Argentina, que lutam desde a época da ditadura até os dias atuais.
As avós pertenciam, a princípio, ao grupo das mães, mas pela particularidade do desaparecimento dos seus netos, decidiram unir-se em associação própria, as ‘Avós da Praça de Maio’, cuja finalidade é a localização e a restituição das crianças sequestradas e apropriadas a suas famílias legítimas. Na peça Instrucciones para abraçar el aire, Arístides Vargas realiza uma homenagem a avó Chicha Mariani, a fundadora da Associação das Avós da Praça de Maio. Nesta peça Arístides Vargas reconta a historia de terror passada pela família de Chicha. O dia em os militares atacaram sua casa, mataram seus familiares e levaram sua pequena neta, a qual ela só reencontrou há pouco tempo. Essa obra também se torna um valoroso trabalho da reconstrução memorialista da época da ditadura militar Argentina.
3.2 As diferentes nuances do exílio - a loucura
Pretendemos, nesta parte do capítulo, refletir sobre outra construção do exílio que também é abordada por Arístides Vargas em sua obra. Para o dramaturgo não há apenas o exílio induzido político, mas existem outras formulações que encaminham o individuo a um isolamento e exílio humano que também são impostas pela sociedade.
Essa obra também fala dos outros tipos de exílio, de quanto se esta em um lugar em que não se sente bem. O exílio não é somente está fora de um país, o exílio é estar fora de si mesmo. O teatro é uma arte do exílio é uma arte exilada O teatro é um jogo entre pessoas, mas não é compatível com o mundo em que vivemos. No teatro produzimos imagens (VARGAS, 2016, p. 15).
De algumas situações de banimentos que o autor aborda decidimos analisar uma que se torna destaque dentro da peça que é o isolamento obtido pela loucura. Na peça Nuestra Señora de Las Nubens esse tema permeia dois personagens que colaboram com o enredo da narrativa: um é o personagem de Memé, neto da Vó Josefa, que é dito na história como o doido da cidade e o outro é Juan que está, há mais de um ano, internado em um manicômio e recebe visitas e de sua esposa Soledad. No entanto, pretendemos nessa parte do capítulo referendar o personagem do Memé que tem o maior destaque dentro das construções da peça. Para podemos ponderar de um melhor ângulo as nuances e implicações que surgem através do tema loucura, utilizamos as perspectivas de Michel Foucault para o tema, em seu livro ‘História da Loucura’. De acordo com o filósofo Foucault as explanações que permeiam a loucura foram se construindo durante o tempo e em sua obra podemos observar as questões
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sobre o universo da loucura na era clássica, com outra perspectiva na era moderna. Ele vai sempre trazer à tona o embate dessas realidades distintas. Foucault aponta, através de seus estudos, que até o século XVIII não existia essa classificação de doença mental, pois a loucura era apenas uma doença como qualquer outra, sendo classificada da mesma forma.
A medicina, na época, apresentava a loucura de forma classificatória, ou seja, ia se orientando pelo modelo da história natural, em relação às plantas e aos animais, estabelecendo, assim, semelhanças e diferenças entre as doenças, organizando-as e classificando-as dentro de um quadro relacionado a classe, ordens e espécies. Dessa forma, não havia, na época clássica, uma medicina psiquiátrica para acompanhar e auxiliar as questões da loucura e assim, o louco não tinha respaldo algum para um tratamento de acompanhamento e melhora.
Podemos observar, também, a partir dos estudos de Foucault, que o louco, nessa época, era analisado socialmente e não, pela medicina comum, pois quem definia se aquela pessoa era considerada louca, ou não, era a sociedade ou a própria família. Desse modo, entramos em outra questão que Foucault analisa em seu livro que é a razão num confronto com a ‘desrazão’. O louco da época clássica era dito e jugado por essa razão clássica, não se falando de uma razão científica, médica, mas de uma razão moral, social, que classifica como ‘desrazão’, ou ausência de razão. Era o construto do que era tido como aceito para conviver moralmente em uma sociedade da época. O esvaziado dessa razão, levava, assim, à exclusão desses indivíduos, acreditando que eles não partilham essa construção racional social.
