• Aucun résultat trouvé

La présentation de la doctrine

Section 1: L’absence de construction conceptuelle de la notion

1) La présentation de la doctrine

No decurso do nosso trabalho e tendo em vista a observação que levámos preliminarmente a cabo nos diversos bairros e as actividades em que pudemos participar, a primeira questão que se nos pôs foi a de saber de forma inequívoca quem era o observador e quem era o observado, situação essa que, inicialmente, nem sempre foi bem resolvida, quer por nós, quer pelos, chamemos-lhes observados, tendo em conta o público-alvo, geralmente jovens e menos jovens mulheres, não activas profissionalmente, nem academicamente, curiosas, por vezes mesmo inquisitivas, quando não até provocadoras, sobre o que estaria a fazer alguém, primeiro acompanhado de pessoal da

gestão do bairro, posteriormente já a solo, quais seriam os seus objectivos reais e não e apenas os declarados, que eram enunciados sumariamente por nós após uma introdução levada a cabo pelo pessoal da instituição de HS, que nos havia convidado, seja o IHM, seja, já no Funchal quer o IHM, quer a SHF e ainda e finalmente a CMCL e a CMSC.

Na verdade e no mundo real, não se revela, nem se revelou muito crível, numa primeira nem numa última abordagem, o dizer que a nossa intenção e o nosso objectivo essencial seria o prosseguir de uma carreira académica, seja lá isso o que fôr e que não almejamos, principalmente quando o nosso interlocutor ou observado, tem reduzida ou interrompida e mal sucedida escolaridade, mas e mesmo assim, nem sempre os resultados foram maus, por vezes e até, em termos pessoais se revelaram muito interessantes mas, como é óbvio e até, e por via disso, resultará agora mais compreensível para o nosso leitor, porquê optámos por não divulgar os nossos cadernos e fichas de observação, o mesmo se passando com os registos domiciliares das entrevistas.

Mais ainda, nos questionámos e ainda hoje nos interrogamos se será possível fazer ou praticar observação, seja ela directa ou indirecta, participada ou não participada, cientificamente classificada como tal e de acordo com os manuais, num bairro social, como o de Santo Amaro, ou outro qualquer, mas mais neste BSAm, o qual, como se poderá verificar nas fotografias insertas nesta tese, tem um páteo central, para onde dão muitas das janelas das múltiplas habitações e para onde confluem muitas das saídas dos prédios, e nele se passear ou deslocar um estranho, na circunstância nós, no início e muitas vezes acompanhado de uma pessoa, que por acaso é funcionária da instituição administradora do bairro e logo depois sozinho? Trabalho baldado e resultados pouco menos que satisfatórios, excepto para nos tornarmos conhecidos e eventualmente confiáveis, se calhar nem isso.

Quanto a este tipo de recolha de dados, tivemos ocasião de sozinhos e ao início da manhã, irmos por um ou outro dos vários bares do bairro, para tomar a bica num deles, procurando nunca o repetir, pelo menos no início, bares esses, que são 4 no bairro, agora 5, aonde se reúnem e socializam os homens, tarefa essa que também se revelou nada fácil, agravada pelo sentimento de desconfiança da parte destes, alguns deles que pensam e actuam como machos-alfa, em relação aos moradores do género feminino, que como já falámos antes, são elas, no entanto e na verdade quem verdadeiramente manda e tem voz, quer em casa, quer na rua, muito embora eles digam e propagandeiem que não é bem assim.

Única excepção e mesmo assim em via de mudança, o local de venda e transacção de droga, principalmente o bloom e o hache, comercializados às claras, numa das habitações do bairro, estabelecimento comercial, se assim lhe podemos chamar, comodamente instalado para não dizer domiciliado, num rés-do-chão, para onde convergem a pé ou motorizados, os clientes e onde se verifica, com escândalo e repulsa quase geral, que a maior parte dos mesmos clientes são de fora…Que os de dentro se abastecem noutro lado. E o inverso também é verdadeiro, uma vez que os de fora, abastecem-se dentro e os de dentro, fora.

Isto é o que dizem e nos foi transmitido, a medo, num misto de raiva e alívio os restantes moradores não consumidores, principalmente as mulheres, que os homens, pelo menos alguns deles, se revelam indolentemente indiferentes, quando não disfarçadamente desejosos de participar no ambiente comercial, fortemente rendível e conferidor de estatuto.

