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3.5. Main function and adjustment of the equipment

3.5.3 Measuring System

Quando pensamos na arte teatral, logo pensamos em sua construção como arte viva, arte em movimento, e sobre sua forma única de se moldar através do espetáculo e da grande dificuldade que é reformular ou recontar essa arte em registros, por se tratar de uma arte tão efêmera. O pesquisador em teatro, Mateus Furlanetto, reflete sobre esta perspectiva em seu artigo, ‘Teatro: Entre o Efêmero e o Perpétuo’:

O acesso aos vestígios da memória do espetáculo é mais complexo, uma vez que ele se fragmenta em múltiplos suportes de registro que revelam dimensões distintas do processo criativo e do processo teatral. Em função do dinamismo e multiplicidade de leituras e interpretações que um espetáculo ou obra permitem (FURLANETTO, 2011, p.79).

Nesse contexto adentramos a importância dos registros das atividades teatrais e das impressões colhidas sobre o trabalho que eles desenvolvem. Para que se elaborem esses registros contínuos da história, há a necessidade de se construírem projetos de memórias teatrais visando fortalecer esses grupos, edificando assim, sua permanência para a posteridade, buscando se perpetuar, indo contra a maré de efemeridade dos espetáculos e lutando contra esquecimento no tempo.

Ainda na visão de Furlanetto (2011), a análise criteriosa desses registros e documentos proporcionaram a esses grupos o poder de construir sua própria narrativa. A utilização de documentos históricos existentes, muitas vezes guardados em caixas e gavetas de modo esquecido e fraccionado, podem conter informações e conteúdos preciosos de interesse direto do público que, muitas vezes, são mal empregados.

Apesar de ser impossível o registro do teatro de forma integral, pois cada apresentação é única e por isso irrepetível, os vestígios oriundos dos espetáculos e dos processos criativos são elementos que reunidos e trabalhados de forma pensada e articulada cumprem a função de prolongar, ainda que de forma incompleta, a memória desses momentos passageiros (FURLANETTO, 2011, p. 80).

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Desse modo, os projetos de conservação da memoria dos grupos de teatro criam oportunidade desses momentos de experimentações e expressões teatrais únicas, em que é nítido o entrelaçar entre palco e plateia, serem preservados através da memória. E é a partir do pensamento de preservação, que uma série de produtos elaborados pelo próprio grupo e destinado ao público se faz necessário.

Sendo assim, observamos que cada espetáculo e cada processo criativo gera inúmeros materiais e informações, de modo que, a partir de registros e documentações podem vir a se transformar em produtos que podem ser: livros históricos, livros roteiro de espetáculo, DVDs documentários da história do grupo, DVDs com registro do espetáculo, exposições de fotos e objetos do grupo, sites, blogs, canais, perfis na internet, arquivos, centros de documentação e memória, reencenarão de espetáculos, minicursos, oficinas e mostras de repertório.

Sendo a memória um dos pilares do imaginário, a guardadora e perpetuadora da história, para que não esqueçamos os momentos sublimes ou os atos de violência, faz-se necessário utilizar esses vários formatos de preservação da memória, pelos quais cada um reforça necessidades específicas, atingindo vários tipos de linguagem, alcançando, assim, públicos variados.

O segmento audiovisual cresce a cada ano em seu flerte com o teatro sendo um dos responsáveis por relativizar o fenômeno do efêmero na dramaturgia, preservando momentos únicos de expressividade artística que fugiram aos olhos de quem não assistiu à montagem ao vivo. A tecnologia nas gravações digitais na contemporaneidade permite captações cada vez mais fiéis, sobretudo no quesito áudio dos diálogos (SANTOS, 2012).

Outro item fundamental e de significativa importância a ser considerado em companhias longevas que atravessam a casa das duas três décadas de idade como algo imprescindível para sua construção memorialistas são os figurinos, os fragmentos de cenários e adereços. A fortuna crítica dos estudos de pesquisas e o público em geral são valiosíssimos, visto que, além de imortalizar as memórias desses espetáculos, esses grupos estão criando parâmetros para grupos futuros poderem trabalhar (FALABELLA, 2012).

Outro meio bastante difundido na atualidade pelos grupos como armazenamento de informações e estreitamento de contato com o público são as redes sociais, em particular o facebook. Estas redes vêm se tornando uma útil ferramenta em criar uma ‘memória viva’, uma memória dos processos criativos, permitindo acesso às informações por um maior número de pessoas.

