Segundo Privitera (2010), o turismo do vinho é capaz de dinamizar a competitividade de um território, incrementar e melhorar a produção vinícola, respeitar o meio-ambiente e melhorar as condições de vida dos moradores. O enoturismo está se configurando nos últimos anos como uma via complementar de criação de empregos e geração de riquezas
nas zonas rurais, isto porque o vinho é um elemento interessante para o turismo por três razões principais: incrementa os fluxos turísticos, cria uma importante imagem de destino turístico de qualidade e serve para desenvolver a localidade (Szivas, 1999).
Para Privitera (2010), o enoturismo pode ser compreendido por suas dimensões culturais e rurais, pois na pós-modernidade tem-se constatado um maior interesse do homem pelas histórias locais, pela aproximação com a natureza e com a ―cultura rural‖, uma busca pelas ―suas raízes‖, de forma a satisfazer suas necessidades por ―identidade‖. Neste sentido, Privitera (2010) acredita que a ligação da agricultura com o turismo é necessária para proteger e aproveitar seu patrimônio como uma ferramenta de interconexão entre produtos locais, o campo, as tradições os valores culturais. Maffesoli (1995) sublinha que a humanidade se sente frágil, levando o homem a buscar segurança, por locais onde se sinta ligado à terra, à sua origem, mas, ao mesmo tempo, como refere o autor, se vive uma ―surrealidade societal‖, com os indivíduos buscando a novidade constante com o intuito de viver intensamente o presente. Essa visão hedonista, segundo Maffesoli, caracteriza-se pela valorização dionisíaca, em que viver a vida se torna o lema da pós-modernidade. Por isso, ao mesmo tempo em que as pessoas vêem no enoturismo um retorno ao campo, ao imaginário da vida simples e tranquila, marcada por relações pessoais duradouras, encontram também a diversão, os valores dionisíacos, o relaxamento e o prazer. O enoturismo possibilita que se vivenciem os três arcaísmos da pós-modernidade, na análise de Maffesoli: o retorno de Dionisio caracterizado pelo―reencantamento do mundo‖, a tribo e o nomadismo. Trata-se de se entusiasmar em comum e no presente, sem se preocupar com o futuro‖ (Maffesoli, 1995).
Em parte, esta dimensão reforça o interesse do presente estudo, ao centrar-se nas quintas de enoturismo, como locais onde se desenvolve a agricultura, e ao mesmo tempo, se desenvolvem serviços para atender aos visitantes, desempenhando um papel importante quando preservam e respeitam os valores e as histórias regionais. A integração vinho e turismo, representando a conexão entre agricultura, vinhedos e visitantes, é representada pelo enoturismo como uma parte das estratégias de desenvolvimento rural (Privitera, 2010). As quintas são o ponto de encontro, a intersecção e a razão de ser do enoturismo, como local de cultivo da vinha e de produção do vinho, do patrimônio do vinho e de recepção dos visitantes. O enoturismo caracteriza-se pelo conhecimento da história do vinho, dos costumes locais, da arquitetura, do artesanato, enfim da cultura ordinária, dos acontecimentos rotineiros, das histórias pessoais, nas visões de Williams (1992), Hoggart (1998) e Thompson (1987).
Para Privitera (2010) o enoturismo realiza-se no meio rural, e em particular nos territórios economicamente mais desfavorecidos, pois geralmente estes conservam o que é genuíno e autêntico, com poucas alterações substanciais. Com base nesta afirmação, pode-
se depreender que as quintas ao potencializarem o enoturismo contribuem de forma significativa para a redução do êxodo rural e para a proteção do patrimônio cultural. É primordial que o enoturismo, através das quintas, tenha como premissa a defesa e a valorização do patrimônio natural e cultural do vinho, através das seguintes ações (Getz, 2000; Privitera, 2010):
a) O respeito pela capacidade de carga da localidade, de forma a se adotarem medidas específicas para garantir a continuidade do desenvolvimento turístico, respeitando as particularidades do território;
b) A contribuição do turismo para a manutenção e valorização do patrimônio, definindo-se sistemas que permitam o desenvolvimento do turismo mas, ao mesmo tempo, a conservação e a valorização do patrimônio cultural do local; c) O desenvolvimento econômico e social, fundamentado no apoio à economia
local. Os benefícios advindos com a atividade devem retornar à comunidade local, através da geração de empregos diretos e indiretos, à proteção do patrimônio cultural, e melhores serviços para a população;
d) a preocupação com o meio-ambiente, através da viticultura e da vinicultura orgânicas;
e) as parcerias que são vitais para o turismo do vinho, tanto entre o próprio trade como com o poder público e demais setores da região.
