Na segunda etapa da pesquisa, foram seguidas as orientações de Lefèvre e Lefèvre (2003), relativas ao processo de DSC, em que os discursos coletados dos profissionais da informação nas entrevistas foram analisados, de acordo com os seguintes passos:
1) identificados com sua letra maiúscula correspondente e com o tempo de duração da entrevista;
2) transcritos integralmente (APÊNDICE B);
3) suprimidas as especificações que pudessem identificar o entrevistado; 4) identificadas e destacadas as expressões-chave, idéias centrais/ancoragens; 5) construído o Discurso do Sujeito Coletivo.
Para a identificação dos conteúdos propostos nas falas dos entrevistados, visando à construção do DSC, Lefèvre e Lefèvre (2003, p.17, grifo do autor) propuseram as seguintes figuras metodológicas, que perpassam todos os discursos:
- expressões-chave (ECH) – é a matéria prima do DSC, “[...] são pedaços, trechos ou transcrições literais do discurso, [...] revelam a essência do depoimento [...] do conteúdo discursivo dos segmentos em que se divide o depoimento”.
- idéia central (IC) – “[...] nome ou expressão lingüística que revela e descreve [...] sintética, precisa e fidedigna [...] o sentido de cada um dos discursos analisados e de cada conjunto homogêneo de ECH”.
- ancoragem (AC) – “[...] é a manifestação lingüística explícita de uma dada teoria, ou ideologia, ou crença que o autor do discurso professa, [...] afirmação genérica [...] usada pelo enunciador para [...] uma situação específica”.
As expressões-chave são termos e frases essenciais do depoimento, que, através de sua comparação com a integralidade dos depoimentos, demonstraram a pertinência ou não com as idéias centrais e ancoragens, e vice-versa. A idéia central não é uma idéia interpretativa do depoimento, mas é uma descrição direta ou indireta, ou sobre o tema da pesquisa, que possibilita a compreensão do discurso. A ancoragem baseia-se numa interpretação das teorias que afluem na representação que a nomeou, identificando outras teorias, crenças e generalizações no discurso. Neste ponto, a pesquisadora evitou incorrer em sua própria subjetividade, à revelia do discurso, e assinalar o que ela própria acreditava ser a ancoragem.
Como instrumento de análise do discurso (IAD), utilizou-se um quadro com 5 (cinco) colunas para cada questão (APÊNDICE G - INSTRUMENTOS E TABULAÇÃO DE ANÁLISE DOS DISCURSOS). Em seguida, adicionou-se a primeira questão acima do primeiro quadro, acrescentou-se na linha título: na primeira coluna, as iniciais da expressão “profissional da informação” (PI); na segunda coluna, a palavra depoimento; na terceira coluna, “expressão-chave”; na quarta coluna, “idéia central”; e na quinta coluna, “ancoragem”. Nas linhas subseqüentes, na primeira coluna, foram acrescentadas as letras em maiúscula do alfabeto, identificando os depoimentos, que, na segunda coluna, foram adicionados na íntegra. Deu-se prosseguimento com a análise dos depoimentos, identificando- se as palavras significativas ditas pelos entrevistados, no contexto do objetivo da pesquisa, e sublinhando-as – após os destaques retiraram-se os sublinhados, para melhorar a visualização. Em passos seguintes, destacou-se as expressões-chave e as idéias centrais nos discursos de cada resposta. A ancoragem foi observada mais à frente, durante a interpretação do discurso do sujeito coletivo das expressões-chave (DSCEC).
Na coluna adjacente aos depoimentos, acrescentou-se as expressões-chave e se construiu “[...] um ou vários discursos-síntese na primeira pessoa (coletiva) do singular” (LEFÈVRE; LEFÈVRE, 2003). Apesar de se expor o discurso, como composto individualmente, transcreveu-se as expressões de uma coletividade, viabilizando o compartilhamento de uma mesma cultura entre sujeitos individuais. O DSC é a integração dos discursos coletivos em uma comunicação única do pensamento social da coletividade.
