• Aucun résultat trouvé

The Golden Age: 1957-67 1

Dans le document the New Deal to the Present (Page 79-89)

Como qualquer outro texto, o televisual mantém relações de caráter paradigmático com outros textos, fundadas nos traços de semelhança e des- semelhança. É, nesse contexto, que interessa atualizar as questões relativas aos gêneros.

Os textos televisuais propõem realidades discursivas diversas aos te- lespectadores. E, se até há bem pouco tempo, a televisão operava com dois tipos de espaços: os internos, que eram espaços de estúdios, e os externos, próprios das ações do mundo, conectados entre si pelos dispositivos tecno- lógicos – hoje, o mundo exterior deixou de ser a única fonte a partir da qual a televisão propõe “realidades discursivas”e as alimenta: os espaços inter- nos passaram a fomentar acontecimentos com reflexos no mundo exterior, funcionando como referência para as realidades discursivas que a televisão constrói. É o meio desenvolvendo seus próprios percursos de acesso ao “real”,

a partir dos quais constrói realidades de ordens diversas: a “metarrealidade”, tipo de realidade discursiva veiculada pela televisão que tem como referên- cia direta o mundo exterior e natural, constituindo-se naqueles produtos que têm por base a veridicção em relação a acontecimentos exteriores ao meio sobre os quais a tevê não detém o controle; a “suprarrealidade”, tipo de reali- dade veiculada pela televisão que não tem compromisso direto com o mundo exterior, mas com a coerência interna do discurso que produz, constituindo- -se nos produtos ficcionais que têm por base a verossimilhança, pautados por leis, convenções e regras próprias; a “pararrealidade”, novo tipo de realidade veiculada pela televisão que não tem como referência o mundo exterior, mas um mundo paralelo, construído no interior do meio, que, então, estabelece suas regras de funcionamento, constituindo-se naqueles produtos que têm por base a hipervisibilização de acontecimentos provocados e controlados pela própria televisão.

Ora, há uma relação estreita entre essas realidades discursivas e os gê- neros televisuais. O gênero televisual seria, nessa perspectiva, uma macroar- ticulação de categorias semânticas capazes de abrigar um conjunto amplo de produtos televisuais que partilham umas poucas categorias comuns.

Acredita-se existirem, assim, em televisão três grandes gêneros: o fac- tual, que opera com a metarrealidade, propondo como regime de crença a ve- ridicção; o ficcional, que se movimenta na suprarrealidade, propondo como regime de crença a verossimilhança; e, finalmente, o simulacional, que opera com a pararrealidade, propondo como regime de crença a hipervisibilização como equivalência ao conhecimento pleno.

Como modelizações virtuais, modelos de expectativa, os gêneros constituem-se em uma primeira mediação entre produção e recepção; refe- rem-se ao tipo de realidade discursiva que um produto televisual constrói, considerando o tipo de real que toma como referência e o regime de crença que propõe ao telespectador. Nessa perspectiva, a noção de gênero em tele- visão não passa de uma abstração; é da ordem da “virtualidade”, uma vez que nenhum produto manifesta apenas essas categorias genéricas enquanto tal, em sentido restrito, em sua extensão e exclusividade. Os subgênerose forma- tos são responsáveis pelos percursos de configuração dessas realidades, ou

seja, pelos seus procedimentos de colocação em discurso, projetando sobre essas categorias genéricas formas que as estruturam, permitindo sua mani- festação.

