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Modèle paternaliste : Modèle Français

PREMIERE PARTIE: ASPECTS THEORIQUES

LE MAROC EN CHIFFRE [13]

II. EVOLUTION DE LA RELATION MEDECIN PATIENT

1. Modèle paternaliste : Modèle Français

Neste capítulo, acompanharemos a nova orientação que Evandro Chagas deu a sua trajetória profissional após a morte de seu pai e do resultado do concurso para a cátedra de doenças tropicais e infecciosas da Faculdade de Medicina da Universidade do Rio de Janeiro (FMURJ), em 1935, no qual não foi aprovado. A partir de então, sua atuação profissional seria direcionada para a investigação dos problemas sanitários do interior do país, em especial da região amazônica. Suas primeiras investigações científicas nesse sentido tiveram como foco o esclarecimento da leishmaniose visceral, doença cuja epidemiologia e incidência ainda eram desconhecidas no Brasil. Suas pesquisas, realizadas a partir de estudos de campo e de laboratório, representaram uma investigação pioneira sobre esta enfermidade, e levaram Evandro Chagas a considerar que se tratava de uma “nova” doença tropical autóctone do continente americano (daí a designação de “leishmaniose visceral americana”), anunciando-a como uma “descoberta” científica. A atuação do cientista no interior do país seria marcada ainda pela criação de uma instituição científica, o Instituto de Patologia Experimental do Norte (IPEN), sediado em Belém, no Pará126. O IPEN foi fundado com o objetivo de desenvolver pesquisas e estudos acerca das principais doenças da região amazônica, visando fornecer aos órgãos estadual e federal de saúde subsídios para a formulação de ações e políticas voltadas para o combate das endemias rurais.

Nosso objetivo consiste em analisar sob que condições institucionais Evandro Chagas realizou seus estudos sobre a leishmaniose visceral americana, e que tipo de inserção e representatividade tais pesquisas encontraram no Instituto Oswaldo Cruz (IOC). Nesta fase, o cientista começou a construir para si uma trajetória profissional própria, desvinculada da atuação conjunta com seu pai. No entanto, a singularização de sua carreira seria marcada justamente pela forte associação com a imagem do pai, seja pelo próprio caminho de pesquisa que ele trilhava no campo da medicina tropical e do estudo das endemias rurais no Brasil, seja pelos esforços que empreendeu para afirmar

126 Após a morte de Evandro de Chagas, como homenagem ao seu fundador, o IPEN passou a chamar-se

105 sua identidade profissional como herdeiro, discípulo e continuador da obra de Carlos Chagas e da ‘escola de Manguinhos’. A “descoberta” de uma “nova” doença pode ser vista como uma das expressões mais visíveis desse processo, e por isso analisaremos a significação deste episódio em sua vida pessoal e em sua trajetória profissional, bem como a representação social que foi construída pelo próprio cientista. Uma observação a ser feita é que nosso trabalho não tem a intenção de fazer uma abordagem detalhada das contribuições das pesquisas de Evandro Chagas e de sua equipe para a caracterização da leishmaniose visceral americana. Este é um assunto, inclusive, que permanece como temática inexplorada pelos estudos acadêmicos na área da história das ciências biomédicas. Deste modo, nossa preocupação é analisar em que medida os estudos sobre a “nova” doença moldariam tanto a sua carreira como cientista quanto os sentidos que Evandro Chagas atribuiu ao projeto institucional do SEGE, enquanto obra de continuidade em relação aos ideais e preceitos de seu pai e da ‘escola de Manguinhos’.

Analisar o processo de criação do IPEN representa um percurso importante para compreendermos as estratégias empregadas e as redes de relações mobilizadas por Evandro Chagas para dar viabilidade aos seus próprios projetos de pesquisa. A fundação de uma instituição científica na região amazônica, voltada para o estudo e combate das doenças tropicais, era por ele considerada como uma das primeiras medidas em prol do saneamento rural, numa proposta que retomava os ideais defendidos pela geração anterior de médicos envolvidos com o movimento sanitarista, a exemplo de seu pai. Além de seus esforços pessoais para a criação do IPEN, ressaltaremos o papel central que o cientista desempenhou na orientação e conformação do perfil institucional do IPEN, bem como o investimento na formação de médicos sanitaristas na região amazônica.