O surgimento da reforma psiquiátrica teve como objetivo criar um novo estatuto social para o doente mental, que lhe garantisse cidadania, respeito, direitos a sua individualidade, mas mesmo assim, o louco nunca deixou de ser exilado durante todos esses séculos, pois o que não mudou foi a maneira como o louco é tratado, pois ainda se guarda este ranço de medo do louco, que ainda é um estigmatizado pela loucura, ainda sendo excluído com internações arbitrárias. Ainda há o louco como ilha exilado do convívio familiar e social em razão do medo ainda arraigado à maioria da população. Talvez por não conseguir lidar com o estranhamento que o diferente provoca, medo do inexplicável e, porquê não?, medo da genialidade e vanguardismos trazido pela figurado desses loucos, “a loucura passa a ser tema principal da literatura, do teatro, enfim, das artes como um todo. Neste espaço, o louco não é visto mais como uma figura boba, e sim como o detentor da verdade” (FOUCAULT, 1972, p. 14).
A literatura é um dos movimentos artísticos que sempre retratou e deu voz à figura do louco; o mundo literário lhes deu liberdade para se expressarem como são, não os silenciou. A
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insanidade foi protagonista de romances, peças teatrais, poemas e ensaios, o louco é um personagem muito interessante para a literatura, pois ele inspira a liberdade de criação, não se prende a regras, não tem limites pré-estabelecidos. O louco pode ser a figura que, dentro da trama, fala verdades que muitas vezes no decorrer da história não são pronunciadas, podendo surgir com uma visão futurista ou profética sobre algum fato ou acontecimento, como o personagem do sábio que é isolado e desacreditado como demente. Dessa maneira, podendo criar personagens mais complexos e multifacetados, o louco foi se tornando um elemento de destaque em vários contextos da produção literária mundial.
Apontaremos alguns casos de obras que abordaram a temática da loucura. Primeiramente, um bom exemplo é Miguel de Cervantes, o cânone da literatura ocidental com a obra ‘Dom Quixote’, cujo personagem é inspirado na leitura desregrada de sua vasta coleção de romances de cavalaria e resolveu viver as histórias lidas, que acredita serem reais até que, após um longo período de existência, de peripécias e devaneios, é trazido de volta para casa, para a realidade material.
Outro autor do cânone ocidental que também merece destaque pela sua dramaturgia fortemente pautada na insanidade humana é Willian Shakespeare. Seu teatro, que trabalhou de maneira impar a complexidade humana com sua estética e genialidade, influenciou várias gerações de dramaturgos futuros e apresenta, em vários de suas obras, um pilar na loucura. Dando destaque a alguma dessas peças, podemos citar, por exemplo, Rei Lear em que o rei enlouquece depois de ser traído por uma de suas três filhas, às quais ele deixa de herança seu reino. Em Macbeth a loucura vem à tona na figura de Lady Macbeth, que induz o marido a matar várias pessoas para conseguir seus objetivos de ser rainha, terminando sufocada pela culpa e enlouquecendo. Outro bom exemplo é a obra Hamlet, em que Shakespeare traça uma linha tênue entre a loucura real e a loucura fingida, expondo as multifaces humanas em um jogo de traição, vingança, corrupção e moralidade.
Expondo alguns exemplos da literatura brasileira, podemos citar Machado de Assis em ‘O Alienista’, que nos apresenta o Simão de Bacamarte um médico que escolhe trilhar o caminho da psicologia e abre um manicômio chamado casa verde. É uma crítica bastante valida ao sistema manicomial existente. Essa obra se vale do pensar a condição do louco e as formas existentes de classificá-lo. Esse trecho exprime bem os questionamentos trazidos pelo médico “nada tenho que ver com a ciência; mas se tantos homens em quem supomos juízo são reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado não é o alienista? ” (ASSIS, 1994, p. 35). Em outro momento, a Doida de Carlos Drummond de Andrade traz à tona o estereótipo da doida, a comunidade a rotula assim, os meninos jogam pedra em sua casa, a doida é dita
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como o castigo para as crianças. E nessa realidade ninguém a conhecia, nem sabia se ela era realmente louca.