Mais um segmento que contribuiu para o fomento da memória teatral é constituído pelos estudos e pesquisas desenvolvidos no âmbito acadêmico, nos cursos de mestrado e

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doutorado, estabelecendo, de maneira cada vez mais gradativa, um constante diálogo com o universo teatral. E essa realidade se mostra aparente, não apenas nos cursos de artes cênicas, mas também em áreas circundantes, como é o nosso caso, destacando que foram essas pesquisas que se moldaram anteriormente traçaram o nosso percurso até aqui e, sem elas, esta pesquisa provavelmente não seria possível.

E não poderíamos deixar de citar a grande parcela de importância que a literatura desempenhou nessa história memorialista do teatro, pois, é através de um grande legado deixado pela literatura que podemos ter contato com obras dramatúrgicas que atravessaram séculos e se perpetuaram, tornando-se cânones da literatura mundial, sendo exemplo deles os escritos deixados por Aristóteles, cujas escrituras abordam as várias temáticas da análise da arte teatral, como a importância da mimese, da cartasse, além de tecer importantes considerações sobre os vários tipos teatrais da Antiguidade, como o a tragédia, a comédia e a epopeia (RORIZ, 2014).

Podemos rememorar alguns nomes mais consagrados do teatro mundial, especialmente a contribuição de William Shakespeare, um dos maiores representantes da arte teatral, considerado como o dramaturgo mais influente do mundo, além de um notável poeta. Entre as suas obras de maior destaque se encontram: ‘Romeu e Julieta’, ‘Hamlet’, ‘Macbeth’, ‘Sonho de uma Noite de Verão’, ‘Rei Lear’, ‘Ricardo III’, ‘Otelo’, entre outras (RORIZ, 2014). Outro memorável nome do teatro mundial, que revolucionou a prática e deixou um legado didático utilizado até os dias atuais, foi Bertold Brecht que defendia o pensamento político e crítico como prioridades dentro da formulação teatral e considerava o teatro como um impulsionador de mudanças sociais levando os indivíduos a questionarem e se posicionarem perante o mundo.

Mais um nome que se faz recorrente no pensamento contemporâneo teatral é a figura de Antonin Artaud, que foi perseguido e estigmatizado em decorrência de sua doença mental, fato este que marcou sua vida e sua obra. O ‘Teatro e seu Duplo’, sua principal produção é uma das obras mais influentes do teatro deste século. Em seus escritos ele expõe o grito, a respiração e o corpo do homem como lugar primordial do ato teatral e denuncia o teatro superficial, rejeitando a hegemonia da palavra.

Mais um autor contemporâneo de singular importância na conjuntura teatral é Samuel Beckett, cujo teatro aborda várias problemáticas existentes na contemporaneidade e utiliza uma multiplicidade de gêneros para formular sua prosa. Seu trabalho, com o tempo, foi se tornando cada vez mais minimalista, entre a sua obra mais conhecida do público está

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‘Esperando Godot’. É considerado um dos primeiros pós-modernistas e um elemento fundamental do denominado ‘Teatro do absurdo’ (RORIZ, 2014).

Nelson Rodrigues também não pode deixar de ser citado sempre que rememoradas as expressões do teatro moderno e experimental.

Destaco aqui o trabalho de Augusto Boal que foi um dramaturgo que inovou, não só o teatro nacional, mas seu método através do Teatro do Oprimido que o tornou conhecido no mundo inteiro. Boal sempre acreditou em uma produção autenticamente brasileira e latinoamericana. Sua obra se propunha a destacar a realidade brasileira, no seu imaginário e na sua identificação, retratando o contexto social e as peculiaridades aqui existentes. Constantemente buscando associar questões sociais e de cunho político, utilizava a arte teatral como ponte de transformação para as relações humanas.

Dessa forma, esses conceituados nomes do teatro cumprem na sociedade não só o papel de dramaturgos, mas literatos, teorizadores e preservadores da arte teatral, de modo que seu legado transfere uma vasta contribuição para a fortuna crítica da teoria e da prática teatral (RORIZ, 2014).

