IV: Situation de menace puis d’échec / perte :
IV.2.3 MESURES EXTERNES
Mas, além dos aspectos puramente funcionais, o design do livro pode se ocupar de objetivos motivacionais, criando formas para interessar e prender a atenção do leitor a partir da emoção e a referência ao universo do leitor. Isso se expressaria não só no interior do livro, mas em sua capa, e na relação desta com o interior, como porta de entrada que é para ele. No livro como mercadoria, esses objetivos motivacionais se expressam na capa, antes da experiência com a leitura, por meio do design. Mas para realizar o trabalho de induzir à venda, o design precisa representar e construir sentidos que envolvem os significados expressos no conteúdo textual e na sua relação com a cultura escrita e visual bem como com o mundo interior do leitor. Com isso, capas são também objetos da cultura. (MORAES, 2010, p.49)
Como porta de entrada para os livros didáticos, as capas elaboradas por diagramadores e ilustradores – por vezes organizados em empresas de design –, apresentam importantes indícios para problematizar quais aspectos, no caso dos livros de Minas Gerais, são eleitos como objetivos motivacionais que, além de ser uma referência ao universo do leitor ainda atenda aos objetivos de venda. Elementos que, dispostos em um jogo de escalas, oferecem indícios para pensarmos as representações culturalmente alicerçadas sobre o que deve ser abordado em um livro de História de Minas Gerais. E especialmente sobre quais composições
99 visuais são capazes de diferenciar a partir da capa, os livros de Minas Gerais entre si e em comparação aos demais livros regionais.
A partir dessa compreensão analisamos os elementos que compõe as capas dos três livros aqui analisados: História de Minas Gerais, Contos e Encantos Mineiros, Minas Gerais – História, aos quais nos referiremos também a partir das siglas HMG, CEM e MGH, respectivamente.
Em todas as capas – que podem ser observadas na página seguinte, as finalidades do livro mercadoria estão registradas, informando aos leitores potenciais que se trata de um livro de História Regional, Volume Único, que pode ser utilizado para o 4º. ou 5º. ano. Como se trata de livros de divulgação das editoras, essa informação também recebe considerável destaque, à qual ainda é agregado o código da coleção, facilitando assim o preenchimento da ficha de escolha por parte dos professores. O nome das editoras, dos autores e a qualidade Manual do Professor também estão registrados nas capas.
Com relação aos livros das Figuras 1 e 3, seus títulos estampados em destaque na capa indicam o recorte estadual como foco da obra – Minas Gerais. Já na imagem 2, o título deixa esse recorte subentendido, ao optar pelos adjetivos Mineiros, na composição do título, que tem um traço mais poético.
Pensando os elementos eleitos para se estabelecer essa relação entre o universo íntimo do leitor e o conteúdo do livro, merece destaque o fato de que todos os livros trazem em suas capas imagens que fazem referência ao estilo conhecido como barroco mineiro, gênero arquitetônico vinculado ao período aurífero do século XVIII, indicando o diálogo com uma temática que, tradicional e culturalmente ocupa lugar central na narrativa histórica sobre Minas Gerais.
100
101 Na Figura 1, a metade superior da capa do livro História de Minas Gerais reproduz a imagem da Igreja Matriz de Santo Antônio em Tiradentes, construída em estilo barroco característico do século XVIII e na metade inferior traz uma janela com destaque para o retábulo entalhado em madeira, fazendo referência também ao período colonial. As imagens são divididas pelo titulo do livro, História de Minas Gerais, centralizado em primeiro plano. Interessante que o
artigo ―de‖ está sobreposto entre as duas palavras, indicando um jogo de escalas em que a
História abordada não está vinculada necessariamente e/ou apenas a Minas Gerais. Não constam nos créditos as referências das imagens, sendo a capa elaborada pela Commcepta Design.
Já na Figura 2, referente ao livro Contos e Encantos Mineiros, vemos a Igreja de Bom Jesus do Matosinhos, localizada em Congonhas e conhecida pelos profetas esculpidos por Aleijadinho38 em tamanho real, que também remete ao período colonial em Minas Gerais. Não há referência no livro sobre os créditos da imagem reproduzida, sendo que a capa foi de responsabilidade da Trust editorial. Na parte superior da capa, sem encobrir a imagem, lemos o títulos Contos e Encantos Mineiros, impresso em perspectiva, destacando cada palavra em cores distintas. A opção pela palavra Mineiros, ao invés de Minas Gerais, é também indício de escalas, sugerindo um ajuste não sobre o estado, mas sobre sua cultura – indício reforçado pelas outras palavras que compõem o título – contos e encantos.
