Nesse último tópico, que trata da Church in Connection como instituição religiosa, faremos um breve resumo dos mitos, símbolos e ritos fortalecidos pelas programações da igreja. A programação da igreja e a performance do pastor Thiago Vinicius Cunha se fazem acompanhar de símbolos religiosos, que têm o poder de comunicação com a comunidade de fé que se reúne em número cada vez maior. Os símbolos e ritos se reportam aos mitos da religião. Assim afirma Eliade (2000, p.22): “O indivíduo evoca a presença dos personagens dos mitos e torna-se contemporâneo deles. Isso implica igualmente que ele deixa de viver no tempo cronológico passando a viver no tempo primordial, no tempo em que o evento teve lugar pela primeira vez”.
Dentro da concepção eliadiana, os mitos, que são histórias verdadeiras, de caráter sagrado e exemplar, podem ser reatualizados, ou revividos. Essa reatualização se faz através dos símbolos e dos ritos. Os mitos, segundo esse autor, têm papel fundamental na história ao revelar que o mundo tem uma “origem e histórias transcendentes e significativas”. O valor irrefutável do mito, segundo Eliade (2000, p. 124), está no fato de que ele pode ser periodicamente reconfirmado pelos rituais.
Na igreja Church existe uma dinâmica interna embebida da cultura criada pelo Sistema Multimídia e, há que se considerar, como afirma o antropólogo Geertz (1989), que a religião atua como sistema cultural apontando para a necessidade do ser humano em buscar um novo mundo para viver. Para Geertz (1989), a cultura denota o seguinte: “Um padrão de significados transmitidos historicamente, incorporado em símbolos, um sistema de concepções herdadas expressas em formas simbólicas por
meio dos quais os homens comunicam, perpetuam e desenvolvem seu conhecimento e suas atividades em relação à vida" (GEERTZ, 1989, p. 66).
Geertz (1989) afirma acreditar “como Max Weber que o homem é um animal amarrado a teias de significado que ele mesmo teceu”, e a “cultura como sendo essas teias e a sua análise; portanto, não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura de significado” (GEERTZ, 1989, p. 4).
Como se faz necessário dizer o que é “significado” dentro desse contexto, Geertz estabelece um paradigma: "símbolos sagrados funcionam para sintetizar o ethos de um povo". A forma de vida de um povo, suas disposições morais e estéticas, suas ideias sobre ordem, qualidade de vida etc. É certo que depreendemos daí que a cosmovisão dos homens se reforça e se expressa pelos símbolos sagrados. Afinal, os homens se ajustam e ajustam suas formas de vida de acordo com a visão que eles têm da "ordem cósmica", e isso a religião faz.
Os "símbolos" aqui são mais do que apenas a representação de algo, ou de alguma coisa que está ausente. Neste contexto, os "símbolos representam fontes extrínsecas de informações". Estas "informações" não são algo que o homem carrega consigo, como os seus genes, mas estão "fora dos limites do organismo do indivíduo”. Estes "símbolos" apontam para "modelos de padrões culturais" que "dão significado, isto é, uma forma conceptual objetiva, à realidade social e psicológica, modelando-se em conformidade a ela e, ao mesmo tempo, modelando-a a eles mesmos” (GEERTZ, 1989, p. 68-69).
A percepção da congruência estrutural entre um conjunto de processos, atividades, relações, entidades e assim por diante, e um outro conjunto para o qual ele atua como um programa, de forma que o programa possa ser tomado como uma representação ou uma concepção - um símbolo - do programado, é a essência do pensamento humano (GEERTZ, 1989, p. 70). Todo esse conjunto estrutural se “materializa", no sentido de apontar para uma "espécie de ética do dever", que provoca nos homens determinadas "tendências, propensões, habilidades, hábitos, compromissos, inclinações”. As atividades religiosas induzem ao "ânimo" e à "motivação" e deixam os homens dispostos a determinadas atitudes. Geertz faz uma distinção entre a disposição, que tem tempo curto e que varia apenas de intensidade; e a motivação, que tem caráter temporal extenso e se torna significativo em razão dos fins a que se quer chegar, como exemplo
a caridade, que é cristã quando encampada por uma concepção de "propósito de Deus", algo estipulado para ocorrer durante uma vida inteira. Algo se torna religioso quando se transforma em "símbolo de alguma verdade transcendental" (GEERTZ, 1989, p. 70-72).
