A atividade jornalística participa da construção social da realidade ao determinar uma realidade publicamente relevante e aceitável. Embora exista no campo a atribuição de que o jornalismo não deve faltar com a verdade, a totalidade não será vista. Há uma espécie de compromisso entre o veículo de comunicação e o público de que os fatos noticiados são reais. O jornalista se coloca como uma testemunha dos acontecimentos mais objetiva possível; na definição de De Certeau (1994), é o “mensageiro do real”. No entanto, o conteúdo jornalístico está preso ao senso comum e configura-se para produzir certos efeitos de sentido. O conhecimento do senso comum está disponível pelas notícias.
O jornalismo determina o que é relevante. O jornalista é então o sujeito que detecta essas relevâncias do mundo cotidiano e as transforma em notícias. O estudioso português João Carlos Correia (2004), em “A Teoria da Comunicação de Alfred Schutz”, afirma que grande parte das mensagens da atualidade nos chegam através do contato com os meios de comunicação. Segundo o autor, a sociedade aceita que os debates não têm reconhecimento a não ser que a mídia lhes dê notoriedade. Essa intenção da mídia de fazer crer que a realidade que ouvimos no rádio, vemos na televisão, lemos na revista, é a realidade por excelência, também é estudada pelo sociólogo inglês Roger Silverstone (2002). O autor lembra que é por meio de representações singulares e múltiplas da mídia que são fornecidos critérios, referências para a condução da nossa vida diária. Assim também o senso comum é produzido, mantido, explorado e distorcido:
Com efeito, sua falta de singularidade fornece o material para as controvérsias e os assombros diários, quando somos forçados – em grande medida pela mídia e, cada vez mais, talvez apenas a mídia – a ver, a encarar os sensos comuns e as culturas comuns dos outros (SILVERSTONE, 2002, p.21).
Nas palavras de Silverstone (2002), a mídia tem a pretensão de verdade dos fatos. Essa é sua grande retórica: a capacidade de nos convencer de que o que representa realmente aconteceu. Os livros de cavalaria também tiveram esse poder na obra de Miguel Cervantes. Correia (2004) lembra que, no universo de Quixote, nada permanece paradoxal ou contraditório. Dentro do universo da cavalaria, as premissas mantêm a sua coerência e harmonia internas. No entanto, algumas experiências não foram totalmente convincentes, como no caso da viagem pelos céus em um cavalo de madeira. Sabemos que as sensações foram construídas, planejadas. Como acreditar que o homem pisou na Lua, tendo como referência as imagens da televisão? A resposta, para Silverstone, reside em nossa confiança nas instituições responsáveis por nos trazer a história, a crença em sistemas abstratos e técnicos - componente crucial da modernidade. Além dessa confiança, o autor explica que a mídia nos proporciona uma forma singular de representação das experiências, além de continuamente sustentar essa realidade em textos anteriores e posteriores, reafirmando a realidade alegada. É assim que a mídia afeta, toca e marca as pessoas diariamente.
Já tratei nesta tese da influência dos encantadores no trabalho de convencimento da realidade experimentada por Dom Quixote. Eles trabalhavam para que o protagonista outorgasse um sentido de realidade ao mundo da cavalaria. Quero então comparar esse trabalho ao da mídia. Silverstone (2002) diz que somos, significativamente, encantados pelas narrativas da mídia. Assim como acontece nas histórias de Cervantes, a mídia visa construir
narrativas baseadas na explicação coerente e não-contraditória. O intuito é aproximar essas histórias da experiência do sentido comum e transformar o modo de interpretação do público que acompanha as notícias.
O pesquisador espanhol Miquel Rodrigo Alsina (2009), em uma de suas obras sobre a construção da notícia, afirma que a atividade jornalística tem um papel socialmente legitimado para gerar construções da realidade publicamente relevantes; porém, ressalta que não devemos vincular o conceito de construção da realidade única e exclusivamente à prática jornalística. Para o autor, a notícia é uma representação social da realidade cotidiana, gerada institucionalmente e que se manifesta na construção de um mundo possível. Segundo Alsina (2009), a mídia torna os acontecimentos um material de possível consumo repetitivo. Dentro do sistema da mídia, o acontecimento passa por um processo de filtragem e reelaboração - portanto, é sempre algo construído. Essa passagem do acontecimento para a notícia relaciona- se com a construção da realidade proposta pelos meios de comunicação: na medida em que representa a realidade, o mundo real, a mídia também participa de sua construção.
Alsina (2009) e Silverstone (2002) concordam que a confiança e a credibilidade são essenciais nessa relação entre um veículo de comunicação e o público para o qual se destinam as notícias. A mídia tem a intenção de nos fazer acreditar que o que representa é verdade; o público deve acreditar na notícia. Há dois processos importantes neste sentido:
a primeira constatação é a alegação de estar representando o mundo real, a atitude natural. É baseada na expectativa de que o que se está representando é simples, coerente e verdadeiro. A segunda alegação é baseada na representação e na dependência do saber cultural compartilhado, um saber que pode ser específico a uma sociedade e não a outra e sujeito à mudança, mas que, apesar disso, é visto como natural de uma maneira óbvia e autoevidente por seus membros (SILVERSTONE, 2002, p.88).
Fica claro que os acontecimentos representados na mídia não são fatos naturais. Esse processo faz parte da objetivação (e o seu grau extremo, que é a reificação), bastante utilizado no campo da comunicação. Nas palavras de Correia (2004), o jornalista é, potencialmente, uma espécie de profissional da atitude natural, pois adota uma postura de interesse eminentemente prático, fé ingênua na realidade e permanência do mundo percebido. Porém, cabe sempre ressaltar que não existe nenhuma leitura da realidade que seja descontextualizada e que não esteja objetivada (ALSINA, 2009). A objetivação da realidade, para Berger e Luckmann (1985), se dá na transformação de produtos exteriorizados da atividade humana em caráter de objetividade. Esse mesmo produto não tem valor fora da sociedade, portanto, não
existe objetivamente, é construído. A objetivação atinge seu ápice na reificação. É quando, segundo Berger e Luckmann (1985), eliminam-se os rastros que chegam até o homem como autor da cena. O homem esquece sua autoria do mundo humano.
A objetivação também foi objeto de análise da Sociologia Compreensiva proposta por Maffesoli (1985). O autor caracteriza esse processo como “redução utilitarista”, uma herança do pensamento positivista: “Realidade dos Universais, Reificação, fantasma do Uno – são exemplos da atitude de espírito que pretende objetivar, colocar diante de si como objeto o fato social ou natural, a fim de assenhorar-se de sua riqueza e dominar seu funcionamento” (1985, p.61). A sociologia do conhecimento também alertou para a tendência reificadora do pensamento teórico geral (BERGER E LUCKMANN, 1985). Os pesquisadores científicos que se lançam ao estudo das notícias devem estar atentos à objetivação dos fatos imposta pelos meios de comunicação. O ideal é adotar uma postura de desfamiliarização com a realidade já objetivada e reificada, conforme sugerem diversos autores (ALSINA, 2009; SILVA, 2003). O dado-por-certo, o óbvio, o literal, o singular, deve ser questionado. A naturalização da cultura e os efeitos de sentido de objetividade no discurso jornalístico interessam ao pesquisador da comunicação.