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Os informáticos não são os únicos “novos actores” com quem os bibliotecários têm de interagir. Criam-se com os vendedores de software e hardware dependências advindas do processo de automação e dos consequentes serviços; negoceia-se com os fornecedores de informação, extremamente competitivos e competentes em termos comerciais, dispostos a vender as bases de dados, os e-books, os e-journals a qualquer instituição que os possam pagar; surgem entidades e organizações diversas que oferecem produtos e serviços informativos que concorrem directamente com as bibliotecas – são as agências de informação comerciais com quem as bibliotecas partilham o seu anterior “monopólio” de informação científica e tecnológica, são as grandes livrarias como a Amazon (a maior livraria da Internet), são os cibercafés, é a Google (que desde 2004 tem vindo a digitalizar livros, através de parcerias com autores, editores e bibliotecas de vários pontos do mundo) e o seu projecto Google

Books que “apresenta excertos dos livros como resultados de pesquisas dos

utilizadores e permite pesquisar especialmente no conteúdo dos livros (o motor de pesquisa oferecido pela Google é inovador, permitindo a execução de pesquisas com

a máxima simplicidade). Para além de excertos de livros sujeitos a direitos de autor, a Google também disponibiliza na íntegra milhares de obras que caíram no domínio público num total que ultrapassou em finais de 2008 os sete milhões de volumes” (Pereira, 2009).

3.3 Resumo

Neste capítulo, reflectimos sobre as bibliotecas de ensino superior a partir de um conjunto de tópicos que seleccionámos e que acreditamos caracterizam as bibliotecas da primeira década do século XXI.

Começámos por abordar a tensão paradigmática actual resultante da perduração do paradigma custodial (mediação custodial), a que corresponde a biblioteca tradicional, e o aparecimento do novo paradigma pós-custodial (mediação pós- custodial), a que corresponde a biblioteca digital, por facultar uma perspectiva evolutiva da Ciência da Informação e a compreensão do fenómeno info- comunicacional que caracteriza a presente “Era da Informação”.

Em seguida, detivemo-nos na mediação pós-custodial exercida, actualmente, pelos bibliotecários, por entendermos que é institucional e é, cada vez mais, também, distribuída e/ou partilhada.

Na mediação institucional, surgida com a Web 1.0, a informação é transmitida de modo unidireccional – modelo comunicacional considerado reactivo – um-todos. Enquanto que na mediação distribuída ou partilhada, surgida com a Web 2.0 (nova geração da Internet), aqueles que integram redes de conexão comunicacional operacionalizadas por meio das NTIC enviam e recebem informações - modelo considerado interactivo – todos-todos.

O fulcro da mediação distribuída e/ou partilhada é o utilizador (o info-incluído e o

born digital) que é convidado pela biblioteca a participar na criação, gestão e avaliação

de serviços, deixando de ser apenas consumidor.

Por outro lado, o especialista em ciência de computadores emerge e condiciona pelo trabalho que desenvolve ao nível das questões de software e pela exigência crescente de inclusão digital do utilizador.

Utilizadores e informáticos passam a partilhar com os bibliotecários (seleccionam conteúdos, elaboram metadados, preocupam-se com a possibilidade do utilizador não ser capaz de capturar os conteúdos que necessita, etc.) o papel de mediadores informacionais. Desenvolve-se um processo colaborativo e interactivo que confronta sistematicamente mediações interventivas, diferentes, coexistentes e complementares que podem ser institucionais, colectivas, pessoais, anónimas, etc. Esta pluralidade de mediações efectiva-se através de interacções que ocorrem durante os processos de produção/recolha, organização e promoção do acesso à informação e processa-se de forma dispersa, no ciberespaço, contribuindo para a renovação e ampliação da biblioteca digital.

A função central da biblioteca de ensino superior exerce-se ao nível da mediação de conteúdos. É facilitadora do acesso pela gestão dos conteúdos e já não exclusivamente pela gestão das colecções. O desenvolvimento das NTIC exigiu essa gestão, essencial para guiar o utilizador através do labirinto de informação disponível, principalmente a localizada na web. Os serviços de acesso permitem à biblioteca aumentar a sua eficácia, focalizando directamente nas necessidades informativas dos utilizadores. A Biblioteca 2.0 é uma mashup de serviços inovadores e tradicionais.

