3.5 The stopping boundary in the quadratic case
3.5.1 The increasing part
que primeiro as leu (ou, como preferem Roger Chartier e Michel de Certeau, que primeiro se apropriou delas), bem como as leituras/apropriações posteriores, até o presente, tem se mostrado fundamental para a compreensão do fenômeno literário (2013, p. 239).
O esforço aqui, no entanto, não é menos significativo: entender apropriações feitas por diferentes comunidades interpretativas, especificamente nas críticas acadêmicas francesa e brasileira, de um conceito filosófico surgido a partir da obra literária. Para se entenderem as apropriações tomadas na crítica acadêmica brasileira (e, no caso, em menções em trabalhos não centrados na teoria do conceito em si), dedica-se, inicialmente, a observar a recepção encontrada entre críticos franceses – atentando-se para o trabalho das comunidades interpretativas em estudos específicos sobre o conceito, e não as apropriações dispersas, como forma de compreender suas raízes significativas. É preciso saber, portanto, que o conceito nasce em meio a truncamentos epistemológicos. Gaultier foi lido especialmente por dois campos distintos do saber: psicopatologia e crítica literária. Esse hibridismo deve-se, segundo Delphine Jayot79, à polimorfia da obra de Gaultier.
3.1 Gaultier: influências, tensões e críticas às obras
A primeira obra gaultieriana (1892) reside no campo da psicologia e, para Jayot, trata-se de um projeto menos ambicioso, entendido como marginal. Gaultier desconhecia o alcance a ser tomado por sua obra. Phillipot (2007), no entanto, considera-a mais literária, a ofertar um “cruzamento fecundo entre literatura e filosofia”. Esta filosofia, para ele, mais ligada ao movimento, à evolução, “hostil aos dogmas e aos sistemas”, a tudo o que se destine a uma “síntese absoluta”;; essa “filosofia da evolução” está em transformação permanente e “não ambiciona nada além, apesar de sua sede de
79 Em sua já mencionada neste trabalho tese de doutorado Le bovarysme: histoire et interpretation d’une pathologie
littéraire à l’âge moderne, defendida em 2007, Delphine Jayot se propõe a contar a história do bovarismo, interpretando-o. Para isso, recorreu às influências de Gaultier e de seus leitores. Além disso, tratou dos temas relacionados ao bovarismo. É nessa tese e em artigos críticos de outros autores – Philippot (2007), Buvik (2006 e 2007), Grozdanovitch (2007) – que se dedicaram ao estudo do conceito que se baseará para traçar o manejo da crítica acadêmica francesa. Por isso, o subtítulo aqui refere-se a “comunidade interpretativa francesa”, uma vez tratar- se desses autores que refizeram o percurso, desde o século XIX, perpassando comunidades interpretativas, para resultar no olhar, hoje, sobre a filosofia do bovarismo. Faz-se importante pontuar que Per Buvik não é francês, no entanto, esteve na França, produziu críticas às obras de Gaultier junto à comunidade interpretativa francesa com a qual realizou eventos e publicações de ensaios em francês sobre o filósofo tendo, portanto, inserido-se nesse grupo e até mesmo o movimentado.
exaustividade, de oferecer uma aproximação metafórica do mistério central do conhecimento, respeitando a parte irredutível do desconhecido” 80 (PHILIPPOT, 2007, p. 122). Buvik, nas anotações feitas à obra, apresenta críticas pontuais. A primeira delas é o que chama de “ponto cego” do bovarismo: um gênio, como Flaubert, não entra em nenhuma das duas definições de bovarismo propostas no ensaio, já que não imita modelos sociais nem representa, pois sua atitude de escrita é natural, um dom. Buvik sublinha esse paradoxo: a teoria, para seu inventor, não escaparia de si mesma, desse princípio de ilusão e representação. Gaultier, todavia, entende ser apenas o artista o dotado de uma “percepção” das coisas – única não falseada –, instintiva;; diferente da “ilusão” (procedente da representação, já deturpada e falseada) das coisas, comum a todos os outros: “o privilégio do gênio será escapar aos limites da ‘representação’ (e, portanto, do próprio bovarismo) que se impõem apenas à consciência. O gênio é pura receptividade e pura afetividade”81 (BUVIK, 2007, p. 79).
