Chapitre III. Optimisation de jets photoniques par algorithme génétique
III.7 Optimisation de jets photoniques en sortie de guides d’onde
III.7.3 Optimisation près de la surface de l’embout (imagerie HF)
L´Enfant S au vag e, traça a compl exa histó ri a (b as ead a em facto s
«v erídicos »), d e u m meni no que ti nha sido aband on ad o na flo resta fran ces a, t en do l á v ivido oito a no ve anos em compl et o is olam ent o. Fi cará conh ecid o como Vi ctor d e Av e yron , e s erá um cas e-study paradi gm áti co p ara médi co s int eress ados em t eo ri as ed ucacion ais , com o era o caso d e J ean-M arc Gaspard It ard (p ap el i nt erpretad o p elo pró pri o Tru ffaut). O médi co , especial ist a na ap rendiz agem d e crianças surdas-m ud as, colo ca o rapaz sob a s ua cust ódi a. O prim eiro cont acto que temos com el e most ra-n os u m s er simiesco, co rrendo agach ado junto ao chão, gru nhind o, uiv and o e mordendo qu and o se s en tia am eaçado , bal an çan d o-s e de fo rma autis ta em cima de um a árv ore. Para quase t odo s, u m cas o perdi do: aquele «selv agem » nu nca s e ad apt aria aos h ábit os e às reg ras d a viv ên ci a hum an a. O tem a do fi lm e é a sua (n ão ) ad apt ação à «c ivilização ».
Du as s itu açõ es s ão di gn as de dest aq ue; a pri mei ra é q uand o o médi co const at a, alegrem ent e, como era interess ant e obs erv ar Vict or a realiz ar cert as t arefas pel a p rimeir a vez: an dar na posição erecta, com er com tal h eres, cal çar uns s ap atos , ap rend er al guns so ns ou a trab alh ar a m emó ri a, et c. E tam b ém a pri mei ra v ez que ele s e olh a ao esp elh o. A s ua reacção é su rpreendent e: el e ch eira-o i nt ens am ent e, e dep ois ta cteia-o. Não most ra qu alqu er s inal d e reco nh ecimento. It ard col oca-s e d ep ois po r detrás del e, m oven do u ma m açã de um lado para outro, e ele d emo ra muito tem po a perceber qu e o d es ej ado objecto est á atrás de si, e n ão n o plano d a s up erfí ci e reflect ora. O m éd ico n ot a, talv ez não n es se m as nou tro m omento do film e, qu e el e “olha sem v er”. Bast ant e m ais tard e, nos mo mentos fi nai s da s u a apren dizagem, dá um a prova d e ent end imento cru ci al: a t omar o peq ueno al moço de frent e para o s eu p rofes sor, Vi ctor obs erva-o enquant o el e próprio coloca umas pequ enas pl acas com l etras de madeira, vi radas para si, e es creve a pal av ra “Lait ” (o alim ento que el e m ais cobi çava). O rapaz
“s elv agem ” p ega en tão n as peças do s eu p ro fesso r e inverte-l hes a ord em p ara qu e façam sentid o do s eu po nto d e vist a: um a o utra forma de co muni car qu e tin ha ap rend ido o qu e era a im agem es pecul ar?
