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PREMIERE PARTIE: ASPECTS THEORIQUES

LE MAROC EN CHIFFRE [13]

II. EVOLUTION DE LA RELATION MEDECIN PATIENT

3. Le modèle de la décision partagée

Em junho de 1938, Evandro Chagas realizou uma excursão científica ao nordeste brasileiro. Na ocasião, os estados do Ceará e Rio Grande do Norte enfrentavam uma intensa epidemia de malária, cujos resultados devastadores já se faziam visíveis entre as populações atingidas. Diante da gravidade do quadro, o governo federal decidiu organizar uma campanha de erradicação do Anopheles gambiae, mosquito transmissor da doença, dando a Fred Soper, diretor da Divisão Internacional de Saúde da Fundação Rockefeller no Brasil, a direção dos trabalhos. Evandro Chagas, em função das pesquisas que o SEGE realizava no Ceará, participaria dos esforços de combate ao mosquito, em atuação conjunta com a Fundação Rockefeller. Entretanto, o cientista se afastaria da campanha antes do desfecho final da ‘batalha’ contra o Anopheles gambiae, em consequência de desavenças com Fred Soper.

Nosso propósito, neste capítulo, é analisar a participação de Evandro Chagas na campanha de erradicação do gambiae no nordeste brasileiro, evento que trouxe grande visiblidade científica e política ao projeto do SEGE. Destacaremos seu ponto de vista e suas críticas sobre as medidas e os métodos de combate empregados pela Fundação Rockefeller na exterminação do mosquito. Diferentemente de Fred Soper, que teria o mosquito transmissor como alvo da campanha, Evandro Chagas avaliaria a incidência da epidemia a partir de seus condicionantes sociais, atentando para os aspectos sócio- econômicos que interferiam no quadro geral da doença. O cientista também defenderia junto aos dirigentes da campanha a aplicação de uma teoria formulada pelo seu pai, baseada na idéia de que malária era uma doença de contágio domiciliar. Por isso, Evandro Chagas preconizaria como medida fundamental o ataque ao mosquito dentro das habitações, divergindo, neste sentido, do método utilizado preferencialmente pela Fundação Rockefeller, voltado para a destruição dos focos criadouros.

A narrativa de Evandro Chagas sobre a campanha revela, de modo exemplar, suas concepções sobre o papel da ciência no enfrentamento dos problemas sanitários do interior, e evidencia, de igual modo, os conflitos e desafios interpostos na relação entre cientistas e gestores da saúde pública na década de 1930. A campanha contra o

197 Anopheles gambiae ganharia grande repercussão e importância tanto no cenário nacinal, como exemplo do poder e da capacidade do Ministério da Educação e Saúde (MES) em debelar crises sanitárias, quanto no cenário internacional, como uma experiência que viria a comprovar a possibilidade de erradicação de espécies vetoras, perspectiva que abriria horizontes promissores para a saúde internacional.

4.1 - A viagem de Evandro Chagas ao nordeste do Brasil e a denúncia da epidemia de malária no Ceará

Em junho de 1938, Evandro Chagas realizou, em companhia de Walter Oswaldo Cruz, filho de Oswaldo Cruz e também pesquisador do IOC, uma excursão ao nordeste brasileiro, onde percorreu os estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. Sua viagem tinha dois objetivos: fazer observações e recolher material de pesquisa para o estudo da malária, leishmanioses (visceral e tegumentar), esquistossomose, bouba e filariose, e instalar no Ceará, no município de Russas, um serviço de investigação epidemiológica da leishmaniose visceral americana, sob a direção de Gladstone Deane, pesquisador do IPEN275. A incidência de algumas dessas

enfermidades na região, como a malária e a doença de Chagas, já era conhecida desde 1936, quando o cientista realizou suas primeiras excursões em busca de casos clínicos de leishmaniose visceral americana. No entanto, naquela época, a conjuntura fez com que o foco das investigações se limitasse apenas ao estudo leishmaniose visceral, no estado do Pará.

No momento da viagem de Evandro Chagas, o Ceará vivia uma intensa epidemia de malária, transmitida pelo mosquito Anopheles gambiae, uma espécie de origem africana276. A presença do mosquito no nordeste brasileiro não era recente, e já havia sido detectada em 1930, na cidade de Natal, por R. C. Shannon, entomologista do Serviço de Febre Amarela da Fundação Rockefeller. Durante três anos consecutivos, de 1930 a 1932, a capital do Rio Grande do Norte viveu surtos epidêmicos de malária,

275 Relatório de Evandro Chagas a Leocádio Chaves (secretário do IOC), em 15.03.1939 (BR RJCOC EC

04.077).

