2. CONTEXTE DE REALISATION
2.2 Portée et attendus du plan
Luiza Cortesão, uma educadora portuguesa, é outra autora que se destaca pelo interesse e pela produção a respeito da metodologia de projeto. Junto com outros dois autores, Carlinda Leite e José Augusto Pacheco, publicou uma importante e referenciada obra20 sobre a temática discutida neste capítulo. Esta obra, juntamente com um capítulo que Cortesão escreveu em um livro21, que trata sobre o trabalho com projeto, representam as duas principais fontes de onde foram tiradas as contribuições da autora para esta pesquisa.
Diferente de Boutinet, a autora portuguesa apresenta de forma objetiva e gradual o entendimento que tem a respeito do trabalho com projeto. Cortesão et al. (2002, p. 24) afirma que
um projecto é um estudo em profundidade, um plano de acção sobre uma situação, sobre um problema ou um tema. [...] o projecto envolve uma articulação entre intenções e acções, entre teoria e prática, organizada num plano que estrutura essas acções.
Uma leitura do que foi dito acima permite inferir que o projeto não se limita a manifestar uma intenção. Se caracteriza também pelo planejamento organizado das ações e propriamente, pela ação ativa das pessoas que procuram resolver um problema ou um determinado tema. E para ficar mais completa essa idéia Cortesão et al. (2002, p. 25) comenta que “o projecto não é apenas intenção, nem apenas plano, nem apenas acção e produto, mas que é sim, o conjunto de todas essas dimensões”. Por outro lado, existem momentos específicos que caracterizam o fato de a pessoa estar desenvolvendo projetos. Cortesão et al. deixa mais claro que momentos precisos seriam esses. “Só quando passam à acção, só quando analisam e fazem o balanço do que estão a realizar, só quando reorientam, se necessário, as actividades planeadas e mobilizam os recursos é que estão a desenvolver projectos”
20 Trabalhar por projectos em educação: uma inovação interessante? Porto: Porto Editora, 2002. 21 Trabalho de Projecto 2. Leituras comentadas. 3. ed. Porto: Afrontamento, 1993.
(2002, p. 26). Portanto, estar inserido numa atividade de projetos não é o mesmo que estar fazendo, desenvolvendo o projeto. As ações e seus correlatos efeitos que também implicam ações tornam-se o referencial desta prática educativa. Em razão disso, não faz sentido algum conceber um formoso projeto no papel e depois não o desenvolver, isto é, colocar em ação as intenções que foram expostas no papel.
Aos poucos a definição inicial do trabalho por projeto começa a ganhar mais consistência. Neste momento já é possível acrescentar outros detalhes na concepção de projetos e dizer, segundo Cortesão et al, que “um projeto pressupõe, portanto, a clarificação das intenções que o orientam e que o justificam, a concepção do plano que o organiza, a acção que o irá concretizar e que permite produzir efeitos que melhorem a situação presente que esteve na origem” (2002, p. 25).
A questão referente a melhorar a situação presente é de considerável importância quando se trabalha com projeto, pois essencialmente esta prática visa transformar a realidade. Ela convida os alunos a refletirem sobre questões importantes da vida real e da sociedade e a intervirem em problemas identificados no contexto social em que vive o aluno. Esta idéia é exposta com certa freqüência no trabalho de Cortesão et al., e a seguinte frase serve como exemplo:
De facto, sendo um projecto uma idéia para uma transformação de uma determinada realidade ou de um problema e a concretização dessa idéia, ou, como diziam os professores [...] “um ideal muito querido a concretizar”, ele deve conduzir a essa transformação da situação ou do problema (2002, p. 26).
