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MASTER AND SLAVE INTERFACES

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4.4 MASTER AND SLAVE INTERFACES

No universo abrangido pelo co-questionário, detetou-se que vinte porcento dos agregados inquiridos evidencia dificuldades económicas, dos quais seis recebem apoio alimentar e dois que, apesar de disporem de menos de um euro diário por pessoa para alimentação, não beneficiam desse mesmo apoio. Mais de metade dos agregados (67%) governa-se com uma média diária entre um e três euros por pessoa para comer. As restantes famílias dispõem entre três e cinco euros, e uma com perto de sete euros.

Para a maioria dos agregados familiares, o orçamento aparenta ser pouco

condicionador dos padrões alimentares, uma vez que, perante um cenário hipotético de aumento do orçamento, as previsões variam entre: (i) “fazer pequeno almoço à rico”, “comprar leitão”, “comer fora” e “comprar alimentos de marca, mais caros e/ou

melhores” (o que revela que o dinheiro extra seria investido na satisfação de desejos, que não estão diretamente associados à melhoria dos hábitos alimentares); (ii) não antecipam mudanças na alimentação mediante uma subida de orçamento; (iii) aumentar a quantidade e a qualidade, incluindo não depender tanto de promoções (razões não exploradas); (iv) mantimento das estratégias de poupança, remetendo para o consumo de produtos de marca branca, constitui uma resposta plausível (ainda que não confirmada) para os agregados com maiores dificuldades monetárias.

Outro critério que também divide opiniões e que influencia a rotina alimentar dos agregados relaciona-se com a prioridade atribuída às despesas com a alimentação face a outras despesas, como renda, água e luz. Esta divergência levanta a dúvida se a alimentação seria a despesa favorecida pelo aumento de orçamento, caso esta opção fosse disponibilizada.

A alimentação só parece ser encarada com seriedade quando há fome. Não passar fome, comparar uma refeição completa com uma tablete de chocolate em função do preço e equipará-las em termos energéticos, e estabelecer uma proporção direta entre saciedade e condimentação alimentar, são apenas três exemplos que demonstram que a sensibilização nutricional e a motivação para a mudança alimentar não parecem estar na lista de prioridades da maioria dos habitantes do Lagarteiro.

Além dos casos em que as famílias experienciam situações de privação aguda, a parentalidade, a obesidade e algumas condições de saúde aparentam ser as únicas circunstâncias em que os hábitos alimentares se podem converter em foco de atenção

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por parte da população. Mães e pais que evidenciam preocupação ou projetam expectativas de uma alimentação melhor para os filhos, mas excluindo-se dessa aspiração. Persiste a ideia de que ser magro indica saúde e carta branca para comer o que se quiser. Muitos dos erros alimentares registados estão na origem e

agravamento dos problemas de saúde mais frequentes no Lagarteiro, i.e. hipertensão, diabetes e problemas dentários, mas as soluções da medicina moderna parecem constituir uma solução mais exequível (do que a prevenção) face a uma eventualidade futura.

À parte dos projetos que dão o apoio alimentar referido, a escolha dos locais habituais de compra de alimentos é uma decisão estratégica ponderada em função das

distâncias, das despesas e da variedade de oferta. Alguns habitantes confessaram andar a pé 6 km, para ir e voltar de estabelecimentos comerciais que apresentam mais escolha e preços mais baixos face ao comércio local. Dispensam os transportes públicos, porque evitam gastar em senhas de transporte o dinheiro que poupam nas compras.Nestes casos, ir às compras é uma tarefa que acaba consumindo grande parte do dia e/ou da semana e representa um esforço físico que muitas pessoas não são capazes de enfrentar ou suportar.A escassa rede de transportes é extremamente importante para muitos dos habitantes que articulam as suas rotinas de gestão familiar em função da rede de transportes, como se verifica com a sobreposição de muitos dos locais habituais de compras (distantes do bairro) com o percurso da linha 400 (STCP), o autocarro que liga o Lagarteiro aos Aliados (Figura 39).

Figura 39. Mapeamento dos locais habituais de compra e aquisição de alimentos dos agregados dos inquiridos (pontos vermelhos) e trajetos dos transportes públicos: 400 Aliados – Azevedo (STCP, linha verde), 106 Freixo – Leça (Resende, linha azul) e 401 Bolhão - S. Roque (STCP, na proximidade do bairro, linha amarela).