Assim, a nossa observação foi directamente levada a cabo no terreno e da mesma fizemos um registo confidencial em fichas de observação, que deu origem a um ficheiro apenas nosso e não vertido para a tese, daquilo que designámos por incidentes críticos, acontecidos nos diversos bairros, mas mais aprofundadamente no BSAm, do género, briga entre vizinhos, por razões de dano na roupa estendida, urina nas flores postas nas partes comuns dos blocos, maldades feitas aos animais domésticos do vizinho, deposição de fezes e ou urinas nas entradas e junto às portas e ocasional e raramente agora de práticas de bruxaria e candomblé, nomeadamente para os afectos e amores/desamores, mas e também para as invejas e cobiças, muitas e notórias.

Tem havido questões e casos, qual deles o mais grave, de comportamentos associais e mesmo criminosos, um deles quase extremo, conforme o sucedido e a que assistimos, de uma defenestração de uma companheira pelo respectivo companheiro, ambos a viver num primeiro andar, defenestração provocada por violência domestica, sustentada por alcoolismo e destruturação da família original, incidentes e registos esses que foram também nossas ferramentas de trabalho para caracterizar toda uma estrutura e os seus nexos internos de causalidade, muito embora as mesmas fichas e resultados das observações não sejam, por razões de pudor, ou confidencialidade ou finalmente de reserva científica, apresentadas no nosso trabalho.

Achámos curioso que não seja muito comum, ou pelo menos não a encontrámos, no designado Estado da Arte, a definição incontroversa e absoluta de observação, 6,7,8, com a excepção que retiramos: Observar é um processo que inclui a atenção voluntária e a inteligência, orientado por um objectivo final ou organizador e dirigido a um objectivo para recolher informações sobre ele…9

Foi o que decidimos, ainda que empiricamente seguir, para a observação no terreno, tanto mais que, com este método, pretendíamos basicamente recolher informação para podermos organizar, acto contínuo, a fase seguinte do nosso trabalho sustentado em entrevistas, que são basicamente um acto de comunicação, obrigatoriamente bilateral, para as quais, não faria muito sentido que não tivéssemos ideias minimamente substantivas sobre o terreno e as problemáticas defrontadas, daí não sabermos muito bem o que questionar, não apenas na entrevista mas principalmente e em fase posterior, no inquérito, o qual de igual forma poderia não fazer sentido, no seu todo e ou em cada uma das suas questões, se não fosse orientado e sustentado, não apenas nos resultados da observação, situada exclusivamente no presente e sobre o directamente observável mas e também nas declarações prestadas pelos entrevistados, sobre a realidade por nós, observador ou entrevistador, na mesma pessoa, meramente percepcionada, mas por eles, observados ou entrevistados, quotidianamente vivida.10

Ficaram por ver e muito teríamos gostado de ter acesso livre aos registos oficiais desses mesmos incidentes críticos, os quais são reavaliados e sujeitos a um despacho superior, sendo depois arquivados ou transmitidos a quem de direito, seja uma entidade administrativa ou policial ou mesmo criminal quando se trate de crime público, que os há. Infelizmente. Também não tivemos acesso, senão pontual e não documental, a qualquer uma dessas participações e seus relatórios e mesmo quando solicitámos o acesso, formal e efectivo, garantindo nós, tal como para os dados de gestão, a mais estrita confidencialidade, tal acesso foi-nos negado, inicialmente e, ainda que posteriormente e agora, tendo sido percorrido todo um caminho de confiança e isenção, tal nos fosse já eventualmente permitido, mas já era tarde para nós, em termos de tese.

6 MEEDLEY, D.M. SMITH, L.H., Measuring classrooms behavior by systematic observation, Gage, N.L., Handbook of Researching on Teaching, Chicago, Rand Mac Nally, 1963.

7 ROSENSHINE, B., STEVENS, R.., Teaching Functions, in M.C. WITTROCK (Ed.), Handbook of Researching on Teaching, 3ª edição), A project of the American Educational Research Association, Nova Iorque, Mac Millan Publishing Company, 1986

8ROSENSHINE, B.,FURST, N., The use of direct observation to study teaching, in TRAVERS, R.M. (Ed.)

Second Handbook of Researching on Teaching,Chicago, Rand Mac Nally, 1973.

9DE KETELE, J.M., Observer pour eduquer, Berna, Peter Lang, 1980, 1990.