A Church in Connection se realiza por meio de espetáculos (que serão tratados como tal no próximo capítulo), mas esses espetáculos não se dão no vazio. Dito de outra forma, as realizações programáticas da igreja com os seus rituais reportam aos mitos e símbolos do cristianismo – gramática interna dessa religião – e se afirmam dentro de uma lógica interna e comunitária repleta de afetos e de sentidos próprios da religião. Como registrado anteriormente (cf. Gráfico n. 6), 80% dos membros da igreja são oriundos de outras instituições cristãs. Apenas 15% disseram não ter frequentado nenhuma igreja antes da Church. A eficácia de comunicação dos símbolos e o trabalho realizado no campo do imaginário religioso podem ser deduzidos quando constatado o grau de educação religiosa cristã recebida pelos membros.
Gráfico 7 – Educação religiosa dos membros da igreja
Fonte: Próprio autor, conforme pesquisa Anexo 6
Nas respostas obtidas pela pesquisa com questões semiabertas, sobre a educação recebida na infância, os pesquisados acrescentaram a denominação religiosa que a família estava vinculada (Católica, Evangélica e Espírita). Tomamos esse fato como a confirmação da importância religiosa conferida ao cristianismo, em especial, e à religião, como um dado “natural” da vida desses pesquisados. Apenas um número insignificante (2,5%) disseram não ter recebido uma educação religiosa
2,5% 2,5% 19,5% 49% 2,5% 2,5% Na Igreja, em casa e na escola Em casa Na Igreja Católica Na Igreja Evangélica Na religião Espírita Não recebeu nenhuma
RECEBEU ALGUM TIPO DE EDUCAÇÃO RELIGIOSA NA INFÂNCIA
na infância. A história contada nesses dados reforça o pouco espaço de dúvidas e de questionamentos possíveis em relação ao cristianismo. A origem reforça as convicções. Isso facilita o trabalho da Church na criação de um sentimento de pertença. A inovação da igreja está nos recursos de que lança mão para criar a comunidade de fé. A imaginação e criatividade são fundamentais para o trabalho.
Desta forma, partindo da formulação da perspectiva religiosa como persuasiva, chegamos ao ritual. Num "ritual, o mundo vivido e o mundo imaginado fundem-se sob a mediação de um único conjunto de formas simbólicas [...]" (GEERTZ, 1989, p. 82). A religião é fortalecida nos ritos. A religião é mais que "uma forma de arte humana”.
[...] a aceitação da autoridade que enfatiza a perspectiva religiosa corporificada decorre da encenação do próprio ritual. Induzindo um conjunto de disposições e motivações - um ethos - e definindo uma imagem da ordem cósmica - uma visão de mundo - por meio de um único conjunto de símbolos, a representação faz do modelo para e do modelo de aspectos da crença religiosa meras transposições de um e de outro (GEERTZ, 1989, p. 79).
A religião molda a vida assim como "o ambiente, poder político, a riqueza, a obrigação jurídica e a afeição pessoal". A religião coloca atos íntimos, banais, em contextos finais, daí a religião torna-se tão poderosa. Na visão de Geertz, os fortes e profícuos conceitos formados pela religião não param de atuar na construção de um mundo que interpreta permanentemente na formação de orientações cognitivas fundamentais dos fiéis e da sociedade em que eles participam.
A novidade fica por conta do espetáculo que se agiganta e pode, pelo menos à primeira vista, servir mais do que somente como veículo de comunicação e significação. É, talvez, o caso de se perguntar até que ponto o show poderia dispensar o conteúdo religioso ou esvaziá-lo do sentido original, do sentido que até então estava adotado pelas outras igrejas.
Para Greco (2009), a experiência religiosa encontra sua linguagem e manifestação própria por meio das suas objetivações: mitos, símbolos e ritos. Isso torna possível o estudo e a valorização das religiões. Dada a manifestação da religião e de suas inúmeras apresentações, através dos tempos e dos lugares, Greco (2009) aceita a complexidade inerente à religião, incluindo nesse ponto, uma experiência que deve envolver Deus, o Sagrado, o objeto a ser experimentado e, também, o sujeito
que dela faz a experiência (GRECO, 2009, p. 13-33). Quando salienta esses dois lados que compõem o estudo da religião, ele sugere que o estudioso se coloque em
epoché (situação de suspensão de juízo de valor ou de verdade) e considere o
“momento dado” da hierofania e suas características apreendidas pelo carismático e seus acólitos. Ele propõe um estudo filosófico e fenomenológico da religião.
