A primeira obra gaultieriana, publicada originalmente pela Librairie Léopold Cerf, é dividida em seis partes. A primeira delas trata do gênio de Flaubert. A “arte pura”, dita impessoal, do escritor inspira análises psicológicas e morais, já que, para o filósofo, toda obra de arte é passível de mostrar ou fazer ver algum aspecto da humanidade. A obra flaubertiana apresenta, segundo Gaultier, um traço recorrente, a dizer respeito à inventividade de sua escrita, característica própria do gênio. O artista tem um “dom” (instintivo, não racional) para levantar, com seu “faro”, as ideias até então escondidas. O trabalho do filósofo, que é o crítico, é seguir pistas e observar esse movimento natural, para, assim, formular constatações:
O artista literário olha simplesmente as coisas da vida, se ele possui esse dom de visão […]. Suas faculdades de percepção procedem com a certeza infalível de um instinto;; semelhante a um bom cachorro que caça […]. É como as abelhas, visando de preferência entre as flores certas espécies […]50 (GAULTIER, 2007, p. 13).
O filósofo ou o psicólogo precisam apenas se debruçar sobre esse “filtro” do temperamento do artista a fim de conseguir enxergar pelos olhos do gênio: “O psicólogo tem apenas que se debruçar sem esforço sobre a obra do escritor
47 A passagem do século XIX para o XX trouxe mudanças de paradigmas nas ciências humanas. O próprio
“nascimento” da psicanálise foi um deles.
48“cet essayiste pratiquement inconnu du grand publique”.
49 “Même parmi les flaubertiens, Gaultier est pourtant très peu lu aujourd’hui”.
50 “L’artiste littéraire [...] regarde simplement les choses de la vie, s’il possède ce don de vision [...];; ses facultés de
perception [...] procèdent avec la sûreté infaillible d’un instinct;; semblable à un bon chien qui chasse. [...] C’est ainsi que les abeilles, en visant de préférence parmi les fleurs certaines espèces [...].”
para ali descobrir essa abordagem nova que acaba de se estabelecer”51
(GAULTIER, 2007, p. 14). A primeira parte finda com uma diferenciação entre os dois tipos de imaginação que o filósofo acredita existirem. A criadora, de Flaubert, que subtrai o engano de si, a ilusão, e permite resultados em obras artísticas estimuladoras da reflexão;; e a fascinada e patológica, que se confunde com a ilusão e a falsa interpretação de si.
Na segunda parte do ensaio, Gaultier trata da relação entre Flaubert, sua inserção na estética do século XIX e o bovarismo. Com base no conhecimento da correspondência do escritor, o filósofo busca compreendê-lo – observando “hábitos”, “tendências do espírito”, “concordância entre sua obra e sua sensibilidade”, “preferências artísticas”, “opiniões filosóficas” etc.:
Esses elementos novos dão uma noção mais completa do modo de visão através do qual ele percebia as realidades, e à medida que essa visão é melhor conhecida, ela parece expandir, envolver um conjunto de fatos mais numerosos, penetrar em regiões profundas da alma, pôr a nu as fontes mais íntimas, desvelar os motivos mais elementares do coração humano52 (GAULTIER, 2007, p. 21).
Essas preferências de Flaubert levaram Gaultier a pensá-lo como um artista que teria, em determinado período, feito parte da estética romântica, mas – à maneira com que Dom Quixote, o personagem, teria posto termo à mania das novelas de cavalaria – com os próprios procedimentos dela a fez ruir. Seria como se a implodisse, dela tendo feito parte. Esse pensamento foi constituído a partir da influência de Montégut em sua análise sobre o escritor: Flaubert teria, com Madame Bovary, posto fim ao “falso ideal colocado na moda”, aos “vícios e erros da imaginação” presentes na estética romântica. O romantismo seria resultado de influências de muitos anos baseadas na “perigosa sentimentalidade” insuflada pelo contexto histórico no qual franceses estavam imersos após a revolução (GAULTIER, 2007, p. 20)53. Gaultier partilha dessas colocações de Montégut, a não ser pelo fato de acreditar que a visão do artista aponta não só para o fim do romantismo, denunciando seus elementos de operação, como vai além dessa questão e faz enxergar um princípio humano,
51“[...] le psychologue n’a qu’à se pencher sans effort sur l’œuvre de l’écrivain pour y découvrir ce rapport nouveau qui
vient de s’établir [...]”.
