Chapitre 2. Actualité et raisons d’une popularité
5.2. Interprétations de la diversité et jeux des critères
5.1.2. Procédures de choix et ordres de justification
O tempo vivido no cotidiano, como a duração de uma sequência de eventos que compõem o dia a dia, acaba por constituir uma relação de desigualdade entre mulheres e homens que está intrinsecamente relacionada “às formas de sociabilidade que constituem a vida cotidiana” (ÁVILA, 2009, p. 133). Nesse sentido, Marcondes (2014) afirma que a maneira pela qual cada indivíduo vivencia o tempo e a soma das responsabilidades sociais que lhes são atribuídas é estipulada pela inter-relação de suas condições de gênero, classe e raça/etnia.
Dessa forma, entendemos que as implicações do tempo de trabalho para as donas de casa, em seu cotidiano, decorrem, em certa medida, de sua condição de gênero e das desigualdades advindas dos modos de vida em uma sociedade capitalista e patriarcal, passíveis de serem percebidas quando nos debruçamos sobre as vivências cotidianas daquelas mulheres. Cardoso (2009, p.40, grifo do autor) endossa nosso pensamento quando nos fala que:
[...] o tempo é antes de tudo uma experiência subjetiva, antes mesmo de constituir-se enquanto uma medida de duração ou um objeto de reflexão. Por sua vez, ao pensar a
16 Entendemos, de acordo com Aquino (2007, p.24) que a “flexibilidade temporal pode ser caracterizada como a
capacidade de adaptação às normas e práticas relativas à organização do tempo de trabalho, frente aos obstáculos surgidos na própria organização, entre os trabalhadores ou mesmo derivada de fatos produzidos no ambiente externo”.
experiência do tempo a partir dos sujeitos, chegamos à conclusão de que existem tempos de trabalho, tempos da família ou tempos de lazer, já que cada sujeito, cada grupo social, e cada sociedade em determinado momento histórico, irá vivenciar um mesmo tempo de maneiras muito diferentes. Isto é, se o objetivo é ir além do tempo que se coloca como dominante, então devemos analisá-lo a partir das vivências cotidianas dos sujeitos.
Em consonância com a autora, tomamos em nosso estudo o discurso das donas de casa entrevistadas como meio de acessar à experiência temporal dessas trabalhadoras, no intuito de compreender sua realidade laboral.
Em relação à realidade de trabalho da dona de casa, Ávila (2009, p.105) ressalta a dimensão servil do trabalho reprodutivo, que impõe às mulheres “um estado permanente de heteronomia quanto à organização do seu cotidiano” e que tem relação direta com a naturalização da representação feminina como seres que devem servir ao próximo, além de terem que estar sempre à disposição, cuidando e suprindo necessidades, tanto afetivas quanto materiais, “no interior do espaço familiar doméstico”.
A servidão a qual a pesquisadora se refere diz respeito à condição de disponibilidade permanente, não importando o horário do dia ou mesmo da noite em que as atividades de cuidado para com o outro sejam requeridas, resultando em um tempo de trabalho reprodutivo intermitente que perdura por todo o dia e por todos os dias, estendendo-se noite adentro (ÁVILA, 2009). Subjaz dessa realidade que o uso do tempo das donas de casa é voltado prioritariamente para as necessidades dos outros, requerendo daquelas um estado de alerta e vigília constantes para com as demandas domésticas e familiares (ÁVILA, 2009). Dessa forma, a estrutura temporal do trabalho reprodutivo se alicerça na relação social de serviço; em outras palavras, as mulheres estão constantemente a serviço de sua família, sendo desapropriadas de seu próprio tempo em benefício de seu marido e/ou filhos/as, onde a disponibilidade permanente é a representação temporal da relação de servidão.
Avançando na problemática, Bruschini (1990, p.45) alega que embora possamos afirmar que o tempo de trabalho reprodutivo seja o tempo “natural”, marcado pelo ritmo do corpo e pela disponibilidade ao grupo familiar, também poderíamos dizer que esse mesmo tempo – que supostamente poderia ser apropriado pela mulher – padece das coerções e das limitações impostas pelo “tempo da produção” que advém dos demais membros familiares que estão imersos no mundo produtivo. Nas palavras da pesquisadora, é certo que a “dona-de-casa pode imprimir seu próprio ritmo às tarefas caseiras e não está sujeita ao relógio do ponto da fábrica, mas também é certo que ela tem que organizar seu próprio tempo em função das atividades dos membros da família que estão sujeitos ao tempo ‘lá de fora’”.
