A segunda estratégia se mostrou muito potente em relação a um dos grupos que acompanhava, e me permitiu um acesso contínuo a um Centro Penitenciário específico. Nesse caso, entrei “pelas mãos” dos coordenadores do projetos Teatrodentro, que após seis anos de trabalho, tinha conquistado reconhecimento, relativa autonomia, e possibilidade de movimento naquele espaço prisional.
Por esse meio, tive possibilidade de acompanhar o grupo em vários momentos e ter conversas reservadas com os presos. Devido ao contato contínuo e a abertura do grupo ao meu olhar, tive espaço para conhecer e ser conhecida, criar certa familiaridade, intimidade, confiança.
Por essa via fui diversas vezes a prisão de Quatre Camins. Ademais fui a Lledoners (Manresa) e Brians 1, para acompanhar a apresentação de teatro do grupo no Festival In-
Out, realizado fora e dentro de diversos estabelecimentos prisionais da Catalunha. 5.9. Um relato etnográfico: Visita a La Modelo
Em fevereiro de 2011, depois de quatro meses de negociação com as autoridades prisionais, consegui autorização para visitar Centre Penitenciari d'Homes de Barcelona, conhecida por Presó Model ou mesmo La Modelo. Iria acompanhar Angel, que há dezessete anos, ministra aulas de reforço de catalão, castelhano e matemáticas para o exame de acesso à Universidade à distância.
Antes mesmo de pisar em solo catalão já desejava conhecer La Modelo, a materialização do sonho panóptico que sobrevivia há mais de cem anos no coração de Barcelona. Esse desejo se acentuou na medida em que me aprofundava na história e nas questões penitenciárias da Catalunha.
La Modelo é um ícone do sistema penitenciário catalão. Construída em 1904, seu apelido vem da sua arquitetura exemplar que no início do século servira de modelo de racionalidade e utilidade no exercício do poder. Nos mais de cem anos de existência, a prisão foi um aparato utilizado na Guerra Civil Espanhola, na ditadura de Franco, viveu a epidemia da heroína nos anos 80, e hoje é uma peça importante na maquinaria do controle do tráfico e da imigração. Um lugar de opressão por excelência, que também foi palco de inúmeras revoltas, greves e atos de resistência.
Um Centro Penitenciário singular no sistema prisional catalão. É um centro para abrigar somente presos provisórios, que conta com aproximadamente dois mil presos, entre condenados e preventivos. Um relatório de 1990 publicado pelo Defensor del pueblo sobre a situação penitenciária da Catalunha, aponta para as especificidades de La Modelo, que dificultariam, ainda mais, a possibilidade de reabilitação:
“La masificación en el centro, así como su estructura y condiciones de habitabilidad repercuten directamente no sólo en la imposibilidad práctica de llevar a cabo las actividades rehabilitadoras del tratamiento previstas en la Ley Orgánica General Penitenciaria en desarrollo del artículo 25 de la Constitución española, sino que incluso puede generar, en algunas ocasiones un mayor deterioro del interno del que presenta a su ingreso”
(Defensor del pueblo, 1990: 37)
A tendência da política penitenciária catalã é substituir esse “modelo” por centros penitenciários novos, menores, afastados dos grandes centros. Apesar do investimento no setor, e da construção de diversos centros penitenciários, as vagas nunca são o suficiente.
A taxa de emprisionamento só faz crescer, e a Modelo segue sendo necessária. Dessa forma, a desativação da Modelo aparece como um mito para os catalães, assim como as histórias que ela abriga. No momento da minha visita, fui informada que ela está em processo de esvaziamento. O governo promete sua a desativação para 2014.
Fazendo uma pesquisa situada em São Paulo e na Catalunha, não há como não associar a Cárcel Modelo ao nosso Carandiru, por muitos anos um símbolo do sistema prisional paulista, que chegou a abrigar sete mil presos, desativado no ano de 2002.
