1.5. Quality and standardization 1 Quality 1 Quality
2.2.1 Magnetic theory
A minha história é igual a de muitos dançarinos que começaram adultos e de- terminados a seguir esse rio, cuja força de seu fluxo não o deixa parar de pensar, experimentar, criar e fazer dança (Eleonora Leal).
A Dança faz parte de minha vida e meu coração; eu a conheci aos vinte anos e não parei mais. Descobri a dança cênica no curso de educação física e com isso comecei a pôr em prática um sonho, cujo processo, nesta pesquisa, me proporciona desvelar um pouco de meu percurso de artista-professora. A carreira profissional de professora foi construída conjuntamente com a da intérprete-criadora, uma relação profícua que trouxe crescimento para ambas, mas nos últimos anos a docente vem ganhando espaço com os cursos de pós-graduação, como o de aperfeiçoamento em Consciência Corporal - Dança na FAP (PR), 1999, mestrado em artes cênicas na UFBA entre 2002 e 2004 e, atualmente o doutorado no mesmo programa de pós-graduação.
Conheci a dança artística por intermédio de filmes na TV e no cinema, que foram os grandes motivadores para eu fazer Dança, porém minhas primeiras tentativas de estudo na área não
Fig. 15 - Eleonora Leal. Fonte: Arquivo pessoal (s/d).
deram certo; aprendi minha primeira pequena flexão no decorrer do curso de educação física, na disciplina Rítmica, a qual me inspirou a procurar cursos informais para continuar o aprendizado em Dança, na década de 1980, período em que pude financiar o meu sonho. Por ter aprendido os princípios básicos de Sá Earp na graduação, resolvi fazer Dança na academia da professora Marilene Melo 61.
A formação artística e profissional direcionada para a Dança também ocorreu por meio dos grupos artísticos. No Encarte, no qual eu fiquei por um ano, também experimentei, no primeiro espetáculo do grupo e único do qual participei, a criação colaborativa, afinal a diretora Marilene Melo havia participado do Conjunto Coreográfico da UFPA, onde permaneci por mais de sete anos, vivenciando grandes aprendizados. Passei pela direção da Profª. Eni nos anos 1980 e de Waldete Brito, anos 1990. Se com Eni comecei a aprender as variantes de um processo criativo, sendo intérprete e em outros momentos intérprete-criadora de processo coletivo e colaborativo, com Waldete encontrei a oportunidade de dançar a criação de outros coreógrafos convidados durante sua gestão no grupo. Na Cia Experimental de Dança Waldete Brito, a qual passei a in- tegrar na década de 2000, experimento intensamente esse tipo de criação colaborativa; sendo o lugar onde aprimoro esse fazer.
Ao integrar o Grupo Coreográfico em 1987, fui introduzida no estudo de outras técnicas, tais como balé, improvisação, laboratórios de criação e teatral, dança moderna, além de outras técnicas. Além das aulas do grupo, estudei a técnica do balé e de dança moderna, noções de sapateado, dança flamenca, lutas marciais (karatê e capoeira – no grupo) e certas técnicas al- ternativas como os princípios de Bartenieff, Yoga; posteriormente, fui englobando nos estudos práticos os especificamente teóricos sobre história da Dança, metodologia do ensino da Dança, composição coreográfica (teoria e prática), história da arte, método Laban. Na maioria das vezes foram pequenos cursos ou oficinas, mas a cada curso havia um acréscimo e aperfeiçoamento do aprendizado anterior.
Os três grupos foram escolas, porém não posso deixar de mencionar que no Grupo Coreográfico o conhecimento adquirido foi a base para minha profissão como artista e professora. Fiz aulas com vários professores convidados, bem como com as próprias colegas do grupo, por dividirmos essa responsabilidade com a professora Eni. Mas nos três aprendi a interagir, dividir tarefas, realizar atividades, discutir assuntos que diziam respeito ao grupo, a aceitar as diferenças, a respeitar e ser respeitada, sugerir, criar em coletivo e em colaboração 62, ensaiar individualmente e em grupo, 61 Marilene Melo estudou dança com Augusto Rodrigues, Eni Corrêa e Marbo Gianannccini, além dos professo- res do eixo Rio - São Paulo. Participou do Grupo Coreográfico da UFPA. Montou uma academia em 1978, onde ministrou aulas de Dança com uma metodologia particular pautada no que havia aprendido com seus professores e os conhecimentos obtidos. Em 1986 criou o Grupo de Dança Encarte, que posteriormente passou a ser Grupo de Dança Marilene Melo. No final da década de 1990 fundou a Cia de Dança Roda Pará, composta por dançarinos cadeirantes e não cadeirantes.
