Conforme indicado, ao longo dessa dissertação, um dos objetivos centrais de nossa investigação consistiu em apreender a percepção do meio ambiente dos sujeitos envolvidos com o PSA. Assim, ao problematizar essa questão, constatamos, de imediato, entre os entrevistados a predominância de uma perspectiva ancorada nas ideias de: preservação e sustentabilidade. Noções essas que emergiram atreladas a uma concepção naturalista do meio ambiente. Questionados sobre o que compreendiam por meio ambiente, os sujeitos abordados revelaram que:
“ para mim, minha visão de meio ambiente, é assim... de preservação, ou melhor, de conservar, pois conservar é não tocar, conservar é manter, né”. (INFORMANTE 1, destaque nosso).
Eu vejo a população, entende? A população que precisa estar ali, naquele lugar, para poder sobreviver. Essa é a minha ideia, assim, de sustentabilidade. Meio ambiente é essa sustentabilidade, usar sem destruir. (INFORMANTE 3, destaque nosso).
De modo geral, no argumento construído pelos sujeitos para explicitar sua percepção, o meio ambiente foi tratado pela cifra da preservação. Ou seja, eles não expressaram diretamente o que entendiam por meio ambiente. Esse foi abordado a partir de ações concretas, as quais consistem fundamentalmente “em proteger os recursos naturais da atividade predatória do homem” (INFORMANTE 5) diante da lógica desenvolvimentista vigente na sociedade.
Ao mesmo tempo, as falas dos sujeitos entrevistados sugeriam uma associação direta entre o meio ambiente e a noção de sustentabilidade, entendida como a capacidade de usar sem destruir.
Eu e minha esposa temos o hábito de tomar o refrigerante e colocar a garrafa na bolsa. Isso é não destruir a natureza. É o que a gente pode fazer para não acabar com a natureza... O semestre passado paguei uma disciplina sobre Engenharia Ambiental o que me abriu minha mente sobre o que seria a questão do meio ambiente (INFORMANTE 1)
Curiosamente, a ideia de sustentabilidade é tematizada pelo viés da impossibilidade. Como observou o Informante 1, mesmo como um ASCASE, ele lamenta sua impossibilidade de poder mobilizar maiores ações para exercer seu papel de cidadão face às discussões ambientais.
Veja, eu me considero hoje muito neutro porque gostaria de fazer muito mais, mas o meio me impede. O que eu mais faço hoje é minha obrigação de cidadão de não poluir, de preservar o meio ambiente, e o que eu posso fazer como cidadão? Ter cuidado com o lixo, conservar a natureza, e a questão do esgoto? Não posso fazer nada, pois no lugar que moro o esgoto vai para o canal e para o rio eu me sinto impotente em relação a isso. (INFORMANTE 1).
Essa sensação de impotência, contudo, desvela um juízo crítico que vai além de uma mera constatação. Ao afirmar sua impossibilidade, os sujeitos manifestam também uma crítica ao modo como população e governos têm estruturado suas relações com o meio ambiente. Esse tipo de crítica foi muito comum entre os líderes comunitários entrevistados:
Eu vejo a questão do meio ambiente como um descaso, de um modo em geral. Eu tive a oportunidade de ser presidente da comissão do meio ambiente da câmara municipal por dois anos e, na época, eu denunciei a fábrica da Minerva, pois estava poluindo o meio ambiente... Morreu até crianças; esse rio que eu chamo de fossa aberta, fiz um arrendamento como presidente do meio ambiente e o que tem do que não presta dentro desse rio tá num “gibi”: fossa, pocilga, estábulo, vacaria, tudo que num presta tá dentro desse rio. Eu acho que a população e o poder público acabou com esse rio (INFORMANTE 8, destaque nosso)
Assim, a degradação ambiental foi apreendida como decorrente da ausência de ações específicas de preservação tanto do poder público quanto da população. Mas o que é importante destacar nessa problematização do meio ambiente, pelos atores locais do PSA, é a percepção de que preservação e sustentabilidade configuram-se como elementos vitais no entendimento das relações sociais que se estabelecem com o meio.
Mais especificamente, essa percepção aponta para o papel central que os próprios seres humanos ocupam na discussão sobre o meio ambiente. O que não quer dizer que ela não contenha suas próprias contradições. Pois, ao mesmo tempo em que aponta para o lugar do ser humano nos processos de degradação ambiental, os sujeitos ressaltam uma visão romantizada
de preservação na qual emergia, quase sempre, uma separação do homem em relação ao seu meio natural. Esse tipo de postura pode ser percebido, de modo exemplar, na fala de um dos sujeitos, para quem preservar significa fundamentalmente “conservar” e conservar, por sua vez, “é não tocar”.
Obviamente, não se trata aqui de preconizar ações e práticas que visem ao aumento do padrão de vida socioeconômico das pessoas, sem desconsiderar a importância que a preservação dos recursos naturais tem para o contínuo progresso da vida humana. Não obstante, essa compreensão do meio ambiente como algo a ser mantido intocado pelas mãos humanas indica uma análise naturalista do meio ambiente por parte dos ASACEs.