Outros autores não só escreveram sobre o estigma da loucura, mas viveram a experiência do exílio da loucura e isolamentos em manicômios. Passaram pela vivência da loucura na pele e isso modificou toda a percepção que estes autores teriam do mundo, deixando demarcado em suas obras os traumas vivenciados nessa época.
Primeiramente, falarei de um ator, poeta, escritor, dramaturgo e diretor teatral que foi de suma importância para a produção teatral em todo mundo, Antonie Artaurd, um dos mais marcantes e inovadores criadores da arte do teatro, que foi chamado de maldito, marginalizado e incompreendido, em sua época, pelos que acreditavam que sua produção não passava de delírio; sendo assim, só obteve reconhecimento depois de morto. A época de suas internações passa a ser a época mais difícil para ele, passando nove anos entre entradas e saídas em vários hospícios, como explícita o trecho a seguir:
Começa a parte mais dolorosa e terrível da sua trajetória, seu verdadeiro calvário. Ele, que sempre, abominara os psiquiatras e os hospícios, passa os nove anos seguintes internado, de hospício em hospício: Sainte-Anne, Quatre-Mares, Ville- Évrard, Chézal-Bénoit, Rodez - durante a guerra, na França ocupada, em condições particularmente difíceis. Por um período, Artaud desaparece nessas clínicas não se sabendo exatamente pelo que passou e o quanto sofreu. É certo que passou fome e esteve em risco de vida em Ville-Évrard, hospício para o confinamento de loucos tidos, como irrecuperáveis. A partir de 1943, é transferido para Rodez, graças à intervenção do poeta Robert Desnos (que, dois anos depois, morreria de tifo num campo de concentração) e de outros intelectuais. Artaud sai de Ville-Évrard macilento e envelhecido. Em Rodez, é melhor tratado - seu psiquiatra, Dr. Gaston Ferdière, o estimula a escrever e a desenhar; no entanto, além de tratá-lo de maneira paternalista, aplica-lhe eletrochoques (ESCRITOS, 2003, p. 6).
Outro autor que também passou por esses traumas do tempo em que ficou internado em manicômios foi o escritor Lima Barreto. Em sua obra ‘Diário do hospício’ ele retrata todas as particularidades e experiências sofridas a partir de suas percepções como interno. É um relato muito forte e emocionante, escritos que trazem à luz a realidade sofrida por esses internos dentro dos muros do hospício. A seguir apresentamos um trecho relatado pelo autor:
Voltei para o pátio. Que coisa, meu Deus! Estava ali que nem um peru, no meio de muitos outros, pastoreado por um bom português, que tinha um ar rude, mas doce e compassivo, de camponês transmontano. Ele já me conhecia da outra vez. Chamava- me você e me deu cigarros. Da outra vez, fui para casa-forte e ele me fez baldear a varanda, lavar o banheiro, onde me deu um excelente banho de ducha de chicote. Todos nós estávamos nus, as portas abertas, e eu tive muito pudor (BARRETO, 2010, p. 45).
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incompreendido em sua época, assim como Artourd, fez um teatro do absurdo, um teatro inovador e de experimentações. Dessa forma, foi desacreditado e perseguido por causa do estigma da loucura. O dramaturgo e poeta Qorpo Santo, nascido no Rio Grande do Sul em 1829, passou sua vida lecionando e escrevendo em jornais da sua cidade em Alegrete. A partir do momento em que ele começou a demostrar suas primeiras crises de transtorno psíquico é interditado pela família. Seus escritos e peças passam uma significativa mudança aos que os seus contemporâneos chamaram de obra de um louco. Ele passou a ser acusado de ‘monomania’ e, a partir desse momento, se inicia o ciclo de entradas e saídas em manicômios. Mudou seu nome durante uma crise mística, iniciando um período de castidade. Sua produção, atualmente, é reconhecida e respeitada nacionalmente, sendo estudada e encenada. Segue, a seguir, o monólogo que dá início a uma das peças de sua autoria, ‘As Relações Naturais’.