As ferramentas de Web 2.0 (blogs, wikis, image collections like Flickr23, mash-ups,

RSS Feeds, Web social24, etc.) permitem afirmar a presença das bibliotecas no processo de formação, aprendizagem e investigação das instituições de ensino superior (vêem os novos modelos de ensino e aprendizagem como oportunidades) através da identificação (selecção, subscrição) e/ou do desenvolvimento e disponibilização de conteúdos, serviços, recursos e sistemas acessíveis nas várias plataformas online usadas pelos utilizadores (não apenas no portal Web das bibliotecas), quando necessários e para uma quantidade cada vez maior de utilizadores. Para além da disseminação da informação, facilitam a aprendizagem e a capitalização do conhecimento dos utilizadores no uso que fazem dos sistemas disponíveis, contribuindo para que as bibliotecas e os seus púbicos comuniquem, colaborem e contribuam para edificação de comunidades online. São particularmente importantes na dinamização de projectos de literacia e no apoio ao ensino à distância (nova modalidade de ensino/aprendizagem, na qual cresce a oferta do ensino superior, principalmente pós-graduando) que visa atender à crescente procura de formação por parte de velhos e novos públicos, tendo contribuído para o aumento do número de utilizadores virtuais. Só fazendo uso das ferramentas referidas é possível responder adequadamente aos desafios de integração e convergência dos serviços disponibilizados pelas bibliotecas com as necessidades dos alunos e a acção dos docentes.

Os serviços prestados pela biblioteca tendem a ser cada vez mais personalizados, centrados no utilizador e estão em constante evolução, na procura de novos conteúdos e modos de permitir que os utilizadores procurem, encontrem, compreendam e utilizem a informação. Como os utilizadores mudam, a biblioteca muda com eles, permite que estes a mudem e também os muda.

O formato operacional das estruturas tradicionais das bibliotecas ajusta-se às novas tarefas necessárias para manter a colecção electrónica, desenvolver serviços de acesso, fazer chegar a biblioteca aos utilizadores, etc. À gestão assente na divisão funcional contrapõe-se uma estrutura mais simples, caracterizada pela desespecialização dos profissionais de informação a quem se exige maior flexibilidade e versatilidade, e a aquisição e aplicação de novas qualificações e competências adequadas aos propósitos das organizações em que se inserem, num novo contexto de ensino-aprendizagem.

A centralização também veio tornar mais flexível uma estrutura tradicionalmente rígida. Esta nova estrutura visa conseguir atender de forma mais eficaz às necessidades dos utilizadores.

A introdução da tecnologia informativa tem funcionado como motor propulsor de mudança da estrutura e cultura organizacional, trazendo novos processos de trabalho, designadamente ao nível do tratamento técnico, desenvolvimento de sistemas de informação, apoio a pesquisas, formação de utilizadores, difusão de informação, etc., levando a um acréscimo de eficiência nos serviços prestados e à rentabilização dos recursos existentes.

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O Flickr é um site da web de hospedagem e partilha de imagens fotográficas (e eventualmente de outros tipos de documentos gráficos, como desenhos e ilustrações), caracterizado também como rede social.

24 Le Web Social fait référence à une vision d'Internet considéré comme un espace de socialisation, un lieu dont une des fonctions principales est l'interaction entre les personnes, et non plus uniquement la distribution de documents. Il est considéré comme un aspect très important du Web 2.0. En particulier, il est associé à différentes systèmes sociaux tels que le réseautage social (redes sociais), les blogs ou les wikis. http://fr.wikipedia.org/wiki/Web_social

É na aplicação de tecnologias multimédia, participativas e interactivas, aos serviços e colecções bibliográficas sedeados na Web, que se faz a Biblioteca 2.0. Quer como recurso informativo, quer com recurso formativo, a Web tem para as bibliotecas uma importância vital.

A política educativa da Comunidade Europeia impõe novas formas de trabalhar aos bibliotecários, aos estudantes e aos professores.

As bibliotecas tornam-se pertinentes devido ao facto dos estudantes passarem a liderar o seu processo de aprendizagem e os bibliotecários serem chamados a formar para a literacia da informação o que tem consequências ao nível da “autonomia nas aprendizagens” e da “formação para a literacia da informação”, tópicos que, pela sua importância, desenvolvemos com mais detalhe em seguida.

O ensino baseado na autonomia/responsabilização das aprendizagens pelos próprios alunos (passa-se de ensino centrado no professor e nas salas de aula para ensino centrado no aluno, colaborativo, reforçado pelas ferramentas de Web 2.0 - o conhecimento pode ser obtido de diversas formas), implica que haja uma adaptação da parte das bibliotecas quanto à disponibilização de espaço (web e físico – e.g., gabinetes para trabalhos de grupo), horários de funcionamento alargados, equipamentos (computadores, etc.), corpo técnico em permanente actualização (desenvolvimento das suas competências, conhecimentos e capacidades a nível tecnológico - uso das ferramentas de Web 2.0 -, pedagógico, bibliográfico, das teorias e teóricos emergentes nas áreas científicas específicas de cada biblioteca, no domínio dos ambientes de elearning, etc.), serviço de referência personalizado, diferentes abordagens e conteúdos adequados (recursos) disponíveis em diferentes formatos, plataformas e canais, formação para a literacia da informação, etc.

Deste modo podem ser prosseguidos os objectivos propostos pela Declaração de Bolonha quanto às novas metodologias de trabalho discente – trabalhos individuais e de grupo, desafios inovadores e de resposta aberta, concretização de projectos, pesquisa de informação e leituras para alimentar discussões, trocas de opiniões e perspectivas sobre o modo como cada um dos alunos interpretou a informação consultada, etc.