Fui da minha casa até a penitenciária de bicicleta. Andar de bicicleta foi desde a minha chegada meu meio de transporte em Barcelona, além de meu hobby favorito: para mim, sentir o vento na cara era uma vivência forte de liberdade. No caminho, ao me lembrar que estava indo em direção a uma prisão, essa vivência foi contrastada com a realidade asfixiante daquele espaço; esse contraste me gerou uma angústia imensa, e até um estranho sentimento de culpa por me sentir tão livre. A resposta de um dos presos a uma pesquisa na Espanha126 resume um pouco o paradoxo em que me vi. Ao ser perguntado o que faria se estivesse em liberdade, respondeu que gostaria de “andar um quilometro em linha reta”.
Já conhecia a Modelo por fora. Um dia, voltando pra casa, vi um cartaz que divulgava a
14ª Marxa Contra les Presons, a ser realizada no dia 31/12/2010. A marcha começaria na Presó de Dones (Wad-Ras), seguiria para o CIES (Centre d'Internament per a persones estrangeres) e finalizaria na Presó Model.
Era início da última noite do ano, fazia frio em Barcelona, quando eu, meu marido e um casal de amigos fomos para o final da manifestação que ocorria nos arredores da Presó
Model. Havia cerca de 200 pessoas com tochas, fogos de artifícios e dois gritos de guerra:
“los ricos nunca entran, los pobres nunca salen” e “Abajo los muros de las prisiones”. Entre nós e a prisão havia um grande cerco policial, de farda e capacetes pretos, e cassetete em punho. Não presenciei nenhuma confusão.
126 “Andar 1 km. en línea recta: la cárcel del siglo XXI que vive el preso”. Produzido a partir da análise de
1.7000 questionários, enviado por correio às pessoas presas na Espanha, realizada por Manuel Gallego, Pedro Cabrero, Julián C. Rios e José Luís Segóvia.
Talvez tenha sido a primeira vez que tentei imaginar como seria a última noite do ano na prisão: como celebrariam os presos? Estariam sonhando com o próximo ano? De fora, só ouvia gritos incompreensíveis dos presos, que mostravam que tinha vida e voz atrás do muro. Essa experiência me impactou, e chorei uma esperança triste. Para mim, a força da marcha não estava na eficácia quanto ao impacto na sociedade, mas no símbolo que ela carregava: em meio às comemorações nas ruas e casas da cidade, alguém lá fora soltava fogos e gritava a existência das pessoas presas. Na noite que antecede o ano novo, que carrega suas eternas promessas de mudança.
Como mostra a representação gráfica do cartaz que convocava para a Marxa Contra les
Presons, a Modelo é reconhecida por sua famosa arquitetura panóptica. A prisão ocupa um
quarteirão no bairro de Eixample, vizinha ao Hospital Clinic. O bairro e suas construções modernas do início do século XX foram frutos de um planejamento exemplar, com vistas a criar espaços utilitários ao exercício do poder disciplinar. Não por acaso, o bairro de
Eixample concentra três importantes instituições de sequestro: a prisão, o hospital e a
que se encontra em outros bairros de Barcelona, tal como o bairro Gótico, formado a partir de um labirinto caótico das ruas.
O único acesso a La Modelo se dá por uma porta pesada de madeira que abre-se desde a rua, sem maçaneta, bastando que a empurre para dentro. Esperei um pouco na porta, para entender o seu mecanismo e quando vi alguém sair aproveitei para entrar. Do lado de dentro, havia um pátio que parecia um pátio escolar, com bancos, máquina antiga de café, refrigerante e sorvete ao lado do que parecia ser um ambulatório, no qual pessoas da rua entravam e saiam. No canto esquerdo havia uma fila de pessoas, marcando hora de visita ou entrega de paquetes aos presos. De um arco que se abria no canto esquerdo da entrada, dava para ver a rua e algumas varandas de apartamentos127. Havia uma única porta em um estreito corredor que dava acesso ao interior da Penitenciária. Por lá entravam e saiam funcionários, voluntários, visitas.