O meio ambiente é o lugar aonde a gente vive, onde nós interage (sic), é o lugar onde passamos toda vida da gente. É a água que bebemos, o alimento que comemos. É o que a gente vê no dia-a-dia: como o desmatamento... Na minha área de trabalho, por exemplo, tem uma parte que é de mata né (sic) e assim a gente (sic) tem contato com a natureza, dessa forma passo sempre pela mata e também quando a gente cuida para que o ambiente se torne melhor (INFORMANTE 4, destaque nosso).
Observa-se, assim, que a questão ambiental foi percebida como o próprio espaço natural onde realizamos nossa vida, ao executar nossas necessidades básicas - como o ato de nos alimentarmos. Nessa visão, destaca-se uma visão naturalista do meio ambiente sendo enfatizados, sobretudo, elementos de natureza física que permite compreender a ambiência a partir de fatores próprios do ambiente natural. Logo, para os sujeitos entrevistados, há uma relação diretiva entre o meio ambiente e o espaço físico.
Mesmo quando parecem apontar uma perspectiva mais holista ao afirmarem que “o meio ambiente é tudo ao nosso redor”, fornecendo como exemplos desse “tudo”, as ruas, as residências, o lixo produzido, a percepção que predomina é uma postura naturalista que concebe o meio ambiente a partir de recursos naturais e físicos, como o espaço urbano ou recursos vegetais.
Veja, o meio ambiente é tudo ao nosso redor. É a rua, as residências, é as matas (sic), os rios, é a poluição. Tudo isso para mim é o meio ambiente. Pensar no meio ambiente, é o lixo, minimizar os danos que o lixo causa, dando a instrução de educação aos moradores, é a poluição, é as ruas (sic). Tudo isso é o Meio Ambiente. Para mim o meio ambiente é algo assim: comum, instantâneo, e percebo que a cada dia as pessoas não se preocupam com o meio ambiente, como a questão do lixo, eu observo também o desmatamento das florestas (sic) (INFORMANTE 3, destaque nosso) Diferentes autores têm buscado mapear as raízes desse tipo de percepção na medida em que ela parece empobrecer as questões ambientais em função de uma noção de
preservação ambiental pautada pelo viés naturalista (MORAES, 1994: ACOT, 1990), o que tem consequências tanto políticas quanto pedagógicas.
(...) o meio ambiente é um conjunto de condições que envolvem e sustentam os seres vivos na biosfera, como um todo ou em parte desta, abrangendo elementos do clima, solo, água e dos organismos. Nesse sentido, não há uma rígida separação entre o homem e o mundo natural. (ACOT, 1990, p. 26) O fato é que, durante nossa pesquisa, observamos apenas um único sujeito que apresentou uma compreensão interacionista, ou seja, a percepção social do meio ambiente ancorada na noção de interação do homem com a natureza.
Para mim, meio ambiente não consiste apenas no espaço físico, na natureza física, mas todo espaço ocupado pelo homem e o próprio homem é um ser integrante do ambiente. Nós, aqui, por exemplo, neste quarto, estamos em um meio ambiente. Isto seria, em poucas palavras, a minha concepção de meio ambiente...(INFORMANTE 5).
Para esse sujeito, em particular, o meio ambiente só pode ser compreendido se levamos em conta o caráter relacional dessa categoria. A questão da interação faz referência, portanto, às ações, valores e hábitos que os indivíduos põem em prática para entrar em
relação com o meio ambiente. Acreditamos que essa percepção pode estar relacionado tanto
ao grau de escolaridade desse ator (curso superior completo) como também ao fato dele ser ativista da questão ambiental. Durante nossa incursão no campo podemos visitar um espaço de articulação e mobilização popular- a Associação do Alto do Capitão-, na qual esse entrevistado exerce uma liderança ativa, desenvolvendo atividades de conscientização ambiental com crianças, e participando da elaboração e execução de projetos para arborização da praça dessa comunidade.
Contudo, o que mais chamou nossa atenção, no mapeamento das percepções relativas ao meio ambiente, foi desvelada pela ideia de cuidado emergente nas falas tanto dos ASACEs quanto dos líderes comunitários.
De um modo amplo, todos os sujeitos entrevistados expressaram a compreensão de que o meio ambiente é impensável sem alguma forma concreta de cuidado. Sem essa dimensão, para eles, não haveria como sustentar qualquer forma de equilíbrio ecológico.
