Crisis or Expanding Agenda? 1968-1974 1
11.1 The OSTP Act
Os produtos televisuais são, na perspectiva da Semiótica discursiva, textos, ou seja, a manifestação de um processo de produção de significação, da função de interdependência contraída entre expressão e conteúdo, que – considerando a ordem lógica, formal, emocional ou moral que encerram – estão articulados em um universo próprio, industrialmente construído, um mundo-mercadoria, visto que as emissoras oferecem, como qualquer outra empresa comercial, seus produtos ao mercado. Mais ainda, trata-se de textos extremamente complexos, cujo conteúdo se expressa através da articulação simultânea de diferentes linguagens sonoras e visuais: de um lado, tem-se a plástica da imagem – estilos de cenário, figurino, maquiagem, iluminação, enquadramento, modos de interpretação; de outro, há os elementos sonoros – os ruídos, o verbal, o musical –, além de todo tipo de mixagem, decorrente de seu processo de captação e edição. São textos que se constroem, dessa maneira, de forma intersemiótica, utilizando todo um mix de linguagens em interação.
Ora, ao longo dos seus mais de 80 anos de existência, a televisão foi constituindo uma espécie de “gramática” do meio, em que todos esses ele- mentos estruturam-se em função de um modo particular de contar as nar- rativas, aquele que é próprio da televisão, dependente das possibilidades dos meios técnicos de produção, circulação e consumo dos produtos televisuais, que acabam por funcionar como linguagens que sobredeterminam o sonoro e o visual.
Por outro lado, a busca incessante do novo, a reiteração permanente do que deu certo, a velocidade de seu processo de produção, aliadas à rapidez com que a ciência vem-se traduzindo no contexto tecnológico, dotam os tex- tos televisuais de características bastante peculiares: há uma exclusão dos temas centrais em prol do pluralismo e da multiplicidade; há a substituição da integridade, da globalidade, por uma fragmentação cujas dimensões são cada vez mais exíguas. A densidade das imagens, a sobrecarga de informa- ções, a intertextualidade feita de referências, alusões, apropriações, o desdo- bramento do tempo em uma série de presentes ou em sequências de duração desigual conferem a esses textos um caráter híbrido. E essa hibridação mani-
festa-se em diferentes direções; quer interna, quer externamente, o que faz com que a gramática do televisual esteja em permanente construção, dificul- tando muitas vezes sua análise e compreensão e obrigando a consequente revisão, articulação e adequação das formulações à compreensão mais real e efetiva dos textos televisuais, pois o que interessa realmente é verificar como os textos televisuais fazem para dizer o que dizem.
E enfrentar o desafio teórico-metodológico que a produção televisual impõe, é, em primeiro lugar, ter presente que não se podem analisar os pro- dutos televisuais independentemente de sua relação com o processo comu- nicativo e enunciativo que os engendra e constitui, cujas características parti- culares têm repercussões sobre seus conteúdos e linguagens.
Algumas premissas hjelmslevianas, nessa direção, fornecem indica- ções do percurso metodológico a ser trilhado, bem como das possibilidades de sua articulação com as formulações de outros teóricos com: Barthes, Bakhtin, Greimas, senão, vejam-se:
• Considerado isoladamente, texto algum tem significação; toda a significação nasce de um contexto;
• Todo texto contrai relações com outros pelos quais poderia ser substituído e que constituem o seu paradigma (ou ... ou);
• Todo texto contrai relações com outros textos que o precedem e/ ou sucedem na cadeia sintagmática (e ... e);
• Todo texto contrai relações internas de interdependência entre seus dois planos, expressão e conteúdo, e, no interior de cada pla- no, entre forma e substância;
• O sentido é o resultado da projeção de uma forma sobre a substân- cia, quer de expressão, quer de conteúdo;
• Forma e substância são termos relativos – o que é substância em um nível de análise pode ser forma em outro e vice-versa;
• Uma semiótica, ERC (denotação) pode se transformar em plano do conteúdo ou da expressão de uma nova semiótica. É o que se deno- mina respectivamente de metassemiótica ou semiótica conotativa.
Ora, as formulações teóricas de Greimas, Barthes e Bakhtin são, de certa forma, desenvolvimentos das premissas hjelmslevianas. Assim, se Grei- mas, com sua concepção de narratividade, atua em âmbito mais restrito e definido, projetando uma forma organizadora do conteúdo extensiva a tudo o que os homens dizem em qualquer linguagem, já Bakhtin se fixa nas rela- ções intertextuais, sejam elas de caráter paradigmático (gêneros textuais) ou sintagmático, o que também é trabalhado por Barthes, quando se dedica ao exame dos processos conotativos e metassemióticos.