Será curioso relacio nar est e film e com o que n os diz J acques Lacan n o s eu famo so est udo datado de 19 49, L e S tade du Miro ir comme
For mat eur d e la Fo ncti on du Je t ell e qu´ell e n ous es t r évélée d an s l´expérience psychan alyti qu e. Não é nos s o propó sito ex plo rarmos aqui
em d et alh e os m eand ros d a com plexa t es e do psi can alist a fran cês, alvo de i núm eras e dí sp ares l eit uras446, mas gostarí amos d e evidenci ar o simpl es facto de qu e a no ção de identi dad e/ alt erid ad e pres ent es no est ádi o do esp elh o – cremo s que s ão ess es os al vos que Lacan pretend e ex plorar – ser al icerçad a numa id ei a p rimo rdi al d e dil aceração, d e desm em bram ent o447, s enão v ej amos:
(. . . ) l e s t a d e d u m i r o i r e s t u n d r a m e d o n t l a p o u s s é e i n t e r n e s e p r e c i p i t e d e l ´ i n s u f f i s a n c e à l ´ a n t e c i p a t i o n – e t q u i p o u r l e s u j e t , p r i s a u l e u r r e d e l ´ i d e n t i f i c a t i o n s p a t i a l e , m a c h i n e l e s f a n t a s m e s q u i s e s u c c è d e n t d ´ u n e i m a g e m o r c e l é e d u c o r p s à u n e f o r m e q u e n o u s a p p e l l e r o n s o r t h o p é d i q u e d e s a t o t a l i t é , - e t à l ´ a r m u r e e n f i n a s s u m é e d ´ u n e i d e n t i t é a l i e n a n t e , q u i v a m a r q u e r d e s a s t r u c t u r e r i g i d e t o u t s o n d é v e l o p p e m e n t m e n t a l .448
A ch av e d e t udo é a pas sagem d a percepção de um co rpo fragm entado o u d es p ed açado (“m orcel ée”), p ara um co rp o co nsid erad o na s ua “arm adu ra” (ou tot ali dade). Ist o é al go qu e cri an ças d os s eis aos dezoit o m es es cons eguem já fazer: recon hecer-s e enq uant o u nidad e ao esp elh o – e faz em-no al egrement e, j ubil ando, segun do Lacan .
Roland Barth es, em Roland Bart hes p or Rola nd Bart hes (197 5), «i l ust ro u » a t eo ri a l acani an a d e fo rm a si mples e acutil ant e: mostra-n os o qu e p arece s er um a foto grafia de um a mãe com o s eu p equeno beb é 446 E t e n d o e m c o n t a q u e o p r ó p r i o J a c q u e s L a c a n c o n t i n uo u a d e s e n vo l v e r a s ua t e s e d ur a n t e v á r i o s a no s , a s s o c i a nd o -a à d i a l é c t i c a , a o n a r c i s i s mo , à a l i e n a ç ã o p a r a n ó i c a , à a g r e s s i v i d a d e , a o e u - i d e a l , e t c . 447 N ã o s e r á d e a d mi r a r q u e o n o me d e H ye r o ni m u s B o s h s e j a o ú n i c o a r t i s t a p o r e l e n o me a d o : p i n t ur a f e i t a d e p e s a d e l o s , d e f r a g me n t o s , d e u ma v a g a n o ç ã o d e p e r d a ? V e r La c a n - L e S t a d e d u M i r o i r , p . 9 7 . 448 J a c q u e s La c a n - L e S t a d e d u M i r o i r , p . 9 3 -1 0 0 .
