Tendo em conta que as escolhas metodológicas contribuem para de- finir os contornos do objeto, importa agora descrever brevemente o que se observou e como, tanto offline como online.
No caso do estudo sobre o hip-hop, a observação offline incidiu sobre diferentes tipos de eventos (concertos, ensaios, encontros, etc.) e o con- tacto com vários protagonistas em diferentes ocasiões, seguindo a estraté- gia multissituada referida atrás. Esta observação foi complementada com a realização de entrevistas aprofundadas e a recolha de materiais diversos (de fotografias e gravações vídeo de performances e ensaios, a outros pro- dutos resultantes das próprias práticas, como CD ou maquetes), incluindo tanto produtos públicos (destinados à circulação comercial) como priva- dos (e de circulação interpessoal), correspondendo, em alguns casos, ao registo de práticas, eventos ou situações de outro modo inacessíveis.11 No
caso do estudo sobre ativismo e participação da juventude, pelo seu lado, a observação offline recaiu igualmente sobre uma heterogeneidade acon- tecimentos e ocasiões, de práticas «microativistas» (encontros, reuniões, debates, etc.) a «manifestações de massa» (protestos, marchas, etc.), a que se juntou a realização de entrevistas a jovens ativistas e a recolha de ma- teriais documentais. Alguns dos anteriores contextos de observação pos- suíam um carácter público (manifestações, protestos, etc.) ao passo que outros tinham um carácter privado ou semipúblico (encontros, debates, etc.), implicando por isso diferentes níveis de acessibilidade.
No caso do terreno «virtual», em ambos os estudos, determinado con- teúdo online funcionou como local para observação, através do qual pu- demos examinar diferentes formas de produção ou participação online, bem como os respetivos utilizadores, tanto através das trocas comunicativas 10Nomeadamente através da conta pessoal no Facebook criada para o projeto e de con- tas dos investigadores participantes no mesmo.
11 Embora as entrevistas tivessem sido conduzidas quase exclusivamente offline, foram igualmente realizadas entrevistas online em cada um dos projetos através de software es- pecífico, como MSN Messenger e o Skype.
como dos indícios que pudemos decifrar sobre os mesmos. Sites e outras plataformas não só se apresentaram enquanto pontos de ancoragem on- line como também enquanto nódulos da rede formada por cada con- teúdo na internet, servindo simultaneamente de contexto de observação e documento para análise. Importa notar, porém, que uma parte dos usos não deixa qualquer rasto ou vestígio e, noutros casos, tal rasto é de acesso restrito ou limitado. Em certas situações específicas, o resultado ou efeito de um certo tipo de prática é percetível (por exemplo, ataque informá- tico), mas não os seus autores (que, justamente pelo tipo de atividade que desenvolvem, atuam de forma impercetível ou não localizável).
Todavia, a principal dificuldade prática residiu na escolha dos conteú- dos a observar, definindo determinada demarcação. Como delimitar te- maticamente um site ou uma página de Facebook tendo em conta a infi- nidade de assuntos que poderão comportar? Que unidade de análise considerar para a observação, o tema tratado ou a modalidade de comu- nicação em causa (site, fórum, etc.)? Com efeito, a dificuldade em iden- tificar temas e circunscrevê-los depende tanto do âmbito assumido pelos autores dos conteúdos como das caraterísticas formais dos mesmos. Em ambos os estudos, optou-se por incidir a observação sobre conteúdos que fossem dedicados predominantemente e de forma explícita às práti- cas em causa (fosse uma das vertentes do hip-hop, fosse a atividade de participação), tendo esta análise seguido dois caminhos. Primeiro, pro- cedeu-se ao mapeamento e classificação dos conteúdos que remetessem diretamente para os temas definidos, tendo em conta tanto práticas re- centes como o vestígio das mesmas ao longo de um período. Segundo, tendo em conta a possibilidade de observar e participar diretamente em diferentes modalidades de comunicação, os conteúdos online foram pen- sados como contexto de interação que foi observado ao longo de um pe- ríodo determinado.
No estudo sobre o hip-hop, esta presença concretizou-se na observação de fóruns de discussão e salas de chat que foram escolhidas pela sua rele- vância e dinâmica própria e que permitiram ter acesso à forma como re- produz a realidade offline ao mesmo tempo em que a mesma é amplifi- cada, acrescentando-lhe atributos através da criação de um circuito próprio e alternativo (e. g., através da divulgação de maquetes, rimas, etc.).12
12Apesar de termos observado vários fóruns e salas de chat ao longo do período de um ano, a nossa análise incidiu apenas sobre duas destas plataformas: o fórum de hip-
-hop do site h2tuga.net e o #hiphop da rede portuguesa de IRC (ptnet). Ver Simões (2010,
No caso do estudo sobre participação e ativismo, para além do referido mapeamento, observaram-se algumas páginas selecionadas do Facebook. A escolha incidiu, contudo, sobre a apresentação pública de determinados coletivos ligados a diferentes formas de ativismo. Com esta opção, pro- curou-se perceber em que medida determinados eventos de protesto offline tinham sido «(re)produzidos» online, através de uma análise dos posts, co- mentários e partilhas de informação realizadas antes, durante e depois de determinados acontecimentos significativos (manifestações, marchas, etc.).13Esta análise teve igualmente uma componente diacrónica, na me-
dida em que os eventos em questão foram escolhidos num horizonte tem- poral que se estendeu entre 2011 e 2014, tirando-se assim partido da ca- pacidade de arquivo online.