2.1- Em busca de uma ‘nova’ doença: as pesquisas sobre a leishmaniose visceral no norte do país

Em 1934, Henrique Penna, médico do Serviço de Febre Amarela da Fundação Rockefeller, encontrou em cerca de 40 preparações de fígado, que serviam aos estudos sobre a febre amarela, amostras positivas de parasitos do gênero Leishmania, colhidas

106 por viscerotomia127. O achado de Penna despertou grande atenção porque era a primeira vez que se detectava, por meio de exames parasitológicos, a presença de Leishmania em órgãos humanos, o que indicava a existência de casos de leishmaniose visceral no norte e nordeste do país, regiões onde havia sido realizada a coleta do material128. Fred Soper, diretor da Divisão Internacional de Saúde da Fundação Rockefeller no Brasil, apresentou a questão a Carlos Chagas, diretor do IOC. Uma vez confirmadas as observações de Penna por Henrique Aragão, protozoologista e pesquisador do instituto, Carlos Chagas designou Evandro Chagas para verificar e esclarecer o que se apresentava como um novo problema médico. A descoberta de Penna intrigava não só pela quantidade de amostras encontradas – o que indicava uma frequência relativamente considerável de leishmaniose visceral no território brasileiro – mas, sobretudo, pelo fato de serem provenientes principalmente de crianças de zonas rurais, o que sugeria a possibilidade de se tratar de uma doença autóctone (Chagas; Cunha; Castro; Ferreira, 1937; Deane, 1986; Paraense, 2005).

Até então, a epidemiologia do calazar era praticamente desconhecida na América do Sul, embora se suspeitasse de sua ocorrência no continente, a partir do relato de alguns médicos e cientistas desde o início do século XX. O próprio Carlos Chagas, em expedição científica ao Vale do Rio Amazonas em 1912-1913, descreveu em seu relatório de pesquisa indícios de possíveis casos de calazar entre algumas crianças da região, mas as punções de baço realizadas (um dos processos utilizados para o diagnóstico do parasito) não confirmaram suas desconfianças. Na mesma época, foi diagnosticado um caso fatal de calazar em Assunção, e pela anamnese do doente

127 A viscerotomia consistia na coleta de fragmento hepático em cadáveres de indivíduos que haviam

apresentado sintomas suspeitos ou confirmados de febre amarela.

128 A leishmaniose visceral americana é uma doença causada por protozoários do gênero Leishmania. É

transmitida de animais silvestres (raposas e marsupiais) e domésticos (cães) para o homem por intermédio da picada de mosquitos denominados flebotomíneos, do gênero Lutzomyia. No Brasil, o agente etiológico da leishmaniose visceral é a Leishmania chagasi, e a principal espécie transmissora é o Lutzomyia (Lutzomyia) longipalpis. Em seu período inicial (a fase aguda) os sintomas verificados, na maior parte dos casos, são: febre, palidez (da pele e das mucosas) e aumento do volume do fígado e do baço. A leishmaniose visceral é mais frequente em crianças menores de 10 anos, em razão da relativa imaturidade imunológica que, nas áreas endêmicas, é agravada pela desnutrição. Inicialmente, a doença tinha um caráter eminentemente rural, mas nos últimos anos vem se expandido para cidades de médio e grande porte. Ainda hoje, a leishmaniose visceral apresenta grande incidência e alta letalidade, e a maior parte dos casos notificados concentram-se na região nordeste do país (Brasil, 2006). Uma outra forma de leishmaniose, conhecida como leishmaniose tegumentar, é causada por diferentes espécies de protozoários do gênero Leishmania e transmitida ao homem também por diferentes espécies de flebotomíneos do gênero Lutzomyia. Os sinais clínicos e os sintomas são variáveis devido à diversidade de parasitos, reservatórios e vetores, mas em todos os casos a doença provoca lesões na pele ou nas mucosas. O índice epidemiológico da leishmaniose tegumentar no Brasil é atualmente bastante elevado, tendo a região norte o maior registro de ocorrências (Brasil, 2007).

107 deduziu-se que a moléstia havia sido contraída no Brasil, no estado de Mato Grosso (MT), vindo o doente a falecer no Paraguai no estágio final de evolução da doença. Em 1926, Salvador Mazza, diretor da então criada Mepra, detectou dois casos de calazar infantil na província de Salta, na Argentina. O pesquisador considerou os dois casos observados como uma manifestação autóctone da leishmaniose visceral, embora não descartasse a possibilidade de uma introdução recente da enfermidade no país, importada do Mediterrâneo e/ou da Ásia, onde se manifestava de modo endêmico e epidêmico (Chagas; Cunha; Castro; Ferreira, 1937).