ao col o (fot o grafi a essa qu e, d ev ido à s u a forma oval ada, cri a a ilus ão que ambo s se sit uam defro nt e de um espel ho e ol ham para ele, e não para a l ent e de um a câm ara fot ográfi ca), e legend a-a da s egui nt e fo rm a:
O e s t á d i o d o e s p e l h o : « t u é s i s s o » .449
No iní cio do s écul o XX Wol fgang Köhl er e, m ais tard e, nos ano s set ent a, Go rd on Gal lup450
1º - Os anim ais ti nh am de ser expos tos de form a p rol on gada às suas im agen s refl ecti das no esp elho (dez dias );
, p rov aram que há, no mun do anim al, seres cap azes de nos i mitarem n est a pequena rev olução que é o reco nh ecim ento d a i magem ao es pelho: os chi mp anzés. Com o é qu e se con segu e p ro var a auto-co ns ci ênci a no reino anim al, é pos sí vel? Eis o “t est e” de Gal lup — tão sim pl es e que no ent ant o ab riu t antas port as — nas su as div ers as fas es:
2º - Eram an est esi ad os e d ep ois m arcado s sub-repti ci ament e com um m arcado r colo ri do, ino doro, num sí tio q ue não cons egu issem ver sem a aj ud a ex terio r dada p elo esp elho, com o n a t est a, por cim a d as sob rancel has o u atrás do s om bros;
3º - Dep ois d e recup erados da anest esi a, os i nv esti gad ores certi fi cav am-se qu e os anim ais não s e tinh am ap ercebi do da m arca (ind ican do q u e n ão a sen tiam ou chei ravam). Era co ntado o n úmero de vez es qu e l he to cav am. P ara pass ar à fas e s egui nt e, ti nh am de t er a cert eza q ue o anim al não est av a cons cient e d a pres en ça dess e nov o sinal;
4º - O es pelho era rei nt roduzido. Eram obs erv adas as reacçõ es dos chi mp anzés aqu ando co nfro nt ados com a sua im agem esp ecul ar. 449 R o l a nd B a r t he s - R o l a n d B a r t h e s p o r R o l a n d B a r t h e s , s / p á g i n a . 450 K ö h l e r ( 1 8 8 7 -1 9 6 7 ) p u b l i c o u u m e n s a i o e m 1 9 1 7 s o b r e a me n t a l i d a d e d o s p r i ma t a s , c u j a i n ve s t i g a ç ã o L a c a n c o n he c i a ( a p a r d o s e s t ud o s d e J a me s M a r k B a l wi n e d e H e nr y W a l l o n) ; G o r d o n G a l l up é o a u t o r d o t e s t e i n t i t u l a d o d e M S R : M i r r o r S e l f R e c o g n i t i o n , a i nd a ho j e u t i l i z a d o n o mu n d o c i e n t í f i c o , e d o q u a l d e s c r e ve mo s b r e ve me n t e o f u n c i o na me n t o n o n o s s o p r ó p r i o t e x t o . V e r t e x t o d e G a l l up n a r e v i s t a S c i e n c e - C hi mp a n z e e s : S e l f - R e c o g n i t i o n . I S S N 0 0 3 6 - 8 0 - 7 5 . 1 6 7 ( 1 9 7 0 ) 8 6 - 8 7 .
Os chi mp anzés reag iam de fo rma ineq u ívoca: colocav am a sua pró pri a mão n a marca d es en hada (co mo qu e est ranh an do esse no vo sinal q ue n ão est av a l á anteriorm ent e), e d epo is t entavam elimi ná-lo es fregan do-o com as m ãos . Há um a not a int eres sant e, di gn a de dest aq u e: os chimp anzés criados em isol am ento, s em q ualquer cont acto com o utros memb ro s do grupo , não reagi ram da m esm a form a, n ão dem onst raram sin ai s d e reco nh eci mento ou de s urpres a451. Ho je, pod erem os ach ar es ta inv esti gação di fí cil d e com preend er nos seus propósit os — talv ez porqu e tom em os com o garanti do o recon h ecimento da im agem esp ecul ar — mas ela relançou o deb at e so bre a con sci ên ci a, e ab riu no vos cami n hos na área do estu do do cérebro452
Victor d e Av e yron não pass aria nest a «prova » d o esp elh o (que tamb ém é realizada nos s eres hum ano s exact am ent e com o m esm o obj ecti vo de d et erm inação de um a auto-cons ci ênci a), p elo men os n o que resp eit a aos m o ment os ini ci ais, lo g o apó s ter sido «capturado ». E já tinh a onz e ou d oze anos n a alt ura. Decerto q ue um chimp anzé soci áv el fi caria m ais bem col ocado q ue ele. O rapaz aprox im a-se m ais do anim al q ue este do ho mem : o m ecan ismo q ue accion a para viv er é inat o, é o d a p reserv ação da esp éci e. Di r-no s-i a t alvez Fo ucault com a teo ri a d e Si gmun d Freud em m ente: est e caso es pecí fi co fazi a l emb rar uma das “feri das narcisist as ” d a n os sa civil ização, a d es cob ert a darwi ni an a q ue d es cend em os dos macaco s
. 453 451 V e r M e l c h i o r -B o n n e t - T h e M i r r o r , p á g i n a s i n t r o d u t ó r i a s d o t e x t o . E s t ud o s r e c e n t e s t ê m d e mo n s t r a d o q u e h á o u t r o s a ni ma i s q ue t ê m e s t a c a p a c i d a d e d e r e c o n he c i me n t o ( o s go l f i n h o s , o s e l e fa n t e s o u a s o r c a s , p o r e x e mp l o ) , ma s n ã o t e r ã o s i d o u n a n i me me n t e a c e i t e s p e l a c o m u n i d a d e c i e n t í fi c a .
