5.5 La poly(aniline) dopée
5.5.2 Percolation de la poly(aniline)
O vazio carrega em si uma imagem de dualidade: ao mesmo tempo que esta “existência” do espaço significa aquilo que não contém, o conceito também é
interpretado como exatamente “aquilo que contém”. Suas significações se estruturam nas bases social, cultural e política das sociedades aonde é estudado ou vivenciado.
Foram os filósofos atomistas12 da Antiguidade (séc. V a.C.) os primeiros
gregos a admitir a existência de um vazio, ou vácuo, no qual se movem partículas eternas e imutáveis, os átomos. Para eles, não existe nada além dos átomos e do vazio, sendo assim, a produção de um novo mundo começaria quando muitas partículas, de formas diferentes, se reunissem no grande vazio.13 (MARTINS, 1996:42)
Com os estoicos e sua teoria sobre os incorporais (séc.III a.C.), o vazio, um dos quatro incorporais, juntamente com o tempo, o lugar e o exprimível, passa a ser considerado uma substância, uma corporeidade, um existente, visto que esta corrente filosófica defende a homogeneidade do todo, a do incorporal e a do corpo; tudo é corpo. (CAUQUELIN, 2008:22)
Para este projeto, seria exatamente o pensamento acima que legitimaria a existência do digital como cultura materializadora e concretizadora defendida por Flusser.
Gostaríamos de apresentar, em termos gerais, o conceito de vazio como vácuo existencial nas correntes filosóficas do século XX, que assim o incorporaram:
No Niilismo14 (final do séc. XIX), filosofia que designa a perda de um ideal
pelo desaparecimento de uma referência desejável e mobilizadora das sociedades ocidentais, o vazio é pensado como o fim último, quando a vida é desprovida de qualquer sentido e o absurdo reina. (VOLPI, 1999:08)
12 Atomismo, no sentido lato, é qualquer doutrina que explique fenômenos complexos em termos de
partículas indivisíveis.
13 Imaginando esta movimentação espacial podemos espelhá-la em uma primeira ideia de
compreensão crítica para a criação das imagens digitais.
44 Na filosofia política, um exemplo de vazio associado ao niilismo seria a questão do capitalismo como máquina produtora da moral inadequada e do espírito do vazio: “... a transição para a sociedade capitalista resultou em uma completa hegemonia determinista, o Reino das Necessidades, de acordo com as palavras de Marx. Uma formação social capitalista é vazia de sentido teleológico consciente e é totalmente dominada pelas leis econômicas necessárias.” (LUKÁCS, 1968)15
O filósofo e educador austríaco, Rudolf Steiner (1861-1925) acreditava que o sentimento do vazio espiritual, vivenciado pela classe média europeia, alimentava a própria condição desse vazio social. Em suas palestras, costumava argumentar contra a “passividade preguiçosa” da cultura europeia, que se abastecia de vazios, e dessa forma, entregava-se passivamente à ausência de propósitos, afastando-se da consciência crítica.16
Em linhas gerais, Steiner propunha que as pessoas deveriam “tomar posse” de seus pensamentos, pois eles viriam a ser preenchidos pela abstração natural e, também, pelo puro pensamento científico.
Foi baseando-se no homem e em seu vazio social (sensação de vacuidade social), que o Existencialismo ganhou forma e popularidade, logo após o término da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), numa Europa mergulhada nas consequências do conflito: “A experiência traumática da guerra gerou um ambiente de desânimo e desespero, sentimentos que atingiram principalmente a juventude, descrente dos valores burgueses tradicionais e da capacidade do homem de solucionar racionalmente as contradições da sociedade.” (PENHA, 1982:07)
O pensamento existencialista se desenvolveu muito mais como uma “atitude filosófica”, adotada por alguns pensadores, justamente em meio a essa crise, com o
15 “As we indicated with the support of Marx, the transition to a capitalist social formation resulted in
the complete determinist hegemony of capitalist economics, the Kingdom of Necessity according to Marx’s words. A capitalist social formation is void of conscious teleological direction, and is totally
dominated by necessary economic.” Disponível em: <http://www.marxists.org/archive/lukacs/works/democracy/ch07.htm>. Acesso em: 24/11/2009.
16 STEINER, 1919. Spiritual Emptiness and Social Life. Disponível em:
argumento de que o homem vivia em profunda alienação de Deus, da natureza, dos outros homens e principalmente da sua própria condição de ser.