Para Buvik, Gaultier, nessa obra, situa-se entre filosofia e psicologia, pois a tentativa é de discutir uma “doença da personalidade”, um fenômeno patológico de alienação;; para isso, inclusive, usam-se termos (não referenciados porém em voga na época) da psicologia: alucinação, hipnose, histeria. Alguns dos elementos do ensaio de 1892 configurarão sua própria traição, já que a ideia de o bovarismo ser universal entra em concorrência com outro elemento mencionado: a influência da educação. O filósofo afirma ser possível fugir ao bovarismo quando se consegue, com a força da personalidade, harmonizar a tendência natural com as sugestões externas;; no entanto, se “tudo é ilusão”, não há como, havendo ou não influência da educação, fugir. Para “salvar a filosofia”, segundo Buvik, deve-se pensar o bovarismo – sinônimo, então, de cegamento crítico e impotência – como uma “falha” na personalidade que torna determinados indivíduos mais dóceis a influências externas.
80 “n’ambitionne rien d’autre, malgré sa soif d’exhaustivité, que d’offrir une approximation métaphorique du mystère
central de la connaissance, en respectant la part irréductible de l’inconnaissable”.
81 “[...] le privilège du génie [...] serait d’échapper aux limites de la ‘représentation’ (et donc du bovarysme même) qui
Gaultier, conforme Buvik, procede à diferenciação de níveis de bovarismo – e isso é recorrente nas três obras. Há o nível do engano, patológico (incluem-se aí os bovarismos sentimentais, artísticos, amorosos etc.): o bovarismo imitativo. Pode-se nivelar o bovarismo também de acordo com o grau de energia da personagem – e aqui Emma é bovárica, mas está acima dos outros personagens imitativos, bem como Bouvard e Pécuchet, personagens que não têm vaidade pessoal, e sim metafísica. Quanto mais energia tem o personagem, mais sério e trágico ele se torna, enquanto que aqueles menos dotados de “força expressiva”, mais risíveis e cômicos se tornam. Buvik propõe um terceiro nível, aquele do bovarismo metafísico, de inspiração schopenhaueriana, que põe toda a humanidade na ilusão. Nesse ponto, o estudioso confirma outro paradoxo: essa filosofia não pretende conclusões absolutas (sendo, inclusive, hostil a elas), no entanto acaba fazendo-as ao incluir toda humanidade no bovarismo.
Uma das inovações desse ensaio, para Buvik, foi Gaultier ter, por essa tipologia, desenvolvido uma teoria do riso e do trágico sem associação com gêneros literários: o referente é a imaginação como mestra do falseamento e o poder de alienação. Essa ideia é, todavia, inspirada em Arthur Schopenhauer82, para quem o cômico reside na discordância entre um
conceito (racional, geral) e uma intuição (particular). Em Gaultier, é possível “modular” o grau de cômico em tonalidades. Na leitura de Paul Bourget83,
82 A obra de base é O mundo como vontade e representação, publicada em 1819. O pessimismo advindo da teoria da
obra – baseada na ideia central de que o mundo só é percebido pela representação e que, por isso, é ilusão – é capital para a primeira obra de Gaultier. Na segunda obra, Nietzsche ganhará mais espaço, modificando a teoria do bovarismo.
83 A referência do texto é Essais de psychologie contemporaine: études littéraires, publicado em 1883, por Bourget –
também influenciado pela ideia de Taine de que a literatura é fonte para saber psicológico. O autor, referência capital para Gaultier e clara orientação da vertente psicológica do bovarismo, discute em um dos capítulos o estilo de Flaubert e suas temáticas. Segundo Jayot, três pilares do bovarismo são por essa obra inspirados: 1) noção de romantismo;; 2) Mal de la Pensée (mal do pensamento);; e 3) intoxicação literária. Em relação ao primeiro, Bourget, evocando história, historiografia, história literária etc., estuda os impactos do movimento do romantismo em Flaubert. Para ele, a literatura romântica é fruto de uma geração de criaturas inquietas que “endeusam” a paixão. Flaubert aí situado seria, para ele, o último da linhagem. A ideia é mostrar o perigo dos ideais românticos, que colocam o homem em desproporção consigo mesmo e com seu meio – a inevitável discordância entre a vida sonhada e a real;; essa seria uma análise contextual e histórica. Gaultier, como coloca Jayot, “retoma e cita generosamente” os palavreados e as metáforas bourgetianas, deslizando, contudo, essa análise para os personagens flaubertianos (e não só para o escritor inserido nesse contexto histórico) e apagando-lhe os contornos temporais, tornando-a metafísica. O segundo pilar, “mal de la pensée”, trata-se da já comentada relação problemática do conhecimento de uma imagem da realidade precedendo a experiência. Para Bourget, trata-se do excesso de “cerebralidade” do homem moderno, uma questão da “decadência de fim do século”. Os personagens mostram isso quando se isolam da realidade por funcionamento arbitrário da inteligência. Essa ideia servirá a Gaultier, no olhar de Jayot, para “elaborar a faculdade de imaginar” e para estender esse mal a toda civilização “avançada”. Já a “intoxicação literária” diz respeito a um mal pessoal, do qual Flaubert e seus personagens foram “vítima”, correspondente à leitura de textos literários – mas essa análise restringe-se alguns personagens, dentre eles Emma. Essa temática é uma das mais associadas ao bovarismo (principalmente na crítica literária), como aponta Jayot, embora, em Gaultier, ela tenha sido diluída lentamente.