. Si gni fi cari a ent ão que ele
452 V e r l i v r o d e J u l i a n P . K e e n a n , G o r d o n G a l l u p e D e a n F a l k - T h e F a c e i n t he M i r r o r . E s t e e s t u d o a n a l i s a a i n ve s t i g a ç ã o d e G a l l up e m d e t a l h e ( e a d o s s e u s p r e c ur s o r e s q u e u t i l i z a r a m o e s p e l ho c o mo u m i n s t r u me n t o c i e n t í f i c o , u m “ me d i d o r ” d e a u t o -c o n s c i ê n c i a , c o mo C ha r l e s D a r wi n , W i l h e l m P r e y e r o u La c a n ) . O p a s s o s e g u i n t e fo i a t r i b u i r u ma z o na d o c é r e b r o o nd e v i v e r i a a a u t o -c o n s c i ê nc i a , o “e u ” ; p e n s o u - s e d ur a n t e mu i t o t e mp o q u e e r a o he mi s f é r i o e s q u e r d o q u e t e r i a e s s e p a p e l ( j á q u e “a r q u i v a ” a l i n g ua g e m) , ma s c h e g o u - s e à c o nc l u s ã o q u e é o h e mi s f é r i o d i r e i t o , ( e s p e c i f i c a me nt e o c ó r t e x d i r e i t o p r é - fr o n t a l , v e r p . 1 3 4 ) , t r a d i c i o n a l me n t e c o n s i d e r a d o “ me no r ” , q u e d e t é m a c h a v e p a r a o a u t o - r e c o n h e c i me n t o . P e s s o a s q u e t e n ha m l e s õ e s c e r e b r a i s n e s t a z o n a n ã o c o n s e g u e m r e c o n he c e r e i d e n t i f i c a r a p r ó p r i a i ma g e m. S ã o c a s o s e x t r e ma me n t e r a r o s . 453 M i c h e l F o uc a u l t - N i e t z s c h e , F r e ud e M a r x, p . 1 7 . As o u t r a s d u a s d e s c o b e r t a s s e r i a m a “ f e r i d a ” i mp o s t a p o r C o p é r n i c o e a d e s c o b e r t a d o i nc o n s c i e n t e p o r F r e ud .
não tinh a co ns ci ên ci a d e si, não cons egu ia pens ar sobre si m esmo n os
prim ei ros mom ent os em qu e foi en cont rado?454
O film e d e Tru ffaut deixa u m sabor am argo. S erá Vi ct or m ais do que um a m era ex peri ên ci a? Apes ar de todas as apren dizagens que com suces so v ai efect uan do, est á m uito lon ge de satis faz er as ex igên ci as do seu t uto r, o u, vis to de ou tra perspecti va, m uito p róx imo do que é impo rtant e: d a chu va qu e cai e que el e s aborei a com p raz er, po r ex empl o. Ness es raros mom entos – qu e evitaremos a tod o o cust o ch am ar d e «regress ão » – el e t orna-s e, nov am ent e, nu m p equ eno s er selv agem .
