existentes nesses lugares. Trata-se do discurso acadêmico formal, produzido no Brasil, país com suas determinantes históricas próprias. Não se pode ignorar, porém, influências do pensamento de outros países e, até mesmo, a histórica discussão da subserviência intelectual brasileira (e não só brasileira, como se sabe). É a partir dessas constatações que se buscará examinar que sentidos o bovarismo veste e a partir de quais influências. Será possível descobrir acepções assentadas com a crítica francesa (seja a oitocentista, seja a contemporânea), por exemplo, e outras mais adaptadas a um contexto brasileiro.
4.2 Metodologia de formação do corpus
Para se ter dimensão das significações assumidas pelo conceito do bovarismo na produção acadêmica brasileira, é preciso examinar ocorrências do termo em textos elaborados dentro das relações legitimadas pelo ambiente acadêmico, mais facilmente identificado nas publicações relacionadas às universidades. Afirma-se isso pois há outros contextos de utilização do termo (no âmbito do senso comum, estando ou não atenta à preocupação acadêmica) que ofereceriam estudos igualmente interessantes. Alguns exemplos disso são jornais impressos ou virtuais, blogs, sites de internet, revistas etc. Não é o caso de comprometer-se com esses usos aqui – por já se entender tratar-se de um outro trabalho complexo –, a não ser como acréscimo ou curiosidade quando convier. Desse modo, três possibilidades se delineiam para a composição do corpus que oferecerá meios de ler o bovarismo em estudos acadêmicos brasileiros: livros e capítulos de autores e teóricos já estabelecidos no ambiente acadêmico;; dissertações e teses produzidas por alunos de pós-graduação das universidades do país;; e artigos acadêmicos.
A base do corpus serão, portanto, de acordo com a escolha feita neste trabalho, teses e dissertações, textos diretamente relacionados a programas de pós-graduação e mais acessíveis no ambiente virtual. Frisa-se a importância das buscas em ambiente virtual, uma vez entender-se a
dificuldade de percorrer os estados do país em busca de estudos acadêmicos que mencionem o bovarismo. Restringe-se, assim, a constituição do corpus de análise a trabalhos de conclusão de mestrados e doutorados. Tais textos são identificáveis na internet, nos bancos de teses das respectivas universidades onde foram desenvolvidos e defendidos. Propõe-se nesta tese a realização de uma varredura exaustiva em ambientes virtuais para se coletarem trabalhos que ofertaram acepções do bovarismo em estudos brasileiros. Inevitavelmente, fala-se de um corpus “atual” – de textos publicados entre 1995 e 2015 –, disponibilizado no ambiente virtual. Essa escolha não impede que se observe a pluralidade de utilizações do conceito – já intuída nos anos de pesquisas voltados a esse tema. Ao contrário: auxilia na delimitação de um número razoável de textos a serem examinados – já que, compreende-se, é impossível neste trabalho examinar centenas de menções ao bovarismo presentes em textos impressos, virtuais, livros etc. Isso poderia ser um trabalho improdutivo e repetitivo devido às recorrências de acepções. Optou- se, assim, por fazer uma busca em portais virtuais de divulgação de pesquisas acadêmicas para se delimitar um conjunto controlável de referências e textos.
Os livros ou artigos de pesquisadores e intelectuais que mencionam o bovarismo serão evocados quando possível e em consonância com a discussão levantada a partir do corpus constituído, a fim de se apresentarem fontes de pesquisa dos estudiosos brasileiros ao se assegurarem para tratar do bovarismo. Ou seja, tais livros – entre eles, por exemplo, encontram-se Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda, e Deslocamentos do feminino (2008), de Maria Rita Kehl – complementarão ou ainda aprofundarão o trato com determinada acepção do bovarismo que fazem emergir. Nesse caso não se furtará também de evocar autores de outras nacionalidades para compor com as significações assumidas pelo bovarismo.
Entende-se que, a fim de se ajustar o olhar de modo a ver como opera o conceito do bovarismo no Brasil, as dissertações e teses a serem analisadas devem apresentar usos do termo dispersos em todo o país, sem que se foque em uma comunidade interpretativa mais restrita, uma área do saber, uma região, um estado ou uma cidade. Já se adianta, todavia, que o maior volume
de menções ao bovarismo se verificou em textos produzidos em programas das Regiões Sudeste e Sul do país, o que se explica também pelo maior número de universidades nesses lugares. Dada a vasta quantidade de universidades brasileiras, fez-se uma seleção inicial de plataformas a serem consultadas, partindo da comparação entre três rankings referentes ao ano de 2015 de melhores universidades do país. Isso porque se arrisca afirmar, sem generalizações e com devidos cuidados, que as reconhecidas melhores universidades brasileiras poderiam apresentar maior número de publicações (um dos critérios para avaliação dos rankings) e até mesmo de alunos, o que ofereceria um leque ainda maior de textos e estudiosos envolvidos com a produção intelectual, bem como com mais acessibilidade aos textos.
