PLAN D’ACTION
6.1 PLAN D’ACTION — ACTIONS | ACTEURS | TEMPORALITÉ
saber discernir e transformar o mundo à luz da Boa Nova de Cristo.
Lucas mostra que Jesus é o rosto revelador da misericórdia do Pai. Para isso usa uma série de parábolas (ovelha perdida, filho pródigo, mulher à procura da moeda, Lázaro). O texto da parábola do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 25-37), vem na sequência do envio missionário dos discípulos. Está, portanto, no contexto do discipulado: “Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo e vos darei descanso” (Mt 11, 28).
Jesus é o ungido do Pai para libertar o ser humano pela sua ação, no Espírito, de proclamar o Evangelho aos pobres. Por Jesus conhecemos o Pai, o Filho e o Espírito Santo, presente na história da salvação. Enviado do Pai para fazer sua vontade, Jesus proclama: “A vontade daquele que me enviou é esta: que eu não perca nada do que ele me deu, mas o ressuscite no último dia” (Jo 6, 39).
O estudo sobre Deus Pai coloca-nos no próprio coração da noção cristã do Deus uno e trino. Deus Pai é a fonte, o princípio, a raiz e a causa de toda divindade. A doutrina das processões divinas não significa motivo para subordinacionismo, nem é, por conseguinte, um obstáculo para a plena comunhão entre as Pessoas. Esta plena comunhão não pode encontrar melhor fundamento que a doação total do Pai que encontra para si, no Filho e no Espírito Santo, a plena resposta de amor. Como se realiza a comunhão trinitária em vista da paz?
2.2.3 A força do Espírito Santo e o Evangelho da paz
O Pai é revelado pelo Filho, mas é o Espírito Santo que revela o Pai e o Filho. O Catecismo da Igreja Católica parece querer ressaltar a ação do Espírito na história e na vida da cada um, porque somente no Espírito pode-se confessar a fé no Pai e no Filho e assim, a fé na Trindade. Alexandre A. Martins assim sintetiza:
O catecismo busca fundamentar sua argumentação no NT, mas seu ponto de partida é a fé dada pela Tradição, tanto que cita como fonte de verdade o
Concílio de Niceia (325), responsável pelo dogma da consubstancialidade do Pai e do Filho, e o de Constantinopla (381), que confessa a fé no Espírito Santo que procede do Pai e é Deus Uno ao Pai e ao Filho.185
Bruno Forte ressalta que o desafio é crer que Jesus é o Senhor, o Filho, o Messias. O mesmo que viveu humaníssimas relações de amor, de dor, de oferenda, de rejeição, é aquele que vive a relação única e exclusiva de vida e de amor com o Pai no Espírito.186
A comunhão entre as pessoas divinas ultrapassa nossas categorias porque as relações entre os Divinos Três se fundam na total doação de comunhão de amor e de vida. “Aquele que não ama não conheceu a Deus, porque Deus é Amor” (1Jo 4, 8)! Se Deus é Amor, tem que ser relação, alteridade, ou ainda, Pessoa! Pessoa é vida no amor. O amor é a realidade mais fundamental no mistério da Santíssima Trindade.
Érico Hammes refere que a comunidade primitiva, em meio à experiência da ressurreição, precisa reelaborar a ausência de Jesus com uma presença nova, o Espírito Santo. A descoberta dessa presença em forma de assistência e de apoio, garante à comunidade resistir às forças assassinas e destruidoras.187 Argumenta que as narrativas sobre o Espírito Santo, especialmente no evangelho de Lucas e dos Atos dos Apóstolos querem ensinar justamente essa força do Espírito. Quanto ao evangelho de João, uma das insistências é sobre a verdade, e a outra é sobre a paz (cf. Jo 20, 19-29). O tema da paz aparece em forma de perdão, porém à diferença do mundo (cf. Jo 14, 17). Depende da capacidade de perdoar, de ser tolerante com outras pessoas e ter a capacidade de pensar além dos próprios interesses.188 Pode-se concluir que o Pentecostes da
compreensão, de atenção aos pobres, doentes e necessitados em geral precisa garantir, - no contexto da realidade Latino-americana aqui analisada, das vítimas crucificadas e excluídas, em linguagem sobriniana, - a verdade da fidelidade divina e a permanência do amor de Deus para além da morte e do desespero. Poder-se-ia então falar de uma cristologia da paz a partir do seguimento de Jesus de Nazaré no Espírito Santo.
185 MARTINS, Alexandre A. Introdução à cristologia latino-americana, p. 85. 186 FORTE, Bruno. Jesus de Nazaré, p. 196.
187 HAMMES, Érico J. Disponível em: http://www.mitrascs.com.br/jornalintegracao, junho de 2017, p.
19. Acesso em 5 de setembro de 2017.
188 HAMMES, Érico J. Disponível em: http://www.mitrascs.com.br/jornalintegracao, junho de 2017, p.
A implicação prática vai significar que a paz está condicionada à dimensão do perdão. A salvação não está reservada apenas para a ressurreição depois da morte, mas inicia com uma libertação da humanidade na história. O anúncio do Evangelho aos pobres, com a libertação dos oprimidos e o ano favorável do Senhor (cf. Lc 4, 18-21), são sinais das maravilhas do Reino de Deus, já presente em Jesus, e antecipação - ainda limitada, mutável e contingente - da salvação eterna na ressurreição.
Pela força do Espírito o Evangelho de Jesus é anunciado. Para Jon Sobrino, é preciso colocar a salvação em relação com os pobres, pois extra pauperes nulla salus - fora dos pobres não há salvação -, afirmação forte e desafiadora, que vê nos pobres um lugar e um potencial de salvação, mesmo que em termos de ultimidade é Cristo que salva. O Autor insiste que do mundo dos pobres e das vítimas pode vir cura para uma civilização gravemente enferma.189
A partir de um significado hermenêutico cabe perguntar: o que se pode celebrar já na história, o que se pode saber, o que é lícito esperar e o que se deve fazer, já que ultimidade para Sobrino é o seguimento de Jesus. Tentaremos dar uma satisfação sobre isso no próximo seguimento.