Posteriormente, das expressões-chave ressaltou-se as idéias centrais de cada entrevista que interagiram com o objetivo da pesquisa. O próximo passo foi utilizar um
indicador simbólico alfabético aleatório, em letra minúscula e negritada, identificando os temas das idéias centrais, de mesmo sentido ou complementares. Continuando, retornou-se à análise da coluna anterior, efetuando a separação das expressões-chave em segmentos que denotassem estas idéias centrais.
Nas próximas colunas, adjacentes, acrescentou-se autor/data das referências consultadas das teorias inferidas como ancoragem às manifestações, após as interpretações dos DSCEC. A formação de nível superior que os profissionais possuem, a experiência de trabalho nessa comunidade, a leitura dos autores mencionados, ou de outros que se referem ao assunto, permeiam as manifestações desses informantes, de forma que suas idéias e ações têm uma expressão social e ancoragem nas teorias da construção da realidade.
Esses procedimentos foram seguidos com as respostas, criando quadros para a segunda questão, assim como para a terceira, a quarta e a quinta questões, isto é, foi efetuado um agrupamento de todas as respostas dos sujeitos para cada questão.
Em seguida, construiu-se um novo quadro de quatro colunas (APÊNDICE H – INSTRUMENTOS DE ANÁLISE DOS DISCURSOS DAS EXPRESSÕES-CHAVE), tendo como título a sigla IADEC, acompanhada do número da questão analisada, ex.: IADEC 1. Acrescentou-se sobre o quadro a identificação (letra) do tema abordado, de acordo com a questão que retratava, por ex.:
- a questão 1 é: “O que significa competência para você?”;
- Nas expressões-chave da primeira questão, uma das idéias centrais expressadas foi: “o conhecimento da profissão”, identificada com a letra “a”;
- a denominação do tema foi: “a – Significa ter conhecimento e experiência aplicados à profissão”.
Assim foi realizado para cada tema fundamentado em uma ou num grupo de idéias centrais, reconstruindo novos quadros temáticos e os renomeando com tantos temas, quantos houvesse. Na primeira coluna destes quadros, acrescentou-se a identificação dos depoimentos; na segunda, os segmentos das expressões-chave, demarcados de acordo com as idéias centrais nelas contidas. Na terceira coluna, as idéias centrais foram identificadas pelas letras. Na quarta coluna, construiu-se o discurso do sujeito coletivo parcial (DSC), com os agrupamentos dos segmentos das expressões-chave correspondentes a cada tema (idéia central) desses discursos: inserindo-se conectores de coerência ao discurso (assim, então, etc.); desparticularizando (idade, participações em eventos, etc.); e eliminando idéias repetidas que usassem as mesmas expressões.
Após os quadros de temas, foi acrescentado um quadro com o DSCEC de todos os temas da questão, já inseridos novos conectores de coerência ao discurso, conforme a necessidade, para a construção do DSCEC daquela questão. A linha título deste quadro possui a sigla DSCEC, acompanhada do número da questão a que se refere.
Na seqüência, no APÊNDICE H, esses procedimentos também foram realizados com o grupo de todos os temas encontrados nas respostas da segunda questão, assim como da terceira, da quarta e da quinta questões, isto é, foi efetuado um agrupamento de todos os temas para cada questão.
Dessa forma, buscou-se apoio em Lefèvre e Lefèvre (2003), com a técnica do DSC para a análise do discurso, para representar a síntese dos discursos coletados. Primeiro, com a análise de todos os depoimentos relativos a cada pergunta, se construiu um discurso conjunto para cada questão – os DSCEC. Em segundo lugar, com a análise de todos os discursos conjuntos de cada pergunta, construiu-se um único discurso, que é a representação social do que os bibliotecários participantes expressaram.
A seguir, descreve-se o processo de coleta de dados que propiciou a construção do DSC.