Eu estava sentada no banco observando o movimento, quando notei que um agente de segurança me olhava desconfiado, mas não me apresentei. Tinha de esperar Jordi, do
Departament de Justícia, o responsável por conceder-me autorizações de entrada nos
centros penitenciários. Para minha surpresa, e orgulho do voluntário que eu iria acompanhar, Jordi havia falado que estaria presente na minha visita. Para mim, esse “tratamento especial” por parte da SSPRJJ, representava a preocupação do governo com a entrada de pesquisadores e pessoas da sociedade civil na Modelo.
Vi então um senhor de crachá passar pelo pátio e dirigir-se ao controle de autorizações de visita. Ouvi-o desde dentro falar alguma coisa sobre voluntário. Percebi que era comigo e me apresentei.
Era Quin, o subdiretor da prisão, que me informou, com certo fastígio, que Jordi não viria. Como o diretor também teve que se ausentar, seria ele o encarregado por me acompanhar pelas dependências da prisão. Antes de entrarmos, Quin, em tom de brincadeira, advertiu- me para que deixasse celulares, drogas e a armas junto à minha bolsa guardada em um setor burocrático da Modelo.
127 Os apartamentos vizinhos ficavam realmente perto da Modelo, há uma história conhecida de um preso que
Recebi um “permiso amarillo”, o qual tive que apresentar junto ao meu passaporte em todas as “jaulas”, assinando a hora de entrada e a saída. Durante o caminho, ele me pareceu entediado, como se não tivesse interesse nas coisas que eu lhe falava. E logo nos primeiros passos já senti o cheiro que não pode ser descrito de outra forma menos tautológica do que “cheiro de prisão”, o qual pode ser reconhecido também nos centros de menores, manicômios, e outros lugares com muita gente e pouca higiene.
Na minha trajetória profissional, tive a oportunidade de visitar pessoalmente diversos tipos de instituições de confinamento. E quanto mais as conheço, mais se fortalece minha percepção que tem algo nessas instituições que se repete sob diferentes formatos e apesar das diferenças socioculturais.
Ainda que minha bagagem nesse campo venha a partir da minha interação em instituições brasileiras, ao entrar nas prisões na Catalunha, senti-me de certa forma familiarizada com os códigos prisionais de lá, com capacidade de situar meu lugar, e dos meus interlocutores nessa trama. Reconheço o papel incômodo que cumpro como pesquisadora, os lugares que posso entrar, o que me é permitido perguntar, as hierarquias, os seus modos de fazer, de controlar, seus cheiros, o discurso institucional, a dificuldade de acesso.
Atravessamos quatro jaulas em linha reta até aceder ao circulo central da prisão. A imagem desde ali é forte: um centro com pé direito altíssimo, com uma cúpula em cima e no meio uma pequena cabine redonda de controle. Do centro irradiavam seis raios, chamados
galerias (com seus respectivos números em cima da porta de acesso). Tentei dar uma
espiada para ver como era dentro, as celas, mas não consegui.
Recorro à obra de autoria coletiva “Cárcel Modelo 1904-2004” para compreender um pouco da historia centenária dessa instituição e conhecer lugares que não me foram revelados.
“seis galerías de esta cárcel que parten radialmente del Centro de
Vigilancia hay un total de 608 celdas útiles para encerrar presos, cada una de ellas de unos 9 metros cuadrados son unos cubículos sucios, húmedos, donde se colocan las roñosas literas, con un lavamanos y un wáter separado por una endeble estructura de hierro y unas mamparas de metacrilato transparente; las plagas de parásitos: pulgas, piojos y sobre todo chinches hacen la supervivencia más difícil y tensa. En cada celda, se
hacinan 3 o 4 presos, pero fácilmente en verano, en que cada año aumenta sistemáticamente”
(Producción colectiva, 2004: 57) A capela foi o primeiro lugar que entramos, era uma sala pequena com um altar à frente, alguns instrumentos musicais e algumas cadeiras. Quin me explicou que ali se realizavam trabalhos voluntários ligados à assistência religiosa. Fui apresentada a duas voluntárias da
Justícia i Pau., que conversavam com alguns presos. Estavam acompanhadas por uma
outra voluntária da SEPAP (Pastoral Penitenciaria de Barcelona), que era jornalista e monja, e que estava ali ensinando violão, e ensaiando com os presos os cantos para missa de domingo. Ali havia também um voluntário das Testemunhas de Jeová falando com dois presos.
