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Dans le document Provincial Auditor Saskatchewan (Page 59-62)

A objetivação e a confirmação da realidade pela mídia são assuntos de que trata o sociólogo e filósofo francês Jean Baudrillard no livro “Simulacros e simulação”. O autor afirma que o cenário oficial da informação existe para manter a ilusão de uma realidade dos problemas e de uma objetividade dos fatos (BAUDRILLARD, 1981). Para ele, essa é a grande ilusão da mídia: construir um cenário de sonho, a partir da representação da realidade. Para esta tese, Baudrillard (1981) traz uma das contribuições mais relevantes sobre o mundo dos sonhos em sua relação com a comunicação: o sociólogo afirma que a informação foi invadida por uma espécie de “sonho acordado da comunicação” (BAUDRILLARD, 1981). Acredito que o ato de “sonhar acordado” está contido no mecanismo de funcionamento das reportagens em análise nesta tese. Anteriormente, abordei a natureza dos sonhos sonhados por pessoas comuns; nesta etapa, interessa confrontar o mundo dos sonhos que é construído pelos meios de comunicação, além de determinar sua relação com o imaginário.

Para definir o que seria esse “sonhar acordado da comunicação”, Baudrillard (1981) estabelece os limites entre fingimento e simulação na comunicação. Enquanto fingir ou dissimular deixa intacto o princípio de realidade, a simulação põe em causa a diferença do

“verdadeiro” e do “falso”, do “real” e do “imaginário”. Para compreender os limites do que é real e imaginário, o autor traz a noção de simulacro, como um mecanismo de reabsorção da distância entre essas duas ideias. Situações simuladas, de acordo com o sociólogo, não são uma espécie de transcendência ou projeção do real, nem constituem um imaginário relativamente ao real: são a antecipação do real. O autor enfatiza que uma grande energia é gasta para manter este simulacro, evitando assim que nos confrontássemos com o que chama de perda radical, ou implosão, do sentido. Baudrillard afirma que acontecimentos catastróficos insistentemente repetidos nas notícias, como a crise petrolífera, nunca existiram, senão como “peripécias artificiais”, artefatos de história que mantém um investimento histórico sob hipnose. É neste contexto que o autor introduz a expressão hiper-realidade da comunicação.

Sobre essa perda da produção de sentido nos meios de comunicação, o autor atesta que é inútil questionar o que vem primeiro: se a perda da comunicação induz à sobrevalorização no simulacro, ou se o simulacro é o que chega primeiro e extingue qualquer possibilidade de comunicação. Inútil, nas palavras de Baudrillard, porque este processo da simulação e do hiper-real é um circuito circular: “Hiper-realidade da comunicação e do sentido. Mais real que o real, é assim que se anula o real” (1981, p.105). Essa anulação do real, na busca por algo mais detalhado que o próprio real, redobra nos signos de uma realidade que já é impossível de encontrar. Como resultado do que Baudrillard (1981) caracteriza de encenação exacerbada da comunicação, a mídia implode o conteúdo e desestrutura o real: medium e real são uma única nebulosa indecifrável na sua verdade.

A publicidade, para Baudrillard, provoca essa desestruturação do real. O modo de operação publicitário é, nas palavras dele, o grau zero do sentido, e por isso, todas as atividades da comunicação tendem à publicidade: “Todas as formas culturais originais, todas as linguagens determinadas absorvem-se neste [na publicidade] porque não tem profundidade, é instantâneo e instantaneamente esquecido” (BAUDRILLARD, 1981, p.113). É importante frisar que o autor não está falando da linguagem publicitária, mas sim da forma publicitária enquanto um modo operacional sedutor e consensual, que destrói intensidades e acelera a inércia: “veja-se como todos os artifícios de sentido e de não sentido aí estão repetidos com lassidão, como todos os procedimentos, todos os dispositivos da linguagem da comunicação” (1981, p.119).

O modo publicitário de operar nos traz o melhor exemplo do que é esse “sonhar acordado” da comunicação. É o mecanismo de que se alimenta a sociedade dos sonhos, na

concepção do antropólogo Everardo Rocha (1995). O estudioso analisa as mensagens midiáticas através de um olhar antropológico para o consumo. Assim como Baudrillard (1981), Rocha (1995) afirma que a publicidade é uma espécie de porta de entrada para a decifração do conjunto de significados da comunicação de massa53. O antropólogo estabelece uma relação entre sociedade industrial e publicidade que também pode ser percebida em notícias e reportagens. No entanto, entende que é a publicidade quem paga a conta dessa produção que recebemos de graça ou fortemente subsidiada. A sustentação de um jornal diário seria inviável sem a publicidade, pelo menos no que diz respeito às grandes organizações midiáticas.