276 A chegada do Anopheles gambiae ao continente americano é atribuída à inauguração de uma linha

marítima de serviço postal entre Natal, no Rio Grande do Norte, e Dacar, capital do Senegal, em 1928. Como o primeiro foco foi encontrado próximo ao ancoradouro dos navios franceses em Natal, a suspeita é de que o mosquito tenha sido transportado durante as viagens (Soper e Wilson, 1945). Sobre a história da campanha contra o Anopheles gambiae no Brasil, ver: Soper e Wilson, 1945; Deane, 1985; Packard e Gadelha, 1995; Benchimol, 2001; Hochman, Mello e Santos, 2002; Silva, 2006; Paula, 2011.

198 sendo realizada, pelo Departamento de Saúde do Estado, uma campanha de combate ao vetor, coordenada por Genserico de Souza Pinto. A campanha não conseguiu eliminar o gambiae, que se alastrou pelo norte, seguindo o litoral. Apesar disso, nos anos seguintes, o impacto da doença sobre a saúde das populações locais parece ter sido limitado, merecendo pouca atenção das autoridades médicas locais e do Serviço de Febre Amarela da Fundação Rockefeller, que já atuava na região. Em 1938, entretanto, a malária reapareceria em grandes proporções no município de Russas, Ceará (Packard e Gadelha, 1995). Evandro Chagas sentiu, logo ao desembarcar em Fortaleza, o clima de apreensão e medo que a epidemia já despertava na capital:

“Encontramos em Fortaleza um ambiente de grande pânico em relação à epidemia de malária que está grassando em Russas e nos municípios vizinhos. O Dr. [Genserico] Souza Pinto, mandado especialmente do Rio para investigar o caso, telegrafou ao Dr. Ernani Agrícola [diretor da Divisão de Saúde Pública] declarando que existem cerca de 3 mil doentes, no momento, e que estão ocorrendo cerca de 600 óbitos mensais. Pediu para debelar o mal um crédito de cerca de 500 contos. Declara ainda no mesmo telegrama que a doença não está obedecendo ao tratamento nem tampouco ao medicamento dado com fim preventivo, tendo já adoecido dois médicos e alguns guardas sanitários do estado”277.

Dada a gravidade do problema e sua incidência na zona onde seria instalado o serviço de pesquisa sobre a leishmaniose visceral americana, Evandro Chagas decidiu fazer verificações sobre a “epidemia reinante”, capturando mosquitos nas regiões percorridas do município de Russas (zonas de Timbaúbas e Grascimões), localizado na margem do Rio Jaguaribe278. A presença do Anopheles gambiae, por si só, já era motivo para grande alarme: tratava-se de uma espécie exógena e considerada uma “terrível” transmissora da malária. Os estudos entomológicos sobre o gambiae demonstravam que o mosquito possuía alta capacidade para a propagação do impaludismo, podendo transmitir, com igual facilidade, as três espécies de parasitos da malária279. Além disso, seus ovos resistiam a condições climáticas extremamente desfavoráveis, e o mosquito se difundia muito rapidamente, sendo encontrado, via de regra, em alta concentração e densidade. Era considerada uma espécie de hábitos domiciliares, devido a sua preferência pelo sangue humano (Chagas, 1938). Durante as investigações realizadas

277 Diário de Evandro Chagas, dia 24 de junho de 1938 (BR RJCOC EC 04.026). Jaime Benchimol

informa que no vale do Jaguaribe (onde estava situado o município de Russas), só em julho, ocorreram mais de 63 mil casos, com cerca de 8 mil mortes. Em alguns municípios, a malária chegou a vitimar mais de 90% da população (Benchimol, 2001).

278 Essa região, conhecida como Baixo Jaguaribe, compreende os municípios de Limoeiros, Russas,

Morada Nova, Aracati e União.

199 em Russas, o que mais impressionou a Evandro Chagas foi justamente a extraordinária capacidade de reprodução do gambiae, o que poderia ocorrer em ‘qualquer’ poça d’água:

“Procuramos, no município, focos criadores. Encontramos larvas em grande número de coleções líquidas, mas não foi possível observar focos intradomiciliares, como é comum ocorrer na África. Todas as lagoas, todas as poças d’águas que examinamos, continham larvas que também encontramos em numerosas coleções formadas nas pegadas dos animais. (...). Chamou especialmente nossa atenção o fato de encontrarmos larvas em numerosas coleções líquidas, inteiramente expostas ao sol, o que não é, de regra, observado para outras espécies de anofelinos” (Chagas, 1938, p.1338).

Para Evandro Chagas, a epidemia de malária que ocorria na zona do Rio Jaguaribe tinha as mesmas características habituais dos surtos epidêmicos de grande intensidade: “os casos [clínicos] atuais não tem demonstrado qualquer caráter de maior gravidade”280. Para o cientista, a gravidade da epidemia estava essencialmente relacionada às condições sócio-econômicas das populações locais, que viviam em situação de miséria, mal alimentadas e sem recursos para arcar com o tratamento médico. Ainda que o mosquito fosse observado em grande abundância nas zonas epidêmicas e possuísse notável capacidade de reprodução e difusão, para ele, era o fator sócio-econômico o principal agravante da epidemia e a grande causa dos altos índices de mortalidade.

