GRAPHICS PROCESSOR OVERVIEW
2.9 CHARACTER COMMAND
A Arena das Necessidades (AN) surgiu duma tentativa de configurar graficamente uma estratégia que facilitasse a confrontação de diferentes perspetivas sobre um contexto ou tema. O conceito desenvolvido representa uma espécie de exercício de triangulação, onde é possível combinar mais do que três conjuntos de dados
resultantes das diferentes tipologias (Gray, 2013) e dimensões (e.g. de métodos, de investigadores, de fontes, de períodos de tempo). A AN é uma matriz sobre a qual se estrutura um exercício de categorização, baseado nas cinco categorias de
necessidades definidas por Maslow (1943), inscritas em torno de um círculo (substituindo a habitual disposição em pirâmide). Dividido em cinco partes iguais, correspondendo a cada uma das categorias, este círculo é fracionado em círculos concêntricos, em número suficiente para que cada nível (a, b, c,… na Figura 13) corresponda a uma fonte ou perspetiva diferente.
55 Figura 13. Matriz da Arena das Necessidades
A primeira aplicação desta matriz (Figura 14) foi ensaiada a partir da organização das informações obtidas no exercício “Para ser feliz eu precisava de…” (que serviu de teste à ferramenta BOSa):
a. O primeiro nível (papéis turquesa), corresponde ao enquadramento na Teoria de Empoderamento (Lee, 2013) no qual são referidos os fatores associados a situações de desempoderamento.
b. O segundo nível (papéis laranja), representa uma caracterização de um projeto de intervenção local.
c. O terceiro nível (papéis rosa), são notas de observações em campo.
d. No quarto nível (papéis amarelo vivo e verde) estão ordenadas as respostas dadas no exercício referido, distinguindo-se entre as necessidades de
aumentar ou adicionar (papéis amarelos) alguma coisa e as necessidades de reduzir ou eliminar (papéis verdes).
O último nível (papéis amarelos e azuis pastel) corresponde às respostas dadas por um grupo de comparação com o mesmo número de pessoas, mas uma composição socioeconómica mista (pessoas do mesmo contexto e outras de classe média). Neste caso, os papéis amarelo pastel correspondem às informações dos papéis amarelo vivo e os verdes aos azuis pastel.
Sem entrar em grandes detalhes da análise, mas a título de exemplo do potencial que esta ferramenta começava a revelar, observando as cores e a concentração/dispersão dos papéis coloridos, constata-se que:
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• os respondentes expressam mais necessidades de aumentar ou acrescentar algo, do que de reduzir ou eliminar.
• as necessidades fisiológicas (ou existenciais) e as de segurança (ou ambiente) são as mais significativas para os locais e projeto de intervenção local.
• as respostas, dadas pelo grupo de comparação, apresentam uma maior dispersão por todas as categorias de necessidades.
Figura 14. Arena das Necessidades I: versão-teste
Através destas aferições, concluiu-se que a matriz afigurava mais-valias ao nível analítico, enquanto abordagem integradora e flexível, logo mais rica e expressiva na caracterização de contexto, possibilitando tanto a alternância como a simultaneidade entre os diferentes níveis de informação; e representando graficamente uma visão mais imediata, acessível e manipulável da informação, ao nível da síntese.
Numa segunda implementação da matriz e conforme previsto, os dados recolhidos em campo (exploração etnográfica e entrevistas a agentes de apoio local), juntamente com as informações obtidas em revisão bibliográfica, foram tratados e integrados na matriz. Apesar do emprego dos princípios gerais da matriz descritos anteriormente, os níveis de informação e a codificação cromática foram adaptados a esta situação
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específica, nomeadamente com uma estratificação da informação não só em função das fontes como do distanciamento cronológico (Figura 15).
a. O primeiro nível (papéis turquesa e azul pastel) compreende dados recolhidos entre 1999 e 2002);
b. O segundo nível (papéis amarelo vivo, amarelo pastel e laranja) contêm dados sociodemográficos e outros que se consideraram importantes para a
caracterização da população, que correspondem a 2006, ano de publicação da bibliografia de referência. O amarelo vivo corresponde a informação direta da população, o amarelo pastel a informação fornecida ou produzida por terceiros e o laranja identifica mudanças ou soluções propostas;
c. O último nível (papéis rosa forte, rosa pastel e roxo) representa os dados recolhidos em 2015 durante o trabalho de campo exploratório. O rosa vivo corresponde a informação direta da população (recolhida durante a exploração etnográfica), o rosa pastel a informação recolhida em entrevista aos agentes de apoio local e
d. o roxo identifica mudanças ou soluções propostas.
