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I.2   La transcription inverse

I.2.1   Le processus de la transcription inverse

“A notícia é uma realidade construída”, enfatiza Tuchman. Construtivistas são também Molotch e Lester, para quem notícias não são um espelho da realidade – são criação. A notícia vista como constructo se relaciona com o processo de elaboração, na idéia de que é um bem simbólico, destinado ao consumo universal. Como recorda Schudson, “o poder dos mídia não está só (...) no seu poder de declarar as coisas como sendo verdadeiras, mas no seu poder de fornecer as formas sob as quais as declarações aparecem” (In: Traquina, 2001: 46-49).

Se é uma construção a partir de dados da realidade (teoria construcionista), ou se é uma tradução dessa mesma realidade (teoria do espelho), o fato é que cabe ao repórter definir a estrutura do texto, tão logo esteja de posse de dados, o que não é tarefa fácil. Para montar a pirâmide, o repórter deve começar pelo lide. “O bom lead não nasce no terminal do computador: o repórter o traz da rua”, orienta o manual d´O Globo (Garcia, 1992: 9).

“O jornalista aprende a ordenar suas notas num esquema intencional”, diz Cremilda Medina (1988: 103-104). “As unidades de informação seguem um modelo consagrado e até transmitido formalmente”, continua a autora, ressaltando que “esta ordenação é uma conquista no jornalismo da fase liberal, (...) levanta toda a significação dos critérios grupais de valorização do que é importante ou não no fato” e, no nível da narração, “tem sua origem ligada à elitização do contador de histórias: à medida que domina, no plano lógico, sua arte de reportar os fatos, escolhe-os numa montagem de decorrência crescente ou decrescente”.

Desenvolveram-se, no jornalismo escrito, dois outros tipos de texto com base nesse modelo: a pirâmide normal, também conhecida como estrutura cronológica, e a pirâmide mista. Na estrutura cronológica, as relações temporais ou causais dos acontecimentos regem a estrutura narrativa, embora a modalidade encontre “baixa presença” nos diários analisados por De la Torre e Téramo (2004: 43-44). Sugere-se que o mesmo acontece na imprensa escrita de outros países, já que o relato temporal está em desuso. As pesquisadoras verificaram que La Nación escreve mais em forma de pirâmide (54%) que Clarín (41%). Clarín também utiliza a entrevista de perguntas e respostas (14%), recurso quase ignorado por Nación (1%).

Já a estrutura mista “está presente em ambos os matutinos de maneira considerável”. O sistema chamado de pirâmide mista começa com o lide apelando para os pontos-chave da história, como um lide clássico. Depois o relato se desenvolve em ordem cronológica. O redator tem permissão para usar linguagem mais livre, com descrições e riqueza de observações, pois esse tipo de texto geralmente aparece nas revistas, suplementos semanais ou fins de semana, quando se supõe que o leitor tenha tempo.

Vamos, a seguir, examinar o lide. Nos primórdios da imprensa escrita, o estilo dos artigos, como observam Vizuete e Marcet (2003: 83), “era ingênuo e coloquial”. Supunha- se que o leitor leria todo o jornal e que por isso as matérias bastavam por si sós. Depois da invenção do telégrafo, quando se passou a condensar as informações mais importantes nos primeiros parágrafos, a noção de lide se consolidou como uma peça básica da estrutura da pirâmide invertida (como também da pirâmide mista).

O lead é o primeiro parágrafo da noticia em jornalismo impresso, embora possa haver outros leads em seu corpo. Corresponde à primeira proposição de uma notícia radiofônica, ao texto lido pelo apresentador ou à cabeça do repórter (quando ele aparece falando) no início de uma notícia em televisão. O lead é o relato do fato principal de uma série, o que é mais importante ou interessante. Em sua forma clássica, e impressa, é uma proposição completa no sentido aristotélico (Lage, 1985: 26-27).