Dito de outro modo, a noção de gênero, em televisão, deve ser com- preendida como um feixe de traços de conteúdo da comunicação televisiva que só se atualiza e realiza quando sobre ele se projeta uma forma de con- teúdo e de expressão – representada pela articulação entre subgêneros e formatos, esses, sim, procedimentos de construção discursiva que obedecem a uma série de regras de estruturação, envolvendo seleções e combinações em diferentes níveis. O subgênero é uma das possíveis atualizações de um gênero; o formato é da ordem da realização. Sob a chancela do subgênero, pode-se agrupar um número infindável de tipos de programas televisuais, mas, evidentemente, ele diz muito mais que o gênero sobre um determinado produto televisual. Como estrutura geral, ele preexiste à realização efetiva de qualquer produto televisual, fazendo parte de um fundo de conhecimen- to comum que se constitui no conjunto de regularidades e expectativas que o definem como prática cultural e discursiva. Ora, se a noção de subgênero subsume uma pluralidade de programas, a de formato, em contrapartida, os diferencia, identificando a forma e o tipo de configuração de um produto te- levisual: o formato é a realização dos subgêneros, na medida em que pode até mesmo reunir e combinar vários subgêneros em um único programa. Em verdade, o formato é o processo pelo qual passa um produto televisual, des- de sua concepção até sua realização. Trata-se do esquema que dá conta da estruturação de um produto televisual, constituído pela indicação de uma se- quência de atos que se organizam a partir de determinados conteúdos, com vistas a obter a representação de caráter unitário que caracteriza o progra- ma – cenários, lugares, linha temática, regras, protagonistas, modalidades de transmissão, finalidades e tom, estando ligado, por outro lado, a toda es- trutura comercial de uma emissora ou produtora de televisão, fato que deixa nele vestígios, semantizando e reciclando as demandas oriundas dos públi- cos: as estratégias de comercialização não são algo que se acrescente depois; elas deixam marcas na estrutura do formato.

Um aspecto a discutir, pela sua relevância na produção televisual, é a relação do tomcom os subgêneros e formatos. Acredita-se que a situação comunicativa televisual comporta, para além das ancoragens de tempo, es- paço, aspecto e atores, um outro dispositivo sintático-semântico, a que se propõe chamar de “tonalização do discurso”, responsável pela conferência de um “ponto de vista”, a partir do qual sua narrativa quer ser reconhecida pelo telespectador, independentemente do plano de realidade ou do regime de crença com que opera, visto que “[...] uma emissão pode se referir à realidade ou à ficção, sob vários tons”.1 (JOST, 2007, p. 65, tradução nossa) A tonalização

é, então, uma forma específica de endereçamento que ganha muita relevân- cia no discurso televisual.

Em textos complexos como os produtos televisuais (em que as lingua- gens sonoras e visuais se superpõem, sobre determinadas pelos meios técni- cos), a percepção do tom se dá do conteúdo à expressão, sendo extensiva à totalidade da emissão.

O processo de tonalização tem por tarefa a atribuição estratégica de um tom principal ao discurso produzido e a sua articulação com outros tons a ele correlacionados. Mas, é preciso ter presente que, para além de inclina- ções, tendências ou outras peculiaridades, a escolha de um tom em televisão é uma deliberação de caráter estratégico. Mais ainda, essa deliberação sobre o tom confere ao produto televisual um caráter interpelativo: acertar o tom, ou melhor, sua expressão, implica que ele seja reconhecido e apreciado pelo telespectador. Ele supõe um interlocutor virtual ou atual que, na medida em que é capaz de detectar o tom conferido a um produto televisual, torna-se cúmplice de seus enunciadores; percebe sua proposição engajante; adere ao convite que lhe é feito pela instância da enunciação. Trata-se de um jogo que, mais do que fazê-lo refletir ou entreter-se, tem uma intenção estratégica: manter o telespectador cativo. Ora, esse jogo é demasiado astucioso para ser verdadeiramente informação ou mero entretenimento.

Como é previsível, a proposição de um tom orienta-se por um feixe de relações representadas pela tentativa de harmonização entre o tema, o gê- nero/subgênero do programa, o público a que se destina, e o tipo de interação