O primeiro dos rankings mencionados é o internacional THE (Times Higher Education), divulgado em setembro de 2015126. Entre as 800 universidades selecionadas como de excelência pelo mundo, estão 17 universidades brasileiras. Os resultados são obtidos a partir da análise de aspectos que compõem cinco grandes áreas de avaliação: 1) ensino;; 2) pesquisa;; 3) citações;; 4) visibilidade internacional da universidade;; e 5) entrada nas indústrias. O segundo ranking, RUF 2015 (Ranking Universitário Folha, realizado pela Folha de S. Paulo), classifica as 192 universidades brasileiras segundo determinados critérios: 1) número de trabalhos científicos pontuados;; 2) número de citações de artigos em outros trabalhos;; 3) proporção de publicações por docente;; 4) proporção de citações por docente;; 5) proporção de citações por publicação;; 6) volume de recursos obtidos em agências de fomento;; 7) número de publicações em revistas científicas nacionais;; e 8) proporção de pesquisadores com alta produção acadêmica. O terceiro deles, o Ranking Web of Universities, Webometrics 2015127, realizado desde a década
de 1990, compõe listas de melhores universidades por regiões do mundo (América do Norte, Europa, América Latina, Oceania, África e Mundo Árabe), bem como apresenta resultados por áreas. A metodologia de análise envolve
126 O resultado e as informações desse ranking podem ser acessados em
https://www.timeshighereducation.com/world-university-rankings. Outro link interessante em relação a essa lista
apresenta apenas as universidades brasileiras em comparação também com outra lista, brasileira, a ser mencionada neste trabalho de melhores universidades do país: http://exame.abril.com.br/carreira/noticias/as-17-melhores-
universidades-brasileiras-em-2015.
os impactos científicos gerados pelas universidades, a partir de critérios gerais e, sobretudo, da performance da universidade na internet – não no que tange a número de visitas e visitantes ou layout, mas sim a divulgação de pesquisa científica, oferta de ferramentas úteis aos pesquisadores e estímulo aos estudantes a publicarem e acessarem suas plataformas virtuais.
Feito o cruzamento de informações entre os rankings, podem-se encontrar universidades brasileiras recorrentes nas três listagens128. Como a ideia é selecionar trabalhos de universidades de todo o país, buscou-se inicialmente nos bancos de dissertações e teses dessas instituições presentes nas três listagens. Algumas delas apresentavam ferramentas de busca que possibilitavam encontrar textos que citavam o bovarismo. Já outras, porém, não possuíam, em seus bancos de textos, estudos que citassem o conceito pesquisado nesta tese. Uma outra questão surgida foi que o cruzamento entre as três listagens não ofereceu universidades da Região Norte do país. Por esses dois motivos, continuou-se a buscar universidades que possuíssem recorrência, ao menos, em duas das listagens129. Na coincidência entre as três listagens, portanto, foram encontrados estudos que citam o bovarismo. Da Região Sul, obtiveram-se 13 estudos (sendo 12 teses e uma dissertação) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC);; 14 (sendo cinco teses e nove dissertações) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS);; e oito estudos (sendo três teses e cinco dissertações) da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Na Região Sudeste, obtiveram-se 43 estudos (sendo 22 teses e 21 dissertações) da Universidade de São Paulo (USP);; uma dissertação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj);; e uma tese de doutorado da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Na Região
128Por regiões do pais, as instituições serão aqui citadas. Região Sul: Universidade Federal do Paraná (UFPR);;
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS);; Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC- RS);; e Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Região Sudeste: Universidade de São Paulo (USP) – sendo esta a mais bem pontuada em todos os rankins;; Universidade de Campinas (UNICAMP);; Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR);; Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ);; Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio);; Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ);; Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG);; e Universidade Federal de Viçosa (UFV). Região Nordeste: Universidade Federal da Bahia (UFBA). Região Centro- Oeste: Universidade de Brasília (UnB).
129Nessa nova busca, obtiveram-se os nomes de outras instituições. Na Região Sul: Universidade Estadual de
Maringá (UEM) e Universidade Estadual de Londrina (UEL). Na Região Sudeste: Universidade Estadual de São Paulo (Unesp);; Universidade Federal de São Paulo (Unifesp);; Universidade Federal Fluminense (UFF);; e Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Na Região Nordeste: Universidade Federal de Pernambuco (UFPE);; Universidade Federal da Paraíba (UFPB);; Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN);; e Universidade Federal do Ceará (UFC). Na Região Norte: Universidade Federal do Pará (UFPA). Na Região Centro-Oeste: Universidade Federal de Goiás (UFG).
Centro-Oeste, obtiveram-se quatro estudos (sendo uma tese e três dissertações) na Universidade Nacional de Brasília (UnB).
Da confluência entre apenas dois dos rankings, obtiveram-se, entre textos que citavam o bovarismo: na Região Sul, duas dissertações da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e duas teses da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Da Região Centro-Oeste, três estudos (sendo uma tese e duas dissertações) da Universidade Federal de Goiás (UFG). Na Região Nordeste, cinco estudos (sendo duas teses e três dissertações) da Universidade Federal do Pernambuco (UFPE). Totalizam-se, portanto, 96 textos, procedentes de 11 instituições do país: 48 trabalhos de conclusão de mestrado e 48 trabalhos de conclusão de doutorado.