Gaultier encontra discussões sobre o homem moderno, centrando-se na dificuldade existente em harmonizar a capacidade do indivíduo com o fluxo de noções advindas da educação e dos meios de divulgação massiva. Soma-se a isso o bovarismo próprio da ciência e de seus métodos. Buvik associa o bovarismo metafísico ao pessimismo de influência de Schopenhauer. Jayot acrescenta em sua análise deslocamentos que Gaultier realizou em relação ao pensamento de Bourget. Gaultier se vê como um psicólogo que se coloca como apenas intérprete do artista, Flaubert. O filósofo apresenta sua teoria e foca, de início, em Emma, para depois dedicar-se a outros romances flaubertianos. Gaultier realiza um passeio teórico na biografia flaubertiana, bem como nas obras e nas críticas literárias.
Delphine Jayot afirma que a originalidade da teoria de Gaultier teria sido a “invenção” do nome bovarismo para reunir o conjunto dos três pilares – “noção de romantismo”;; “Mal de la Pensée” (“mal do pensamento”) e “intoxicação literária” – emprestados de Paul Bourget. Teria sido inventiva a ideia de colocá-los em torno de Emma Bovary, conferindo autonomia à patologia. Para Jayot, ao se compararem os textos de Gaultier e Bourget, é difícil definir quem de fato teria criado a teoria:
[...] tudo se passa como se o fundamento mesmo da criação do “bovarismo” se encontrasse no estudo de Paul Bourget, mas latente, ainda não formulado. Dez anos mais tarde, Jules de Gaultier retoma exatamente esses mesmos dados, como se lhe respondesse: “Sim, isso chama-se bovarismo”. [...] qualquer que seja a pertinência que se reconheça à teoria criada por Jules de Gaultier e a originalidade que se quer lhe conceder, não se saberia negar a importância da invenção do “bovarismo” como feito lexical. Pode-se considerar que o nome “bovarismo” é uma descoberta linguística que excede em muito a denominação da teoria que lhe subentende. [...] O nome Bovary continua a agir com toda sua potência de evocação e o “bovarismo” se vê assim beneficiado de um significado hipertrofiado84 (JAYOT, 2007, p. 94-95).
A segunda obra de Gaultier apresenta um viés mais filosófico, transitando não só pelo bovarismo patológico e pela ilusão pessimista, mas também pela importância do inevitável bovarismo. Para Jayot, a criação do sistema
84 “[...] tout se passe comme si le fondement même de la création du “bovarysme” se trouvait dans l’étude de Paul
Bourget, mais latent, non encore formulé. [...] Dix ans plus tard, Jules de Gaultier reprendra exactement ces mêmes donnés, comme s’il lui répondait: “Oui, cela s’appelle bovarysme”. [...] quelle que soit la pertinence qu’on reconnaît à la théorie mise en place par Jules de Gaultier et l’originalité qu’on veut bien lui concéder, on ne saurait nier l’importance de l’invention du “bovarysme” en tant que fait lexical. On peut d’ailleurs considérer que le nom de “bovarysme” est une trouvaille linguistique qui excède beaucoup la dénomination de la théorie qui le sous-tend. [...] Le nom Bovary continue d’agir dans toute sa puissance d’évocation et le “bovarysme” se voit ainsi bénéficier d’un signifié hypertrophié”.