Não pretendemos ser exaustivos neste pormenor. Alinharemos, todavia, alguns tópicos para o entendimento do lide como parte fundamental da notícia. Conta-se que somente em 1892, quando o formato de pirâmide estava em pleno uso nos Estados Unidos, um editor do Chicago Globe passou a orientar os repórteres a responder a algumas perguntas no primeiro parágrafo da notícia (Jorge, 2004). A partir daí, as questões (de Quintiliano) tornaram-se uma exigência. Burnett (1976: 37-38) discute:

Não existe nenhuma norma que imponha critérios inalteráveis à apresentação das respostas às perguntas no lead. Só no pelo-sinal é que as palavras são distribuídas em ordem inflexível. No lead, há liberdade. É certo que toda liberdade se autolimita, mas é certo também que o espaço contido entre as cinco linhas de um texto é suficiente para abrigar o talento de quem o possui, sem a necessidade de revogar os fundamentos básicos da notícia.

Hoje em dia, sabe-se que o lead, entrada ou entradilla (nos países de língua hispânica) é insuficiente para abarcar a resposta a todas as perguntas. O Jornal do Brasil criou, nos anos 1970, o sublead, correspondente ao segundo parágrafo da notícia. “Seu efeito é apenas visual e, como objeto decorativo, é prescindível”, diz Lago Burnett, antigo redator do matutino, apontado precisamente como o inventor do sublead. Produto de uma das reformas gráficas do JB, o bloco composto por lead e sublead – para usar a grafia da época, antes de ser dicionarizada – vinha no início da matéria, em destaque (negrito ou itálico), logo abaixo do título, e o corpo começava com um entretítulo. Era uma fórmula muito confortável para os repórteres, quando aprendiam a manejá-la (Matérias em duas colunas..., 1980) e podia ser representada como no Gráfico 1. Este seria o esquema para uma matéria de 30 linhas, em parágrafos (blocados) de cinco linhas cada um:

Gráfico 1 Esquema da pirâmide Lide Sublide 5 linhas 5 linhas Entretítulo

Corpo da matéria 15 linhas

Fecho 5 linhas

A seleção dos dados que vão para o lide é uma das tarefas difíceis do processo de produção das notícias. “Toda reportagem deve ser iniciada com a informação que mais interessa ao leitor e ao debate público (o lide)”, diz o manual da Folha (2006: 28), para

destacar que “o lide tem por objetivo introduzir o leitor na reportagem e despertar seu interesse” e isso “pressupõe que qualquer texto publicado (...) disponha de um núcleo de interesse, seja este o próprio fato, uma revelação, a idéia mais significativa de um debate, o aspecto mais curioso ou polêmico de um evento ou a declaração de maior impacto ou originalidade de um personagem”.

Parece relevante mostrar que os novos manuais não são tão exigentes quanto à idéia de as perguntas constarem no lide. Fedler (2001: 131), por exemplo, aponta: “Cada matéria deve responder às cinco questões.(...) O lead, entretanto, não é o lugar para responder a todas elas.” Entre as mudanças que o lide enfrentou – desde a invenção do sublide até as novas modalidades de layout, que estão a mudar-lhe a feição – uma delas foi a tentativa de forçá-lo a ser criativo; outra foi a de eliminá-lo, na suposição de que ele é supérfluo. Porém, “o tratamento de um texto varia conforme os seus valores factuais”, recorda Burnett (1976: 35, 38), exemplificando: “A leveza que se sugere para uma notícia sobre um espetáculo de ballet não funciona na elaboração de uma reportagem sobre a reunião do Conselho de Segurança Nacional”. Esse autor também aconselha que “não devemos confundir exatidão com estagnação. A meta fundamental da notícia é a exatidão, daí a validade, sempre renovada dos elementos do lead”.

No presente trabalho, preferimos simplificar as denominações, utilizando os termos: Pirâmide Regular (PR), para a pirâmide invertida com todos os requisitos: texto informativo isento de opinião, com lide e parágrafos regulares, emprego da terceira pessoa; Pirâmide Irregular (PI), quando contém blocos em tamanhos desiguais; e Pirâmide Mista, quando existe um lide, mas o corpo tem formato cronológico (ou outro). Se o texto não se enquadra no modelo preferimos qualificá-lo como texto coloquial. O lide também apresenta diferenças (gráficas e de estilo) nas páginas jornalísticas digitais, como constataremos na observação do material empírico. Ele pode aparecer em destaque (negrito, cor ou corpo diferente), adotar a forma clássica ou ser mera repetição da chamada de capa da Home. Geralmente, as matérias não dispensam o lide, que se reafirma como uma maneira de organização dos dados, além de manter o estilo já familiar ao leitor.