GRAPHICS PROCESSOR OVERVIEW
2.6 DRAWING CONTROL COMMANDS
A etnografia foi a abordagem metodológica considerada mais apropriada para este momento. As sessões de atendimento do X à população acontecem uma vez por semana, nas tardes de terça-feira, e no decorrer das sete semanas que contemplaram o espaço temporal deste estudo, a duração média foi de quatro horas.
Não tendo havido lugar a uma explicação prévia, desconhecia-se o modo como decorriam estas sessões de atendimento. Contudo, foram estabelecidas algumas regras de conduta, que foram sendo afinadas ao longo do tempo. Entre os
procedimentos preestabelecidos estavam: (i) a presença da investigadora depender da autorização dos utentes, para os quais ficou estipulado que esta assumia um papel genérico de colaboradora do X; (ii) as funções da investigadora seriam as de
observadora não-participante, e tomar notas, seria apenas quando considerasse que não estaria a constranger os utentes; (iii) antes da primeira sessão, ficou esclarecido que o assunto "design" e "doutoramento", por se tratarem de conceitos complexos e difíceis de explicar em poucos segundos, seriam evitados de modo que este assunto não tomasse o tempo do atendimento. Estas questões seriam apenas mencionadas em situações nas quais se verificasse um interesse particular do utente pelas funções da investigadora. Contudo, em concordância com Creswell (2013) sobre a mudança do papel do investigador no processo de observação, durante os atendimentos, o X foi assumindo a presença da investigadora perante os seus utentes, incentivando o diálogo.
"Pois a Cecília disse: Chalana, a EA tem uma pinta!" [diário de campo, 31 de Março.2015]
“Não sabe ler!? … se fosse uma velhinha… Cecília, tu conseguias viver sem saber ler?” [diário de campo, 17 de Março.2015]
A primeira sessão foi iniciada com o caderno de apontamentos e lápis guardados na carteira, porque não havia confiança para tomar notas enquanto as pessoas falavam. Acabou por se decidir assumir o caderno e as anotações, não só por se verificar que a quantidade de informação que cada atendimento gerava iria ser perdida se não fosse registada, mas também porque à medida que os atendimentos decorriam ficou claro
51
que os utentes estavam razoavelmente à vontade com a presença da investigadora49. Dada a exiguidade da sala onde decorria o atendimento (cerca de nove metros quadrados onde chegaram a estar oito pessoas)50, algumas táticas foram sendo desenvolvidas para salvaguardar os utentes de constrangimentos quanto à presença de um estranho e ao registo de notas. A discrição no registo foi cultivada, esperando o momento imediatamente seguinte a uma informação/observação considerada
importante, ou tirando notas de forma contínua, por vezes completando raciocínios anteriores que não tinha conseguido completar. Em determinadas alturas, percebeu-se que era tempo de parar de anotar e que era importante olhar para as pessoas, cruzar o olhar com o delas para estabelecer uma sensação de ‘conforto empático’.
Recorrendo a essas anotações in loco e à memória da observadora, o diário de campo I, enquanto interface de registo das observações decorridas no bairro, seguiu largamente as orientações metodológicas de Fernandes (2002), nomeadamente com a definição de categorias de informação distintas, que este chama de “modalidades narrativas” e o estabelecimento de uma rotina de escrita quase imediata aos acontecimentos vividos e observados.
O diário de campo I foi-se construindo em volta de cinco “modalidades narrativas” (Fernandes, 2002). Contudo a configuração deste diário varia em relação à proposta pelo etnógrafo Luís Fernandes, uma vez que neste caso as modalidades coabitam na mesma folha, intercalando a modalidade do desenho com as restantes, textuais, diferenciadas através do uso da cor. As quatro modalidades textuais representavam a descrição dos acontecimentos do dia anterior, a relação com assuntos do
conhecimento da observadora decorrentes de outras situações ou conversas, as reflexões metodológicas e/ou estratégicas e os “comentários impressivos” (Fernandes, 2002).
O desenho, que acabou por se tornar numa ferramenta valiosa de reconstituição de cenas e de reflexão, surgiu de forma espontânea pela necessidade de representar o recorte do estudo (a sala de atendimento) e como alternativa às implicações éticas da fotografia. Contudo, foram poucas as vezes em que o uso do desenho aconteceu em tempo real. Foi nos momentos pós-observação que se foi descobrindo que o exercício de desenho ajudava na “rememoração dos factos” (Fernandes, 2002) (Figura 12), mas também a perceber detalhes que, através da escrita, seriam provavelmente ignorados. Sem uma predefinição de um quadro de análise, a observação foi inicialmente
abrangente, e só através dos processos de reflexão desencadeados após cada período de observação é que se começaram a planear observações focadas,
49 Devem estar habituados a ter pessoas a assistir, porque nenhum utente se opôs à presença da investigadora nas sessões presenciadas.
50 No 1º andar de um dos prédios do BL, um apartamento foi convertido em gabinete de atendimento. A sala de estar é a sala de espera com serventia pública da casa de banho e um dos quartos é a sala de atendimento do X.
52
completando o conjunto de categorias de análise em função das necessidades de pesquisa (Apêndice I).
Figura 12. Registo visual dos atendimentos do X no gabinete do bairro.
O informante privilegiado, outro dos componentes característicos da etnografia, foi uma função essencialmente protagonizada pelo X, que se tornou num colaborador da investigação e um ‘colega crítico’ (Gray, 2013), com o qual se desenrolaram diversas discussões. Como Whyte (2005) fez com ‘Doc’, com o X debateu-se a estratégia de entrada em campo e postura da investigadora, as categorias de análise desta fase de trabalhos e os resultados atingidos.
No processo de análise de conteúdo, as categorias definidas reverteram para objetivos distintos da investigação. As dificuldades e/ou necessidades que justificaram a vinda dos utentes ao gabinete do técnico superior de serviço social, contribuíram para a definição da área temática sobre a qual o projeto de investigação se concentraria. Além disso, esta informação constituiu uma das componentes da triangulação aplicada para a caracterização do contexto, complementada com a perspetiva dos agentes externos (informação obtida em entrevista) e a análise documental (relatórios de
53
projetos de intervenção local e trabalhos de investigação). Este exercício de análise foi reforçado com a aplicação da Arena das Necessidades (AN).
As restantes categorias emergiram da proximidade do ato de observar, que permitiu aclarar que os habitantes do bairro experienciam diferentes formas de tensão
relacional, e delinear uma espécie de diagnóstico sobre o ‘sentido de comunidade’. A última categoria, estratégias comunicacionais e de gestão emocional, é consequência pura da análise do conteúdo do diário de campo, que se decidiu considerar como mais uma ferramenta para o trabalho empírico que se seguia (Apêndice II).