Parece incontestável que os textos televisuais vão muito além de si mesmos, ultrapassam seus limites formais, demonstrando e apontando sua suplementaridade: dizem sempre muito mais do que aquilo que está enqua- drado em suas fronteiras restritas. Mas, são exatamente esses limites que indicam suas novas margens, ou seja, sua passagem de texto para uma tex- tualidadeque incorpore outras circunscrições.
Daí a razão pela qual o estabelecimento de uma metodologia de aná- lise coerente com a proposta teórica, adequada aos objetivos e apropriada à descrição do objeto de estudo, o produto televisual, implica a convocação para sua textualidade daqueles elementos pertinentes à análise pretendida, envolvendo, se for o caso, as relações do texto em análise:
• com seus entornos de caráter amplo e restrito; • com sua própria enunciação;
• com outros textos com os quais ele dialoga paradigmática ou sin- tagmaticamente;
• no seu interior entre os dois planos, expressão e conteúdo.
Como, nessa textualidade, o texto transborda seus limites, há uma es- pécie de apagamento das linhas claras de demarcação entre o que faz parte de sua intratextualidade, intertextualidade ou paratextualidade. Ela passa, então, a constituir-se, além dos próprios textos, de intertextos que os acom- panham e deles fazem parte, possibilitando ultrapassar barreiras e frontei- ras: a textualidade acontece, dessa forma, nos espaços em que o texto se descentra, oferecendo vários mundos possíveis, ou seja, diferentes narrati- vas. Daí a relevância da definição e determinação dos níveis de pertinência de
uma análise, ou seja, daquilo que deve ser agregado ao âmbito do processo de significação em exame. Um texto pode ser assim examinado, tendo em vis- ta o objetivo do analista, não apenas pelas relações de caráter intratextual, mas, também, por aquelas de caráter paratextual, concernentes ao contexto comunicativo/enunciativo, e/ou ainda por aquelas de caráter intertextual, de ordem quer paradigmática, quer sintagmática.
Uma análise que se proponha a dar conta dessas virtuais relações, deve considerar esses diferentes âmbitos de interação que comportam, cada um deles, variados dispositivos. Pordispositivos, entendem-se os diferentes mecanismos de ancoragem, presentes na textualidade em análise, que ma- nifestam, sob a forma de procedimentos/estratégias, as seleções e combi- nações operadas pelo enunciador quanto à forma de condução de um dado processo comunicativo e/ou discursivo; elas podem ser de várias ordens e/ou pertencerem a diferentes âmbitos do processo, para, inter ou intratextual, em que atuam.
Com isso se quer dizer que:
• o âmbito paratextual comporta dois tipos de dispositivos – o de contextualização sócio-histórica e o de contextualização enuncia- tiva –, responsáveis pela configuração da situação comunicativa/ enunciativa e de seus entornos que podem ou não estar assina- lados no texto. Esses dois dispositivos manifestam-se através do emprego de diferentes procedimentos ou estratégias de ordem co- municativa e enunciativa;
• o âmbito intertextual comporta dois tipos de dispositivos – o de pa- radigmatização, ou seja, de atualização de modelos textuais, e o de sintagmatização, ou seja, de metatextualidade ou conotatividade –, responsáveis pelo estabelecimento de conexões entre o texto em exame e outros textos. Esses dois dispositivos manifestam-se através do emprego de diferentes procedimentos ou estratégias concernentes ao tipo de referenciação ao modelo ou às formas de transposição operadas;
• o âmbito intratextual comporta dispositivos discursivos (plano do conteúdo) e dispositivos expressivos (plano da expressão), respon-
sáveis pela estruturação do relato e sua manifestação textual. Os dispositivos discursivos distinguem-se entre si pelo caráter semân- tico (tematização e figurativização) ou sintático (actorialização, temporalização, espacialização e tonalização), manifestando-se através do emprego de diferentes procedimentos ou estratégias. A seleção dos procedimentos nesses diferentes âmbitos que com- põem a textualidade em análise é sempre estratégica, estando diretamente relacionada às intenções de dado processo comunicativo.
Em síntese, todo o jogo comunicativo, embora se submeta a um con- junto de regras, utiliza-se de estratégias de convencimento, que perpassam toda sua textualidade. A escolha dessas estratégias pode fundamentar-se na lógica ou em diferentes figuras de manipulação, podendo levar o “fazer” via cobiça/suborno; via alguma forma de coerção, temor, receio e/ou medo, via formas de encantamento ou fascínio, ou ainda via desafio, incitação. Essas di- ferentes modalidades de manipulação podem se atualizar através da adoção de distintas estratégias comunicativas/discursivas, uma vez que aquilo que seduz, tenta, intimida ou provoca é variável de sujeito para sujeito. A escolha de uma figura em detrimento de outras pressupõe assim um conhecimento do enunciador sobre o enunciatário: a eficácia de uma forma de manipulação está diretamente relacionada a esse conhecimento do enunciador sobre o enunciatário, que é indispensável para o êxito do processo comunicativo.