Genericamente, pode ser designado como uma filosofia não sistemática que privilegia a realidade concreta do mundo, o singular, em relação ao nocional e às generalidades vagas, isto é, se opunham a uma representação totalizante do mundo que economizasse a experiência do vivencial. (HUISMAN, 2001:09)
Jean-Paul Sartre em O Ser e o Nada (1943) intitula a primeira parte deste ensaio de “O Problema do Nada”; ali, o autor afirma que para a consciência atingir as coisas, chegar até elas, é necessário conter o Nada, o Não-Ser. Para esse filósofo, a capacidade da consciência de “nadificar”17 as coisas, “de imaginar o nada” é a prova de sua liberdade.
Dessa maneira, Sartre estabelece uma relação entre a nadificação e a liberdade; a consciência é considerada por ele não um recipiente onde estariam depositadas as imagens e as representações dos objetos, mas sim uma instância voltada para fora, para a intencionalidade18, ou seja, o que lhe propicia a capacidade
de imaginar, de transcender. (PENHA, 1982:57)
É a imaginação que possibilita a consciência de criar mentalmente as coisas e reconstituí-las quando elas não se encontram fisicamente (1982:58). Logo, para a filosofia existencialista, é o Nada que fundamenta a liberdade. Uma grande contribuição da visão dos existencialistas foi considerar o conceito social de Vazio como uma forma de autonomia política e existencial, possível produtora de liberdade.
O momento que se segue na história (final do séc. XX até o presente) tem a ver com a quebra de muitos paradigmas que acompanharam o processo da
17 Nadificar é a tradução aproximada do neologismo francês néantiser criado por Sartre. 18
46 civilização industrial até o modernismo; a passagem da modernidade para a pós- modernidade é a maior responsável por certa pulverização dos laços sociais.
Para o filósofo Gilles Lipovetsky, a pós-modernidade, se existiu, foi apenas uma denominação de passagem. Ele argumenta que, desde os anos 1950, o mundo vive uma intensificação jamais vista do tríptico que caracterizou a modernidade: o mercado, o indivíduo e a escalada técnico-científica e que a partir dos anos 1980, com o avanço brutal da globalização e das novas tecnologias de comunicação, o mundo adquire uma velocidade espantosa. O autor defende que estamos na verdade subjugados a outra modernidade; uma modernidade mais veloz em que tudo parece ser levado ao excesso19.
É na hipermodernidade que o vazio de Lipovetsky nos situa, onde o excesso e o “esvaziado” se enfrentam em um combate que gera autonomia, novas liberdades e, que produz também, novos problemas, novas angústias, novas expectativas.
Na apresentação do livro A Era do Vazio (1987), de Gilles Lipovetsky, Machado da Silva considera o autor um otimista; aonde muitos pensadores veem no estado atual da cultura o pior dos mundos, invocando a Escola de Frankfurt, a alienação dos meios de comunicação e a perda total da capacidade de criticar. Este autor nos apresenta “o vazio como a era pós-moralista, o fim de uma época de valorização do sacrifício e de condenação do prazer, a derrocada de uma moral rigorista e o surgimento de uma era polissêmica de elaboração ética à la carte.” (2005: X)
O vazio é uma condição inerente aos tempos hipermodernos, já que “a sociedade pós-moderna não tem mais ídolos ou tabus, já não tem uma imagem gloriosa de si mesma, um projeto histórico mobilizador; hoje em dia é o vazio que nos domina. No entanto, trata-se de um vazio sem tragédia e sem apocalipse.” (2005: XIX)
19 Disponível em: <http://www.sinpro-rs.org.br/extraclasse/ago04/entrevista.asp>. Acesso 15
Lipovetsky considera que apesar da hipermodernidade estar pavimentada no consumo – somos destinados a consumir cada vez mais de tudo - esse autor defende que o consumismo da própria existência, por meio da mídia multiplicada, dos lazeres, das técnicas relacionais pode gerar um vazio colorido. (2005: XX)
Assim, o que poderia ser uma cultura catastrófica e apocalíptica, transforma- se em uma cultura de possibilidades, “livre”; a hipermodernidade consagrou a possibilidade de não crer em um único e categórico sentido, mas sim de apostar na construção permanente de sentidos múltiplos, provisórios, individuais, grupais ou simplesmente fictícios. O vazio de Lipovetsky é possibilidade de novo conteúdo; a Era do Vazio, assim, está repleta de novos significados.