consequências naturais potencializadas pelas ações
humanas
O campo semântico para mudanças climáticas se configurou menos homogêneo que o produzido para florestas. O núcleo figurativo principal concentrou mais da metade das palavras mais significativas em: calor e poluição; seca e enchentes; e aquecimento global e queimadas. O campo complementar se constituiu de quatro outras palavras: doenças, desmatamento, chuvas e desrespeito.
Por esse mosaico de palavras que compuseram o campo semântico nos parece que o mecanismo de ancoragem, processo que precede a objetivação, exigiu que
houvesse pontos de referências, algo já existente para que o novo pudesse ser suportado, e ao mesmo tempo, a objetivação permitiu que as representações sociais pudessem ser formadas, afim de que os elementos estranhos pudessem ser nomeados e caracterizados ao nível da realidade social vivida, não sendo, portanto, concebida como processo cognitivo intraindividual (Spink, 2008).
O mecanismo cognitivo de ancorar ideias “estranhas” e perturbadoras de conceitos reificados na sociedade o faz tentando reduzi-las a categorias e imagens que lhes são familiares, no contexto de uma linguagem própria e a de seu grupo de referência. E nesse contexto, as palavras do campo semântico buscaram uma coerência social e cognitiva que reduzisse o desconhecido, trazendo-as para uma zona de conforto, que ao serem partilhadas encontra solo para torná-las significativas para si.
E nesse sentido, o campo semântico principal foi ancorado e objetivado em seis palavras. Duas delas com significados que remetem a fenômenos climáticos contrários e ao mesmo tempo correlacionados. Inicialmente pode-se pensar que se trata de coisas que são opostas, uma que traz muita água (enchentes) e outra a falta dela (secas), mas também se pode pensar que sejam similares se levamos em conta que elas são resultantes de processos físico-químicos de eventos ligados a fenômenos climáticos, que por motivos naturais ou antrópicos, se tornam mais frequentes e intensos, potencializado pelos fenômenos El Niño e La Niña, responsáveis pelas enchentes e secas em nosso sistema climático.
Outras duas que remete a universos opostos: o calor, que resulta dos fluxos de radiação solar, contribuindo, em última instância, na formação das chuvas, guardando relações com as enchentes. E poluição, palavra que remete a pluralidade de sentidos, poluição do ar, das águas, das florestas, das cidades, entre outros. Se considerarmos o contexto das mudanças climáticas, podemos tratá-la, nesta discussão, como se referindo à poluição do ar, no sentido de acúmulo de gases liberados por processos naturais e pelas atividades humanas para a atmosfera, contribuindo para o aumento da concentração de gás carbônico na atmosfera (um dos mais perigosos gases de efeito estufa), e nesse sentido, haveria uma ligação com as outras palavras do núcleo figurativo, queimadas e aquecimento global.
As palavras queimadas e aquecimento global, talvez, sejam as que mais representam a imagem icônica de uma representação social para mudanças climáticas, na qual a face figurativa (aquecimento global) e a face simbólica (queimadas) fundem o conceito ao objeto percebido, portanto processos constituintes de uma mesma realidade ancorada para integrar a novidade do tema com as imagens construídas e compartilhadas socialmente, tornando-as inteligíveis.
As queimadas, sejam dos combustíveis fósseis, sejam das florestas tornam o aquecimento global compreensível ao nível da realidade das emissões dos gases de efeito estufa, ainda que seja difícil “ver” o dióxido de carbono subindo para a atmosfera, mas o fogo e a fumaça são visíveis e tornam essa realidade mais próxima do cotidiano.
O compartilhamento do campo semântico evidencia uma estrutura representacional com três funções básicas: a função cognitiva de integrar a novidade trouxe à tona as consequências naturais e potencializadas por ações humanas negativas para com o planeta: aquecimento global, calor, chuvas, enchentes, secas e poluição; a função de interpretação da realidade integrou ao universo das florestas o desmatamento e as queimadas como uma importante interface no contexto amazônico; e a terceira função a de orientação das condutas e relações sociais que nos remete ao campo da ética no que diz respeito às ações e consequências de modos de viver e conviver na relação com o outro, representado pela palavra desrespeito (Jodelet, 1989).
Considerando a análise de conteúdo do corpus semântico das 104 palavras, três categorias/dimensões chama a atenção. A primeira, sentimentos/sensações que o tema pode provocar, representadas pelas palavras ansiedade, medo, tristeza/ desrespeito a natureza, egoísmo, insensibilidade, intolerância, ganância/ desconforto, expectativas, sufoco, perigo e ameaça à vida.
Tais conteúdos revelam que os sentimentos e sensações não são somente no nível idiossincrático (ansiedade, medo, tristeza), mas também no nível de atribuição de negatividade a possíveis comportamentos do outro (desrespeito a natureza, egoísmo, insensibilidade, intolerância, ganância), bem como a sensações de temor (sufoco, perigo e ameaça à vida).
A segunda, resultados de atividades humanas que se relacionam ao universo das cidades: urbanização, esgoto, automóveis, lixo, indústria, resíduos químicos, resíduos tóxicos, usinas/ fazendas, queimadas, desmatamento, exploração e modificações.
Pode-se inferir que tal dimensão relaciona dois aspectos ligados a esses resultados das atividades humanas. O primeiro representa o que é mais icônico no universo das cidades (urbanização, esgoto, automóveis, lixo, indústria, resíduos químicos, resíduos tóxicos, usina); e o segundo representa processo de transformação de uma configuração espacial de uma condição para outra (fazendas, queimadas, desmatamento, exploração e modificações).
E a terceira, não menos importante refere-se a possíveis consequências socioambientais em função de alterações no clima, talvez a face mais negativa e real dessa realidade planetária, representadas pelas palavras catástrofes, destruição, fim, morte, extinção, neve, fumaça, climas, chuva, precipitação, desequilíbrio, ciclones, tempestade, enchentes, degradação, escassez, contaminação, desertificação, e desidratação.
Portanto, o campo semântico produzido para mudanças climáticas evidencia dimensões de conhecimentos, sentimentos, valoração, crenças, comportamentos que representam as complexas relações que envolvem o contexto das mudanças climáticas. Tal tema foi possível ser estruturado em torno de palavras cada vez mais comum quando se pensa em mudanças do clima.
E tal estruturação acionou o sistema social baseado na dispersão de informações, que são múltipla e desigual baseadas em conhecimentos, que circulam na sociedade oriunda de diversas fontes (Moscovici, 2012).