Ainda sobre a importância da preservação da memória no âmbito teatral, o ator dramaturgo e diretor Eduardo Moreira nos apresenta um olhar interessante sobre essa questão em seu artigo, ‘O Invisível e a Construção da Memória’:

Apagar a memória de um povo é, consequentemente, transformá-lo num povo invisível [...] A memória é o que nos deixa vivos, aquilo que transporta o passado para o presente e projeta o presente para os desafios do futuro. E isso é algo que premente não só para a sobrevivência de um povo, uma sociedade ou uma comunidade, mas também para uma microcélula social, como um grupo de teatro [...] por mais que a nossa ilusão moderna se alimente do mito de que a história sempre caminha para frente no sentido da melhora. O teatro, como fenômeno cultural pertence à memória (MOREIRA, 2011, p.101).

Por essa explicação, entende-se que a preservação da memória se faz necessária não só no âmbito teatral, sendo entendida como qualquer expressão cultural social positiva para um povo ou indivíduo. Com isso, entendemos a importância de resguardar e valorizar a cultura de qualquer povo, região ou comunidade. No caso da América Latina e a partir do recorte feito neste trabalho sobre o século XX, abordamos a memória do exílio e das ditaduras que ocorreram em vários países do continente latino cuja preservação se faz presente na tentativa de que algo dessa dimensão não torne a acontecer.

Moreira expõe ainda que, seu cotidiano, em razão de sua prática teatral possui bastante contato com artistas e que estes, em sua grande maioria, são jovens. Havia, nesses artistas, o nítido interesse por se expressarem através do teatro, mas Moreira (op. cit.) percebia o quanto

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era triste observar que essas pessoas não sabiam como seguir adiante nessa prática. A partir desse cenário, cujos registros compreendemos como de grande necessidade, faz-se necessário deixar caminhos abertos aos que virão depois. No trecho a seguir o diretor nos expõe e deixa mais claro o porquê dessa necessidade do registrar e de formar caminhos no percurso teatral:

Não um modelo, porque os caminhos são infinitos e sempre distintos. E o caminhar sempre depende do caminhante. Mas o caminho também precisa de pistas e sinalizações. Nesse sentido, deixar um testemunho de que o teatro é possível e que pode ser fundamental como instrumento de realização pessoal e coletiva me parece uma tarefa importante. E, mais do que isso reafirmá-lo como um instrumento necessário para que uma determinada comunidade relembre seu passado, discuta seu presente e se projete para o futuro (MOREIRA, 2012, p.102).

Observamos, desse modo, que há varias nuances para a preservação da memória no contexto teatral e a forma de repassar, registra como forma de ensinar da arte é uma delas. Vários grupos se formulam pelo mundo a partir dessa prática de ir além da produção artística, repassando o que se aprendeu a partir do ensino da arte teatral. Destaco aqui o trabalho efetuado pelo Grupo ‘Galpão de Minas Gerais’ do qual Eduardo Moreira é Diretor teatral e integrante co-fundador.

O ‘Galpão Cine Horto’ é um centro cultural criado pelo Grupo ‘Galpão de Minas Gerais’, em 1998, na cidade de Belo Horizonte. O local é um espaço que abriga salas de espetáculo, salas de cinema e vídeo e salas de aula, em que se realiza uma intensa programação de espetáculos oficinas e cursos. A partir de 2006, passou também a contar com o ‘Centro de Pesquisa e Memória do Teatro’ (CPMT) que, em união com essas ações, realiza um trabalho consistente e permanente de preservação da memória teatral. Desse modo, materializam e tornam disponíveis os produtos relacionados a seus espetáculos e à sua história e geram materiais vários que o público pode levar para casa e, assim, continuar se relacionando com a história, a estética e a poética do grupo, ressinificando a experiência efêmera da encenação e fortalecendo, assim, as contribuições de caráter memorial.

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III CAPÍTULO

DAS LEMBRANÇAS E DO ESQUECIMENTO – AS MEMÓRIAS DO EXÍLIO

O exílio começa quando começamos a matar as coisas que amamos, mas não matamos elas de uma vez, talvez por anos. É como se o tempo pusesse uma faca nas mãos, e com ela matasse os instantes nos quais alguma vez fomos felizes.

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III CAPÍTULO: DAS LEMBRANÇAS E DO ESQUECIMENTO – AS MEMÓRIAS DO EXÍLIO