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4.6. Inspection method 4.7.1 Range of Inspection

5.1.2 Probes and their sensitivity

1- Tive acesso à obra do Arístides Vargas através do trabalho realizado pelos Clowns, inclusive, esta dissertação é o resultado desse contato. Fale-me um pouco de quando e como ocorreu seu primeiro contato com a obra de Arístides Vargas e por que a escolha de Nuestra Señora de las Nubes para ser adaptada?

É uma longa história. Em 2003 fui, junto com alguns dos integrantes dos Clowns, ao FIT - Festival Internacional de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, na época um dos principais festivais do país. Fomos para assistir espetáculos, ter mais contato com gente de teatro, etc. Na programação do festival estava o Malayerba com Nuestra Señora, e fomos assistir. Lembro-me de como o espetáculo nos impactou, num teatro enorme (teatro do SESC de Rio Preto), palco enorme, e aqueles dois colocando o público no bolso. Foi uma experiência incrível. Ao final, fomos ao camarim conversar com eles, como sempre gostávamos de fazer, e eles nos receberam com muito carinho. E o contato com eles ficou por aí. Seis anos depois (2009) conhecemos o Diogo Spinelli, na época estagiário do SESI Vila Leopoldina, em São Paulo, que nos acompanhava na temporada que estávamos fazendo nesse teatro da obra O Capitão e a Sereia. Nessa convivência diária e intensa de dois meses, ficamos muito amigos – hoje o Diogo é integrante dos Clowns – e, quando surgiu o assunto Malayerba, ele disse que tinha o texto do Nuestra Señora. Ficamos muito empolgados, alguns de nós fizemos cópias, e a minha ficou engavetada junto com vários outros textos que tenho. Em 2012 (nove anos depois do primeiro encontro) fomos ao festival de Cádiz, na Espanha, com Sua Incelença, Ricardo III, e o Malayerba estava lá! Eles tinham se apresentado na véspera da nossa chegada, então não pudemos assisti-los. Apenas os vi no café da manhã do hotel, estupidamente fiquei com muita vergonha de falar com eles naquele momento, e depois descobri que naquele mesmo dia eles partiram de volta ao Equador. Em 2014, o grupo decidiu que iria montar uma trilogia sobre a América Latina. Eu estava decidido a dirigir um desses três trabalhos e, como forma de inspiração, juntei toda a dramaturgia latinoamericana que tenho na minha biblioteca para ler. Em geral, à exceção de Shakespeare, dificilmente um texto pronto me entusiasma a ponto de ter vontade de montá-lo. Seria realmente uma pesquisa para alimentar meu imaginário. Depois de ler meia dúzia de textos, cheguei àquela cópia escondida há cinco anos do Nuestra Señora. Devorei o texto, do qual me lembrava muito pouco, e lembro vividamente o quão entusiasmado terminei a leitura. Pensei comigo que iria montar aquele texto a qualquer custo. Era cerca de 23h, e fui até a Paula, minha esposa e atriz do grupo, que estava na cama pronta para dormir, e pedi que ela lesse, porque precisava compartilhar aqui com alguém. Ela – obviamente – disse que faria isso no dia seguinte. Para gastar aquela energia represada, fui ao computador e traduzi o texto, em uma sentada, em poucas horas. Antes de dormir, já enviei para

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todos os meus companheiros de grupo e pedi que todos lessem. No dia seguinte, em reunião, expliquei do que se tratava (ninguém tinha ainda lido), e a partir daí fomos nos envolvendo e sendo seduzidos pela obra.

2- Do pouco que pude observar da relação entre os Clowns de Shakespeare e o Malayerba, percebi que existe um vigoroso laço de amizade entre os grupos. Conte-me um pouco como foi a troca de experiências entre os Clowns e o Malayerba na Casa Malayerba em Quito?