Através da Figura 15, verificam-se alterações na estrutura e formato da matriz. Quanto à estrutura, decidiu-se que duas subcategorias (‘apoios sociais’ e ‘segurança
alimentar’) ficariam na interseção das necessidades de existência e segurança
(categorias), uma vez que a opção por apenas uma não aparentava conformidade com o conteúdo tratado. E, para que fosse possível acomodar todos os dados nas
categorias e subcategorias correspondentes, algumas secções da matriz foram aumentadas à proporção dos dados inseridos, de modo a permitir a leitura da matriz em função da quantidade de informação.
A leitura da Arena das Necessidades II confirma ou revela, informação relevante para a compreensão do contexto, como:
1. As aspirações de autorrealização não têm representação;
2. Questões relacionadas com a educação (E) são referidas pelos agentes de apoio local (papéis rosa pastel) e omitidas pela população (papéis rosa forte); 3. A segurança alimentar (D) e as interações sociais (H), são as duas
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Figura 15. Arena das Necessidades II: integração de dados obtidos na fase exploratória segundo as categorias (necessidades de Maslow) e subcategorias (A, …, N). A: habitação; B: acesso a cuidados de saúde; C: apoios sociais; D: segurança alimentar; E: educação; F: emprego; G: rendimentos; H: interações sociais; I: comportamentos desviantes; J: questões judiciais; K: macroestratégias; L: expectativas; M: apatia; N: fatalismo.
Para avaliar as contribuições da matriz, foi organizado um grupo focal com três elementos, dois especialistas da área da sociologia e do serviço social, e a
investigadora (moderadora). Esta sessão durou cerca de duas horas e teve a seguinte ordem de trabalhos: (i) apresentação e debate da categorização e subcategorização (Apêndice V) definidas para os dados que resultam do segundo momento do trabalho de campo exploratório, (ii) apresentação da ferramenta através da versão-teste (Figura 14), (iii) simulação de uso da ferramenta com uma matriz limpa e alguns exemplos inseridos na versão ANII e (iv) apresentação da ANII (Figura 15) e debate sobre o potencial da matriz.
A discussão das categorias e subcategorias atribuídas inicialmente, ainda que não tenha desvirtuado o exercício, trouxe alterações consideráveis à estrutura. Como se pode verificar na Figura 16, a fusão das categorias existência e segurança constituiu a alteração mais significativa. As propostas de alterações com maior relevância, estão associadas à subcategoria ‘interações sociais’, na qual estavam englobadas várias informações, desde os laços de pertença, às tensões relacionais e questões étnicas, ao estigma, à parentalidade e à violência doméstica, entre outros. Os participantes
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consideraram que a violência doméstica não deveria estar apenas englobada na categoria de ‘comunidade’, mas também na ‘segurança’, e que as questões étnicas estão associadas à categoria de identidade tanto como de comunidade. Por último, ambos os especialistas consideraram que o estigma devia ser uma subcategoria de identidade (letra O na Figura 16).
Figura 16. Estrutura da matriz segundo as categorias e subcategorias: versão inicial, que corresponde à estrutura da Figura 15 (em cima) e versão final, após discussão em grupo focal (em baixo).
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Perante a versão-teste um dos participantes questionou se a compreensão da matriz devia ser imediata ou se depende de uma explicação. Esta dúvida pode ser
esclarecida de duas formas. A primeira, concerne a necessidade de uma legenda, que apesar de constar no plano da matriz, está demasiado simplificada e não está
integrada na própria matriz. Por outro lado, além da matriz não ter sido projetada para uma leitura imediata, a sua aplicação pode tornar-se complexa com a quantidade de dados e/ou níveis de informação, e por isso, carecendo de uma contextualização. No exercício de simulação (Figura 17), os participantes recorreram à tabela de categorias e subcategorias para tomarem algumas decisões sobre a organização da informação (papéis laranja), mas depressa se observou que a atenção sobre as categorias se diluiu e o diálogo passou a ser a base das decisões. Esta constatação veio reforçar aspetos que já tinham sido discutidos no primeiro ponto da ordem de trabalhos. Embora a teoria de Maslow (1943) tenha estado na génese desta matriz, concluiu-se que as categorias e subcategorias definidas para cada exercício devem ser adaptadas e negociadas pelos intervenientes. A única imposição deste exercício é alcançar uma visão partilhada com base nos conceitos e nas lógicas de organização negociados através do diálogo. Portanto, as categorias e subcategorias constituem orientações e não regras fixas, uma vez que um exercício de categorização elaborado a partir de áreas de conhecimento e experiência diferentes, não assenta em apenas um conjunto de pressupostos teóricos, mas de múltiplos, implicando um constante negoceio e refinamento.
