Os retratos das mulheres concentram-se mais no rosto, com mais ênfase no olhar, raramente mostrando porção abaixo do peito. Os retratos masculinos em sua maioria também não mostram abaixo do peito, havendo, porém um bom número de exceções: mostra até o ventre em sete fotografias e em duas mostra o corpo inteiro. Nesse aspecto, convém observar a representação das mãos. Temos um único exemplo de retrato feminino em que aparecem as mãos, mas
para apoiar o queixo, destacando assim também o rosto. Porém, no caso dos homens, em algumas fotografias são mostradas as mãos. Em um caso, segu- rando o violino, em outros dois, com as mãos cruzadas. Fica aqui a pergunta se isso teria algum significado. O fato é que, nos retratos femininos, exploram-se muito mais os pormenores da posição do rosto e dos olhares. No caso mas- culino, representa-se mais o conjunto, com menor exploração de detalhes que permitam aproximar a lente da peculiaridade do olhar. Há nos homens, nesse maior distanciamento, um pouco mais de introspecção e seriedade.
Backhaus, pianista alemão, realizou sua primeira tournée pela América do Norte em 1912, fazendo a primeira gravação mundial de um concerto, com o concerto de Grieg em Lá Menor (em 1909). Foi reconhecido intérprete de
Chopin e Beethoven, sendo o primeiro a gravar os Estudos (em 1928) e o segundo a fazer uma gravação integral das sonatas para piano. (Cf. MORRISON, 2011)
A imagem 1 mostra um homem olhando para baixo, parecendo concentrado em suas próprias mãos. A grande quantidade de sombras na fotografia trans- mite uma atitude intimista, talvez de concentração ou introspecção. Ainda no padrão três quartos, mas agora em meio perfil, o artista se deixa retratar, mas não coloca seus olhos ou seu sorriso para a câmera. Ao mesmo tempo em que a roupa parece vinculá-lo ao mundo moderno, a sombra incidindo exatamente no meio do rosto e o olhar que se esconde totalmente da câmera constroem um ambiente misterioso, que faz o artista parecer retirado do tempo cotidiano. Mesmo sem o músico estar portando um instrumento musical, existe uma construção de personagem na imagem, que remete ao espírito arrebatado do artista, a algum elemento intangível, pertencente a outro tempo, a outra dimensão. Imerso em seu próprio mundo, o artista mantém elementos do cotidiano, como a roupa, que pode remeter a um padrão normal de civilidade, mas no conjunto da imagem prevalece um elemento espiritual, irreal, como algo que orbitasse em outra esfera, como se não pertencesse a este mundo.
Imagem 1 - Wilhelm Backhaus (1884-1969)
Particularidades 2 – olhar
As fotografias apresentam alguns tipos recorrentes de olhar, aquele que se dirige para o lado da própria figura, sem fixar-se em um ponto determinado, como se pensativo. O olho que olha diretamente para sua própria lateral, fixando um ponto, em atitude determinada. O olhar que se dirige para o infinito, um misto de determinado e desbravador, e ainda o olhar que se fixa diretamente na câmera. Observamos que o padrão olhar ao longe é o mais recorrente dentro da coleção, ao contrário do padrão olhar direto, que se mostra mais raro.
A imagem mostra uma mulher de perfil, com a luz incidindo diretamente sobre o alto da cabeça, destacando cabelos ondulados, displicentemente arru- mados e levemente claros. O enquadramento da imagem mostra o colo e o rosto, e uma parte da blusa, de cor escura, com um tecido possivelmente ren- dado e arrematado por um broche. A pianista esboça um leve sorriso, levan- tando ligeiramente os cantos da boca, com aparência doce e amável. Seu olhar está voltado para o alto, e parece estar no sentido direto da luz, enquanto sua expressão de altivez parece conter ao mesmo tempo uma tranquilidade e uma decisão sobre a direção a seguir. A fotografia mostra uma mulher relati- vamente jovem, com um penteado despojado e pouca maquiagem, revelando uma severidade que pode ser lida como um distanciamento dos padrões de coqueteria que acompanharam a modernidade.