62 A minha primeira experiência em criação colaborativa foi no curso de graduação na disciplina Rítmica, cujo processo foi mencionado na segunda subseção.
a conhecer distintos processos de criações, a coreografar, criar roteiro, projetos de montagens de espetáculos, entre outros aprendizados muito próprios de quem convive em grupos que se autossustentam ou dependem de alguma verba para realizar suas produções.
Por começar a Dança já adulta e no final de um curso de licenciatura, tinha consciência que precisaria aprofundar os estudos sobre alguma técnica, princípios e metodologia de ensino espe- cífico se quisesse ministrar aulas para faixas distintas e, principalmente, para criança. Com esse pensamento, dei aulas para o infantil, seis anos depois de ter iniciado nessa linguagem e com alguma experiência de como conduzir as aulas para os alunos de seis a oito anos. Minha aula estava para o que se chama de dança criativa, ao enfatizar os jogos, os ritmos, atividades para coordenação motora, descoberta do corpo etc. Trabalhei com dança em academias e em clubes de escolas particulares de ensino básico, fundamental e médio, um aprendizado no qual contei com o auxílio de uma formação continuada e autônoma.
Essa primeira fase me levou à segunda, ou seja, trabalhar como professora concursada especifica- mente para a dança, em 1993, pois até o início dos anos 90 ainda atuava na profissão de educação física. Ser professora em Dança, exclusivamente, reuniu o lado pedagógico com o artístico de forma prazerosa, pois a artista alimentava a relação da professora e da coreógrafa. Esse foi o período em que comecei a acrescentar, nas aulas, atividades de criação, uma experiência lúdica para elas; e, para mim, o início de um caminho importante para despertar a sensibilidade criativa. No decorrer da década de 1990, já na ETDUFPA, retornei ao estudo do desenvolvimento do corpo infantil, da psicomotricidade, aos brinquedos cantados, jogos infantis, ao mesmo tempo em que fazia de aulas de balé a dança contemporânea, um processo “muito louco”, para dar conta do fazer, saber e pensar a Dança do momento que vivia. Assim, nas oficinas, comecei com iniciação à Dança, mais tarde dei aulas de dança moderna para adolescentes e adultos (princípios de Horton e Graham); no Curso Livre Experimental passei a ministrar aulas de balé 63 em níveis diferentes
e de técnica contemporânea, posteriormente, em função do programa propor o contato com di- versos gêneros de Dança. Dirigi e coreografei espetáculos, organizava com Maria Ana mostra de dança no Teatro Cláudio Barradas 64, representava com as alunas a ETDUFPA nos eventos da
cidade e da UFPA, participava de todas as atividades desenvolvidas para os alunos de Dança. No final de 1990 coordenei o Grupo de Dança Juvenil da ETDUFPA, formado por adolescentes que fizeram parte das primeiras turmas das oficinas. O trabalho que desenvolvemos com as me- ninas 65 e o desejo delas por essa experiência propiciou tanto para o grupo quanto para mim um 63 Nessa fase comecei a dar aulas de balé, e acrescentava no final da aula jogos e brinquedos cantados para des- pertar outras possibilidades de manifestação do corpo.
64 O Teatro Cláudio Barradas ao qual me refiro, pertencia ao prédio da ETDUFPA na Av. Magalhães Barata, nosso primeiro espaço fixo. Com a mudança da ETDUFPA para o conjunto arquitetônico do antigo MEC, na Rua D. Romualdo de Seixas, o espaço anterior foi desativado para ganharmos um teatro maior chamado Teatro Universitário Cláudio Barradas.
aprendizado ímpar, auxiliando-me posteriormente na direção do Grupo Coreográfico entre 2007 e 2009, composto por alunos do curso técnico. Nesse período, convidei outros professores como Jaime, Maria Ana, Mariana e Waldete para colaborarem comigo nessa jornada, o que para mim foi significante na medida em que as trocas de aprendizados se tornavam mútuas e fortaleciam amizade e respeito entre nós.
Os estudos desenvolvidos no mestrado me auxiliaram a introduzir a teoria nas disciplinas de Composição Coreográfica, Prática de Montagem II, Dança Contemporânea e Música e Corporeidade do curso técnico para discussão e reflexão sobre as práticas ministradas nas dis- ciplinas. Com o tempo e o entendimento sobre o que fazia, meu interesse canalizou-se para o experimento nos processos criativos.
Finalizo a apresentação dos cinco professores, desvelando saberes e poderes constituídos por linhas de fugas que percorreram uma parte de suas vidas e que nesse momento se encontram em processos de criações teóricas.