Baseando-nos nas observações de campo, realizadas no Brasil e em Portugal, e nas recomendações de Getz (2000), elaborou-se uma relação dos prinicipais serviços e instalações que as quintas devem oferecer para que possam melhor atender aos enoturistas:
a) Sinalização de acesso: é fundamental que as estradas sejam devidamente sinalizadas, de modo a orientar o visitante. As placas de sinalização das rotas do vinho também são essenciais. Getz (2000) recomenda que sejam fornecidos mapas e brochuras que orientem os enoturistas sobre as localizações, as atrações da região e os serviços oferecidos pelas quintas;
b) Estacionamento: este item, argumenta Getz (2000), é fundamental e deve ser visto como parte integral da estrutura ofertada aos visitantes. Acrescentamos também, as coberturas para proteger os carros do sol e os acessos às quintas, que evitem que os enoturistas se molhem nos dias de chuva. Não se devem esquecer os acessos para os portadores de necessidades especiais, assim como para as crianças e os idosos;
c) Organização interna: as visitas devem ser planejadas e bem administradas para que não haja interferência nas atividades produtivas da quinta, e para que a visita não seja considerada pelos enoturistas pouco profissional e desorganizada. Deve haver uma orientação dos locais a serem visitados e das atividades oferecidas;
d) Design e ambiente: o próprio prédio da quinta e seus entornos são atrativos turísticos, mas Getz (2000) acrescenta que o cuidado com o conforto do visitante é essencial. Neste aspecto, alertamos para os cuidados com a segurança dos visitantes, pois muitas quintas possuem alguns locais de difícil acesso, como escadas e locais escuros, que devem ser evitados por crianças e pessoas com dificuldade de locomoção;
e) Recepção: como expõe Getz (2000) a recepção é a porta de entrada da quinta, e portanto, a primeira impressão que estes visitantes terão, mas além das questões de organização e decoração, há que se preocupar com os profissionais responsáveis pelo atendimento incial aos visitantes;
f) Salas de prova: é um dos locais mais procurados pelos visitantes, e por isso, merece atenção por parte dos gestores das quintas, de forma a facilitar as degustações com mobília confortável, utensílios apropriados (especialmente os copos) e profissionais atenciosos e preparados para informar os enoturistas; g) Sala de eventos: esses ambientes devem ser planejados e dotados dos
equipamentos adequados. Os eventos também podem ser realizados ao ar livre, aproveitando a paisagem onde se encontra a quinta, mas faz-se necessário um espaço organizado e preparado para imprevistos como mudanças bruscas de tempo, a exemplo de chuvas que podem inviabilizar os eventos;
h) Restaurantes: algumas quintas são dotadas de restaurantes, e isto torna-se um diferencial importante quando as propriedades se localizam em áreas distantes dos centros;
i) Loja de vendas dos vinhos: além dos vinhos, Getz (2000) refere que as quintas podem oferecer produtos artesanais, ―souvenires‖ ligados ao vinho e outros produtos da quinta, como azeites e sucos de uvas;
j) Áreas de lazer: piscinas, parques infantis, áreas para piqueniques e locais para descanso são componentes que aprimoram a satisfação dos visitantes;
k) Visitas na quinta com guia: durante as visitas é essencial a presença de um guia, que conheça a propriedade, sua história e que também tenha conhecimento sobre as questões vitivinícolas. Os guias devem ter domínio de idiomas (além do nativo) de acordo com o perfil dos visitantes;
l) Quartos para pernoitar: os quartos são essenciais principalmente em quintas que se localizam distantes de hotéis, a exemplo do Douro. Além disso, muitos visitantes que estão conduzindo seus próprios veículos precisam pernoitar para que possam consumir o vinho sem conduzir depois;
m) Acessibilidade para portadores de necessidades especiais: deve haver uma preocupação para que visitantes com necessidades especiais possam usufruir da visita sem impedimentos ou constrangimentos.