Neste sentido, acredito que é importante perceber o que aproxima jornalismo e publicidade. Estudar o funcionamento do discurso publicitário é compreender as bases em que se apoiam algumas argumentações usadas também nas notícias. Não é raro que a ordem social construída em um anúncio publicitário reverbere no discurso jornalístico. A legitimação do papel da família está presente em comerciais de margarina que, por sua vez, também sustenta a construção de notícias que institucionalizam o que se convenciona chamar hoje de “família tradicional”. E, se estamos falando em sonhos, é pela repetição desses discursos que se cria e se legitima o mundo da família dos sonhos. Muitas outras convenções que saem dos anúncios publicitários acabam respingando no jornalismo. A publicidade é então, para Rocha (1995), uma espécie de “cola” do sistema:

É através dela que tudo se liga com tudo, é ela que irrompe nas páginas dos jornais e revistas, nas vozes do rádio ou nas imagens das televisões de maneira inapelável, como que enfatizando o lugar de fato e de direito que dispõe por costurar todo o sistema (ROCHA, 1995, p.42).

Há muita magia na composição dessa “cola” que cimenta o “sonhar acordado da comunicação”. Os meios de comunicação de massa trabalham com maestria o lado lúdico dos fatos. O pensamento mágico, onírico, está nos “leões” dos impostos, nos “gatos” das pilhas, nos “cavalos” do anúncio do cigarro Marlboro. O lúdico cimenta crenças inicialmente opostas, como as ideias de sucesso e cigarro, de margarina e saúde infantil (ROCHA, 1995). Por detrás disso, o jogo que a comunicação de massa deseja naturalizar é o do consumo:

53Rocha (1995) trabalha muito nesta obra com as expressões indústria cultural e comunicação de massa e as percebe como sinônimos. Para o autor, ambas são uma espécie de “mercado” para os meios, os veículos de comunicação. A indústria cultural ou comunicação de massa será aquilo que eles veiculam, sempre nos limites deste “mercado”, nas palavras do antropólogo.

“Neste universo exótico da sociedade ali dentro, abrimos as ‘portas da esperança’, vamos ao ‘céu é o limite’ ou ao ‘fantástico show da vida’” (1995, p.32).

Na mídia, o consenso reina pela arte do convencimento - e não da obrigação. São essas as diferenças entre o poder da mídia e o poder do Estado, segundo Rocha (1995). Para o autor, os meios de comunicação conseguem seduzir e encantar as pessoas, diferente do discurso normativo e violento de políticos e governantes. As mensagens publicitárias e jornalísticas operam ao nível da persuasão sobre seus receptores. A mídia não obriga ninguém a nada, afinal, como afirma Rocha, quem pode persuadir não necessita mandar. O público é atraído por essa força externa que emana dos novos desejos construídos pela mídia: “Na sociedade dentro da Comunicação de Massa ninguém é obrigado a nada, embora todos possam convencer qualquer outro de alguma necessidade absoluta” (ROCHA, 1995, p.190).

O autor observa a intenção de classificar grupos sociais através dos anúncios, reforçando a ideia de pertencimento desses indivíduos. É reflexo do desejo incessante de ligar, de juntar, de incluir, e obedece à lógica de uma sociedade na qual a importância suprema se localiza na totalidade, nas relações dos homens entre si e com as coisas. Isso explica porque algumas expressões são frequentes nos anúncios: “junte-se a nós”, “estamos juntos”, “o banco que está ao seu lado”. Para Rocha, é a estratégia de uma sociedade que deseja relacionar tudo, sem deixar nenhuma ponta solta.

Maffesoli (2008) também verifica essa característica no jornalismo. O sociólogo francês observa que os jornais buscam seduzir microgrupos. As diferentes seções de um jornal querem conquistar públicos específicos. Mas não dá para atingir a todos os públicos: “Raramente a informação alcança todos ao mesmo tempo. Quase nunca ela é universal. Esse é um mito do jornalismo ocidental” (MAFFESOLI, 2008, p.23). O autor faz uma análise dos impressos brasileiros de alcance regional. Marcas fortes, como a Folha de S.Paulo, são dirigidas aos leitores paulistas; O Globo encarna o espírito carioca. Em Porto Alegre, Maffesoli aponta que Zero Hora articula o abstrato (informação global) com o substantivo (o vivido local).