PRIMEI RO ATO Cena 1.
IMPERTINENTE: Já estava admirado; e consultando a mim mesmo, já me parecia grande felicidade para esta grande freguesia o não dobrarem os sinos... E para eu mesmo não ouvir os tristes sons do fúnebre bronze! Estava querendo sair a passeio; fazer uma visita; e já que a minha ingrata e nojenta imaginação tirou-se um jantar, pretendia ao menos conversar com quem m'o havia oferecido. Entretanto não sei se o farei! Não sei porém o que inspirou continuar no mais improfícuo trabalho! Vou levantar-me; continuá-lo e talvez escrever em um morto: talvez nesse por quem agora os ecos que inspiram pranto e dor despertam nos corações dos que os ouvem, a oração pela alma desse cujos dias Deus pôs com a sua Onipotente voz ou vontade! E será esta a comédia em 4 atos, a que denominarei — ‘As relações naturais’ (SANTO, 2001, p.70).
A partir das explanações anteriores, podemos pensar a condição do louco durante um dado período histórico e percebemos que houve mudanças significativas, mas o louco ainda carrega o estigma nas relações sociais. A sociedade ainda o isola por não o compreender e o toma como um verdadeiro perigo quando, muitas vezes, não o é. Há o exílio da loucura ao qual o insano é condicionado e podemos observar várias nuances desse exílio, não só o exílio corporal, mas também um exílio do pensamento, da produção artística, da fala, do toque, o torna o homem uma ilha inabitada e desacreditada. O personagem que será analisado neste trecho do capítulo pertence ao universo ficcional da peça elaborada por Arístides Vargas, que também traz essa personificação da figura do louco para dentro do teatro.
O personagem do Memé, que surge como um elo para muitos fatos existentes no enredo da peça, se apresenta como uma figura bastante importante na trama. Ele é tratado como o bobo da cidade, chamado de demente e bastardo durante a peça, surgindo a partir das memórias trazidas por Oscar e Bruna em vários flashblacks de acontecimentos de seu antigo país. Já o personagem de Juan, que é visitado pela esposa Soledad, também traz
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caracterizações do isolamento e do sofrimento de maneira mais sofrida e poética. Os dois personagens compõem essa ideia do louco, mas são caracterizados de maneiras bem diferentes. O personagem de Juan surge através de um dos flashblack das histórias relembradas por Oscar e Bruna, enquanto Memé é uma figura mais recorrente dentro da trama, mesmo sendo em trechos de memórias.
A estrutura narrativa da peça se encontra dividida em treze momentos cênicos como já foi referido anteriormente e dentro dessa organização, quatro dessas cenas representam os encontros de Oscar e Bruna, sendo que as nove restantes são as reminiscências dos dois. Dando início a essas lembranças, que ocorrem como flashblack dentro peça, Bruna retoma como aconteceu o surgimento do vilarejo de Nuestra Señora de las Nubes. Ela revela o modo, extravagante e incestuoso, como teria acontecido a fundação do nubiloso país.
O surgimento de uma nova civilização, bastarda e andina se deu a partir de Irma e seu pai Don Tello. Este vivia oferecendo a mão da filha para que ela não ficasse ‘solteirona’, como ele afirmava, mas por não haver mais nenhum homem no vilarejo com quem ela pudesse casar, ela acaba decidindo casar com o único que queria vê-la casada, seu pai Don Tello, povoando, assim, o vilarejo de Nuestra Señora de las Nubes.
Dessa maneira, surge o vilarejo de Nuestra Señora de las Nubes, de uma relação incestuosa entre pai e filha. E não sendo diferente, Memé a figura do louco do vilarejo também é fruto dessa relação e ele é sempre lembrado sobre isso quando o chamam de bastardo. Ele vai surgir na história na terceira cena, a partir de outras reminiscências de Bruna como o neto de Vovó Josefa, uma velhinha que sabe das muitas histórias que aconteceram desde a fundação de Nuestra Señora de las Nubes.