Percebi que todo mundo tendo um pouco de cuidado, cuidado com seu animal, com a capinação, a situação melhoraria muito... As pessoas não tomam cuidado com a garrafa “pet”... Os canais estão cheios de garrafa pet e ela não vai dissolver com facilidade e ela vai passar anos ali naquele local para poder se decompor. A população que reclama do lixo na comunidade,
que tá cheio de lixo, é a mesma população que faz: “Bu, joga o sofá no rio...” fogão velho, diversos tipos de lixo... Pelo que a gente ver por aí é uma parcela muito pequena da população que cuida e se preocupa com o meio ambiente, e não é só pessoas desenformadas não. Vemos pessoas com boa formação, estudiosas, que não dão muita atenção a essa questão do meio ambiente. Não há preocupação com o próprio filho que vai viver ali. (INFORMANTE 2, grifo nosso)
Na perspectiva dos sujeitos abordados, o cuidado se relaciona diretamente à capacidade dos indivíduos em serem cautelosos e interessados com a causa ambiental. Ou seja, o cuidado não é tomado aqui como uma simples categoria teórica, mas se materializa principalmente em gestões e ações efetivas que podem “poupar o meio ambiente do acúmulo de entulhos” (INFORMANTE 2), produzidos pelos seres humanos, por exemplo. A noção de cuidado denota a presença de uma sensibilidade dos entrevistados com a questão ambiental, evidenciada na “forma que o indivíduo tem para manter contato com o mundo em que vive a partir da relação entre os objetos e o homem” (ROCHA, 2002, p. 103). A percepção do meio ambiente e do próprio trabalho educativo do ASCASE surge, portanto, modelada pelo sentido desse cuidado.
Aqui na comunidade eu trabalho com povo e o povo trabalha com a gente. Na hora do carro do lixo passar, as pessoas deixam de colocar o lixo para ir assistir novela. Era só deixar na calçada, isso precisa melhorar. O povo precisa melhorar o cuidado com o meio ambiente, e nós precisamos trabalhar mais esse cuidado (Informante 7).
O bairro vai precisar de melhorar as galerias e os esgotos: é o saneamento básico, né? É preciso as pessoas ter cuidado com sua casa. Eu tenho um quarto cheio de sucata e cuido de limpar ele sempre. A caixa d’água quando precisa limpar, eu chamo um menino desses, dou um trocado, e fica tudo limpo. Eu não vejo as pessoas ter esse cuidado (sic) com o meio ambiente (Informante 6).
Para dimensionar a relevância que a percepção social do cuidado teve para os informantes recorremos a um trecho das falas, na qual o cuidado é significado menos como conteúdo a ser abordado e mais como uma atitude existencial a ser cultivada cotidianamente pelos sujeitos.
Nós mesmos procuramos jogar resto de comida na rua, assim, vem se criar mais pestes, barata, ratos. Nós passa (sic) por epidemias através de nós mesmos, o lixo errado, nós orientamos o povo na hora da coleta, da
separação do lixo, temos a preservação da mata aqui do lado, isso tudo é o meio ambiente, né... (INFORMANTE 4).
Essa fala demonstra uma dimensão da percepção social do meio ambiente construída pelos sujeitos com base na ideia de cuidado. Ela aponta para uma relação com o ser próprio do sujeito, ou seja, não se revela como um comportamento condicionado, mas sim como uma prática social atrelada ao campo de significado das ações mobilizadas pelos próprios sujeitos em seu cotidiano.
Eu tenho o privilégio de viver ao lado da mata atlântica, pois o clima aqui é mais agradável; aí vem a parte melhor né! Agente deveria cuidar melhor desse pedacinho. Eu tento cuidar um pouco né, cuido da praça que eu e o C. fizemos um pequeno jardim! O povo deveria dar mais valor ao que a natureza é; tudo isso se a gente não cuidar vamos sofrer um pouco mais. A construção do jardim em praça comunitária é para bem-estar da gente mesmo. (INFORMANTE 6, destaque nosso).
Isso significa que, para os sujeitos entrevistados, o cuidado com o meio ambiente não se dissocia de um cuidado com consigo mesmo e com os outros que partilham de um mesmo espaço. O cuidado configura-se como “uma atitude de preocupação, de responsabilidade e de envolvimento afetivo com o outro” (BOFF, 1999). Esse é um dado importante na medida em que os próprios gestores do PSA, em seus documentos normativos, parecem não ressaltar nem trabalhar especificamente com essa noção quando do planejamento e execução das ações de intervenção e educação.
E nesse sentido, a análise da percepção social do meio ambiente, pelos sujeitos da nossa pesquisa, aponta para uma compreensão sofisticada sobre a ambiência, indicando que noções como sustentabilidade e preservação ainda parecem estar desconectadas do mundo da vida dos atores, apesar da sua apropriação discursiva muito provavelmente associada às ações promovidas pelos Agentes. A questão é saber em que medida, incorporada pelos gestores do programa, a questão do cuidado poderia provocar mudanças mais significativas na percepção social que os sujeitos têm do meio ambiente.
Ao mesmo tempo, a percepção social do meio ambiente compreendida pela noção
naturalista do meio ambiente emerge como uma alerta para os gestores e os executores do
PSA, em virtude do próprio programa tratar a concepção de meio ambiente com maior criticidade.