52 “Ces éléments nouveaux donnent une notion plus complète du mode de vision à travers lequel il percevait les
réalités, et à mesure que cette vision est mieux connue, elle semble s’élargir, embrasser un ensemble de faits plus nombreux, pénétrer jusqu’á des régions plus profondes de l’âme, mettre à nu des ressorts plus intimes, dévoiler des mobiles plus élémentaires du cœur humain”.
presente não só no contexto oitocentista, mas em outros períodos: “[...] a visão do artista faz saltar em sua obra um princípio indestrutível e escuro da alma humana e a pôs a nu em suas manifestações insanas”54 (GAULTIER, 2007, p. 22).
Para explicar esse “princípio indestrutível”, o filósofo introduz sua maior influência, Paul Bourget (autor de Essays de psychologie contemporaine), que denominou “Mal de la Pensée” (“Mal do Pensamento”) o problema do pensamento/conhecimento que precede a experiência;; ou seja, o mal de conhecer uma imagem da realidade antes mesmo da realidade. O conhecimento do real, das sensações e dos sentimentos seria medido por uma imagem (formada por traços apreendidos na educação, na leitura) e não pela experiência. Para Gaultier, Flaubert teria dividido a alma humana em duas partes. Uma delas é composta pelas tendências hereditárias e a outra diz respeito ao conjunto de ideias recebidas pela educação:
Em uma, encontram-se em análise as tendências e os gostos reais que a qualidade de seu temperamento, a composição do seu sangue, a tensão e a delicadeza de seu sistema nervoso impõem ao indivíduo, os conhecimentos que a estrutura própria do seu cérebro lhe permite adquirir […];; – em outra, todas as ideias que lhe dão a educação especial que ele recebe, sua faculdade de imaginar e todas as causas produtoras de imagens a cujas influências ele sucumbe55 (GAULTIER, 2007, p. 22).
De acordo com Gaultier, só pode fugir à ilusão – e, consequentemente, estar em “perfeita saúde moral” – o indivíduo que consegue manter em equilíbrio essas duas partes, sem deixar que a segunda impere sobre a primeira. As concepções criadas pela inteligência humana para tudo (amor, honra etc.) não devem ser eleitas pelo indivíduo como elemento de sua realidade se sua hereditariedade não está adequada a elas. Como explica o filósofo, a fascinação por imagens apreendidas pelo conhecimento movimenta indivíduos suscetíveis a sentimentos imaginários sobre coisas imaginárias;; esses sentimentos podem obscurecer suas realidades. Esse mal seria próprio de
54 “[...] la vision de l’écrivain a fait saillir dans son œuvre un principe indestructible et foncier de l’âme humaine et l’a
mis à nu dans ses manifestations malsaines”
55 “Dans l’une, on trouverait à l’analyse les tendances et les goûts réels qu’imposent à l’individu la qualité de son
tempérament, la composition de son sang, la tension et la délicatesse de son système nerveux, les connaissances qui lui permet d’acquérir la structure propre de son cerveau […] ;; – dans l’autre, toutes les idées qui lui donnent de ces mêmes choses l’éducation spéciale qu’il a reçue, sa faculté d’imaginer et toutes le causes productrices d’images dont il a subi l’influence”.
sociedades modernas, que já acumularam conhecimento suficiente para “enganar” os indivíduos. Controlar isso é tarefa de temperamentos fortes que poderiam tirar proveito sem sofrer desse “Mal de la Pensée”. Flaubert teria quase sucumbido a influências de “heroicas invenções da literatura”, porém “a força de seu espírito crítico” o trouxe de volta para a “realidade de sua natureza”. Só gênios como Flaubert ou os seres de “temperamentos simples que vivem em harmonia com seus instintos” podem fugir desse mal. Vê-se que Gaultier busca separar claramente o que a crítica posterior não delimita: duas partes, estanques, que compõe o ser humana e que podem, se desequilibradas (sendo que uma vigiaria a outra), poderia resultar em uma patologia de almejar algo para além do que a hereditariedade – e esse conceito é base para conclusões gaultierianas em boa parte de seus escritos – permite.