É importante fazer algumas ressalvas iniciais. A primeira é que não foram encontrados estudos que mencionam o bovarismo em bancos de dados de universidades da Região Norte: nem na Universidade Federal do Pará (UFPA), recorrente em duas das três listagens selecionadas, nem na Universidade Federal do Amazonas, citada em apenas uma das três listagens. Tal fato faz com que não haja no corpus formado textos produzidos por estudantes matriculados em pós-graduações da Região Norte do país. No entanto, os textos encontrados podem fornecer o panorama necessário, já que foram produzidos em diversos estados do país e apresentam acepções diversas do bovarismo. Pode-se considerar, contudo, a existência de alunos das mais diversas localidades do país, deslocando-se de suas cidades e realizando as atividades de pesquisa em universidades de regiões diferentes das suas.
Outra colocação a ser feita é que outros ambientes digitais de pesquisa acadêmica foram consultados. Dois deles são o Portal de Periódicos da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e o Banco de Teses e Dissertações da Capes (onde não existem textos em língua portuguesa que se reportem diretamente ao bovarismo). A terceira colocação a ser feita, não de ordem metodológica, é que não consta na quase totalidade dos textos a obra de Jules de Gaultier na bibliografia como fonte de pesquisa
ou consulta. Além disso, em poucos deles o nome de Gaultier aparece no corpo do texto como tendo sido aquele que cunhou o bovarismo com pretensões filosóficas. O conceito é evocado em geral a partir de estudos de pesquisadores brasileiros, por obras sobre a formação da identidade nacional brasileira, por referências a dicionários, por sites de internet ou ainda pela escrita de outros pesquisadores ou comentadores, parecendo ser já um saber partilhado, um senso comum de uso corrente. Não se realça isso por preciosismo em relação a Gaultier, mas para salientar as particularidades da utilização do conceito (ou mesmo da noção) do bovarismo nos estudos brasileiros.
Prosseguindo-se com os procedimentos metodológicos, as descrições acima realizadas estão sintetizadas no quadro a seguir, constituindo as primeiras informações referentes aos estudos a comporem o corpus:
Instituições Quantitativo de
dissertações Quantitativo de teses Região Sudeste USP 22 21 UFMG 0 1 Uerj 1 0 Região Sul UEL 0 2 UEM 2 0 UFRGS 9 5 UFPR 5 3 UFSC 1 12 Região Centro- Oeste UnB 3 1 UFG 2 1 Região Nordeste UFPE 3 2
Total de dissertações
e teses 48 48
Total de textos do
corpus 96
QUADRO 1 – Quantitativo de textos do corpus por instituição e região.
Após descritos os primeiros procedimentos metodológicos que levaram à composição do corpus, proceder-se-á a análise das ocorrências do termo bovarismo, a fim de se depreenderem as acepções e os domínios de significado associados. Acrescenta-se que as plataformas foram consultadas no período de fevereiro a junho de 2016. A apresentação dessas análises se dará de duas formas. A primeira delas, ainda neste capítulo, no próximo subtópico, será de natureza quantitativa. Nesse caso, sem que se priorizem plataformas virtuais, regiões do país e natureza do texto, as menções serão localizadas e sintetizadas de acordo com os campos do saber de onde partem e, sobretudo, com os sentidos gerais atribuídos ao bovarismo – identificados nesta pesquisa como domínios temáticos ou ainda grandes troncos de significação encontrados nas pesquisas brasileiras. Os dados e as palavras- chave associadas ao bovarismo serão sintetizados e apresentados. Posteriormente, no que se entende como análise qualitativa, a ser realizada nos últimos capítulos desta tese, as acepções serão demonstradas e comentadas, em paralelo com outros estudos. Nesse caso, a apresentação de citações e os comentários de textos selecionados permitirão que, com fluidez, seja desenvolvida uma exposição sobre cada grande tronco significativo – sendo que cada um deles abarca apropriações similares entre si.
4.3 Apresentação dos dados: análise quantitativa
As análises feitas resultaram em um quadro resumido de informações que dá a ver as características para as quais se busca chamar a atenção nos textos analisados. Além disso, as acepções, resultantes de apropriações feitas por estudiosos brasileiros e extraídas do corpus, foram organizadas com base em frases e caracterizações que formavam horizontes de ideias e significações (ou ainda confluências discursivas) que se tocavam, permitindo as conclusões abaixo expostas. Assim, vale uma leitura inicial desse sumo de informações antes do mergulho nos textos em si. Segue abaixo o quadro com informações básicas sobre os textos e, em seguida, os três grandes domínios (ou troncos) interpretativos encontrados a serem desenvolvidos nos capítulos seguintes seguidos de expressões, unidades discursivas recorrentes: