que possuem algum tipo diferenciado de contato com os mortos, sem necessariamente possuírem a capacidade de incorporá-los em seus corpos.

Aqui encontramos imagens que, tradicionalmente, são tratadas por pesquisadores enquanto integrantes de religiões afro-brasileiras, tais como o candomblé e a umbanda. Os Xukuru reconhecem essas religiões como lugares possíveis de atualização de entidades semelhantes àquelas por eles utilizadas. De forma geral, dizem que se trata da mesma coisa, apenas com nomes distintos. Referem-se a esse tipo de religião como espiritista, e marcam um afastamento apenas em relação às práticas que envolvem a morte de animais.

As casas dessas pessoas (aproximadamente uns 30 moradores da Vila de Cimbres) não é menos repleta dos santos já inventariados. Mas, junto deles, normalmente dispostos em uma mesa branca, podemos encontrar imagens como a de Iemanjá, “rainha dos mares”, “dona das águas”, também conhecida como Virgem da Conceição. Segundo me explicaram alguns médiuns, os nomes dessas entidades são nomes indígenas, com um equivalente nos santos por conta da perseguição mobilizada por brancos aos negros e índios que não seguiam os preceitos do catolicismo – ainda que, do seu ponto de vista, não exista qualquer incongruência entre as entidades e os santos, entre os espiritistas e os católicos. A questão não é simples, pois a maior parte dos moradores da Vila de Cimbres é reticente quando questionada sobre tal equivalência. Os médiuns ocupam uma posição ambígua na aldeia e, sobretudo, são temidos. Mas isso não quer dizer que sejam desacreditados. Seus trabalhos são muito procurados, em surdina. Além disso, são poucas as vezes que se coloca em questão a veracidade de suas ações: o que está sempre em dúvida são os tipos de forças que estas pessoas estão mobilizando.

41

Ciência remete a tudo aquilo que permeabiliza as fronteiras entre o mundo dos vivos e o mundo dos espíritos. Ter ciência, por exemplo, significa ser uma pessoa que possui a capacidade de se relacionar com os mortos, mas também ter acesso a um tipo de conhecimento que só eles possuem.