Na visão do ensaísta, a atitude de conceber-se outro por desconhecimento de sua verdadeira natureza e por sugestão de imagens é comum, o que é demonstrado nos personagens flaubertianos. Esses indivíduos, concebendo- se outros, podem inspirar ódio, riso, pena etc., tudo depende de seu grau de complexidade. Alguns, os mais simplórios, estão fadados à imitação de modelos sociais. Eles seriam, segundo o filósofo, como os animais frágeis da natureza que, para sobreviverem, imitam formas e ações de seres mais fortes. Se fosse olhada de outra maneira (talvez como críticos contemporâneos veem), essa faculdade de mimetização poderia ser entendida como própria dos seres humanos frente aos modelos, por vezes impossíveis, criados – sendo essa uma forma de lidar com padrões ainda inquebrados. Existem ainda casos em que, quando existe um grande e incompreendido abismo entre o real e o imaginário, a tendência chega a ser violenta. Outra ressalva a ser fazer por ora e discutida mais adiante é que o pensamento gaultieriano destoa de várias outras discussões, com as de Roger Chartier, por exemplo, que problematizam os limites e as definições de real, imaginação e educação.
Na terceira parte do ensaio, dedicada à análise biográfica, psicológica e moral da personagem Emma Bovary – que seria protótipo do bovarismo, com o maior conjunto de sintomas típicos desse mal –, aparece pela primeira vez a
palavra “bovarysme”. Segundo Gaultier, o temperamento dela é forte, levando sua vontade a fantasiar a respeito de si e contradizer-se em relação a “seu ser real”: “[...] seus verdadeiros instintos [...] protestam com violência contra essa usurpação e tentam reconquistar o lugar que lhes foi tomado;; ela [...] se obstina a desviar os olhos de si mesma”56 (GAULTIER, 2007, p. 37). Para o
filósofo, as influências do meio externo (estrangeiras) encontram nela condição propícia para alimentar as ilusões, deturpar a realidade. Na verdade, para ele, o mundo exterior já chega para Emma deformado pela imaginação. Ao tratar disso, o ensaísta comenta a desproporção entre a educação recebida pela moça e a destinação que recebe. Sua alma, segundo ele, desequilibra-se por isso e pela constante leitura de romances, que fazem com que ela busque encarnar as heroínas românticas: “Sob a influência dessas leituras, um ideal do amor que ela não conhece se forma nela”57 (GAULTIER, 2007, p. 37). Para ver-se contemplada em sua busca, alimenta fantasias em torno dos amantes. Léon apresenta semelhanças com ela em sua concepção de amor;; Rodolphe preenche bem o papel de conquista romântica, facilitando a ilusão. Neste último caso, para Gaultier, ocorre uma dupla mentira: “ingênua e inconsciente nela;; voluntária e calculada nele” (p. 38).
Emma, à força de realizar suas concepções guiada pela imaginação, sofre (pois é preciso experimentar emoções), forja a paixão por Léon (para preencher os espaços criados pela ilusão) e, por fim, decepciona-se. Gaultier afirma que ela acaba por perceber que sua subjetividade em relação à paixão não é de fato como acreditou ser. No entanto, já é tarde: “[…] o eu que ela realmente sacrificou em favor da quimera se atrofiou, tornou-se inapto a sentir qualquer alegria de viver”58 (GAULTIER, 2007, p. 49).
Nesse capítulo do ensaio, Gaultier estabelece comparações entre o mal de Emma Bovary e a histeria: ele admite que ela apresenta “uma tendência histérica” ou “sintomas de histeria”, contudo faz ressalvas quanto a essa
56 “[...] ses véritables instincts [...] protestent par leur violence contre cette usurpation et tentent de reconquérir la place
qu’on leur a prise;; elle [...] s’obstine à détourner les yeux d’elle-même [...]”.
57 “Sous l’influence de ces lectures, un idéal se forme en elle de l’amour qu’elle ne connaît pas [...]”
58“[...] le moi qu’elle a réellement sacrifié naguère à la chimère s’est atrophié, est devenu inapte à ressentir quelque
comparação. Para ele, Emma não é doente no sentido fisiológico e acrescenta:
[…] a tendência especial que a domina se traduz por estados cerebrais e por fenômenos morais que relevam claramente a psicologia;; mas, assim definida e circunscrita, essa tendência existe e se admite que toda disposição moral tem por princípio um estado de temperamento cuja exageração seria uma doença física, não é de se admirar mais encontrar analogias entre os atos voluntários da Senhora Bovary e os atos inconscientes das histéricas 59 (GAULTIER, 2006, p. 39-40).
Os sintomas entre os dois males seriam semelhantes, porém, nas histéricas a questão seria, sobretudo, uma resposta física, inconsciente. Em Emma, a questão física decorre de um exagero da disposição moral e de atos voluntários.