De modo geral, a literatura médica existente na época sobre a leishmaniose visceral encontrada na América do Sul a caracterizava como uma doença importada, identificada com o calazar indiano ou com a leishmaniose infantil do Mediterrâneo, não constituindo, portanto, uma entidade mórbida autóctone do continente americano. No Brasil, publicações de pesquisadores de Recife e da Bahia referiam-se a uma provável presença de leishmaniose visceral no nordeste, deduzida a partir da observação de síndromes clínicas associadas à doença (idem). A descoberta de Henrique Penna viria a reforçar, pela pesquisa parasitológica, tais suspeitas, atribuindo à doença um novo significado. No entanto, suas verificações foram realizadas post-mortem, e para início de qualquer estudo sobre o calazar era necessário encontrar um portador vivo. Este seria o intuito da viagem de Evandro Chagas para o nordeste do país.

A morte de Carlos Chagas, em novembro de 1934, os preparativos para o concurso de professor catedrático de doenças tropicais e infecciosas da FMURJ e a viagem para o congresso médico na Argentina, em 1935, impediram que Evandro Chagas iniciasse imediatamente a investigação, conforme determinado por seu pai em 1934. Por esses motivos, sua viagem só ocorreria no início de 1936. Durante os meses de fevereiro e março, o cientista realizou duas excursões ao nordeste, onde visitou os estados do Ceará e Sergipe, percorrendo as mesmas localidades e todos os domicílios onde havia sido recolhido o material analisado por Henrique Penna no Serviço de Viscerotomia da Fundação Rockefeller. Além de fornecer material de pesquisa (amostras de fígado) e dados epidemiológicos para investigação, a Fundação Rockefeller disponibilizou seu pessoal para colaborar nas pesquisas e automóveis para a inspeção das zonas de foco. Evandro Chagas também contou com o auxílio da Força Aérea do Exército, utilizando seus aviões para transporte.

Após percorrer algumas localidades do Ceará em busca de um caso clínico de leishmaniose visceral, o cientista encontrou, em Sergipe, o primeiro indivíduo infectado

108 e o encaminhou ao HOC, onde foi submetido a um detalhado estudo clínico. Segundo Leônidas Deane, Evandro Chagas teria “comprado” este doente (um “rapazinho”) de sua família, pagando cinquenta mil-réis para que seus pais autorizassem sua viagem ao Rio de Janeiro (Deane, 1994, p.155)129. Os resultados de suas averiguações foram publicadas sob a forma de nota prévia, intitulada “Primeira verificação em indivíduo vivo da leishmaniose visceral do Brasil” (Chagas, 1936a)130. Uma observação a ser feita, e que é bastante sinalizadora, refere-se ao fato de Evandro Chagas ter apresentado este primeiro caso de leishmaniose visceral como uma doença do Brasil, quando poderia tê-la descrito como uma enfermidade encontrada no Brasil. Isto nos leva a supor que ele suspeitava, de antemão, ser esta uma nova doença.

No relatório de viagem enviado a Antônio Cardoso Fontes, diretor do IOC, Evandro Chagas ressaltou que

“embora houvesse sido verificada a existência de leishmanias e lesões histo- patológicas do fígado semelhantes à do calazar, pelo Serviço de Febre Amarela, (Dr. Henrique Penna), e que a possibilidade da existência do calaazar no norte do Brasil fosse suspeitada pelo Dr. Pragues Fróes, da Bahia, é esta a primeira vez em que se determina a existência da doença com seu aspecto clínico característico e que se realiza o encontro de um doente portador da doença”131.

Embora tivesse verificado apenas um único caso da doença, o cientista explicava ao diretor do IOC que ouviu nos vários domicílios visitados relatos de falecimento de familiares com sintomas típicos do calazar, e acreditava que a moléstia atingia uma área mais ampla do que a referida pela Fundação Rockefeller, abrangendo numerosos estados. Estes argumentos seriam utilizados para convencer a direção do IOC a dar prosseguimento às pesquisas e a realizar um estudo sistemático da doença, a fim de esclarecer os principais aspectos etio-patogênicos e epidemiológicos do calazar que

129 A prática de pagar aos doentes para que se submetessem às pesquisas clínicas no HOC seria repetida

pelo cientista em outras circunstâncias, conforme sugere uma anotação em seu diário, no qual registrou, dentre as despesas feitas durante uma viagem ao Pará, o “dinheiro [dado] aos doentes que vão para o Rio”. Ver Diário de Evandro Chagas, 18.10.1938 (BR RJCOC EC 04.026).