filosófico cujo conceito central é o bovarismo se dá, efetivamente, no ensaio de 1902, e isso resulta nas já comentadas “polimorfia e polivalência” da teoria, dispersa entre esses dois momentos. A estudiosa utiliza a expressão “de um bovarismo a outro” para tratar dessa mudança: “Não é mais a obra de Flaubert que permite deduzir o bovarismo, mas o bovarismo que permite, entre outras aplicações, reler Flaubert. A partir de 1902, o bovarismo ‘existe’ independentemente de Flaubert”85 (JAYOT, 2007, p. 59). Phillipot compara os
dois ensaios, deixando clara sua preferência pelo primeiro, por apresentar, em sua concepção: 1) raízes literárias (pois as reflexões partem das obras flaubertianas);; 2) filosofia livre, em movimento, não dogmática;; 3) ótica sociológica (e não sobretudo filosófica), com olhar voltado para a psicologia da imaginação, servindo-se de conceitos da época: alucinação, histeria, hipnose etc.);; 4) filosofia pessimista da ilusão (com Schopenhauer);; e 5) forte dramatização da mentira e da verdade. A segunda obra compromete-se com a discussão filosófica em torno da verdade, a partir de um pessimismo inerente, apreendido na leitura de Nietzsche. Desse modo, ultrapassam-se as raízes literárias e Gustave Flaubert.
Para Jayot, não há, na terceira obra (1913), um estudo crítico literário. O aspecto marcante é Gaultier, já confiante, apresentar-se como quem concebeu o bovarismo. Flaubert, portanto, é apenas uma das aplicações possíveis da filosofia, tanto que são evocados escritores anteriores e posteriores a ele para comprovar tal aplicação. A invenção cresce obra a obra, reservando a Flaubert um espaço cada vez menor – se se pensa que a primeira obra apresenta uma dedução da filosofia a partir de Flaubert, por exemplo.
Houve, para o pensamento de Gaultier, conforme aponta Delphine Jayot, uma “aplicação política”86, especialmente de tendências reacionárias. Ao tratar do
85 “Ce n’est plus l’œuvre de Flaubert qui permet de déduire le bovarysme, mais le bovarysme qui permet, entre autres
applications, de relire Flaubert. À partir de 1902, le bovarysme ‘existe’, indépendamment de Flaubert”
86 Esta parte poderia situar-se no próximo subtópico, sobre as apropriações da teoria, no entanto, escolheu-se discuti-
la neste momento pois se fala da aplicação (apropriação) do bovarismo, porém a centralidade está em empreender uma crítica capital à teoria, como é o caso, de implicações político-ideológicas. Nesse sentido, os diálogos de Gaultier para desenvolver seu pensamento reacionário são o ponto importante, juntamente com as críticas a esse respeito. Houve, segundo Jayot, outras aplicações para o bovarismo: a estética (com o exotismo de Victor Segalen) e a psicológica. Daquela, não se tratará por fugir aos temas desta tese;; esta será abordada no próximo subtópico sobre apropriações da teoria.
“bovarismo ideológico”, na obra de 1902, o filósofo estaria fazendo referência a textos anteriores87, a fim de difundir ideias como “fidelidade ao solo natal” e valorização da identidade nacional francesa. Ideais estrangeiros, estigmatizados pelo filósofo, a tomarem considerável importância entre os franceses, poderiam levá-los a conceberem-se outros e assumirem ideias não “autóctones”;; portanto, pensamentos estrangeiros eram considerados “ameaças”. Para Gaultier, era preciso revisitar certos critérios que permitissem o acesso a funções públicas – ele defendia, por exemplo, o quesito da hereditariedade para esse acesso, propondo abandonarem-se as “fantasias bováricas das eleições”. Essa seria uma forma de lutar contra a dominação de ideias estrangeiras difundidas por estrangeiros em cargos de liderança. Também parte dessa questão na época de Gaultier eram as universidades francesas: iniciava-se uma democratização nesses espaços onde, por exemplo, encontravam-se professores de outras nacionalidades, sobretudo a alemã. Situado na direita reacionária, Gaultier era contrário à “germanização” ou mesmo à “internacionalização” da universidade, por, acreditava ele, essa ser uma forma de fazer estudantes franceses adotarem ideias de povos de outras nacionalidades. Outro aspecto definidor dessa postura, ainda nas palavras de Jayot, era a repulsa à questão protestante. Ainda que fosse um filósofo antirreligioso, Gaultier era também “crítico veemente da laicidade”. Tanto a laicidade quanto a moral protestante, para ele, perpetuavam o ideal “igualitário, fraternal e pacífico” entre as pessoas (sendo esse ideal para ele uma das espécies de bovarismo), negando-se as leis da vida e da hereditariedade.