Diante da complexidade de se apreender o tempo do trabalho reprodutivo, Ávila (2009, p.106) nos aponta que seu estudo demanda uma abordagem própria que possibilite a compreensão de sua lógica e de suas dinâmicas, além de dar visibilidade aos impactos do tempo de trabalho reprodutivo na estruturação do cotidiano, avançando, assim, na “compreensão do significado do tempo de trabalho na relação de exploração e dominação que o constitui”. Nesse sentido, Bruschini (1990, p.43) relata estudos de caso em profundidade com donas de casa que apontaram para a necessidade de distinção entre o referido “tempo natural” – vivido no trabalho reprodutivo e cujo limite é a fadiga – e o “tempo racional” – que seria aquele regido pelas normas da produção. Para a autora, tal distinção deixaria entrever o fato de que o “tempo natural” invade os demais espaços temporais, recortando sobre a vida, principalmente quando trata-se do lazer ou descanso, uma vez que “algumas tarefas são centralizadas, inadiáveis, e outras indelegáveis”.
Tradicionalmente, o tempo de trabalho reprodutivo é abordado em estudos do tipo orçamento-tempo, de caráter descritivos e quantitativos, que focam na importância do elevado número de horas dedicadas aos afazeres domésticos pela dona de casa como forma de medida de seu valor (BRUSCHINI, 1990). Contudo, este tipo de estudo foi criticado, em especial por estudiosos das questões feministas, por recorrerem a categorias de análise que não se adequam à esfera reprodutiva, uma vez que “nem o tempo nem o valor que se pretende extrair dele são critérios aplicáveis à prestação de serviços pela dona-de-casa na família” (BRUSCHINI, 1990, p.44). Apesar de concordamos com as críticas dirigidas a esse tipo de estudo, reconhecemos o valor destes como uma tentativa de dar visibilidade ao trabalho das donas de casa.
Sobre a questão, Cebotarev (1984) acredita que o estudo do uso do tempo, quando realizado sob um prisma mais sociológico do que cronológico, possibilita o avanço no conhecimento sobre os alicerces da organização do trabalho reprodutivo, bem como sobre os motivos e zonas de maior resistência à transformação social, que, em determinadas situações, “se traduz em uma transformação dos papéis sociais chaves” (CEBOTAREV, 1984, p.64).
Em consonância com a autora, Fougeyrollas-Schwebel (1999, p.67) nos fala que ao deixarmos de considerar exclusivamente a medida quantitativa do transcorrer do tempo e passarmos a conceber também os “ritmos que dominam a organização do dia” no estudo do uso do tempo, podemos perceber que, em verdade, não há uma oposição estrutural entre as condutas das donas de casa e as das mulheres economicamente ativas. Segundo a autora, as obrigações vinculadas aos horários laborais do esposo ou aos estudantis dos/as filhos/as assemelham-se àquelas imputadas pelo trabalho produtivo das mulheres.
Ao buscarmos entender como a duração temporal do trabalho da dona de casa se estrutura, recorremos ao pensamento de Cebotarev (1984, p.54) e à sua análise das atividades domésticas. Para a autora, as atividades domésticas deveriam ser tomadas como um “sistema semi-autônomo centrado nas atividades da mulher ou dona-de-casa, o qual é só parcialmente afetado pela situação socioeconômica da família ou da comunidade”. Tal sistema seria constituído por um grupo de afazeres destinados à produção de diversos bens e serviços intrinsecamente vinculados com a satisfação das necessidades básicas do seu grupo familiar, sejam elas fisiológicas, sociológicas ou mesmo psicológicas.
Segundo a pesquisadora, a organização da soma dos afazeres domésticos da dona de casa estaria estruturada ao redor de determinadas atividades que são imprescindíveis e obrigatórias e que acontecem em períodos específicos do dia com certa regularidade. A pesquisadora chega à conclusão de que “os fatores mais importante na determinação do padrão de atividades domésticas diárias são os que comandam a satisfação das necessidades biológicas dos membros da família: a alimentação e o descanso” (CEBOTAREV, 1984, p. 60). Dessa forma, o ritmo de descanso e alimentação de cada família determina a forma de organização das demais atividades da dona de casa. Curiosamente, cuidar das crianças e da higiene da casa não possuem a mesma influência que aquelas necessidades e acabam por se ajustar a elas de forma sistemática.
Cebotarev (1984) aponta ainda os fatores da estrutura interna familiar que parecem ser mais significativos em relação à alteração do tipo e da frequência dos afazeres domésticos, a saber: a posição ocupada pela mulher, as etapas de vida familiar e o tamanho da família. Coadunando com a autora, Bruschinni (1990) aduz que o número e a idade dos/as filhos/as são variáveis substanciais na definição da alocação do tempo das mulheres, posto que a carga de trabalho feminino no lar é mais elevada quanto mais nova for sua prole e quanto maior for o número de componentes dela.
