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Analyse du premier programme

O Vale do São Francisco localiza-se no nordeste do Brasil, entre os paralelos 8º e 9º S, o mais baixo paralelo do mundo a produzir vinhos, com clima tropical semi-árido e

pluviosidade de aproximadamente 500 mm, concentrada entre os meses de janeiro a abril (Agência de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco- AD Diper). Utilizaremos, neste trabalho, a denominação Vale do São Francisco, adotada pela maioria (senão pela totalidade) das publicações sobre enoturismo, para nos referirmos ao Submédio São Francisco, uma parte do Vale formado pelos estados da Bahia e de Pernambuco.

Devido ao clima seco, com temperatura média anual em torno dos 26ºC, as videiras do São Francisco encontram-se em atividade constante, propiciando a colheita de até duas e meia safras ao ano, fazendo da região o maior produtor de uvas de mesa do país. A região possibilita a produção de brancos aromáticos e leves que devem ser consumidos em dois anos, tintos tânicos, com consumo até quatro anos, além de espumantes com acidez. As castas mais utilizadas são, entre as tintas, syrah, cabernet sauvignon e ruby cabernet, e entre as brancas, moscato canelli e chenin blanc (Leão et al, 2013).

Embora já existissem no século XVI registros de cultivo de videiras pelos colonizadores europeus, a vitivinicultura na região do Vale do São Francisco se desenvolve em 1970, inicialmente na Fazenda Milano, originando a Vinícola Vale do São Francisco e a Vitivinícola Lagoa Grande (Falcade, 2005). Em 1960, segundo a autora, já existia o cultivo de videiras, mas para a produção de vermute pela empresa Cinzano. Ainda na década de 1970, chegou à região Mamoru Yamamoto, que começou a plantar uvas na fazenda Ouro Verde, e, em 1983, iniciou testes de vinificação com a consultoria do enólogo Idalêncio Francisco Angheben: ―o entusiasmo o levou a adquirir uma segunda propriedade, então na cidade de Casa Nova, na Bahia. Foi essa a estrutura que as vinícolas, Miolo e Lovara viriam a comprar, em 2001‖. (Roloff, 2009). Em 1986 teve início a produção de vinhos Botticelli, com 500.000 litros ao ano, em Casa Nova (Bahia), assim como a produção dos vinhos Vale do Cactus. Destaca-se também a instalação da Fazenda Ouro Verde pelo Miolo Wine Group na Bahia, com visitas à vinícola, cursos de degustação, vendas no varejo e a inauguração da cantina, em 2008 (Barbosa, 2009). Em 2003 foi implantada a Vinibrasil, subsidiária da portuguesa Dão Sul, em parceria com a Expand, uma distribuidora de vinhos sediada em São Paulo. A Vinibrasil, que faz parte do grupo Global Wines, foi criada com o objetivo de produzir vinhos de padrão internacional, para exportação, a partir do Vale do São Francisco (Jarocki, Oliveira e Sá, 2014).

O enoturismo encontra-se em desenvolvimento na região, com alguns roteiros que vêm sendo implementados no Vale do São Francisco, a exemplo do roteiro Enofluvial que oferece aos turistas a oportunidade de chegar à vinícola Ouro Verde a bordo de uma barcaça ou através de um vapor denominado ―Vapor do Vinho‖. Além de outros atrativos como o Museu da Irrigação (em Orocó), o espaço Casa de Farinha (em Santa Maria da Boa Vista), a Moscamed Brasil (biofábrica de moscas da fruta em Juazeiro) e a Festa da Uva e do Vinho em Lagoa Grande, considerada a capital da uva e do vinho (AD Diper, 2011).

De acordo com a AD Diper (2011), o Vale na área de produção vinícola é um roteiro único no mundo com uma imagem diferenciada, que é visto como exótico ao produzir vinhos e por isso desperta tanta atenção. A Agência recomenda, em seu planejamento estratégico voltado ao aprimoramento do Vale, a realização de estudos acerca do enoturismo na Região Demarcada do Douro (Portugal) e no Vale do Rhône (França), como forma de conhecer as melhores práticas internacionais.

Uma das principais contribuições do enoturismo na região é possibilitar que os visitantes conheçam, através do vinho, os atrativos naturais, históricos e culturais do Vale do São Francisco, e com isto, permitir um maior contato entre os visitantes, o meio rural e a população local, contribuindo para a preservação de aspectos tradicionais da região. A importância atribuída ao enoturismo tem motivado diversas iniciativas com o intuito de fortalecer a imagem do Vale do São Francisco, como destino turístico (Galvão, 2006). Além disso, o enoturismo no Vale tem possibilitado o desenvolvimento no interior de dois estados com grande fluxo turístico concentrado na zona litorânea, o que traz uma importante contribuição socioeconômica para estados com grandes deficiências na renda per capita e na geração de empregos, e assim, portanto na fixação do homem e na preservação de suas tradições.