O título dado para esta cena contendo a rubrica é: ‘Bruna recorda como a vovó Josefa narrava para Memé o tonto do vilarejo, sua árvore genealógica’. Memé só emite sons incompressíveis para que a vó siga sua narração (VARGAS, 2003, p.283).
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Imagem 4 – Festival O Mundo Inteiro é Um Palco – Ano V (26/09/2017) – Grupo Malayerba. Cena de Memé e da Vovó Josefa lhe contando sobre a fundação de Nuestra Señora de las Nubes. Foto: Taline Freitas
Pelo relato da Vó Josefa é possível descobrir as várias gerações de famílias empenhadas na fundação e expansão de Nuestra Señora de las Nubes. Enquanto a velha matrona tenta explicar as raízes da árvore genealógica a Memé, ficamos conhecendo as diferentes famílias envolvidas em eternos conflitos de consanguinidade, em eternos confrontos de amor e de ódio de classes, como já foi referido anteriormente.
O provável espaço de representação onde transcorre a ação da cena é o quintal da casa de Vovó Josefa, é ali onde o aparvalhado Memé encontra-se entretido com tirar as cãs da velha vovó. A vovó, além de falar sobre a àrvore genealógica do Memé, também cita os conflitos étnicos e os seus inúmeros problemas sociais e políticos recorrentes da péssima administração dessa ancestralidade. Esse trecho remonta à América Latina e sua variação populacional como já foi citado anteriormente.
Mais adiante, nas cenas seguintes, Bruna relembra como o senhor governador de Nuestra Señora de las Nubes conta para a primeira dama sobre a catástrofe social, política e moral provocada pelo demente Memé, que teria passado a acreditar nas ‘histórias fantásticas’ de Vovó Josefa. O governador e sua esposa, que não possuem nome nem sobrenome próprios,
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conversam enquanto dançam uma tradicional valsa, criando um contraponto entre divertimento, dúvida e indignação.
O casal é claramente o reflexo das famílias dominantes do vilarejo que representam toda uma casta social elitista. O diálogo inicia-se com a sincera indignação do senhor governador perante o papelão que o pasmo Memé lhe fez passar no seu escritório de trabalho, pois o bobo da cidade estaria reivindicando a paternidade, influenciado pelo relato da Vovó Josefa.
Além disso, Memé passa a reivindicar questões do povo, o que ficou evidente quando o governador, depois de admitir ser o pai da pátria, mas não, do doido Memé, passando a falar sobre a reivindicação judicial feita pelos índios Váscones, em relação à propriedade da terra. Tudo “porque o idiota do Memé chegou com a fofoca de que a terra lhes pertence” (Ibidem, p.286). Nada menos que o ‘demente louco do Memé’ confirma o governador.
Podemos observar que o louco traz o questionamento e a discursão por dois vieses. Primeiramente, ofendendo às famílias honradas e segundo, elevando os populares, aqui entendidos como os índios e os mestiços pobres. A revolução social em Nuestra Señora de las Nubes é, portanto, obra de um cidadão desqualificado, “[...] de um pateta, um louco, um bocó de fivela” (Ibidem, p.287). Essa forma pejorativa serve apenas para desqualificar a figura do louco como detentor de algum conhecimento.
O que mais surpreende o governador sem nome próprio, é que Memé estaria se transformando em um Messias, um temido líder social seguido pela população. Outro aspecto das terríveis ideias subversivas de Memé está no fato de conseguir promover a discórdia no seio das famílias honradas, semeando o desentendimento na própria casa do governador ao insinuar que as autoridades da região seriam irmãos. Segue o trecho da conversa entre o governador e sua esposa.
Governador: O que eles querem? Uma vergonha! Esposa: corvos e eles vão arrancar seus olhos.
Governador: Mas quem é Memé? para que este povo tenha criado essa desordem,
um simplório que não sabe nem onde está.
Esposa: Um lunático sem esperança, como você costuma dizer. Governador: Imagine que as pessoas seguem o tolo como um Messias. Esposa: Inimaginável.
Governador: Imagine que o idiota disse que sou seu pai.