D ’ ADMINISTRATION , DE DIRECTION ET DE SURVEILLANCE
A. Membres du Directoire
Toda ação de pesquisa, se não todo tipo de trabalho inserido dentro de um sistema social possui implicâncias políticas diretas ou indiretas, ciente ou inconscientemente. Todo acadêmico tem as ferramentas para ser um ator sócio- político com grandes responsabilidades (mesmo as assuma diretamente ou não) ao qual cabe-lhe se perguntar sobre que tipo de pesquisa está realizando, como funcionam as plataformas de produção de conhecimento, e quem fará uso desses conhecimentos.
É por tais razões que achamos necessário esclarecer neste apartado, além das questões mais imediatamente instrumentais da metodologia de pesquisa do trabalho que vão conduzir o mesmo na procura das suas respostas, reflexões relativas à posição política da mesma e do pesquisador.
A forma de conduzir a pesquisa, portanto, encontra-se influenciada e alinhada com as ideias da pesquisa participativa / pesquisa-ação.
Se bem reconhecemos as controvérsias associada a tais termo, cabe a nós aclarar o mesmo e por que achamos pertinente trabalhar nesta linha. Não se trata de um desejo de fornecer um tom dramático ou sensacionalista à nossa ação de pesquisa, mas sim de rever posturas e perspectivas históricas e comumente adotadas pelos investigadores que, de ser adotadas aqui iriam diretamente ao encontro da filosofia, do leitmotiv do presente trabalho.
Fonseca(2002) encontra os origens da pesquisa participativa no trabalho de Branislaw Malinowski, e seu estudo das comunidades ab-origem das ilhas Trobriand, no qual ele renunciou às suas costumes e hábitos ocidentais para adotar aqueles da comunidade, se tornando um mais daquelas pessoas que constituíam, inicialmente, o objeto de estudo. Só tendo passado anos inteiros dentro da comunidade, e tendo compreendido seu acionar, foi que ele dedicou-se a redação da sua obra.
Enquanto à pesquisa- ação, a mesma corresponde a uma forma mais radical de levar adiante a investigação. O ato de pesquisa é considerado como um momento pontual com valor não por sim mesmo, mas sim como parte ativa e fundamental de um processo em andamento e muito maior que visa realizar mudanças sociais a partir desta participação conjunta e ativa na resolução dos problemas detectados. Os conhecimentos do pesquisador são considerados subtrativos do aprendizado, por tanto aptos de ser empregados, desenvolvidos e modificados na procura dessas mudanças(Fonseca, idem).
Carlos Rodrigues Brandão e Maristela Correa Borges (2007) que dedicaram grandes esforços da sua vida profissional ao estudo destas metodologias de pesquisa (não fazem, por exemplo, substanciais diferenças no uso dos termos pesquisa participativa e pesquisa ação) definem as mesmas desde vários pontos, alguns dos mais relevantes, citaremos a continuação (Brandão, Borges. 2007 p.5):
"O ponto de origem da pesquisa participante deve estar situado em uma perspectiva da realidade social, tomada como uma totalidade em sua estrutura e em sua dinâmica. Mesmo que a ação de pesquisa e as ações sociais associadas a ela sejam bem locais e bem parciais, incidindo sobre apenas um aspecto de toda uma vida social, nunca se deve perder de vista as integrações e interações que compõem o todo das estruturas e das dinâmicas desta mesma vida social."(Brandão,Borges.2007:05)
Este ponto refere-se à importância da relação local-global / particular-geral. Tal relação pretende lembrar ao pesquisador (principalmente ao pesquisador, mas atinge a todos os atores envolvidos) da importância do seu trabalho (que corresponde ao local, ao particular) enquanto potencial motor de mudança com a capacidade de operar câmbios a nível da realidade social (que corresponde ao global-particular).
Desprende-se disto, que se evitaria assim o isolamento do pesquisador na academia enquanto um ator alheio a tal realidade observada, obrigando-o a aceitar, lidar e obrar como um integrante mais da mesma.
Esta aproximação com a realidade proposta nos leva ao segundo ponto, descrito da seguinte forma (Brandão, Borges. 2007:5):
"A relação tradicional de sujeito-objeto, entre investigador- educador e os grupos populares deve ser progressivamente convertida em uma relação do tipo sujeito-sujeito, a partir do suposto de que todas as pessoas e todas as culturas são fontes originais de saber. É através do exercício de uma pesquisa e da interação entre os diferentes conhecimentos que uma forma partilhável de compreensão da realidade social pode ser construída. O conhecimento científico e o popular articulam-se criticamente em um terceiro conhecimento novo e transformador. (Brandão, Borges. 2007:5)"
Expressado assim, se propõe uma relação completamente diferente à historicamente aceitada, onde o pesquisador enquanto possuidor de um saber erudito, absoluto e inquestionável convertia-se em embaixador da academia e da civilização, e mesmo imerso no trabalho de campo colocava uma distância de status entre a própria pessoa e o "objeto" estudado. Notemos, acertadamente, que a mesmíssima eleição dos termos para designar a relação ajuda a reforçar essa ideia de assimetria.
O sujeito-pesquisador como aquele dotado da ciência, dotado de sentidos, poder interpretativo e capacidade de ação, a componente "ativa" da relação. O objeto pesquisado, aparece inanimado, passivo e incapaz de realizar nenhuma mudança por sim mesmo além da sua atividade performativa que a ser analisada.
Esta visão, além de estreita e soberbia, não tira o maior proveito da interação, considerando o saber acadêmico como estanco, fechado, certeiro, e, portanto, inapto de ser influenciado e potencializado pelo diálogo com outros saberes. Tal perspectiva, que se bem consideramos essencial para todo tipo e campo de pesquisa, cobra especial valor no presente trabalho, no qual se pretende uma comunhão, um trabalho de construção conjunta artesão-designer (ou o que é dizer, mais simplesmente, um trabalho entre designers acadêmicos e não acadêmicos). É pela mesma consideração de que o fazer dos artesãos possui relevância em vários planos, e que pode ajudar particularmente ao design, que se justifica a existência desta pesquisa, portanto, esta visão simétrica aparece não só desejável, se não a única alternativa de aproximação ao trabalho possível.
O último ponto, que deriva logicamente dos anteriores, defende a prática empírica. Não como prática supridora da reflexão teórica, mas como momento chave da pesquisa-ação, se a mesma quer chamar-se justamente de tal e alcançar os objetivos de profunda mudança social (Brandão, Borges. 2007:5):
"Deve-se partir sempre da busca de unidade entre a teoria e a prática, e construir e re-construir a teoria a partir de uma seqüência de práticas refletidas criticamente.
A pesquisa participante deve ser pensada como um momento dinâmico de um processo de ação social
comunitária. Ela se insere no fluxo desta ação e deve ser exercida como algo integrado e, também,dinâmico(Brandão, Borges. 2007:5)."
Dito assim, a problematização, a prática empírica - ação, o analise, a reflexão, todo aparece formando parte de um todo dinâmico. Não há momentos isolados, e de tal forma promove a aproximação e o envolvimento do pesquisador com a sociedade. Não poderia ser de outra forma, já que não se concebe como uma ação participativa poderia ser realizada em solidão.