Figura 17. Resultado do exercício de simulação da Arena de Necessidades.
Quando a matriz da Figura 15 é exibida, os participantes já estavam mais
familiarizados com a lógica da matriz e o debate foca-se nos resultados. No exame das concentrações de papéis e vazios da matriz, a moderadora chama a atenção para o facto de que a ‘segurança alimentar’ apresenta um número avultado de informação porque foi propositadamente contemplada no conjunto de perguntas do guião de entrevista aplicado aos agentes de apoio local.
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Entretanto, são levantadas duas questões, uma sobre o impacto da leitura na
compreensão do contexto e outra sobre as possíveis sequências da análise da matriz. No primeiro caso, face ao peso que algumas subcategorias apresentam (que levaram à já referida alteração do formato da matriz), a ‘apatia’ e o ‘fatalismo’ (letras M e N da Figura 16), contrariamente à experiência de um dos especialistas com duas décadas de trabalho com esta população, aparentam ter pouca expressão, e por esta razão, decidiu-se acentuar (+) estas duas subcategorias no esquema final da estrutura da matriz (Figura 16).
“X: Fatalismo e apatia são duas características da cultura da pobreza e que não há mudança por causa disto.” [grupo focal 4, 21 de
dezembro de 2017]
A segunda questão levantada, vem ao encontro do objetivo principal da sessão, no qual se pretende aferir a validade desta ferramenta como instrumento de diagnóstico, logo, como base para tomada de decisões.
“X: As gavetinhas [categorização] são muito boas, para a definição de políticas e até para o meu trabalho… estou no Lagarteiro desde 1997 e tu estás-me a dizer que o grande problema é mesmo a falta
de autorrealização… como é que a gente pode trabalhar isto?” “LF:(…) se há propostas de intervenção, não só de segurança alimentar, mas de uma forma articulada com as interações sociais e com a comunidade… tens que fazer uma intervenção comunitária de
segurança alimentar.
X: Já chegamos aí sem a tua ajuda! [i.e. sem uma explicação oral]” [grupo focal 4, 21 de dezembro de 2017]
Sobre a relevância da ferramenta (matriz preenchida) e do processo (construção da matriz), concluiu-se que a primeira, é relevante enquanto imagem diagnóstica
consensual, isto é, tem relevância na medida em que se apresenta como resultado de um pensamento e ação coletivos e de “saberes disciplinares específicos de cada um sobre uma determinada realidade” [LF, grupo focal 4, 21 de dezembro de 2017]. Neste sentido, trabalhada individualmente, a ferramenta não aparenta assistir com a mesma legitimidade a tomada de decisões, como parece potenciar o resultado conseguido através de um processo participado.
“LF: O processo, no caso de uma equipa interdisciplinar é fundamental, porque é nesse processo que se podem negociar significados das categorias, daquilo que está em causa, entre os
vários profissionais. Mas por outro lado temos o resultado para depois podermos pensar na intervenção.
X: Eu acho que se seguirmos este caminho, esta metodologia, o resultado vai ser outro, vai ser melhor, vai ser mais… rico, mais
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consistente, mais adequado…” [grupo focal 4, 21 de dezembro de 2017]
A materialização e impacto visual da matriz são aspetos cruciais para a mediação do processo e para a leitura dos resultados, que os participantes reconhecem como mais- valias em relação a outras ferramentas e métodos aplicáveis para diagnóstico de caracterização de um contexto. Para poder assegurar a participação de todos, o tempo é também um fator considerado no processo deliberativo que esta matriz exige.
Tempo este que aumenta na proporção direta em que mais pessoas participam nesta construção, mas que poderá ser justificado pelas repercussões que derivem deste processo.