Até este ponto podemos dizer que o tempo do trabalho reprodutivo é regido por uma disponibilidade permanente, revestida pelo manto da servidão, tornando-o intermitente, e que este gira em torno das necessidades dos membros familiares das donas de casa, em especial o descanso e a alimentação. Em um cotidiano voltado para o outro e em uma sociedade na qual “ganhar” tempo e não “perdê-lo” é uma máxima obsessiva dos indivíduos (MACHADO, 2014), questionamo-nos se as donas de casa têm um tempo que seja dedicado para suas próprias necessidades, para cuidar de si.
Numa pesquisa que investigou a questão da duração temporal do trabalho para mulheres, Machado (2014) identifica a queixa da sensação de falta de tempo para estas e se questiona:
para o que “falta tempo”? Na maioria dos casos, as entrevistadas sentiam que faltava tempo para cuidar de si (29%), sendo seguido pela falta de tempo para ficar com os filhos (18%), falta de tempo para a diversão (11%), falta de tempo para o descanso (8%) e, por fim, falta de tempo para cuidar da casa (6%). Na fase qualitativa do seu estudo, Machado (2014, p.56) inquere as mulheres sobre os momentos de cuidado de si, obtendo como resposta que estas destinavam um curto período de tempo para os cuidados próprios e que estes ocorriam por um curto período de tempo e somente após “o cumprimento de todas as tarefas cotidianas necessárias ou possíveis”. A pesquisadora ressalta ainda o fato de 22% das entrevistadas terem citado espontaneamente que não realizavam nenhuma atividade de lazer no seu cotidiano.
Marcondes (2014, p.92) corrobora com os dados da autora quando indica, em pesquisa semelhante, que a atividade que suas entrevistadas mais sentiam falta de tempo para realizarem no dia a dia era cuidar de si (58%). A autora conclui que “se as mulheres quiserem experimentar a sua subjetividade plenamente, elas precisam ter um tempo todo seu. Ou seja, elas precisam ter tempo livre para cuidarem de si, divertirem-se e descansarem. Segundo Aquino e Martins (2007, p.481), os indivíduos organizam e estruturam seu tempo livre de acordo com padrões adquiridos acerca de como devem distribuir o tempo entre as diversas atividades, que se relaciona com a forma que o sujeito “valora o sentido do tempo cotidiano para si”.
Dessa forma, parece-nos que embora a ausência de um tempo para si seja sentida pelas mulheres, o tempo do trabalho reprodutivo vem em primeiro lugar, ocupando a quase totalidade de seu cotidiano. Nesse sentido, Cebotarev (1984) entende que somente quando a dona de casa tem condições de adquirir os serviços – tempo e energia – de outras mulheres, transferindo-lhes certa porção de suas responsabilidades domésticas, é que ela pode dispor mais “livremente” de seu tempo. Infelizmente, em um país com grandes disparidades sociais, é restrito o número de mulheres que podem dispor desses serviços, além do que essa possibilidade não resolve a questão para a totalidade das mulheres, deixando sempre alguém à margem da disponibilidade de um tempo para si.
Estudar o tempo de trabalho reprodutivo de uma perspectiva qualitativa e por meio da fala das mulheres que o vivenciam no cotidiano nos parece ser a forma mais adequada para nosso estudo, pois o tempo cíclico e vivencial que buscamos apreender não pode ser simplesmente medido. Como Albarracín (1999,p.52) nos fala:
O que significa ‘uma hora de dona-de-casa’? Coisas muito diferentes, já que a tecnologia, os conhecimentos, os produtos e serviços etc. que existem em cada família, no que se refere ao trabalho doméstico, são muito diferentes entre si e não há nenhuma forma de colocá-los em comunicação um com o outro. Não há mecanismo
social que possa estabelecer a relação entre uma hora de trabalho doméstico da mulher de um peão e uma hora de trabalho doméstico da mulher de um engenheiro.
Assim, esperamos que nossa escolha metodológica para alcançar as informações junto às próprias donas de casa nos possibilite acessar a complexidade do tempo do trabalho reprodutivo das donas de casa, a fim de que possamos vislumbrar os conflitos e tensões imersas nessa vivência temporal como forma de contribuirmos para o avanço da discussão acerca dessa problemática. Dessa forma, após discutirmos a questão da duração temporal do trabalho da dona de casa, buscando evidenciar nossa escolha metodológica, passemos para descrição do caminho metodológico que trilhamos em nosso estudo para, em seguida, apresentarmos os dados obtidos.