130 Nesta nota prévia, o cientista informava que a mãe e a tia do enfermo (um jovem de 16 anos) haviam

falecido poucos meses após adoecerem, todos na mesma ocasião. Sua irmã foi viscerotomizada e tinha o fígado infestado de leishmanias com aspecto histológico semelhante ao descrito por Henrique Penna. Os sintomas iniciais apresentados pelo doente, e que persistiriam durante a evolução da enfermidade, eram: febre, aumento do volume do ventre e emagrecimento progressivo. Sobre este último aspecto, Evandro Chagas ressaltaria que, além do emagrecimento “considerável”, o doente tinha o “desenvolvimento físico extremamente retardado em relação à idade” (Chagas, 1936a, p.221). A nota prévia pode ser consultada em BR RJCOC EC 01.009.

131

109 grassava no Brasil132. Tal empreendimento representava a oportunidade para que Evandro Chagas realizasse um estudo pioneiro sobre uma doença que se apresentava até então desconhecida na América do Sul.

Em junho de 1936 foi formada no IOC uma Comissão para estudar a doença, a Comissão Encarregada do Estudo da Leishmaniose Visceral Americana (CEELVA), sob a coordenação de Evandro Chagas. Compunham a CEELVA, nesta fase inicial, Evandro Chagas, Aristides Marques da Cunha, Gustavo de Oliveira Castro e Leoberto Castro Ferrreira, e a ela se juntaria posteriormente o pesquisador argentino Cecílio Romaña133. As investigações epidemiológicas da CEELVA eram orientadas pelo material recebido (peças de fígado) do Serviço de Febre Amarela da Fundação Rockefeller e do Serviço de Profilaxia da Febre Amarela (SPFA), órgão do Ministério da Educação e Saúde (MES). A pedido do IOC, o SPFA passou a realizar viscerotomias sistemáticas para auxiliar os trabalhos da CEELVA, remetendo amostras de fígado que continham Leishmanias para Manguinhos134. A partir dos dados de identificação do material, em especial do registro do local de óbito, os pesquisadores da Comissão visitavam os domicílios e examinavam todos os habitantes da casa e de seu entorno, coletavam insetos domiciliares e silvestres suspeitos de serem vetores ou hospedeiros de Leishmanias, examinavam animais domésticos e estudavam a topografia do local. O material de pesquisa acumulado pela CEELVA era enviado para análise no IOC135. Também eram encaminhados ao hospital da instituição (dirigido por Evandro Chagas) alguns doentes para observação e estudos sistemáticos136.

132 Idem. Além das investigações sobre a leishmaniose visceral, o cientista também aproveitaria a

excursão para pesquisar a possível incidência da doença de Chagas no nordeste do país. Em seu relatório de viagem, Evandro Chagas informou que as zonas percorridas possuíam grande quantidade de barbeiros infectados pelo T. cruzi, além de um grande número de indivíduos que apresentavam as formas clínicas típicas da doença, como síndromes cardíacas e nervosas. Ressaltava que a tripanossomíase americana, tal como a leishmaniose visceral, assumia na região “um aspecto bastante grave”, sendo digna de atenção especial do IOC. Entretanto, nas viagens posteriores, a doença de Chagas deixou de ocupar lugar nas investigações, que passaram a focar o problema da leishmaniose visceral. A identificação de um novo foco da doença de Chagas no nordeste brasileiro foi publicada em nota prévia (Chagas, 1936b). Ver BR RJCOC EC 01.009.

133 Aristides Marques da Cunha, pesquisador do IOC, dedicou-se às pesquisas sobre o parasito; Gustavo

de Oliveira Castro e Leoberto Castro Ferreira empreenderam as investigações epidemiológicas; Cecílio Romaña realizou estudos de casos de leishmaniose visceral no Chaco Argentino e sobre as possibilidades de tratamento com o uso de um medicamento específico. Evandro Chagas participou de todas as etapas da pesquisa no Brasil (Chagas; Cunha; Castro; Ferreira, 1937).