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No que respeita à influência da localização do bairro na alimentação da população do Lagarteiro, as opiniões parecem divergir. Na discussão em que se abordou este assunto, quem reconhece a acessibilidade a uma maior diversidade e preços de produtos no comércio afastado do bairro, foi quem expressou maiores

constrangimentos orçamentais, o que justifica evitar o gasto em bilhetes de transporte optando pelos percursos a pé. No entanto, quem diz não concordar com esta opinião, apenas realçou que “o problema é mesmo a falta de dinheiro”, o que não sugere ser uma divergência de motivo, mas de atitude face às dificuldades.

Os menus da Tabela 5 (página 127) são representativos das falhas alimentares referenciadas pela população, isto é, a tendência para saltar refeições (quem fica em casa) e/ou a fazer as refeições mais tardias (como não tomar o pequeno almoço nem o lanche da manhã), o exagero no consumo de açúcar, carne e fritos, e a carência no consumo de legumes, fruta e peixe.

Parte das mudanças desejadas na alimentação familiar mais apontadas corresponde a aspetos que os inquiridos associam ao conceito de alimentação equilibrada: variar, maior consumo de legumes, maior e melhor consumo de peixe, maior consumo de fruta, consumo de sopa e comer várias vezes ao dia. Aferiu-se que o aumento no consumo de água, apesar de não constar nos critérios mencionados para uma alimentação equilibrada, foi indicado por constituir uma alternativa mais saudável que os sumos.

Perante uma lista de respostas de escolha múltipla, os inquiridos foram unânimes a apontar três desejos de mudança alimentar: aprender/descobrir/variar, reduzir o consumo de gorduras e fritos, e reduzir o consumo de açúcares. A escassez ou ausência de sopa e frescos nas rotinas alimentares, nomeadamente fruta e peixe, parecem estar mais associadas às preferências do que a implicações orçamentais, justificando que estas práticas não estejam entre os desejos mais populares de mudança.

Concluindo um diagnóstico

Para a maioria dos agregados inquiridos o que parece constituir um obstáculo às mudanças alimentares está mais associado à falta de visões alternativas do que à falta de orçamento. Esta falta de opções parece estar associada à falta de literacia

alimentar e ao rol de desafios que a vida vem impondo à população, que relega a alimentação a uma prioridade muito baixa, partindo do princípio que não se passe fome. Além de desconhecerem muitos dos erros que cometem em termos alimentares e da ingenuidade com que alguns encaram as estratégias de publicidade, as

consequências em termos de saúde também não são imediatas e, por isso, não exprime urgência.

A abundância alimentar parece funcionar como duplo corruptor de uma alimentação equilibrada em contextos de crise. Por um lado, comer é uma necessidade

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fonte de prazer relativamente acessível e quase imediata, independentemente das consequências.

A insegurança alimentar no Lagarteiro reitera e exacerba o impacto das circunstâncias de desigualdade em Portugal. Se se verificam falhas na literacia alimentar, é porque estas também existem na literacia em geral. Se não se prioriza a despesa com a alimentação no seio familiar, é porque as dificuldades de sobrevivência não se confinam a apenas essa. Se não se atua na prevenção de doenças causadas por maus hábitos alimentares, é porque muitas destas famílias se conformaram em viver o hoje e não pensar a médio e muito menos a longo prazo (talvez nesta perspetiva se compreenda melhor a ingestão orçamental de muitos dos agregados familiares, que iniciam o mês com desmesura).

Refletindo sobre os factos apurados das realidades alimentares destas famílias, é possível identificar um gradiente de atitudes.

• A inconsciente, isto é, a que não pensa nos hábitos e/ou possíveis impactos da alimentação da família.

• A relutante, comprometida sobretudo com a falta de motivação e/ou gosto por cozinhar.

• A reprimida, pela falta de recursos para comer e/ou cozinhar.

• A inconformada com os aspetos rotineiros das refeições familiares e a dificuldade na satisfação dos gostos de todos.

• A crítica, a que é capaz de pensar em alternativas e

• A proativa, que reflete, decide e faz o que pode com o que tem.

Esta conclusão evidencia que não é só a partir dos problemas e suas origens que uma intervenção deve ser pensada, mas também dos seus recursos, de onde se realçam as desviâncias positivas que subsistem neste contexto moldado por décadas de marginalização e pela crise.

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