A informação tem o objetivo de conectar pessoas. O que Rocha chama de “cola”, Maffesoli (2008) classifica como “cimento social”. Essa é uma das principais proposições do sociólogo francês, que afirma que comunicar e informar significa querer estar junto e fazer vibrar. Segundo o autor, as pessoas não querem só informação na mídia, mas fundamentalmente buscam ver-se, ouvir-se, participar. É a partilha cotidiana e segmentada de

emoções e de pequenos acontecimentos que interessa ao público, na visão de Maffesoli. O aspecto interativo predomina sobre o utilitário: “O público absorve, do conjunto das informações, aquilo que faz vibrar e estabelece comunidade” (MAFFESOLI, 2008, p.24).

Outro estudo que trata da partilha de emoções na comunicação é o do jornalista Artur da Távola (1993). Já vimos, anteriormente, o que Baudrillard entende por hiper-realidade e simulação. Em um artigo, que tem como premissa central a concepção da notícia enquanto espetáculo hiper-real, Távola (1993) continua essa discussão. O jornalista afirma que a informação aparenta nascer da objetividade, como se relatasse o acontecido de modo imparcial. No entanto, lembra que essa objetividade informativa é uma ilusão, pois o hiper- realismo é comandado pela subjetividade, pelas emoções. Para o autor, esse hiper-realismo da comunicação utiliza elementos do real para criar algo pretensiosamente mais verdadeiro que o real. Traz maior precisão, nitidez, força e expressão ao que está focalizado, e recria, distorce o real, sem dele se afastar. Conforme Távola, esta tarefa requer exagero e coerência:

É um método de exagerar as consequências do real baseando-se nele mesmo e em nenhuma subjetividade, a não ser a do olhar e do discurso de quem o enfocar com lentes de aumento e com alto grau de detalhamento e diferenciação. Este expediente diabólico, penetrante e disfarçado, destaca o real de si mesmo e da generalidade onde vive e se dilui, fazendo-nos supor se o real focalizado é a única ou ‘melhor’ expressão do real. É um estratagema de pungente força transfiguradora pois utiliza, além do próprio real, verossimilhança e a meia verdade, unindo-as num todo coerente, verdadeiro e ao mesmo tempo ilusório (TÁVOLA, 1993).

Somos bombardeados, segundo o autor, a todo tempo, pelo hiper-realismo nos noticiários. O modo sedutor de apresentação das informações faz com que ficção e realidade se confundam. A leitura crítica desse conteúdo perde força porque o público fica preso, hipnotizado, anestesiado. O autor define o hiper-realismo como a mentira da realidade. Não a mentira, no sentido corriqueiro da palavra, mas, antes disso, esclarece Távola (1993), um corte na realidade. Esse corte dá origem a uma realidade própria, cria uma meia-verdade: é uma nova aparência da realidade tomada pelo ângulo de ênfases selecionadas pelo comunicador (TÁVOLA, 1993).

Enquanto para Távola (1993) algumas mensagens midiáticas provocam uma confusão entre ficção e realidade, Baudrillard (1981) verifica que os limites entre realidade e imaginário ficam cada vez mais complexos de serem determinados: “O imaginário era um álibi do real, num mundo dominado pelo princípio de realidade. Hoje em dia, é o real que se torna álibi do modelo, num universo regido pelo princípio de simulação” (BAUDRILLARD,

1981, p.153). O autor afirma que o real se tornou a nossa verdadeira utopia, mas uma utopia somente possível no sonho, tal qual um objeto perdido.

Já estabeleci aqui as aproximações entre os discursos jornalístico e publicitário. Agora, Távola (1993) chama a atenção para as semelhanças entre a dramaturgia e o jornalismo. O autor diz que a notícia, espetacularizada, herdou da dramaturgia elementos como a tensão dramática, a identificação com heróis ou com vilões, a simbologia do “bem” e do “mal”, os códigos da moral vigente e de sua transgressão. Távola (1993) percebe a força desse processo, que caracteriza como diabólico. Para ele, de modo imperceptível, redatores, editores, fotógrafos, câmeras, repórteres transformam-se em dramaturgos e/ou publicitários empenhados nas ênfases dramáticas.