Convo qu emo s ago ra outro grand e psi canali sta p ara est e debat e, Sigmun d Freu d. Fascin ad o pel a qu est ão do duplo (s ob ret udo p el as sen saçõ es qu e est e pro vo ca), rel at a-nos em Th e Unca nn y (1919 ) u m est ranho caso p or s i mesmo vivido, caus ado r d e «d es prazer », aqu an do de um a vi agem d e co mboio . Oiçam o-l o:
E s t a v a s o z i n h o n o d o r m i t ó r i o d a c a r r u a g e m q u a n d o o c o m b o i o o s c i l o u v i o l e n t a m e n t e . A p o r t a d a c a s a d e b a n h o a d j a c e n t e a b r i u - s e e u m s e n h o r d e i d a d e , n u m r o u p ã o e t o u c a d e d o r m i r e n t r o u n o m e u c o m p a r t i m e n t o . A s s u m i q u e , q u a n d o s a i u d a c a s a d e b a n h o , q u e e s t a v a l o c a l i z a d a e n t r e d o i s c o m p a r t i m e n t o s , t i v e s s e v i r a d o n a d i r e c ç ã o e r r a d a e e n t r a d o n o m e u p o r e n g a n o . S a l t e i p a r a o m e t e r n a o r d e m , m a s d e s c o b r i p a r a m i n h a s u r p r e s a q u e o i n t r u s o e r a a m i n h a p r ó p r i a i m a g e m , r e f l e c t i d a n o e s p e l h o d a p o r t a . A i n d a m e l e m b r o q u e a c h e i a s u a a p a r ê n c i a f r a n c a m e n t e d e s a g r a d á v e l .455 454 A S c i e n t i f i c A m e r i c a n d e N o v e mb r o d e 2 0 1 0 e xp l o r a e s t a q u e s t ã o , e c o l o c a o u t r a s q u e l h e e s t ã o a s s o c i a d a s . M a g gi e K o e r t h - B a k e r e m K i d s (a n d A n i m a l s ) W h o F a i l C l a s s i c M i r r o r T e s t s M a y S t i l l H a v e a S e n s e o f S e l f a n a l i s a a l g u n s e s t u d o s r e c e n t e s d e t e s t e s d e M S R ; u ma i n ve s t i ga d o r a r e a l i z o u o t e s t e no K e n y a , o n d e a p e na s 2 e m 8 2 c r i a n ç a s “p a s s a r a m” no t e s t e , a l g u ma s d a s q ua i s j á c o m s e i s a no s – i s t o e m 2 0 1 0 . O u t r o i n v e s t i g a d o r c o n c l ui u q ue o s g o r i l a s s e e s c o n d i a m n u m c a n t o e t i r a v a m a ma r c a a í – e e n fa t i z a q u e e s t e s a n i ma i s r e p ud i a m o c o n t a c t o v i s ua l . S i n t e t i z e mo s a l g u ma s “ fa l h a s ” : é u m t e s t e mu i t o c e n t r a d o n a v i s ã o , e q u e é ma i s d i r i g i d o a c u l t u r a s i n d e p e n d e n t e s , a o i n vé s d e i n t e r d e p e n d e n t e s ( c o mo é o c a s o d e c u l t ur a s n ã o -o c i d e nt a i s ) . C o mo d i z u m d o s i n v e s t i g a d o r e s : a a u s ê nc i a d e u m e fe i t o n ã o s i g n i fi c a n e c e s s a r i a me n t e a a u s ê n c i a d a c o i s a q u e e s t ã o a t e n t a r m e d i r . N ã o s e r á t e mp o d e p ô r e m c a u s a a u ni v e r s a l i d a d e d o t e s t e ? E s t e a r t i g o p o d e s e r c o n s u l t a d o e m: h t t p : / / w w w. s c i e n t i f i c a me r i c a n. c o m/ a r t i c l e . c f m? i d = k i d s -a nd - a n i ma l s - wh o - f a i l -c l a s s i c - mi r r o r 455 S i g mu n d F r e u d - T h e U nc a n n y , p . 1 6 2 .