O Vale é uma das imagens mais divlugadas do Brasil no exterior, não só pelo clima, mas pelo cultivo e pioneirismo. É o diferencial mundial do Brasil em produção vitivinícola, pois se imaginar que o Brasil elabora vinhos já é um diferencial no exterior, quando se fala em paralelo 8 e duas safras ao ano o impacto é ainda maior (Robinson, J., 2010). Como afirma a expert Jancis Robinson, há os novos pontos no mapa do vinho, como o Vale do São Francisco, que podem ser definidos como os 'novos vinhos' de latitude (Robinson, J., 2010).

A paisagem dos vinhedos em contraste com a caatinga, além do artesanato em madeira, das carrancas, das rendas, do vocabulário típico da região, da carne de bode e do queijo de cabra, assim como a experiência de ver todos os ciclos da videira em apenas uma visita, pois há plantas em poda, brotação, maturação, além da colheita, constituem atrativos enoturísticos da região (AD Diper, 2011). Acrescidos a estes atrativos temos a Festa da Uva e do Vinho, em Lagoa Grande, já consolidada no calendário anual do município, ocupando o segundo final de semana de outubro, e a implantação da Enoteca, um centro de capacitação, divulgação e preservação da história do vinho no Vale (Galvão, 2006).

A maioria dos gestores e investidores das vinícolas são imigrantes europeus ou migrantes do Rio Grande do Sul, que já atuavam no setor da vitivinicultura em seus lugares de origem. No primeiro caso, podemos mencionar os produtores vindos de Portugal, como é o caso da Dão Sul, uma das proprietárias da Vinibrasil, e no segundo a Miolo, originária do Vale do Vinhedo (Leão et al, 2013).

Ao se comparar o enoturismo no Vale dos Vinhedos (VV) e no Vale do São Francisco (VSF), ficam evidentes as diferenças nas questões ligadas à vitivinicultura e às tradições em torno do vinho. Quanto à organização produtiva, percebe-se uma clara distinção entre as duas regiões, pois no Vale dos Vinhedos a divisão das terras foi em minifúndios financiados pelo governo aos novos colonos, a partir da metade do século XIX (Zanini, 2007). Essa divisão territorial é mantida até hoje, e grande parte da produção de uvas provém de pequenas propriedades rurais, exploradas por famílias de origem italiana (Zanini, 2007). No Vale do São Francisco, o modelo é o de grandes extensões de terra, cujos investidores exploram a mão-de-obra assalariada para o trabalho braçal (Zanini, 2007).

A relação entre o enoturismo e a cultura local, é compreendida pela análise de Falcade (2005), que considera que a vitivinicultura e, o enoturismo, portanto, são a expressão da identidade da sociedade que a produz. No caso do Vale dos Vinhedos, ligados aos valores culturais da imigração italiana, enquanto a viticultura recente do Vale do São Francisco, expressa a sociedade técnico-científica-informacional dos dias atuais. Essas diferenças refletem-se no tipo de enoturismo (Zanini e Rocha, 2010). Não se pode analisar o enoturismo sem atrelá-lo à vitivinicultura, pois é a ―vitivinicultura que produz a paisagem, o produto e os atrativos que alimentam essa forma de turismo‖, e por isso, conhecer o enoturismo em duas regiões tão diferentes traz a oportunidade de entender a ―diversidade de culturas, de paisagens e de histórias que caracterizam o Brasil‖ (Zanini e Rocha, 2010, 87).

É fundamental evitar a imposição ou transferência do modelo enoturístico desenvolvido no Vale dos Vinhedos para o São Francisco, uma vez que as diferenças são profundas, quer geográficas quer sociais. Um dos grandes equívocos, segundo Zanini (2007), foi a tentativa de impor a cultura italiana ao povo da região, relacionar a Festa da Uva e do Vinho à cultura italiana, quando, na verdade o vinho é um tema universal. Hoje, prossegue a autora (2007), o enoturismo no Vale do São Francisco já tem identidade própria, distante da cultura italiana, e por isso, o enoturismo poderá contribuir para que visitantes conheçam, através do vinho, os atrativos naturais, históricos e culturais do Vale do São Francisco, permitindo um maior contato entre os visitantes, o meio rural e a população local, e assim, contribuindo para a preservação de aspectos tradicionais da região (Zanini, 2007).

4.6.2. Espanha: a região de Rioja

A Espanha, um dos grandes países produtores de vinho, tem sua produção vinícola baseada, em grande parte, nas pequenas e médias empresas, muitas delas organizadas em