Em um momento da conversa, Quin pediu licença e me deixou nas mãos de um educador. Passados alguns minutos esse me apresentou a Rosa, chefe de setor, que me acompanharia dali pra frente. Senti que a responsabilidade por me acompanhar estava sendo passada de mão em mão, e que nenhum dos meus cicerones entendiam muito meu papel ali. Para minha sorte, Rosa era uma figura interessante. Dela ouvi pela primeira vez alguém dizer que seu sonho de criança era trabalhar na penitenciária. Ela já havia sido voluntária, enquanto trabalhava na maior loja de departamentos da Espanha para pagar a faculdade e estar aonde está hoje.
Saindo do centro de controle, fomos ao pateo general, a parte “mais aberta” da Modelo. O clima da prisão não era dos melhores. Os funcionários pareciam estar alertas e ouvia-se os gritos dos presos trancados. Seus corredores cheiravam a produto de limpeza, e o cheiro piorava à medida que eu passava pelas galerias, onde ficavam a maioria dos presos, ociosos. Os poucos que saiam das galerias se distribuíam entre: oficinas de trabalho (um galpão ao fundo com algumas atividades), escola (5 salas precárias e pequenas, que lembravam um jardim da infância), quadra poliesportiva (aonde alguns presos jogavam bola e mantiveram-se indiferentes à nossa presença) e academia (cheia e cujas vagas eram muito disputadas entre os presos).
No fundo da Modelo havia uma salinha de teto muito baixo, ao lado de um jardim, aonde estava Angel e doze alunos. O voluntário-professor nos recebeu com festa, e talvez um pouco decepcionado porque não estavam todos os convidados. A possível presença de
Jordi (representante da SSPRJJ) e do diretor da prisão significavam muito para Angel128. Ele, que já fora condecorado pelo Departament de Justícia por seu trabalho de voluntariado, via no interesse do Departament mais um reconhecimento do seu trabalho. Lembro-me que Angel ligou na minha casa só para contar, com certa excitação, que havia falado ao telefone com Jordi a respeito da minha pesquisa.
Eu e Rosa entramos na sala de aula, fui apresentada por Angel aos alunos “como aquela que iria levar a experiência deles para outro continente”. Os presos aparentavam estar animados na minha presença, mas agiam disciplinadamente com seus cadernos e lápis, enquanto Angel explicava fórmulas matemáticas no quadro negro.
Sentei em uma carteira ao fundo. O pé direito baixo e as cadeiras pequenas da sala improvisada depois de um jardim, faziam com que me sentisse pequena, em tempos de pré-escola; mas quando de pé, o teto parecia encostar na minha cabeça, e meu corpo adulto sentia-se oprimido pelo espaço. A arquitetura da sala era funcional para a infantilização e contenção do indivíduo, e, portanto, para a disciplina que se exige nas escolas e prisões.
Comecei a acompanhar a aula de matemática, com fórmulas que pareceram muito difíceis para alguém como eu, há tantos anos afastada dos saberes exatos. Fiz alguma brincadeira com isso, e estrategicamente, como uma forma de explicar algo que estava mais ao meu alcance, Angel decidiu mudar a aula de matemática para de catalão. Um dos presos que estava sentado perto de mim reclamou timidamente, mas a ponto de eu ouvir sua insatisfação em relação à mudança. Minha presença fez com que o professor mudasse o curso das aulas sem ao menos consultar os alunos.