O tom emocional e dramático que impera nas notícias também já foi bem explorado por autores como Alsina (2009) e Charaudeau (2006). Para Alsina (2009), a informação jornalística não tem a missão somente de transmitir o saber, mas também de fazer sentir. Há uma intenção nesta tarefa, uma vez que a mídia busca um maior número de cidadãos consumidores dessa informação, sem desprender-se da tarefa de construir e de manter sua credibilidade. No entanto, Charaudeau (2006) ressalta que a utilização de recursos que buscam emocionar gera também um impasse, pois se opõe ao efeito de racionalidade que deveria direcionar a produção da informação. O autor observa que a mídia fica “condenada” a procurar emocionar seu público, mobilizando sua afetividade.

Conforme já se observou, a dramatização do conteúdo jornalístico está relacionada ao fenômeno de espetacularização do real na construção das notícias. É uma caraterística da “sociedade do espetáculo” definida por Guy Debord. Segundo o autor, a partir da modernidade, a vida das sociedades se anuncia como uma acumulação de espetáculos. A mídia é uma dessas esferas de espetacularização da vida cotidiana: informação vira entretenimento e notícia vira espetáculo (SILVA, 2003). O jornalista e sociólogo Muniz Sodré (2002) fala desse fenômeno na esfera política. Para o autor, no cenário político norte- americano, o que importa é a performance e a capacidade pessoal de gerar espetáculo publicamente. É dessa forma que as campanhas eleitorais se converteram em espetáculo público, através da força do imaginário. O estudioso destaca esse poder do imaginário na sociedade atual ao constatar que o espaço público é cada vez mais construído pelas dimensões do entretenimento ou da estética, cujos recursos provém também do imaginário social. Sodré (2002) acredita que a mídia é o cenário perfeito para tal interpretação de papéis. Há uma

tendência à substituição do discurso objetivista, racionalista, argumentativo, compatível com a imprensa clássica, pela narratividade emocionalista da midiatização (SODRÉ, 2002).

Outro autor que pontua a força do imaginário nas mensagens midiáticas é Rocha (1995). Ele identifica que se projeta, a partir da comunicação de massa, um universo de especulação simbólica que seria “a mais formidável máquina de criação do imaginário coletivo de nosso tempo” (1995, p.24). O autor ressalta ainda que esse apelo emocional presente nos símbolos de um anúncio, de uma notícia ou de um programa de televisão vem acompanhado de estilos de vida e modelos de ser no mundo.

No estudo da comunicação, Maffesoli (2008) entende que as emoções que esses conteúdos midiáticos despertam nem sempre são consideradas e estudadas pelas teorias da comunicação. O sociólogo dá pistas aos pesquisadores que se lançam à observação desse fenômeno:

o imaginário é a partilha, com outros, de um pedacinho do mundo. A imagem não passa disso: um fragmento do mundo. A informação serve, então, para fornecer elementos de organização do puzzle de imagens dispersas. Assim, as tribos de cada cultura, partilhando pequenas emoções e imagens, organizam um discurso dentro do grande mosaico mundial (MAFFESOLI, 2008, p.26).

O pesquisador que se propõe a estudar as narrativas cotidianas que despertam a emoção e reforçam imaginários deve estar atento às estratégias de comunicação que recobrem o vivido com uma ou mais camadas de imaginário (SILVA, 2010). Essas estratégias são discutidas pelo jornalista Juremir Machado da Silva (2010). O autor sugere pensarmos no imaginário enquanto um reservatório e também um motor. Reservatório porque traz elementos já realizados, do passado, agregando lembranças, imagens, sentimentos e experiências. Motor, pois impulsiona indivíduos ou grupos na realidade vivida: “é um sonho que realiza a realidade, uma força que impulsiona indivíduos ou grupos” (2003, p.12). O jornalista e historiador tem a preocupação de orientar os pesquisadores que estudam esse tema – são os “cronistas do imaginário”, categoria à qual me filio.

Uma das contribuições do autor é a noção de tecnologias do imaginário, que liga as áreas de estudo do imaginário e da mídia, e traz orientações relevantes às pesquisas, especialmente na área de jornalismo. Para Silva (2003), atualmente, na era da aceleração tecnológica, são as tecnologias que, apelando para a emoção e sedução, disseminam os imaginários, pois operam na produção de mitos, ditam visões de mundo e estilos de vida. As

tecnologias do imaginário servem ao intelecto e à inteligência, mas também funcionam na construção do onírico e do lúdico.

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