O momento fenomenológico é orientado a recolher em uma unidade inteligível as diversas manifestações do fenômeno religioso e a determinar sua estrutura com base na análise e no confronto. Este se propõe estabelecer, com a ajuda de todas as ciências do significado (etnologia, psicologia, sociologia etc.), tudo quanto na intencionalidade do ato religioso, é captado e afirmado, sem se pronunciar sobre a validade de tais interpretações (GRECO, 2009, p. 31).
Entendemos a sugestão do autor e sua preocupação em tratar a religião como um fenômeno amplo, contudo, o que nos interessa é o princípio da experiência religiosa manifesta mediante a linguagem do símbolo, do mito e do rito, e que age na organização dos fiéis como comunidade de fé.
Retomando Geertz podemos encontrar na Church in Connection, de forma aparentemente paradoxal, uma igreja que existe, mas que está “em processo”, ou seja, o que ocorre é que embora exista o templo com o espaço físico, sito à Av. Brasil 2260, a Church “acontece” também pelas redes comunicativas da Internet através das quais os fiéis estão conectados.
Esse “acontecer” se justifica também por estarmos presenciando uma organização no seu nascedouro (teve início em 2010 e se tornou independente em julho de 2016). Embora a teologia que a sustenta seja antiga e as doutrinas adotadas sejam de cunho pentecostalizante (acreditam na ação de Deus nos dias atuais, acreditam nos dons do espírito – embora não os exercitem - e fazem da emoção quase um substituto dos dogmas), o “acontecer” é o mais importante. As programações cambiantes com novas peças teatrais, decoração temática fluída e performances que não se repetem tornam mais atraentes os cultos de domingo. O show e o clima emocional criado valem mais que as doutrinas ou pontos de vista teológico.
O sistema simbólico religioso do cristianismo é reforçado continuamente nas mensagens que centralizam, por exemplo, a cruz como símbolo da morte expiatória de Jesus Cristo, e que possibilita todo tipo de esperança. As imagens também
reforçam símbolos sagrados. As mensagens proferidas na igreja (cf. Anexo 4 e 5) confirmam o uso de tais símbolos.
Figura 20 – Imagens de símbolos presentes nas mídias da Church
Fonte: Facebook54
Como visto acima, temos: a cruz com a bandeira do Brasil fala do amor de Deus pela nação brasileira, ou dentro de um coração para simbolizar o amor que se deve ter por Deus (parte da campanha “amar a Deus, amar o próximo e servir no mundo”); o momento de batismo por imersão nas águas realizado numa piscina na frente da igreja e no horário de culto; imagens da Bíblia como se fosse um púlpito de onde o pastor Thiago fez uma das pregações de domingo à noite; a Bíblia aberta numa mesa sugerindo um estudo bíblico agradável; o cálice com o vinho servido por Cristo na última ceia com os discípulos e que se tornou símbolo de sua mensagem de perdão e de ressurreição para os que creem nEle. De acordo com Geertz, é a materialização de uma estrutura que gera hábitos, provoca compromissos, estabelece tendências.
Tudo o que foi dito anteriormente retrata momentos da vida institucional, mas todas são cambiáveis no tocante à estrutura e estética. Tanto o indivíduo quanto a
54 Imagens do Facebook e whatsApp. Disponível em:
<https://www.facebook.com/pg/churchinconnection/photos/?ref=page_internal>. Acesso em: 23 nov. 2016.
coletividade de fiéis são animados e motivados a crer numa ordem cósmica e histórica que está sob a “soberania de Deus”, como ensinado várias vezes nas programações mais diversas da igreja (Cf. Anexo 5). Ensinamento oriundo da Reforma Protestante calvinista. Nesse sentido, foi modelar o ensinamento realizado pelo pastor Thiago Vinicius Cunha (Cf. Anexo 4, T3): “Tudo nesse e no outro mundo está sob o domínio de Deus, é a sua soberania. Até o diabo e o anticristo são marionetes nas mãos de Deus, fazem o que ele quer, o que ele permite” (sic).