Por último, o livro Minas Gerais – História tem no primeiro plano de sua capa na parte superior esquerda, um anjo barroco que ilumina o título da obra, o nome do estado, impresso com destaque a partir do canto superior direito. Conforme referências que constam nos créditos, este é o Anjo Esvoaçante, uma das peças pertencentes ao Museu da Inconfidência em Ouro Preto. Essas duas imagens em um fundo lilás compõe 2/3 da capa. O terço inferior comporta todas as demais informações acima especificadas e ainda um mapa do Brasil com destaque para o estado de Minas Gerais tendo ao lado a sua bandeira. Em escalas distintas recorta-se o estado: no título, impresso com destaque; no mapa, destacado do contexto brasileiro; e na imagem, vinculando este regional a um período histórico e uma determinada manifestação cultural.
A capa de todos os três livros elegem elementos do passado colonial de Minas Gerais, ou mineiro, particularmente importante tanto em escala regional quanto nacional. Importante em
38 Aleijadinho foi o apelido pelo qual ficou conhecido Antônio Francisco de Lisboa, um dos principais nomes do
102 termos econômicos – tendo em vista a extração aurífera que marca o período; políticos – por gestar a Inconfidência Mineira que a posteriori será apropriada pelo discurso de legitimação mineira no contexto republicano; e culturais – pois todas as peças são exemplares do barroco mineiro, gênero arquitetônico que se tornou referência do século XVIII nas Minas Gerais dialogando particularmente com questões da religiosidade mineira.
Essas capas são a porta de entrada para a leitura e utilização das obras, oferecendo informações que, dentro de suas limitações, foram eleitas como convite para se estudar da história sobre a região de Minas Gerais. No entanto, como destaca Didier Moraes,
[...] a tarefa de impor à capa a obrigação de transmitir um sentido ―primordial‖ que sintetizaria o alcance da obra como estratégia de convencimento está em princípio destinada ao fracasso.
Como todos os sentidos veiculados por uma obra só são acessíveis a quem efetivamente lê-la, a capa pode se reservar um papel mais modesto e ao mesmo tempo mais difícil, o de ser um índice mais ou menos imaginativo e livre do que o leitor vai encontrar no interior do livro. (MORAES, 2010, p. 51- 52)
No caso dos livros didáticos a capa é de fato um índice à disposição de seus leitores, mas sua tarefa é compartilhada por outros elementos gráficos e composições visuais e textuais, no desafio primeiro de convencimento ou sedução do público-docente para adotá-lo como mediador do saber escolar. Outro desses índices é a apresentação do livro que, direcionada a alunos e professores, é um convite a que se conheça a história ali elaborada, sendo por isso o próximo elemento que analisamos.
Por certo, entendemos que a leitura, manuseio e utilização dos livros didáticos não seguem exatamente a ordem expressa de suas páginas. Não estamos sugerindo que a leitura e o uso pedagógico da obra se realizam de maneira sequencial ou encadeada. A sequência dessa análise é sustentada, contudo, pelo suposto de que há apostas, por parte das Editoras, de quais são os elementos mais visíveis, mais facilmente disponíveis aos docentes (num primeiro plano, os que escolhem as obras no processo do PNLD), e que se oferecem com maior rapidez e poder de atratividade àqueles que obtiverem um primeiro contato com a obra. Assim, supõe- se diferentes destinatários também para o livro didático, sendo, no atual contexto, os avaliadores do PNLD e os docentes os destinatários prioritários no âmbito do processo avaliativo. Os estudantes são destinatários centrais das obras sob crivo dos dois primeiros sujeitos envolvidos. Assim, o que se considera na análise aqui empreendida leva em conta
103 esse cruzamento de destinação das obras, mas tem por foco prioritariamente os docentes, que são aqueles que elegem as obras num processo posterior à avaliação e para os quais são elaboradas algumas estratégias particulares de convite à leitura e à escolha da obra didática regional.