O t ercei ro cas o q ue queremos rel at ar vem d a área da neu rol ogi a. Oliv er Sack s menci ona, com a habit ual fluidez e p aixão que lh e con hecemo s, o caso de um doen te seu, cego há quaren ta anos. Est e hom em, j á ad ulto , d ecid e fazer a o peração qu e lh e permiti rá ver ap ós tant os an os de «es curid ão ». Não nos al on garem os, qu erendo ap en as evi denci ar qu e q uan do a su a vis ão j á ti nha sido restit uída, el e opt av a — m esmo assim — por ap agar a luz da casa de b anh o, e b arbear-s e no es cu ro. O esp elho fazia-lh e confus ão, s enti a qu e o s s eu s m ovim ento s eram m ais preciso s s e s egui ss e os hábitos que ti nh a cri ado ao longo da sua vi da456. O uso do s olhos r etir ava a u m clar ivi dent e a s eg ur ança da
mão .457 Se tiv ess e o dom de prever o futuro (com o Ti résias ) talv ez
opt ass e p or d esisti r da op eração, e ap erfei ço ass e o órgão «f uncional » que tin ha: es colh eri a tam bém ele t er braços comp ri dos, como des ej ava o cego d e Puisi eux d es cri to por Denis Di derot458
Escolh emo s est es t rês casos especí fi co s para a int ro du ção d est e tex to sob re o d uplo , porqu e são in vul gares , raros: não há qualquer susto ou terro r aqu and o d o con fron to com o d upl o (a reacção m ais esp erada e t amb ém a mai s provável ), porq u e simpl esm en te nã o há
recon heci mento. Pod emos diz er at é q ue, nos t rês ex empl os referid os, e
ten do em cont a a sin gul ari dade d e cad a um, há um a cert a «cegueira» . E a cegueira, com o diz ia o grand e p oet a Bo rges, “é um modo d rásti co d e ap agar os esp elh os ”
?
459
Volt arem os m ais t ard e ao tex to d e Freud para o estud ar em porm en or, p orqu e acredit amos qu e a art e con tem po rânea t em , para com el e, u ma eno rme dív ida po r s ald ar. O m agn ífi co ens aio de Diderot, a sua Ca rta ao s Ceg o s para us o daqueles que vêem (17 82 ), t amb ém irá ser ab ord ado em d et alh e. Ele ens in a-nos a «n egoci ar » com o sentido que mais estim amo s (a vis ão) e a culti var o prim ado d a i nvis uali dade,
. 456 V e r e n s a i o d e O l i v e r S a c k s – V e r e N ã o V e r [ L i vr o e l e c t r ó n i c o ] . 457 D e n i s D i d e r o t - C a r t a s o b r e o s c e go s , p . 9 9 . O c a s o q u e o f i l ó s o fo r e l a t a é e m t ud o s e me l ha nt e a o d e S a c k s ( c o m a d i f e r e n ç a d e d a t a r d e 1 7 8 2 -8 3 !) , e i n c i d e s o b r e u m c e g o d e n a s c e nç a q u e t i n ha s i d o o p e r a d o à s c a t a r a t a s , ma s q u e p a r a r a p a r a c a b e ç a s e a fa s t a v a d o e s p e l h o e s e c o l o c a v a à fr e n t e d e u ma p a r e d e l i s a . 458 D e n i s D i d e r o t - C a r t a s o b r e o s c e g o s , p . 3 6 . 459 J o r g e L u i s B o r g e s - B o r g e s V e r b a l , p . 7 8 .
que t amb ém é central para a comp reens ão da arte do s écul o XX em diante, anti -ret ini an a po r ex celência.
Por agora, av entu remo-n os no reino d a es cu ridão qu e es ta vast a gal eria d e d upl os co nvo ca.