Nesse momento percebi que aquela cena estava de alguma forma ensaiada para minha visita, e as personagens representando o que Angel imaginava que eu queria ver. Angel demonstrando toda paciência no quadro negro e os alunos quietos no papel de aluno, preso esforçado. Estava interessante observar o andamento da aula, porém sabia que aquela poderia ser minha última vez em La Modelo, e que formalmente não conseguiria
128 Angel foi meu principal informante na Catalunha. Escrevi um pequeno relato do meu contato com Angel
e as reflexões daí: El soldado del señor: una breve reflexión acerca de un voluntario en una cárcel de
autorização para entrevistar seus presos; então quis aproveitar aquele momento, para criar uma situação em que pudesse ouvir um pouco os presos.
Comecei a interagir com Angel e os presos acerca do catalão, e a aula então se tornou um bate papo, os presos tentando compreender quem eu era, o que fazia, e eu perguntando para eles sobre a prisão. As condições da conversa, no meio da aula, em frente do voluntário e da funcionária do sistema não eram as mais adequadas. O pouco que ouvi dos presos foram reclamações quanto a falta de atividades na Modelo e dos prejuízos trazidos pelas transferências (de centros penitenciários) para o andamento dos estudos. Quanto à participação em atividades propostas por voluntários, eles as valoravam positivamente, como uma forma de sair do pátio e manter a cabeça ocupada, voltada para alguma possibilidade no futuro.
Nessa pequena interação, percebi que me sentia muito à vontade conversando com os presos. Talvez porque me sinta como um canal para tantas coisas que eles querem contar. Talvez seja justamente este o tema desta tese.
A aula e o clima descontraído acabam com a entrada do subdiretor Quin e outro educador na sala. Despedi-me dos presos, e, acompanhada de Angel e três funcionários da prisão, atravessei a quadra em direção à saída. Paramos no centro de controle da Modelo. Tento entender como os presos são divididos pelas galerias que irradiam daquele centro. Angel explica que os presos das galerias 4 e 6 não são autorizados a sair da galeria, por serem “presos de risco”. Já a galeria 5 abrigava os “destinos”, que conforme os presos haviam me explicado anteriormente, era o nome dado aos presos que fazem o trabalho interno da prisão, e por isso tem ampla liberdade de circulação. Estes teriam seu correspondente na figura dos faxinas ou pilotos em São Paulo. Eram atribuições dadas aos destinos, também denominados “presos de confianza”:
“realizar algunas funciones en la cárcel como la limpieza de las galerías o
repartir la comida, o por tener un destino de confianza y realizar parte del trabajo de los funcionarios como ayudarles en los recuentos abriendo y cerrando celdas, o en la paquetería que entraban las familias, o repartiendo el correo etc.”
Aproveitando a presença do subdiretor, agradeci a oportunidade e o consultei sobre a possibilidade de eu voltar a visitar a Modelo, já que uma visita não seria suficiente para alcançar meus objetivos. De antemão, ele respondeu que por ele estava autorizado, mas que dependia da posição da Secretaria de Serviços Penitenciários (SSPRJJ).
Tal resposta já era esperada. O que me surpreendeu foi a hipótese hiperbólica usada por Quin para justificar o controle da entrada de pessoas de fora do cárcere. Segundo ele, não teria como garantir a segurança do pesquisador ou visitante, pois no momento em que este estivesse andando pelo cárcere, um “loco” poderia decidir se pinchar (picar com uma seringa), fazendo voar sangue possivelmente contaminado.
Apesar de alguma verossimilhança com a realidade (na Modelo tem muita droga e muitos presos locos, que não tem nada a perder), o risco de uma situação dessas ocorrer é mínimo. A força simbólica da imagem criada, porém, imensa.
O interessante da alegoria utilizada pelo subdiretor traz representações importantes sobre o contato com o cárcere. Talvez a mais forte delas seja o risco de contaminação física, e sobretudo moral, reatualizado pela existência da prisão, que segrega e isola o perigo.
Angel, que ainda me acompanhava, mostrou-se surpreso com a hipótese do subdiretor, e ao pé do ouvido nomeou bem do que se tratava: “medo institucional”. De volta ao pátio de entrada, despedi-me de Angel. Ele ainda ficaria trabalhando, passando a frequência dos alunos para fins de controle institucional.