Longe da “guerra contra o diabo”, como enfatizado pelas igrejas neopentecostais (Universal do Reino de Deus e Mundial), e fixados como ponto emblemático desse pentecostalismo, de acordo com Mariano (1999, p. 109), a Church enfatiza um aspecto mais próximo às teologias da Reforma Protestante e das igrejas tradicionais do mundo evangélico brasileiro como Presbiteriana do Brasil.
Desta forma, os ensinamentos religiosos tornam-se modelos, padrões culturais, que permitem ao pastor Thiago e aos líderes proporem uma agenda de compromissos, de hábitos e de ações a serem realizadas por todos os membros e ouvintes. E mesmo esses últimos reforçam os ensinamentos aprendidos nas conversas mantidas entre si e colhidas também para a pesquisa.
- Mulheres sábias edificam seus lares, vamos orar porque elas [mulheres solteiras que estão presentes] serão mulheres casadas, vamos profetizar na vida delas, e ministrar uma transformação nestas mulheres que não serão objeto sexual, mas mulheres bem sucedidas e que agradarão a Deus, edificarão seus lares. Repitam comigo mulheres; “eu vou esperar ‘meu sacerdote’, ‘vou abençoá-lo’ (sic). (Pastora Késia Cunha, durante o louvor da culto C2 em 08 de março de 2015).
- Sofrimento não é maldição de Deus nem abandono, mas uma forma de nos aproximar de Deus, e Dele nos ensinar sobre o Reino, especialmente sobre [como] orar” (sic). (Pastor Thiago Vinícius, culto C2 em08 de março de 2015). - Segundo o exemplo de Paulo precisamos ser alegres independentes da situação. É preciso gozar o momento, fazer de algo ruim, algo bom. Até nas nossas perdas é possível ser feliz (sic). (Pastor Thiago Vinícius, culto C3 em 12 de abril de 2015).
- É preciso fugir do pecado, esta frase é repetida para que as pessoas possam gravar. Não devemos estar, por exemplo, nos shows da pecuária nesta noite porque não é o lugar em que nós vamos glorificar a Deus [...], é não ser prudentes (sic). (Pastor Thiago Vinícius, culto C5 26 de abril de 2015). - As irmãs não devem usar roupas que marcam o corpo com o fim de provocar ou se insinuar aos homens [...] não existe vida no evangelho sem renúncia,
afinal, a nossa casa é nos céus com Jesus e não na terra (sic). (Pastor Thiago Vinícius, culto C5 26 de abril de 2015).
- Jesus te faz andar na Luz, sem medo da morte, do inferno, ou dos seus pecados; você não precisa ter medo de esconder nada, nem sua vida social e virtual (sic). (Pastor Thiago Vinícius, culto C7 em 07 de agosto de 2016). Essa estrutura construída pelas falas do pastor Thiago Vinícius Cunha e da pastora Késia Dayane Cunha se reproduzem (tem repercussão) nas falas dos fiéis, o que comprovamos com os questionários aplicados para a pesquisa (cf. Anexo 6), e que será tratado no próximo capítulo.
A comunicação sustenta um mundo cultural construído com sentido e significado. O que Geertz chamou de “ética do dever” que inclina os indivíduos a determinadas tendências. É o que se percebe na fala da pastora logo no início dos registros acima, quando aponta o papel social da mulher em “edificar o lar”, o papel social em relação às “coisas domésticas” e também sobre o valor do casamento. O valor do trabalho, da paciência e da importância em suportar os sofrimentos da vida como oportunidades de Deus para o crescimento das pessoas são temáticas recorrentes dessas falas.
Mais uma vez, os líderes tentam marcar posição em relação aos neopentecostais, se distanciando de, pelo menos, um aspecto da teologia da prosperidade. Os líderes da Church não acreditam nem pregam ser o sofrimento, as dores e as perdas da vida uma obra do inimigo de Deus, o diabo. Contudo, (cf. Anexo 5) o dízimo recebe uma atenção especial. É tirado nas manhãs e noites de domingo, sempre com ênfase no cumprimento de um mandamento que se impõe e é tratado como fonte de sucesso financeiro.