Educação Sentimental, assunto do quarto capítulo do ensaio, trata-se de um romance flaubertiano cujo personagem principal chama-se Frédéric Moreau – comparado, por vezes, a Emma Bovary também pela falsa concepção de si em relação ao amor. Ele nutre um amor impossível por Madame Arnoux, mas relaciona-se com outras mulheres sem encontrar a felicidade. Toma-se diferente do que é nos aspectos artísticos e políticos: acredita que aprenderá facilmente a pintar quadros – e até se arrisca a produzir algumas obras – e que participará ativamente de momentos políticos vivenciados em sua época. Para Gaultier, ele se atribui “gostos e sentimentos em desacordo com a vocação de seu temperamento”. A diferença marcante entre Frédéric e Emma é que ele tem “sensibilidade mediana” e é “desprovido de energia”. Ela desperta um sentimento trágico;; ele, nem trágico, nem de pena, nem de riso.
No penúltimo capítulo, Gaultier trata de personagens flaubertianos de segundo plano, em geral inspiradores do riso, do cômico, dada sua pouca “energia”. Diversos personagens são comentados com uma espécie de classificação: bovarismo da inteligência, da sensibilidade, da vontade, intelectual. Este último é o caso do farmacêutico Homais, conhecido de Charles e Emma Bovary, que se julga um conhecedor das ciências. Ele tem um “espírito
59 “[...] la tendance spéciale qui la domine se traduit par des états cérébraux et par des phénomènes moraux qui
relèvent très nettement de la seule psychologie;; mais, ainsi définie et circonscrite, cette tendance existe et si l’on admet que toute disposition morale a pour principe un état de tempérament dont l’exagération serait une maladie physique, on ne s’étonne plus de rencontrer des analogies entre les actes volontaires de Mme Bovary et les actes inconscientes des hystériques”.
superexcitado pelas imagens do progresso” (GAULTIER, 2006, p. 42) e compreende os entusiasmos como aptidões. Sua erudição se dá em segunda ou terceira mão, por “prospectos e almanaques”. Para Gaultier, esses personagens de segundo plano, por terem menos “energia”, acabam por imitar modelos, como se estivessem hipnotizados, mecanizados. Seria esse automatismo “a versão extrema do bovarismo”: trata-se de fantoches incapacitados de vencer a nulidade de seus temperamentos.
Na última parte do ensaio, Gaultier se dedica especialmente aos personagens Bouvard e Pécuchet, que, segundo ele, são o símbolo da humanidade, na medida em que esta busca o conhecimento e a verdade. Os personagens seriam, portanto, o “refinamento”, um filtro do bovarismo, sua vertente metafísica, presente em todos seres humanos. Eles se concebem outros em virtude de uma “evolução fatal”, o que parece ser a lei de todos:
Flaubert [...] constatou esse Bovarismo irremissível do homem, sempre esse mal do pensamento e da imaginação que o inclina a se conceber outro que não é, a desconhecer seus instintos reais para ceder à atração dos problemas que o cercam e fascinam. [...] ele demonstrou essa desproporção formidável entre as interrogações colocadas pela inquietude de nosso espírito e nossos meios de respondê-las60 (GAULTIER, 2007, p. 65).
O entusiasmo diante do conhecimento e da ciência está representado nesses personagens que constantemente falham em seu intento de encontrar verdades sólidas. Sempre há, na visão de Gaultier, algo indispensável que lhes escapa e é preciso compreender melhor. Da mesma maneira se dá o entusiasmo de Emma diante do amor ou ainda a discussão religiosa desenvolvida em outra obra flaubertiana, La tentation de saint Antoine. O ensaísta termina sua obra refletindo a respeito da verdadeira sabedoria. Trata- se, para ele, de encontrar o tema de aptidão e dedicar-se a ele, sem a ilusão ou a vaidade de tudo saber. É importante buscar a harmonia entre a vocação, as aptidões e a influência estrangeira: basta cada um “buscar sua própria lei e seguir” (GAULTIER, 2006, p. 66). Essa conformidade entre o que se é e o que se busca realizar, segundo o filósofo, elimina a vaidade que, nos casos de bovarismo, intermedeia o ser e o mundo exterior.
60 “Flaubert [...] a constaté ce Bovarysme irrémissible de l’homme, toujours ce mal de la pensée et de l’imagination qui
l’incline à se concevoir autrement qu’il n’est, à méconnaître ses instincts réels pour céder à l’attraction des problèmes qui l’environnent et le fascinent. [...] Il a signalé cette disproportion formidable entre les interrogations posées par l’inquiétude de notre esprit et nos moyens d’y répondre”.
2.2.2 Segunda e terceira obras – Le Bovarysme (1902) e Le génie de Flaubert