Ao discutir o posicionamento gaultieriano sobre os “nouveaux-venus” (novos- vindos;; ou seja, os imigrantes, os recém-chegados), maneira de designar também os judeus, Jayot discute a xenofobia. Os “nouveaux-venus”, na visão gaultieriana, pouco se importariam com a identidade francesa, fazendo com que essa indiferença se propagasse em solo francês. A partir dessas colocações, Jayot é incisiva: “Se já se havia percebido Jules de Gaultier [...] germanofóbico, nacionalista e belicista, nós o descobrimos igualmente
87 É o caso de seu artigo “Le Bovarysme des Déracinés” (“O Bovarismo dos desenraizados”), publicado em 1900, no
antissemita”88 (JAYOT, 2007, p. 65). O bovarismo nesse contexto, para a
estudiosa, então serviria para reforçar a questão da identidade e o mito de um “eu” original e puro que o “outro”, o estrangeiro, poderia corromper. A teoria, fazendo adeptos no início do século XX, serve para pensar a questão da identidade, tanto do ser quanto do nacional, do social ou do individual. A partir daí, Jayot pensa a teoria do bovarismo como um todo, não apenas centrada no bovarismo ideológico:
Assim, mais que considerar o ‘bovarismo ideológico’ como um excremento acidental e importuno da noção do bovarismo, percebe- se, comparando-o ao bovarismo psicológico aplicado a Emma, que ele repousa sobre os mesmos fundamentos ideológicos participantes do sistema em que racialismo, hereditarismo e degenerescência, costuram-se para assegurar sua coerência. Pois o pensamento profundamente discriminatório de Jules de Gaultier, se é menos imediatamente legível, não é menos quando concerne a Emma. A heroína de Flaubert poderia bem, enfim, ter inaugurado a linhagem [...] daqueles que o filósofo, ajudado por alguns outros, busca colocar no refugo da Terceira República89 (JAYOT, 2007, p. 68).
Sem considerar esses aspectos da teoria gaultieriana, por outro lado, em seu artigo “Jules de Gaultier, filósofo da sensibilidade estética (comentários sobre o motor que movimenta invencivelmente a roda do mundo)”90, Denis Grozdanovitch valoriza a estrutura interna da filosofia gaultieriana, reconhecendo que “esse filósofo muito injustamente [...] caído no esquecimento” oferece “numerosos motivos para lê-lo”91 (GROZDANOVITCH, 2007, p. 352-353). O primeiro elemento apontado é que “seu estilo literário marcante não deve nada em acuidade e limpidez aos mestres do gênero, tais como Schopenhauer, Nietzsche ou Bergson”92 (p. 353). A escrita gaultieriana, para Grozdanovitch, “une maravilhosamente o fútil ao agradável”, “é clara” e de uma “doce persuasão psíquica, quase sensual” (p. 354). O filósofo, segundo Grozdanovitch, é o único que, em um processo de autoironia e de humor, desvenda (ou mostra) a manipulação e a astúcia lógica dos filósofos
88 “Si l’on avait déjà perçu Jules de Gaultier […] germanophobe, nationaliste et belliciste, on le découvre également
antisémite”.
89 “Aussi, plutôt que de considérer le “bovarysme idéologique” comme une excroissance accidentelle et importune de
la notion de bovarysme, on s’avisera, en le comparant au bovarysme psychologique appliqué à Emma, qu’il repose sur les mêmes fondements idéologiques participant d’un système où le racialisme, héréditarisme et dégénérescence se côtoient pour en assurer la cohérence. Car la pensée profondément discriminatoire de Jules de Gaultier, si elle est moins immédiatement lisible, n’existe pas moins quand elle concerne Emma Bovary. Et l’héroïne de Flaubert pourrait bien, finalement, avoir inauguré la lignée [...] de ceux que le philosophe, aidé de quelques autres, entend mettre au rebut de la Troisième République”.
90“Jules de Gaultier philosophe de la sensibilité esthétique (commentaires sur le moteur qui entraîne invinciblement la
roue du monde)”
91 “ce philosophe si injustement [...] tombé dans l’oubli”;; “nombre des divers motifs de [le] lire”.
92 “son style littéraire remarquable, lequel n’a rien à envier en acuité et limpidité aux maîtres du genre tels que
em seu processo de construção do sistema filosófico, diferenciando-se até mesmo de Nietzsche, que não pôde distanciar-se e integrar sua filosofia no “vasto concerto de ideias antagônicas” (p. 355). Assim, o filósofo alemão teria desconstruído vários pensamentos em atitude combativa, não tendo sido capaz, todavia, de compreender a qual novo “engano” ou “isca” ele mesmo teria “bovaricamente sucumbido”. Gaultier jamais se esqueceu de que jogava com conceitos em uma atividade de “prestidigitação ilusionista indispensável à vertigem filosófica”, entendendo a “inelutável participação do pensador no manejo recorrente e englobante de ilusões que giram” (p. 357). O bovarismo, para Grozdanovitch, seria uma “elegante teoria auto-irônica do ilusionismo