Mesmo tendo notícias da importância de Maria Carreras como virtuose internacionalmente reconhecida, não foi possível encontrar informações sobre sua carreira e trajetória artística. Esparsas notícias foram encontradas em sites de gravadoras, qualificando-a como importante intérprete das primeiras gravações de música de câmara. Seu nome foi mencionado também como uma das primeiras pianistas importantes pela Baton Rouge Music Teachers Association.7O acervo não possui exemplares de programas de seus concertos, mas encontramos um anúncio de seu concerto na revista Illustração Pelotense, referindo-se a seu recente concerto na cidade de Porto Alegre e tratando-a como uma festejada artista.8
7 Cf. Baton Rouge Music Teachers Association, http://brmta.org/about.php (acessado 20 mai. 2011).
Imagem 2 - Maria Carreras (1866-1977)
Fonte: Centro de Documentação Musical do CM-UFPEL
Particularidades 3 – sorriso
Percebemos apenas dois personagens em que se permitiu a expressão de sorriso; um homem e uma mulher. No caso masculino, o sorriso se anuncia somente pela exploração facial. Já a figura feminina apresenta um sorriso fácil, descon- traído, mostrando os dentes. Trata-se de Ilse Woebcke (Imagem 3), aluna de piano de Guilherme Fontainha no Conservatório de Música de Porto Alegre.
Assim, chama-nos a atenção o retrato da musicista com um sorriso apa- rentemente espontâneo, que olha um pouco de soslaio, com suas costas atre- vidamente nuas. É um retrato que mantém a lateralidade, mas o ângulo, com as costas voltadas para a foto, destacando sua nudez do torso, um sorriso descansado mostrando os belos dentes, e um olhar provocador. Seu cabelo
curto e ondulado, fixado de forma a definir os cachos e ajustar uma onda diretamente sobre a testa, recorda as musas do cinema dos anos 1920. A seminudez da imagem, a composição do sorriso, o cabelo arrumado de acordo com o moderno estilo da época, resultam em um conjunto provocante, que se utiliza dos elementos de sedução que os artistas inevitavelmente possuem sobre o publico. Há certa ousadia nesse retrato. Fotógrafo e fotografada acor- daram em produzir uma representação desviante do padrão recorrente, que certamente quer dizer algo. Afirma a personalidade da musicista no conjunto da cena cultural de sua época com uma intencionalidade de modernidade, de ruptura. Não abandona a fórmula passional tradicional, mas a renova, fazendo uma inflexão, de modo que a fórmula se realimenta não somente numa sub- serviente obediência ao padrão, mas também no delineamento de desvios ao mesmo, carregados de uma grande força psíquica.
Imagem 3 - Ilse Woebcke
Particularidades 4 – espaço (interno ou externo)
Com uma única exceção, todos os retratos foram feitos em espaço interno. Esses espaços não se dão a definir, são vagos, afinal o que interessa é o rosto. Somente as cenas com piano permitem pensar em uma sala de concerto. Um único retrato masculino mostra o personagem vestindo sobretudo, num espaço externo, que indica a estação de inverno. O olhar incisivo e distante do pianista pode estar personificando as ideias de bravura combinada com o distancia- mento do artista romântico, condizente com o repertório por ele escolhido.
Ignaz Friedman (Imagem 4), pianista e compositor polonês, estudou compo- sição com Hugo Riemann e piano com Theodor Leschetizky, de quem foi assis- tente. Foi aluno ainda de Ferruccio Busoni e Guido Adler. Foi pianista de téc- nica formidável, a quem Horowitz considerava ainda melhor do que ele próprio. Friedman, além de interpretar as grandes obras do repertório clássico e român- tico para piano, priorizou compositores novos e desconhecidos. Foi um grande professor e publicou mais de cem obras como compositor. (Cf. EVANS, 2011)
A análise do repertório interpretado pelos pianistas da década de 1920 já foram motivo de estudo específico pelo Grupo de Pesquisa em Musicologia da UFPEL, identificando uma grande recorrência do repertório dos compositores consagrados do romantismo europeu, com destaque para as obras de grande exigência virtuosística.
Imagem 4 - Ignaz Friedman