As bibliotecas transformam-se num centro de aprendizagem cada vez mais procurado pelos estudantes25 que, ao tornarem-se responsáveis pela sua aprendizagem, alteram o seu modo de estudar e aprender tornando-se cada vez mais autónomos. O professor orienta os estudantes neste processo. É o guia que os acompanha na análise do objecto proposto, que os ajuda a formar grupos de trabalho, etc.

Os bibliotecários, tendo sempre presente as necessidades dos utilizadores, a convicção que a gestão do conhecimento e a formação são missões centrais das bibliotecas universitárias, e a necessidade da realização de abordagens multidisciplinares para que melhores resultados sejam alcançados, desenvolvem relações colaboravas com professores (particularmente importante), com Departamentos de Tecnologias de Informação (de modo a promoverem serviços especializados), com outras bibliotecas e centros de documentação e investigação nacionais e estrangeiras, etc. As ferramentas da Web 2.0 potenciam a colaboração intra e interinstitucional, permitindo conhecer iniciativas tomadas por outras bibliotecas

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As universidades nacionais e estrangeiras que já adoptaram a Declaração de Bolonha reconhecem o aumento significativo do uso das suas bibliotecas (Lage, 2009).

e desenvolver comunidades de interesse e redes de contactos profissionais potencialmente úteis.

Devido ao seu posicionamento na Universidade, os bibliotecários têm a oportunidade de contribuir de forma decisiva para os processos de formação, aprendizagem e investigação que aí têm lugar. São um componente fundamental neste novo modelo de ensino-aprendizagem promovido pelo EEES e devem trabalhar para que as suas competências, capacidades e conhecimentos sejam reconhecidos nas instituições em que trabalham, nomeadamente, pelos professores, pelos conselhos directivos, pelos presidentes das faculdades. Todos deverão assumir e afirmar o novo papel das bibliotecas.

É neste contexto que as competências ligadas à pesquisa e uso correcto da informação, que constituem actualmente um dos factores críticos para o desenvolvimento de trabalhos de investigação e para o sucesso académico, se manifestam indispensáveis. Pese embora os alunos, na sua generalidade, considerarem que dominam as ferramentas Web de pesquisa e que por isso não necessitam de desenvolver capacidades nos processos de pesquisa e localização de informação para fins académicos.

A biblioteca deve estar atenta e intervir no sentido dos utilizadores adquirirem percepção do que não sabem e não se absterem de procurar a informação que precisam. Para isso é-lhes necessário conhecer a linguagem dos utilizadores, os seus hábitos de pesquisa e as ferramentas que utilizam.

O passo seguinte é planear o desenvolvimento de acções de formação dos utilizadores da biblioteca nas competências de localização, pesquisa, obtenção, avaliação e uso de informação científica no domínio da biblioteca, numa relação directa com conteúdos disciplinares específicos. Neste sentido, a colaboração dos docentes é fundamental.

Ensinar literacia da informação é contribuir para dar à biblioteca universitária um papel mais relevante enquanto agente de suporte da qualidade do ensino. É ajudar a melhorar as competências em informação dos alunos dotando-os de conhecimentos que lhes possibilitem manterem-se actualizados ao longo da sua vida profissional e, por último, é uma boa oportunidade de conseguir uma melhor integração dos recursos informativos que a biblioteca disponibiliza nos diversos formatos, com outros que estão disponíveis noutros ambientes.

Actualmente, aqueles que procuram conhecimento possuem mais opções do que nunca. As bibliotecas que não correspondem às suas expectativas em termos de descoberta de conteúdos, facilidade de utilização, velocidade de resposta, ubiquidade, interactividade, são relegadas para um papel secundário, a favor de outras fontes de informação.

As bibliotecas de ensino superior têm que explorar, de forma eficaz, as ferramentas e sistemas disponíveis, para desta forma criarem serviços de valor acrescentado ao processo de ensino-aprendizagem.

Não restam dúvidas de que a biblioteca precisa de ser uma organização de aprendizagem. Uma organização capaz de adaptar/desenvolver mecanismos que facilitem a inovação, enquanto entidade habilitada a criar, adquirir e transferir conhecimento, modificando o seu comportamento para reflectir novas visões e conhecimentos. Os bibliotecários agem como agentes de aprendizagem para a biblioteca. Respondem a mudanças nos ambientes internos e externos,

desenvolvendo processos de mudança organizacional com o objectivo de serem atingidas a eficiência e a excelência.

Posto isto não temos dúvidas que a adaptação das bibliotecas universitárias ao novo ambiente de ensino-aprendizagem promovido pelo EEES, passa por melhorar a qualidade dos serviços prestados, melhorar a eficiência dos processos internos e promover activamente a infoliteracia.