Seguindo um pouco essa história que eu vinha contando até aqui, ao decidir montar a obra fizemos um contato com ele a respeito dos direitos autorais. O contato foi gentil, mas muito profissional, pragmático. Ao longo do processo fomos mantendo alguma relação (ainda muito distanciada), eu enviei algumas fotos, etc. Até que resolvemos inscrever, nessa incursão sobre o universo latino-americano, um projeto para o edital Rumos Itaú Cultural 2013/2014 que previa uma pesquisa sobre a formação em teatro na América Latina, através de visitas a escolas e também grupos que tinham projetos pedagógicos estruturados, e um deles era, obviamente, o Malayerba. Dentre milhares de projetos, fomos contemplados, e finalmente nos conhecemos devidamente (O Rafael tem horas e horas de vídeo dessa residência). Pudemos conversar muito sobre ambos os grupos, sobre o Nuestra Señora – tanto sobre o texto e todas as suas referências, quanto sobre a nossa montagem –, apresentamos algumas cenas para os alunos da escola deles, o Arístides e a Charo trabalharam um pouco algumas cenas, pudemos acompanhar o processo de montagem de Francisco de Cariamanga, que eles estavam trabalhando naquele momento, enfim, foi um encontro de almas, uma relação muito forte que se estabeleceu naquele momento, e a partir de então só se estreitou. Alguns meses depois trouxemos a Charo para Natal, para o Tramas - Encontro Latinoamericano de Formações em Teatro, uma ação que também estava dentro do projeto do Rumos Itaú Cultural. Nessa ocasião, apresentamos o espetáculo pra Charo. Foi um momento inesquecível, ela ficou muito emocionada, fez uma fala ao público (e a nós, claro) ao final da apresentação, que foi dedicada a ela. Depois ela me fez possivelmente o maior elogio que já recebi em minha carreira. Foi algo assim: “Eu já apresentei o Nuestra Señora centenas de vezes; já assisti dezenas de montagens, em geral muito chatas; conheço todas essas falas, vivi várias dessas histórias antes delas serem escritas. Mas depois de ter assistido a montagem de vocês, jamais vou fazê-la da mesma maneira de novo!”. No ano seguinte voltei a Quito para fazer o Laboratório de Direção do Arístides, um ano depois foi a vez da Paula e da Camille irem fazer o Laboratório geral que eles fazem sempre no início do ano, e esse ano pudemos nos encontrar duas vezes. A primeira foi em Porto Alegre, no festival do ‘Ói Nois Aqui Traveiz’, um dos nossos grandes parceiros e referência do teatro brasileiro, na qual o Arístides (junto com o Gérson e, uma vez mais, a Charo) teve a oportunidade de ver a nossa montagem. Foi outro momento para guardar pra sempre no coração. Muito mais contido e racional do que a explosão de ternura que é a Charo, o Negro gostou muito do trabalho, elogiou a direção e a tradução, enfim, ficou muito satisfeito com o que viu. Por fim, tivemos a alegria transbordante de recebê-los em nosso próprio festival, O Mundo

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Inteiro é um Palco, com o próprio Nuestra Señora e La Razón Blindada. Agora estamos pensando em projeto conjuntos, que em algum momento serão realizados. O trânsito Natal-Quito é mais longo e caro do que para a Europa, mas esses laços de fato são muito sólidos e afetivos. Seguramente é uma parceria que se estenderá para sempre. Que privilégio poder ser parceiro e amigo dos seus ídolos, seus mestres, suas referências! E felizmente o teatro tem nos dado isso!

3- Como se deu o processo de adaptação da peça Nuestra Señora de las Nubes? Fale-me um pouco dos objetivos iniciais da época e se hoje o espetáculo está como vocês tencionavam.

A recomendação que o Arístides coloca na abertura do texto é muito reveladora e libertadora. Ele pede que o texto seja usado como um ponto de partida pra criação. Isso é de uma generosidade sem tamanho! Mais que isso, mostra também como se trata de um verdadeiro homem de teatro, um mestre! Ele conhece cada atalho de uma sala de ensaio, sabe como o diretor, ator e todos os outros partícipes do processo teatral podem contribuir para a dramaturgia a partir dos seus pontos de vista. Apesar disso, começamos o processo extremamente respeitoso ao texto, em especial porque era uma linguagem muito nova pra nós, um tipo de poética que, apesar de admirarmos, tínhamos muito pouca experiência de trabalhar, de entender sua embocadura, de dar três dimensões a partir do que estava no papel. Aos poucos, fomos encontrando os caminhos da montagem, tomando sempre como rumo os três eixos que propus aos atores: o épico-narrativo, o surreal/fantástico e o que chamamos de lúdico. A inserção dos depoimentos de exilados brasileiros também surgiu em algum lugar do processo por entendermos que o texto ainda estava demasiado hispano-americano em suas referências, e que ganharíamos em trazê-lo para mais perto. Parece-me que foi uma escolha acertada, pois sempre toca muito as pessoas, sendo elogiada, inclusive, pelo próprio Arístides e a Charo. Hoje, passados três anos da estreia, o espetáculo ganha outro significado. Naquele momento, pela ocasião dos cinquenta anos do golpe civil e militar de 64, a nossa ideia era montar o trabalho para manter a chama dessa memória acesa. No entanto, após do golpe de 2016 o espetáculo ganhou outra conotação, parece que tudo fez sentido, os atores o fazem com maior propriedade, eu consigo ajustar as cenas com muito mais clareza, e o público está em outro lugar de recepção nesse regime de exceção em que estamos imersos. É um espetáculo, por diversos fatores, muito diferente daquele que estreou. Ainda acho que não consegui encontrar o lugar de melhor potencialização da palavra Aristideana, mas seguramente a minha compreensão sobre como abordar o texto está em outro lugar. Tenho muito desejo de montar outras obras dele.