134 O procedimento utilizado para a verificação do parasito (das Leishmanias) consistia na punção do

fígado ou do baço, sendo o último método preferencialmente adotado por apresentar os melhores resultados.

135 O material recolhido durante as viagens contribuiu significativamente para ampliar e enriquecer as

coleções científicas do instituto.

110 Evandro Chagas conseguiu articular com a Força Aérea um sistema regular de transporte, que servia tanto para a remessa de material de pesquisa como para a locomoção de pesquisadores para os trabalhos de campo. Os trabalhos da Comissão deram ensejo a uma nova frente de pesquisa no IOC. A leishmaniose visceral começou a ser pesquisada em todo seu conjunto: estudos sobre o parasito, os aspectos clínicos da doença, seus processos patogênicos, epidemiologia e terapêutica. No mês seguinte, em julho, as zonas de investigação da CEELVA – até então concentradas em alguns estados do nordeste, principalmente no Ceará – se estenderam à região norte, no Pará, de onde provinham novos registros da doença, em números relativamente significativos, sobretudo em Abaeté.

Além da colaboração dos Serviços de Febre Amarela do governo federal e da Fundação Rockefeller, Evandro Chagas também procurou estabelecer uma parceria com os serviços sanitários estaduais a fim de levantar registros de casos clínicos cujos sintomas fossem característicos da leishmaniose visceral. Com o foco de suas pesquisas em Abaeté, Evandro Chagas estreitou contato com o diretor do Serviço Sanitário do Pará, Antônio Acatauassú Nunes Filho, que também era professor catedrático de Microbiologia da Faculdade de Medicina do Pará. Dessa aproximação resultou o projeto para criar, em Belém, uma instituição de pesquisa científica, o Instituto de Patologia Regional do Norte (IPEN). Em relatório escrito ao diretor do IOC, Evandro Chagas comunicou ter sido “solicita[do] (...) a colabor[ar] na organização de um plano geral para o Instituto de Patologia Regional do Norte que o governo do estado pretende organizar” 137. Informava ainda que o plano havia sido elaborado pelo diretor de Saúde Pública do Pará e que este tinha interesse em organizar os serviços e o regulamento do novo instituto conjuntamente com IOC. Importante também era que o orçamento para os exercícios de 1936 e 1937 já havia sido aprovado pelo governador, sem nenhum tipo de ônus para o IOC. Tal como exposto no relatório, Evandro Chagas havia sido convidado a participar do projeto e assumia o papel de intermediário entre o governo do Pará e a direção do IOC.

O que o relatório não explicita é a participação ativa de Evandro na concepção e concretização do projeto. Wladimir Lobato Paraense, que viria a integrar a equipe de

Hospital Evandro Chagas – HEC) e as pesquisas clínicas ali desenvolvidas não serão contempladas em nosso trabalho. Contudo, vale assinalar que tanto o período em que o HEC foi dirigido por Evandro Chagas como a própria história da instituição ainda não receberam um estudo acadêmico sistematizado e específico.

111 pesquisadores do SEGE, relata que Evandro Chagas tentou obter, durante suas excursões, o apoio de instituições e governos locais para a montagem de uma “base de operações” mais estável, pois a natureza itinerante da CEELVA restringia o desenvolvimento das pesquisas sobre o calazar (Paraense, 2005, s.p). De acordo com Paraense, o estado mais visado era o Ceará, onde havia uma quantidade apreciável de casos da doença. No entanto, ao seguir para o Pará, Evandro Chagas conheceu, no hotel em que costumava se hospedar em Belém, uma pessoa ‘influente’ que apresentaria o seu projeto ao governador. Paraense conta que:

“Em 1936 a cidade de Belém era escala obrigatória dos hidroaviões da Panair do Brasil que faziam a linha doméstica na rota do litoral e estabeleciam conexão com os vôos para os Estados Unidos. Ainda não havia vôos noturnos e (...) para maior conforto de seus passageiros, a Panair arrendara o melhor hotel de Belém, o Grande Hotel, com excelente serviço de bar e restaurante, tendo no andar térreo um teatro, cassino, salões de festa, e principalmente um calçadão que nas noites frescas, após os dias invariavelmente quentes, era de tempos quase imemoriais o ponto de convergência de toda a sociedade. Viajasse pela Panair ou pelos aviões da Força Aérea do Exército (...) Evandro