Fundamental para proceder as mudanças na realidade é entender que o projeto é uma tarefa definida e realizada em grupo, que vai implicar adesão individual e empenho coletivo durante todas as fases que o projeto demanda . Sem esta conscientização a realização do projeto fica bastante comprometida, pois sozinho o indivíduo pouco pode transformar. Mais uma vez, se aproveita das considerações anteriores para incrementar a concepção do trabalho com projetos nas palavras de Cortesão et al.,
um projecto é, por definição, um trabalho colectivo, com que se procura intervir no contexto educativo e/ou social e/ou resolver um problema. O “prêmio” será, sobretudo, conseguir um bom produto, [...] uma boa intervenção que seja útil e interessante para todos. Só assim se poderá oferecer um clima genuinamente gratificante de trabalho, contribuir para que os alunos cresçam como cidadãos, através da euforia de perceberem a utilidade e complementaridade dos saberes que vão adquirindo e de terem contribuído, com o seu esforço, para descobrir, para melhorar algo no contexto social e/ou educativo em que vivem, de forma a sentirem-se actores sociais intervenientes e significantes. É no reconhecimento da importância da criação deste clima que talvez esteja a justificação da importância de trabalhar por projetos (2002, p. 53).
Observa-se que trabalhar com projetos “representa um desejo efectivo de produção de mudança e traduz uma forma distinta de orientação de uma acção à qual se afectam recursos e em torno da qual mobilizam actores” (CORTESÃO et al., 2002, p. 37). E quando se parte em busca de transformações significantes, será necessário que os alunos desenvolvam capacidades pessoais de pesquisa, de analisar a realidade de forma interdisciplinar22, como também se favorece a construção de conhecimentos por parte dos alunos. Isto fica bem explicitado na sentença de Cortesão: “O trabalho de projecto é uma actividade de índole investigativa através da qual se consegue produzir conhecimento” (1993, p. 86). Também se pode acrescentar que “é uma área privilegiada de construção e vivência da interdisciplinaridade que trabalha situações da vida quotidiana dos alunos” (CORTESÃO et al., 2002, p. 33). Estes são alguns dos elementos pelos quais Cortesão et al. (2002, p. 48) garante que o trabalho por projeto leva à “aprendizagem de saberes integrados e problematizados que tornam possível a aprendizagem significativa”.
Destaca-se por fim que o trabalho por projetos “está associado a concepções de formação e educação que não se coadunam com a uniformização e que não se esgotam na instrução e acumulação de conhecimentos” (CORTESÃO et al., 2002, p. 23). Isto quer dizer que os conteúdos não estão predeterminados, até porque eles partem de um desafio, o qual, para ser resolvido, exige a incorporação de novos conteúdos por parte dos alunos. Pensando assim, o conhecimento deixa de ser algo estático e passa a ser entendido como um processo de construção
22 Interdisciplinar vem de interdisciplinaridade e esta palavra “refere-se aquilo que é comum a duas ou mais
disciplinas ou campos de conhecimento. [...] ocorre quando existe troca e cooperação entre profissionais envolvidos, ou entre as áreas envolvidas [...] Não existe uma mera superposição de interesses, mas uma verdadeira interação e um compartilhamento de idéias, opiniões e explicações” (ARAÚJO, 2003, p. 21).
humana, servindo assim como um instrumento para a compreensão e transformação da realidade.
Ao invés de mencionar as idéias acima levantadas sobre o trabalho com projetos e sua pertinência para a utilização na educação contemporânea, caracterizada pela sociedade do conhecimento, desta vez será destacada a disparidade em relação à educação amparada pelo pensamento cartesiano.
Ficou bastante marcado que o trabalho com projetos não visa à reprodução do conhecimento, não dá ênfase à repetição e tampouco valoriza a memorização e a cópia. Muito pelo contrário, através dos projetos verificou-se que o aluno é estimulado a construir o seu conhecimento, a produzir fatos sociais, a refletir sobre questões importantes da vida real e da sociedade.
Atividades repetidas e que, na maioria das vezes, não têm significado algum ao estudante, também foram descartadas pela proposta dos projetos, já que “as actividades são organizadas em função das experiências, motivações, expectativas e interesses dos alunos” (CORTESÃO, et al., 2002, p. 36).
Pensamentos fragmentados e reducionistas também são refutados por uma prática que busca pensamentos que valorizem a construção e a vivência da interdisciplinaridade.