A assistência médica prestada pelo governo do Ceará também foi considerada muito deficiente, e pouco contribuía para sanar ou amenizar os efeitos da epidemia. O posto de saúde, localizado no centro da cidade de Russas, não favorecia às populações do interior, as mais afetadas pela epidemia. Tanto as dificuldades de locomoção quanto a debilidade física provocada pela enfermidade acabavam impedindo que a maior parte dos doentes tivessem acesso ao tratamento. Por sua vez, o tratamento oferecido também se mostrava ineficaz: a aplicação do medicamento (quando havia) consistia, em geral, numa única dose de atebrina, o que era insuficiente para a cura281. Assim, as recaídas

280 Diário de Evandro Chagas, dia 06 de julho de 1938 (BR RJCOC EC 04.026). Tal proposição se

confirmaria ao término da viagem: “Não encontramos, em mais de quinhentos indivíduos examinados, casos de excepcional gravidade e não nos foi dado observar forma alguma de malária com sintomas de perniciosidade” (Chagas, 1938, p.1336-1337).

281 O tratamento consistia na aplicação de injeções ou distribuição de comprimidos de quinino ou

atebrina, sendo este último medicamento preferencialmente utilizado. Alguns postos, devido ao grande número de doentes e os baixos recursos oficiais, passaram a usar o quinino (que era mais barato) em doses inferiores àquelas recomendadas para um tratamento satisfatório. Ver Diário de Evandro Chagas, dia 14 de julho de 1938 (BR RJCOC EC 04.026).

200 eram regulares, fato reforçado pela contínua exposição dos doentes a novas picadas do mosquito. Evandro Chagas descreveu o quadro da seguinte forma:

“Foi possível observar que as condições de vida da população, principalmente de fora da cidade são as mais precárias. No início da epidemia de malária usaram as economias na aquisição de medicamentos e esgotaram todas as reservas; não puderam fazer as plantações habituais do ano, de modo que ficaram em seguida sem recursos para a alimentação e sem recursos para o tratamento. Houve, por parte dos médicos locais e dos farmacêuticos abusos inomináveis. É bastante referir que um comprimido de Atebrina passou a ser vendido por mil réis e o tratamento de malária custou a determinada pessoa de recursos seis contos de reis. A assistência oficial continua a ser insuficiente, passando o posto, por vezes, dias seguidos sem qualquer medicamento. O Diretor de Saúde passou hoje pela cidade mas apenas demorou-se uns 15 minutos, para fazer uma refeição no hotel. Nenhum médico tem percorrido as zonas rurais, sem dúvida as mais flageladas. Os doentes em sua maioria não podem mandar buscar medicamentos no posto pelas condições precárias em que se encontram e quando o conseguem quase sempre encontram o posto desprevenido de medicamento”282.

O cientista observou que, embora a malária fosse endêmica na região, as circunstâncias que ocasionavam os surtos epidêmicos obedeciam a um ciclo regulado pela estação das chuvas, quando ocorria a cheia dos rios, lagoas e a formação de poças d’águas, facilitando a reprodução do Anopheles gambiae283. Com o início da epidemia e o adoecimento da população, os habitantes se viam impedidos de trabalhar na lavoura, que era sua fonte de renda. Sem recursos para comprar alimentos, ficavam ainda mais vulneráveis à doença. Há de se considerar também que a redução do número de trabalhadores na agricultura certamente acarretou a diminuição na oferta de alimentos, provocando, consequentemente, seu encarecimento284. As dificuldades econômicas comprometiam também o tratamento da doença, pois a epidemia, conforme descreveu no trecho destacado acima, deu ensejo a “abusos inomináveis” por parte de médicos e

282 Diário de Evandro Chagas, dia 02 de julho de 1938 (BR RJCOC EC 04.026).

283 A observação do caráter endêmico da malária na região ocorreu durante as excursões de 1936 e 1937.

Na ocasião, Evandro Chagas constatou que, eventualmente, surgiam surtos epidêmicos anuais após o período de chuvas (Chagas, 1938). Packard e Gadelha também afirmam que há evidências, de acordo com relatórios oficiais, de que a epidemia já grassava em Russas desde o ano anterior, 1937. A medida determinada pelo Departamento de Saúde do Estado do Ceará consistiu na distribuição de quinino (Packard e Gadelha, 1995).

284 A análise do cientista, sob os efeitos econômicos e sociais da malária sobre a saúde da população,

encontra paralelo com alguns discursos contemporâneos. O historiador Raimundo Girão, convidado a proferir uma palestra no Rotary Club de Fortaleza nesse mesmo ano, se deteve exatamente nesse argumento de Evandro Chagas. Em sua apresentação, o historiador ressaltava que a região jaguaribana era produtora de gêneros alimentícios que garantiam a subsistência da população camponesa durante os meses de verão. A chegada da epidemia e o adoecimento de grande parte dos moradores teriam prejudicado o trabalho agrícola familiar na região (Silva, 2006).