GRAPHICS PROCESSOR OVERVIEW
2.10 COMMAND DESCRIPTIONS
2.10.10 DEF _CHAR_SET -Define Character Set
O gráfico apresentado na Figura 19 sintetiza a intensidade de ocorrências em cada categoria e subcategoria da versão da Arena das Necessidades que integra os dados do segundo momento da fase exploratória. Como já foi referido, a questão específica nas entrevistas aos agentes de apoio local sobre segurança alimentar e gestão de orçamento familiar justifica o registo pronunciado de respostas na subcategoria ‘segurança alimentar’, mas também as ‘interações sociais’ verificam a segunda maior intensidade de ocorrências, o que acentua a relevância de se pensar uma intervenção que visa promover a mobilização coletiva e participativa.
Tendo em conta o que já foi relatado na caracterização do bairro do Lagarteiro, a participação tem sido assimilada como uma experiência impossível ou frustrante para os seus habitantes. Primeiro, porque os moradores não foram envolvidos ou
consultados sobre o seu próprio processo de alojamento (J. A. Pinto, 2007), e quando foram consultados em 2006, as suas necessidades não foram atendidas e o “limite técnico de vida” dos interiores das suas casas, que não se resolve com uma obra de pintura52, foi ultrapassado. Noutros âmbitos e escalas de iniciativas de participação, as frustrações ultrapassam os poucos casos em que alguém reconhece os benefícios dessa participação. As frustrações surgem pela acumulação de expectativas na participação em projetos que não revertem em resultados tangíveis ou pelos conflitos que surgem de tentativas falhadas de organização social através de mecanismos de liderança (do qual foi exemplo a Associação de Moradores recentemente extinguida). As dificuldades de organização social em contextos de pobreza não são novidade mas
52 “Será dado um desconto de 70% em alguns materiais de forma a que as pessoas possam elas próprias pintar as suas casas. Passam a ter um pouco de si na construção e logo um maior respeito pelo que é seu” (Rui Rio in Mendes, S. “Porto: Obras de requalificação do bairro do Lagarteiro vão custar 11 milhões de euros”, JPN, Maio 2008).
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uma recorrência que é conivente com o comodismo e a desafeição por uma cidadania ativa que resultam de forças estruturais que esta população, sem capital escolar ou reivindicativo, não consegue combater no papel de “agente do seu próprio
desenvolvimento (J. A. Pinto, 2007)”.
Perante estes desafios de organização social e de expectativas goradas sobre a participação, pareceu apropriado um afastamento das questões de liderança ou representatividade na constituição de um grupo inicial de participantes. Partindo das palavras de Sanders (2002) sobre qualquer pessoa poder contribuir para o processo de design desde que disponibilizadas as ferramentas adequadas, pretende-se explorar o pressuposto paralelo de que qualquer pessoa pode contribuir para o
desenvolvimento da sua comunidade, e que o debate será mais positivo na mesma proporção da diversidade de perspetivas envolvidas e da transparência com que cada um assume a sua agenda individual.
Não obstante, considerou-se necessária a definição de um conjunto de critérios de elegibilidade para a formação de um grupo primário de participantes: serem do sexo feminino (salvaguardando incidentes devido a ciúmes entre casais que aparenta ser frequente no bairro), residir no bairro ou nas imediações (uma vez que as pessoas que se foram conhecendo que vivem nas imediações do bairro, aguardam atribuição de casa no bairro), com quem já tivesse sido estabelecido contacto prévio (para poupar tempo necessário para estabelecer uma relação de empatia) e em número máximo de dez pessoas (por razões de exequibilidade)).
Se a carência de referências positivas devido ao afastamento instituído pelas estratégias e políticas de alojamento social, ou pela deficiente rede de mobilidade física que não compensa esse afastamento e fechamento das famílias consideradas estáveis à vida social do bairro, o sentido de comunidade que se pode traçar no Lagarteiro é sustentado pela partilha de uma identidade estigmatizada e de uma “cultura da pobreza” (Lewis, 1971; J. A. Pinto, 2007) que se repete ao longo de ciclos geracionais. O estigma que o bairro comporta e o fechamento de elementos a este coletivo demonstram que a coexistência geográfica gera identidade e rede, que urge estimular para alternativas mais positivas.
Em virtude das frustrações acumuladas nos quotidianos de sobrevivência, da escassez de referências positivas e de escolarização que orientem aspirações de mobilidade social, a comunidade resiste a ações externas e a propostas de mudança. Um futuro investimento neste contexto tem que se constituir de dentro para fora, de um indivíduo ou grupo de indivíduos da e para a comunidade, começando por “atentar ao que os excluídos pensam de si próprios (J. A. Pinto, 2007: 195)”, fazendo da sua visão de si e dos seus problemas o ponto de partida para o desenho de uma
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Figura 19. Em cima, gráfico que sintetiza a intensidade de ocorrências entre cada categoria e subcategoria de análise apresentadas na matriz da Figura 15, segundo o período e tipologia dos dados (azul, bibliografia entre 1999 e 2002; amarelo, bibliografia de 2006; e magenta, exploração etnográfica e entrevistas em 2015). Em baixo, imagem parcial da Arena das Necessidades.
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A narrativa inspira ser um suporte adequado para o encadeamento de diversos universos quotidianos e a visualidade, a “linguagem pública” (Illich, 1973a) que se aspira, construída no mesmo sentido, de dentro para fora, isto é, do indivíduo como narrador e materializador de história.
As lições sobre estratégias de gestão emocional, assimiladas durante o acompanhamento feito ao X no bairro, constituem um recurso valioso para as competências de relacionamento interpessoal e imprescindível num contexto tão estigmatizado, funcionando como uma espécie de barómetro que permite reconhecer as circunstâncias para avançar ou bater em retirada no plano de investigação, ou identificar oportunidades inesperadas para concretizar. Estas ponderações sobre a investigação são tão relevantes como suspender a mesma para participar em aspetos da vida dos participantes, às vezes criados pela necessidade, outras para simples consolidação de laços de confiança e sociabilidade.
Através do conhecimento mais aprofundado do contexto e das circunstâncias de participação que se antecipava da população, foi possível refinar objetivos e plano de ação, que cada vez mais se distanciam de uma evolução precipitada para projeto (e.g. de produto ou de serviço), baseada numa apreensão superficial das particularidades, necessidades e expectativas da população. Mediante esta reflexão situada e
aproveitando o momentum do design, neste arranque da investigação-ação considera- se justificado o foco em aspetos infraestruturais para a participação num contexto marginalizado e descapitalizado. Destes aspetos destaca-se o princípio do “aprender fazendo”, que resgata componentes do movimento ‘do it yourself’ e o conceito de “objeto-fronteira” enquanto estratégia de ligação entre diferentes perspetivas.
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3. DA PRÁTICA À TEORIA
Precedendo a descrição mais densa sobre os trabalhos ocorridos no período
interventivo e com o intuito de facilitar a compreensão sequencial desta investigação- ação, foi elaborado um cronograma (Figura 20, em cima) posteriormente decomposto numa síntese gráfica do encadeamento metodológico apresentada na Figura 20 (em baixo) que complementam a sinopse dos ciclos de investigação-ação da página 73.
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