que a emissão pretende estabelecer com o telespectador. Sua escolha nun- ca é neutra, procurando sempre fazer jus ao conjunto do real que quer dar a conhecer a partir de um ponto de vista singular. Os tons podem combinar-se entre si para dar corpo a um determinado programa televisual, operando so- bre um fundo comum de discursos que compõem o paradigma do subgênero. Mais ainda, cada subgênero televisual atualiza, como expectativa social ou prática de audiência, um tom principal ou uma combinatória tonal. Não obs- tante, no processo de realização de um subgênero televisual, cada formato manifesta sua escolha tonal, expressa por uma determinada combinatória de tons, que passa a identificar o programa. Assim, o tom de cada emissão televi- sual é composto por elementos dados e elementos novos. Envia, obrigatoria- mente, a combinatórias tonais preexistentes, previstas pelo subgênero, mas reserva espaços opcionais para as novas combinatórias que passam, então, a identificá-lo como formato. Com isso se quer dizer que todo subgênero tele- visual já tem como dado o tom que lhe seria adequado e que cada formato, opcionalmente, pode acessar novas combinatórias tonais que o distingam do subgênero stricto sensu. Dessa forma, a combinatória tonal é traço distintivo entre subgêneros e formatos, pois, embora as produções televisuais de um mesmo subgênero apresentem, em princípio, semelhanças tonais, elas ope- ram com determinadas combinações tonais que as distinguem entre si, tor- nando-se sua marca registrada. Ainda que não sejam sempre absolutamente originais, essas combinatórias atuam como signo de diferenciação com forte potencial fidelizador do público telespectador.

O processo de tonalização implica dois tipos de procedimentos, com vistas à harmonização e compatibilização das combinatórias tonais, envol- vendo movimentos de: modulação, deslocamento ou passagem do tom prin- cipal aos tons complementares a ele relacionados e vice-versa; gradação, aumento ou diminuição de ênfase em determinado tom, minimização versus exacerbação. Esses procedimentos sustentam a eficácia das combinatórias tonais, envolvendo subtrações ou adições de tons, repetições ou proposições de alterações tonais, pois possuem também uma função de autorregula- ção, tendo em vista as relações e reações do enunciatário frente ao discurso enunciado.

A combinatória tonal investida em um produto televisual pode-se dar entre tons afins, ou seja, coerentes e compatíveis entre si ou não. De qualquer forma, eles se manifestam pela relação estabelecida entre as diferentes lin- guagens sonoras e visuais empregadas em sua textualização – figurino, re- presentação, gestos, expressão corporal, fala, cenário, ruídos, música. Assim, o grau de intimidade que une os tons atualizados em uma dada combinatória tonal é variável. (HJELMSLEV, 1975) Quando se observa uma conexão rela- tivamente íntima entre dois tons, diz-se que eles contraem uma relação de coerência. Se, ao contrário, inexiste tal conexão, há uma relação de incoerên- cia entre eles que provoca rupturas. Mas, a ideia geral de coerência apresenta duas variantes:

• a inerência, na qual está em jogo a interioridade da relação (interio- ridade vs. exterioridade);

• a aderência, na qual está em pauta o contato da relação (proximida- de vs. distanciamento).

Existem traços que de per si são inerentes a um determinado tom; entre outros, há zonas de intersecção. Dessa forma, a conexão entre os tons pode obedecer a uma maior ou menor coerência, já a relação de aderên- cia, fundada no contato, pode ser de maior ou menor intimidade. Quando o contato nem mesmo existe, tem-se uma relação de incoerência; esse jogo entre coerência e incoerência acontece em muitos programas televisuais, dos sitcoms aos telejornais.

Do ponto de vista discursivo, a deliberação sobre o tom interfere na configuração dos atores, do tempo, do espaço, bem como da própria orga- nização narrativa. Em nível textual, o tom se impõe como uma pretensão de conteúdo em busca de diferentes traços expressivos que o exteriorizem. Esses traços podem não se dar imediatamente a ver, encontrando sua for- ma de expressão na articulação de diferentes níveis de linguagens, ligadas à harmonização de cores, formas e sons, ao jogo de câmeras e edição, aos registros de língua, ao figurino, cenário, encenação: manifestam-se estra- tegicamente através da sobreposição e inter-relacionamento de diferen- tes substâncias e formas de expressão, que servem simultaneamente para

veicular outros sentidos. Há, não obstante, programas televisuais em que existem atores discursivos – apresentadores, âncoras, repórteres –, respon- sáveis pela proposição e manutenção do tom, centralizando em si a tarefa de tonalização da emissão.

Cada programa busca sua identidade em determinados traços, dentre os quais está certamente o tom. Nesse caso, o desafio é duplo: descobrir o tom adequado e zelar por sua manutenção no decorrer dos episódios, capítu- los, temporadas, edições ou jornadas de um mesmo programa.

Dans le document the New Deal to the Present (Page 79-89)