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“Mutação é uma repentina e aleatória mudança no material genético de uma célula, podendo provocar diferenças nela e em outras células derivadas dela, em aparência ou no comportamento em relação ao tipo normal” (Concise Dictionary..., 1990: 161). Um organismo afetado por uma mutação é chamado de mutante. Segundo a literatura, mutação, em outras palavras, é uma alteração permanente de um ou vários caracteres hereditários, que surge de maneira espontânea ou provocada por vários agentes, podendo redundar na perda ou adição de um ou mais elementos. Pode se tratar de uma “mudança de extensão restrita ou moderada, que representa uma fase típica na evolução gradual de um organismo”.

Diversos autores falam em mutação no ambiente midiático, sem conceituá-la exatamente. Gostaríamos de trazer o conceito das ciências biológicas para o jornalismo, fazendo as devidas adaptações. Primeiro, discorreremos sobre a evolução da teoria da célula. Depois, tentaremos mostrar como os métodos da natureza podem ser vistos dentro do campo do jornalismo. A partir desta apropriação, passamos a entender a notícia como um “organismo” passível de ser observado no próprio ambiente e no convívio com seus correlatos (os demais gêneros textuais/ jornalísticos), podendo ser classificado em tipos ou categorias de acordo com as características que apresenta. A metáfora também será útil para registrarmos as mutações que ocorrem e que contribuem para as notícias serem como são (Traquina).

Em nossa hipótese principal, a notícia é um produto cultural vivo, cujo DNA teria começado a se formar ainda na pré-história. Seu DNA é a informação, cujos elementos básicos (os cromossomos) são os fatos. A nova mutação da notícia deriva do hipertexto e de toda a revolução tecnológica que significa colocar em rede textos seqüenciados, acompanhados de imagem e de som, para uso múltiplo e comum. O HT se encontra no centro de um processo de mudança, que atingiu a notícia e altera sua aparência, o complexo de valores, o modo de produção e de transmissão.

Os estudos sobre o Ácido Desoxiribonucléico (DNA) são recentes. A habilidade dos cientistas ao analisar a composição química do DNA das células ajudou a verificar a posição de certos organismos vivos nos grupos. Espera-se que isso também ajude a classificar corretamente o que ainda será descoberto. As mais importantes bases da classificação de seres vivos incluem padrões de estrutura e função; modo de desenvolvimento; similaridade das moléculas que formam o DNA das células; adaptações dos organismos destinados à sobrevivência. Na classificação dos animais, por exemplo,

Aristóteles observou o ambiente em que viviam; o modo pelo qual respondiam ao ambiente; os estágios no desenvolvimento; a maneira como são construídos e como funcionam seus organismos. A taxonomia está ligada à base em que operam os objetos analisados.

Como sabemos, cada espécie de animal ou vegetal possui um número constante de cromossomos, responsáveis pela transmissão dos caracteres hereditários, constituindo unidades definidas na formação de um novo ser. A teoria da célula como unidade da estrutura dos seres vivos foi conformada apenas no século XIX, apesar de a célula ter sido descoberta no século XVII. Segundo Piaget, a organização do conhecimento humano constitui um desenvolvimento original da organização biológica. Começaríamos, pois, a estabelecer as primeiras analogias com a notícia a partir de seu entendimento como forma de conhecimento. Se existe um paralelo entre o desenvolvimento do ser humano e a organização biológica, também levantaríamos o argumento de que no processo de apreensão do saber acontecem fenômenos comuns entre seres humanos, plantas, moléculas e bactérias, como as mutações, por exemplo.

Segundo Dorland (1997) e Manuíla (2003), o conceito de mutação admite classificações de acordo com as características da transformação: mutação pontual (resultado da alteração de um único par de bases na molécula do DNA); somática (ocorre em uma célula somática); e supressora (mascara total ou parcialmente a expressão fenotípica de uma mutação). Mutações também acontecem por categorias: cromossômica (modificação do número, distribuição, estrutura dos cromossomos); ou gênica (modificação de um único gene ou pequeno número de genes).

Em processos de cruzamento controlado, é possível identificar genes específicos que afetam caracteres particulares, mostrando uma variação descontínua. A mais óbvia característica desses genes é que eles mutam; somente assim sua existência é detectada. Mutações acontecem espontaneamente na natureza e são resultado de um processo de milênios. Também podem ser induzidas por ionização, luz ultravioleta ou substâncias químicas (Ehrlich, Holm e Parnell, 1974: 40-41). Em uma mutação, podem ocorrer: a) mudanças no estado (sólido, líquido, gasoso); b) mudanças na composição (novas substâncias, novos produtos); c) mudanças nas propriedades (características de cor, cheiro e solubilidade); d) mudanças na energia (energia é a capacidade de fazer o trabalho).

Seria o texto na internet mais uma mutação da escrita – como viu Chalus (In: Febvre e Martin, 1992: 9-1034) -, dando seqüência às transformações que começaram na Grécia, evoluíram com o suporte, assumiram novas formas para se adequar às formas (ô) de impressão, e chegaram à tela do computador? No caso do presente estudo, nós podemos desdobrar essa pergunta da seguinte maneira: estaria a notícia no meio digital sofrendo uma mudança que dá seguimento à mutação dos processos de transmissão de informações ao longo do tempo? A notícia começou no jornalismo oral, com os primeiros relatos do homem das cavernas – ou antes, com os desenhos na pedra. Propagou-se com os pregadores e jograis, desenvolveu-se no jornal impresso e veio encontrar a tecnologia da informação e das comunicações (Tics). Parece natural que, não apenas em razão da forma física, que se modificou, como também em função do meio social, dos atores e dos processos culturais, alterações tenham sido absorvidas pelo seu corpo de origem.