4- Por fim, uma pergunta que eu também realizei ao Arístides Vargas. Como você enxerga o teatro produzido na América Latina hoje? Como você percebe o teatro produzido no Rio Grande do Norte e pelos Clowns de Shakespeare na inserção desse contexto latino?

Esse é um tema muito caro a mim, porque nesses últimos anos estamos fortemente mergulhados na América Latina, nessa busca por descobrir, entender e penetrar nesse universo.

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Acredito que esse movimento não seja só nosso, dos Clowns, mas vejo no teatro e outras linguagens artísticas a mesma coisa acontecendo. Parece que depois de tanto tempo de uma aceitação inerte do eurocentrismo que nos domina “desde sempre”, e por consequência nos fez virar as costas para o resto do continente, estamos percebendo que atrás de nós existe um mundo de tantas belezas, potências e saberes que até então desconhecíamos. O curioso disso é que, apesar da barreira da língua, esse processo foi unilateral: pelos países que já tive a oportunidade de passar – Chile, Argentina, Uruguai, Bolívia e Colômbia –, assim como das pessoas e grupos que conheci de outros países, a relação de extrema admiração com a nossa cultura é uma constante. Como somos um país de dimensões continentais, a circulação acaba ficando muito restrita aos limites domésticos, que são gigantescos. No resto da América Latina, como diversos dos países são muito pequenos, eles buscam a circulação internacional como única saída de deslocamento. Para piorar, há a diferença da língua – o que dificulta, mas não impossibilita – e o exagerado custo de circulação para boa parte desses países. Como exemplo, a minha esposa gastou cerca de 30% mais para ir ao Equador do que eu gastei para ir ao Japão. Apesar de todas essas dificuldades, o desejo de estarmos mais próximos tem gerado muitas trocas entre grupos brasileiros e dos outros países. Para mim, uma das grandes descobertas tem sido os mestres do teatro latinoamericanos, como o próprio Arístides; Miguel Rubio, do Yuyachkani, do Peru; Emilio Garcia Wehbi e Daniel Veronese, da Argentina; Santiago García (do La Candelaria) e Enrique Buenaventura (do Teatro Experimental de Cali), da Colômbia, que são nomes que até alguns anos atrás eu desconhecia completamente. Nós, dos Clowns, estamos envolvidos com afinco nesse projeto de inserção latino-americana, seja montando espetáculos, desenvolvendo intercâmbios, circulando com trabalhos, fazendo pesquisas ou outros projetos. O Laboratório da Cena, espaço formativo que acontece todo mês de janeiro no Barracão Clowns é um perfeito exemplo disso. Esse próprio formato de laboratórios é uma tradição dos países hispano americanos, em geral com características muito semelhantes ao nosso: duas semanas de duração, no qual pessoas da cidade e de fora passam por uma experiência formativa intensiva com o grupo, desenvolvendo um pequeno processo criativo. Em 2018 vamos para a terceira edição do Laboratório com esse formato, e já recebemos participantes da Argentina e Colômbia. Para 2018 tivemos inscrições da Argentina, Colômbia, Equador e Bolívia. É outra forma de começar a colocar Natal e os Clowns no mapa teatral do continente, fazendo com que as pessoas venham para cá. Esse ano pudemos dirigir um espetáculo com o grupo uruguaio El Galpón, o mais antigo da América Latina. Infelizmente, o desfecho desse projeto foi melancólico, por uma série de problemas que passamos, em especial uma grave crise política interna que eles passam, e que acabou respingando no nosso trabalho, fazendo com que ele fosse finalizado após quase um ano de trabalho, sem poder estrear. Apesar disso, a possibilidade de passar um tempo maior nessa troca com um grupo de outro país ampliou foi muito rico, nos fez entender ainda mais as potências e contradições tão latentes no teatro latino-americano, que acontece tanto no Brasil como nos outros países.

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1.2 Entrevista realizada com Arístides Vargas, no Barracão dos Clowns, em Natal –